Introductio      Confessio
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CONFESSIO 

Tudo o que sou incapaz de esconder

 

 



- SALMO IV

 

Eu sei que nesta hora muitos, milhares, Te dirigem palavras e preces, sorrisos e lágrimas. Reproduzem e balbuciam as mesmas orações que hoje eu Te apresento. Eu sei que, dentre estes milhares, alguns serão ouvidos, outros não. Eu sei o meu lugar. Eu sei que nada do que foi criado foi pensando em mim. Estas coisas não foram feitas para mim. Dentro de Tua casa não estou entre os que possuem sangue puro. O meu patriarca não tinha grande fé... nenhum parente que tenha realizado qualquer grande feito, experimentado algum milagre. Neste rumo me encontro só. Em Teu palácio eu não possuo residência fixa, em Teu coração não sou dos filhos que Te agradam... não sou daqueles que alcançam favor aos Teus olhos. De tudo o que Teus filhos possuem nada é meu, não tenho direito sobre coisa alguma. Eu me cheguei como quem força aceitação. Passo a passo eu invadi Tuas conversas, atravessei os Teus diálogos... queria me fazer notar, queria chamar Tua atenção. Mas, afinal, o que há em mim que Te cause qualquer espanto? Nada em mim é atrativo, não há beleza, não há paixão. Eu sou comum, simples, a mesma coisa. Eu tenho em mim mais falhas que virtudes, mais motivos para que Tu me evites, do que me ames... sou apenas um saco de muitas coisas que detestas. Quando me encaro no espelho penso que meus olhos são Teus olhos, penso que Tu me vês pelo reflexo, então, me questiono. O que em mim Te causaria alegria? O que tenho que posso eu Te oferecer? Vejo alguns cabelos brancos, algumas manchas na pele... sinais que me dizem apenas o quanto lutei e sofri. Vejo a idade, as rugas, a imperfeição nos dentes, os braços magros, a juventude que me deixa... sinais de que já não tenho forças para Te servir. E, assim, eu tenho maior convicção de que nada represento em Tua casa. Em Teu palácio de muitas moradas, talvez meu quarto - se é que exista algum para mim - esteja na região da cozinha, seja uma dependência doméstica, ou aqueles cômodos separados, afastados da casa real, no qual os vassalos se escondem. Não importa. Estas ilustrações representam apenas minha importância em Tua descendência, minha colocação ao lado daqueles que realmente viveram para Ti, que Tu escolhestes e que, diante dos anos, passem tantos e todos quantos forem, sempre serão lembrados por provocarem em Ti uma reação que Te concedeu, para eles, uma feição mais nítida de Pai. Quanto a mim, não deves Te preocupar, pois, se em Tua casa tal cômodo houver, separado para mim, ainda que seja dentro de um estábulo, se estiver dentro da Tua propriedade, já me será o suficiente. É que me apeguei a Ti. Nem sempre eu ouvi a Tua voz, mas, prestei atenção quando falavas com Teus filhos e Te desejei por Pai. Nem sempre eu vi Tua mão, mas, observei quando apoiavas as lutas de Teus filhos e, por isso, me envolvi em uma série de batalhas apenas para ver se Tua mão viria ao meu encontro, também. Acho que tive ciúmes. É que Te vi um Pai tão dedicado que me dediquei da mesma forma para com meu filho, a fim de causar nele a impressão de Pai que causastes em mim. É que vi como amavas Teus filhos que achei que tanto amor assim me alcançaria, também. Eu sei que não me enganei. O Teu silêncio comigo é apenas a Tua avaliação do filho que sou. Eu sei que o melhor é para Teus filhos legítimo. Aqueles que nasceram da Tua vontade de Ser Pai. Eu - assim como os demais - estou entre aqueles que viram em Ti o Pai que sempre quis ter... me encontro entre os que aprenderam a Te admirar e, pouco a pouco, Te amar, não por nada do que possas dar ou fazer, mas, por tudo o que És... Tu mereces ser amado por todos, mesmo pelos que não se encontram nos limites do Teu coração. Eu sei que nem sempre quando eu gritar "Pai", Tu virás me socorrer. Quando em minhas aflições eu dirijo a Ti minhas súplicas de socorro, eu não estou necessariamente pedindo que venhas. Não. Eu estou apenas conduzindo aquele momento de dor à uma lembrança que me fará superar qualquer tormenta: VOCÊ. Eu sou ciente de que não mereço o Teu favor. Quero apenas fazer meu corpo lembrar do quão maravilhoso És, e de como esta lembrança é capaz de me fazer superar, de produzir em mim algo melhor do que aquilo que sou. É como sou, é como creio. Eu quis me fazer teu filho sem saber se Tu querias Ser meu Pai. Por esta razão aqui estou, e pela mesma razão És forçado a ouvir minhas preces, também. Acaso nestas venturas dos tempos - entre estes sete bilhões que somos - Tu passes por mim, por favor, esbarra em mim, me olha nos olhos, me dá um sorriso... faz um gesto para que eu carregue comigo até o dia em que não precisar mais lembrar... até o dia de, enfim, Te ver. Enquanto isso, suporta ouvir destes lábios impuros a frase que todos os dias repito: Pai, Papai, só tenho a Ti, e Te amo tanto...


