Introductio      Fide
Imprimir esta páginaAcrescentar aos Favoritos

FIDE
Algo daqui, dali, d'além
 
 


AS LIÇÕES DA VIDA

 

 

Passou depressa. De repente e, assim, tudo mudou. Não é mais a vida que procuramos, não é mais a estrada que percorremos, nada é o que queríamos ter. Mas, a vida é desta forma mesmo. Confúcio já dizia que é um rio do qual não se pode mudar o seu curso. Quer queira, quer não, trabalhamos direta e indiretamente para termos e sermos o que somos hoje. Alguns de nós quando olha para o passado vêem arrependimento e mágoa. Outros vêem no passado tudo o que nos trouxe até aqui. Não seríamos o que somos se não tivéssemos vivido o que vivemos.

É fato que algumas lições foram mais assimiladas que outras. É fato, também, que algumas lições foram ministradas de maneira tão árdua que nos fez reavaliarmos todos os nossos conceitos. Algumas coisas mudaram de maneira tal e tamanha que não podemos mais mensurar se nos tornamos pessoas melhores ou piores, apenas continuamos vivos. Com a trajetória que vivemos começamos a entender que tudo o que o dinheiro pode comprar não preenche o vazio de nossa própria existência. Então, perguntamos, por que existimos? Era isso o que Deus tinha para mim? Que relevância tem a minha vida?

O que nos torna tão