JANSEY


- SALMO III


Eu tenho orado. A minha voz tem se levantado em Tua direção. Os meus olhos Te perseguem. Quero achar-Te. Quero ter-Te... queima um desejo incansável de que algo entre nós aconteça antes que meus olhos se fechem neste plano de pó e choro. Os anos se passam e o brilho já se perde. Tenho lutado contra tudo, mas, o tempo eu não consigo vencer. E cada ano que morre não é para que outro nasça, mas, é apenas um badalo nos ouvidos me avisando que, dia-a-dia, cada vez mais me aproximo do fim. E hoje minha alma questiona: isso é tudo? É apenas isso que Tu sonhastes para mim? É esta toda a Tua vontade? Esta carne que sou é capaz de se impor entre nós? Eu não posso acreditar, me recuso a crer que é apenas isso. Tantos sonhos se perderam e tantas vidas ainda não sabem daquilo que Tu me destes. E eu me agito nesta cadeira. Os meus olhos marejam, meus dedos se perdem... Eu esqueço o que tinha a dizer. Tudo o que me vem é apenas tristeza e soluço, refugo de um pranto diário, de olhos que não deixam de se alvoroçar. Um desejo no peito de viver plenamente, viver, viver e viver o que És, o que Tens, os Teus projetos. Um desejo de me desembaraçar desta vida, deste mundo... um desejo que me agoniza, que me faz ser apenas meio e nunca inteiro. É assim, tem sido assim, de tal modo que eu não quero mais viver assim. Eu não quero mais viver Contigo sem que este viver seja pleno e completo. Eu não mais me conformo com minhas fraquezas e não mais tolero tantos empecilhos entre nós dois. Tenho Te buscado de tal forma que se não me Atendes não é mais porque deixei de falar-Te. Eu tenho falado. Em todo tempo eu tenho buscado uma direção, uma libertação, um livramento de tudo isto que eu sou, de toda guerra que vivo. Será que este corpo morto pode se opor entre nós? Será que nada Podes fazer para me atrair para mais perto de tudo o que És? Eu não quero mais ser assim. Eu não quero mais ser algo que não Te agrada, que não Te conquista. Um de bilhões que aos Teus olhos não causam nenhum encanto... eu não quero mais. Inexiste qualquer sentido em viver assim. Eu não quero Te encontrar em alguns dias, eu quero em todos. Eu não quero que Sejas uma realidade latente, um curandeiro, um milagreiro, Alguém que só Se manifesta ou a Quem só procuro quando as marés de adversidades se levantam. Ouve-me, atende-me, alcança-me, antes que tudo o que sou se torne apenas areia. Restaura-me a vista se for a minha cegueira que nos separa. Restaura-me as forças se for a minha debilidade que nos afasta. Restaura-me o entendimento se for a minha mediocridade que não discerne o Teu querer. Estende a Tua mão se forem as minhas mãos que tateiam no escuro e não Te encontram. A mente se prende ao que é idéia e eu meu coração se prende ao que És. Cativa o meu entendimento ao que meu coração procura, que És Tu, pois, sem Ti eu apenas respiro, eu apenas caminho, eu apenas trabalho... sou algo sem qualquer profusão de alegria. Te quero... Vem!


JANSEY


- SALMO II


Todos os dias eu bato em Tua porta, importuno os Teus ouvidos. Trago sempre as mesmas preces, os mesmos pedidos. Já há algum tempo que não me respondes. Eu confesso minhas culpas, eu choro, pranteio... algumas vezes lágrimas que só se enxergam com um raio-x na alma. Soluço em Teu altar minhas mazelas, minhas derrotas. Tento ser forte. Questiono-me... não entendo o que há de tão macabro em mim para que me Resistas. Procuro, sondo, pesquiso minha alma. Peço perdão e me perdôo... há quem diga que o mais difícil é perdoar-se. Em meu íntimo sei que não sou melhor, mas, também, sei que não sou pior. É que nessa escala de filhos a gente só se compara aos mais próximos, todavia, entre os piores todos são iguais. Eu penso em Abraão, em Moisés... entendo que não sou, não serei e nem fui igual a eles. Isto me faz indagar sobre Tuas escolhas. Amar é uma questão de gosto. Tu Tens todo o direito de amar a quem bem Queiras. Assim, sou levado a pensar que não me Ouves porque nada sou aos Teus Santos olhos. Então, murmuro. De uma forma ou de outra apresento minhas queixas. Algumas vezes de pé... a maioria ao volante... quase sempre deitado. Quando a angústia é grande, então, cheiro a terra. É como uma maneira de dizer com os gestos que nada sou, que nada tenho, que tudo é Teu. Por maior que seja a dor, ainda assim, não recebo socorro. É difícil este tal de milagre. Palpejo, lamento, debulho... mendigo os meus pensamentos para saber se ainda me resta esperança. E comumente repito que já nada me resta, nem a fé, nem a espera, porém, escrever estas palavras e ainda balbuciar-Te minhas rinhas... perseguir-Te em reuniões, em igrejas, em cultos, desejar Tua voz... tudo é sinal de que o pouco que ainda tenho não me abandona. E me confesso tantas vezes de fatos que ainda sequer pratiquei. Repudio minhas inclinações, enojo-me de mim mesmo, acuso-me... em desespero acredito que se assim o fizer, talvez, me Queiras mais. Quando, de súbito, a mente desperta, racionalizo que isto não é questão de gostar ou amar, mas, de ser fiel, útil e humilde. Afinal, por que me Amarias? O que há de bom em mim? Procuro, então, semear algo de bom em minhas mãos, frutos de fidelidade, utilidade, humildade. Policio minha alma para que nada nela Te ofenda, mas, quando a razão me agasalha novamente, compreendo que isso não é assunto de força ou vontade... é simples domínio de posse: ou pertenço a Ti, ou pertenço a mim. Logo, me dou, lanço-me, atiro-me, desejo-Te. Quero esvair-me, abominar-me. Canto, exalto, adoro... silêncio, e não Vens. Entendo que tudo é razão de escolha e me acho excluído. Redijo algumas estrofes. Sempre me expressei melhor escrevendo. Já que não ouves, quem sabe não Leias? Computador no colo, pernas cruzadas, vejo meus pés. Queria que estes grilhões me deixassem... driblar esta intrigante gravidade e alcançar Tuas moradas. Ir, já que não Vens. Dizer-Te tudo isto, olhos nos olhos, face a face. Findar esta conversa Te dizendo que mesmo sem os milagres dos quais tanto preciso, ainda Te amo. Ainda que não me Queiras, que não tenha eu sido escolhido, que eu não esteja entre os Teus convidados... eu Te amo. Pois, esta foi minha escolha: amar-Te. Acaso tenha eu, no decurso de minha vida, feito alguma escolha fora dos Teus desígnios, esta escolha foi amar-Te. És o renascimento de minha fé, a fênix de minha esperança. Cada vez que me lamurio em Teu altar, mesmo que não me achegue qualquer resposta, sempre eu saio mais leve. É, assim, que eu sei que me Escutas. E é, por isso, que eu continuo falando. Tu És a minha escolha de vida. Eu sei que sararás minhas feridas, que limparás as minhas vestes, que enxugarás o meu pranto. Eu sei que o meu milagre virá, quando dele eu mais precisar, quando de mim nada puder ser feito. E, enquanto isso, eu fecho meus lábios todos os dias em desgosto, para abri-los em novo murmúrio a cada alvorecer. Permaneço assim, esperando o dia em que fecharei os lábios em largo sorriso para abri-los risonhos nos dias vindouros... se sou ou não sou o melhor... se sou o pior dentre os piores... se os Teus olhos, hoje, não querem me achar... se eu não fui gerado das Tuas entranhas... se me abandonas, se me desprezas, se me deixas atravessar os meus vales sozinho... os meus lábios só conseguem Te chamar de PAI. Ainda que eu me sinta entre os mais rejeitados da Tua prole, não consigo abandonar o desejo de que me reconheças como Teu filho legítimo. Quando os olhos de meu filho se enchem de lágrimas, o meu ventre se agita. Arde em mim o desejo de sofrer em minha carne o que o faz chorar. Quando ele me pede algo, ciente de que é para o bem dele, jamais consigo lhe dizer um não. Eu... que sou mal. O que não se passará em Teu coração quando chorumelo? Eu creio, meu Pai, que ainda não me atendestes porque Sabes que, se o Fizeres, ainda não será para o meu bem... pois, se És PAI, deveras que não Te alegras com os meus tormentos... decerto que Vens, galopando, ao meu encontro... nem as nuvens, nem as estrelas, nem as criaturas impedirão o nosso encontro... Tu apagarás os meus pecados, ocultarás atrás de Tua pureza as chagas que, ferido e perdido, abri. O que há de tão forte que poderia nos afastar? Que mal poderia fazer com que Tu resistisses a um filho que Te pede socorro?


JANSEY


- SALMO


Quantas lágrimas são necessárias para afogar os céus? Quantas preces devem ser feitas para sermos ouvidos? O que importa aos Teus ouvidos? Seria a forma com a qual colocamos as palavras? O modo com o qual elevamos nossas vozes? Seria a maneira de nos ajoelharmos? O temor no coração? A fé que demonstramos? De fato, temos muitas garantias que Escutas nossas preces (Salmos 86:6; 102:17; Provérbios 15:29), mas, as respostas sempre nos alcançam tardiamente. É impossível decifrar se isto é um propósito. É impossível decifrar se é para nos aumentar a fé. Isto não é queixa, não é murmúrio... é desespero. É que quando a alma se estilhaça fica em cacos finos, difíceis de remontá-la. É puro desespero. Já passamos da idade de questionar o sofrimento. Entendemos que o sofrimento é fruto de nosso pecado, de nossa autodeteriorização. Não é do sofrimento que nos queixamos, é do tempo que leva até a dor passar. Não é do barulho que nos queixamos, é do silêncio que fazes diante de nossas orações. Não é de orar que nos queixamos, é de não recebermos respostas com a mesma frequência com a qual oramos. Isto é difícil. Não é que questionemos a Tua existência, e sim o resultado de nossas orações. Já passamos da idade de questionar Tua existência. Bem sabemos que És. Hoje apenas questionamos se queres fazer algo por nós, se queres atender nossas humildes preces. Isto é tão diferente, meu Deus. O coração do homem se torna insensível diante do silêncio. A mente se acomoda quando a situação persiste. Em algum momento a dor desaparece... ou se torna tão presente que não mais a sentimos ou a ignoramos. Mas, parece que faz parte de Teus planos (Lucas 18:3-8) que seja assim, mas, não deixa de magoar. Buscamos ao Senhor não como último recurso, mas, como único recurso. O Senhor não É para nós uma fada, um duende... É TUDO O QUE TEMOS E TUDO O QUE QUEREMOS TER. Nosso único e amado Deus. É por isso que oramos. Não oramos apenas para alcançar um objetivo. Oramos ao Senhor porque sabemos que És o único capaz de realizar o que oramos. Reconhecemos em Ti não apenas Aquele que opera, mas, Aquele a Quem tudo obedece. Até mesmo as mais ínfimas partículas. Até mesmo nossos sonhos pueris. Contudo, é tudo tão difícil que nós que nos arrastamos nesta terra acreditamos que alcançar um milagre é outro milagre. E não deveria ser assim (Lucas 18:8a). Depressa... mas, também sabemos que o Teu relógio marca o tempo diferentemente do nosso (II Pedro 3:8). Queremos tudo ao nosso tempo, mas, Tu fazes tudo ao Teu. É um impasse porque a nossa urgência não é urgente para Ti (João 11:21). Para as irmãs de Lázaro alcançá-lo doente era uma urgência, pois, decerto poderias curá-lo. Todavia, o alcançastes morto, mas, ainda a tempo da manifestação do Teu poder. O que dizer, então? Seguimos o salmista e esperamos (Salmos 40:1)? Esta não é a questão. A questão é que quanto mais permaneces em silêncio, mais subentendemos que não somos queridos aos Teus olhos. Este é o dilema. A tua tardia (II Pedro 3:9) reflete em nós agonia. Debatemo-nos em busca de um socorro. Tu És nosso único socorro. Não permanece em silêncio. Sei que não é a primeira vez que Te oram assim (Salmos 13:1). Eu só quero alcançar aquilo que sempre foi meu. Aquilo que me prometestes e que não pode ser roubado (Marcos 13:31).

 

JANSEY

- SALMO DO ANSEIO
 
Levanto a voz como quem procura uma resposta imediata. Os olhos vagueiam no céu. Será que em alguma nuvem Te escondes? Até quando minhas preces serão rejeitadas? O que resta fazer quando por todos os caminhos não encontro resposta? Eu Te anseio, mas, minhas noites são longas e vazias. Sirvo apenas para que os que me odeiam me escarneçam. Então, levanto os olhos altivos e com voz de alarido Te provoco. Esforço vão e tolo para chamar Tua atenção. O quero não é contender, é repousar. Descansar a cabeça em Teu colo e encontrar consolo. Arrastar várias noites de alegria para compensar as várias noites de tristeza. Passar a agradecer ao invés de murmurar. Olhar para Ti com os olhos de filho, chamar-Te de Pai. Alcança-me e eu serei Teu. Sussurra e meu coração Te ouvirá. Estou ao Teu aguardo todos os dias. És para mim toda riqueza. Passeio, me divirto, prendo-me a sonhos frágeis... são meios que utilizo para suportar a Tua ausência. Contudo, basta recostar a cabeça na cama e sentir o vazio de Tua ausência, a escassez de meus dias. É como água que não sacia, alimento que não alimenta, prazer que não se consuma. Contudo, se me olhares eu te acharei. Basta me notares e sentirei novamente Tua presença. Eu Te anseio. És tudo para mim. Senhor, não me deixes a esperar incessantemente. Vem, me alegra e preenche o vazio que possui o Teu tamanho.
 
JANSEY

- LÁGRIMAS
 
Um dia as lágrimas acabam. Pensei que seria hoje, mas, sempre que penso que acabou, algumas lágrimas quentes ainda escorrem rosto abaixo. É sempre assim, e agradeço a Deus quando não me faltam, também, as palavras. A letra é um escape da alma. Enquanto ainda é possível transmutar as emoções em parágrafos, é possível respirar uns dias mais... porque há dias que acordamos tão vazios que nem o desejo de respirar encontramos. Quando os primeiros raios de sol nos forçam a deixar a cama, tudo o que ansiamos é que não nos fosse mais obrigado a levantar. A carne treme diante da nova batalha e na maioria dos dias a vida não é outra coisa senão um campo cruel de guerrilha. Olhamos para o céu na esperança de que nossas orações sejam ouvidas e que algo inesperado aconteça. E enquanto o carro segue automaticamente o seu destino, nos apercebemos que se trata de mais um dia comum... nada acontece. Nestes dias apenas a esperança alimenta a esperança. Essa autofagia que é existir. Alimentamo-nos de nós mesmos na vontade de que a alma se recomponha. Pensamos que de onde nos encontramos não há nada mais abaixo. Os pés já encostaram o solo frio que repousa no fundo deste poço. Sorrir não é alegria, é desespero. Um desespero tão desesperado que nos absorve, de tal modo que a tristeza não consegue chorar e a única coisa que define o nosso estado é solidão. Essa solidão que passa a representar nossa perdição, nossas angústias, a morte em si... os vários papéis que o abandono interpreta. Ninguém nos entende, nada sacia a nossa sede. A fé é a única porta que, também, é para si uma janela. A fé que crê naquilo que as circunstâncias negam, fé que suga forças da fraqueza, se alimenta dos ossos, e dá sentido às nossas lágrimas. De repente, então, as lágrimas se tornam o hidratante da face. Os olhos lavados nos ensinam a ver mais distante, além da poeira que conturbava o discernimento. Podemos ver com clareza que esta vida não tem nada além do que já temos recebido, mas, que é o suficiente para andarmos e nos revoltarmos a partir de onde estamos e para além do que enxergamos. Um salto que se lança sobre o nada. Um pulo sobre aquilo que não é chão. Onde os pés vão pisar pouco importa, o que importa é que voltamos a andar. Enquanto houver sobre o que pisarmos, caminharemos. As cicatrizes dos pés, amanhã, contarão as histórias. E quando não houver mais pés e nem pernas, a alma rastejará até alcançar o objetivo, beijar o inatingível. É que quando não há sobre o que pisar, nos tornamos o chão dos que amamos. Um caminho para seguirem. Nossas costas se tornam o amparo e assim descansamos, sabendo que o esqueleto, enfim, serviu ao menos para amparar o coração.
 
JANSEY

- COMO AS COISAS SÃO
 
Você se esforça para ser aquilo que nunca foi, buscando uma conquista, uma realização. Olha a vida como um velocista, tudo é rápido, ligeiro e, quando menos espera, passou. As pregas se achegaram mais rápido que a felicidade. E você continua, esperando que a areia do tempo conserte o teu coração, endireite a tua jornada. Tudo se torna tão frágil, tão fulgaz. O brilho começa a ofuscar-se, repentinamente o colorido se torna preto e branco. No fim a vida é um conto dantesco. As preces ecoam para que nunca seja tarde demais. Ora, não é Este quem Deus É? Aquele que torna o tempo um mero acaso. Oramos por acreditarmos que nenhuma reza é tardia, que nenhum pedido é perdido, que nenhuma causa é morta. Oramos para sermos ouvidos por um Deus ao qual nunca é tarde demais. E o que seria dEle sem Suas criaturas, afinal, não fomos criados para o louvor de Sua glória? Ele nos fez para nos ouvir. Esta trama tem por inimiga a solidão. E tantas vezes queremos acordar em algum lugar do passado que recentemente descobrimos que era melhor que o nosso presente. Um desejo de que tudo não passasse de vidência. É que a vida, as vezes, nos faz abraçar roseiras. E mesmo feridos, caminhamos. A idade não nos deixa apreciar. Tudo tem de ser para ontem. Talvez, por isso, nos lembremos com saudosismo do passado. Ah, se nossas preces voltassem o tempo! Algumas coisas queríamos deixar, e outras levar, e tantas perder. A única certeza é que o coração deseja apenas o que é sorriso. Pena que precisamos chorar. É que sem a lágrima não podemos limpar a vista. O pranto faz bem ao coração, dizia Salomão (Eclesiastes 7:3). Quem sabe por nos fazer pensar? O certo é que apenas o riso maltrata os lábios e nem tudo na vida é belo. É preciso abraçar algumas roseiras para admirar seus tons escarlates. É preciso chorar o parto para apreciar o nascido. É como as coisas são e tudo o que podemos fazer é desejar, fazer votos e expressar o ânimo. A confiança mais firme é que as coisas só terminam quando a hora é chegada. Enquanto não, lutamos o amor, abraçamos as vicissitudes, rompemos obstáculos. E um dia - quem dera - algo inesperado brota. Bom, certo e direto, assim como é todo milagre: algo que ocorre quando já não mais restava esperança.
 
JANSEY

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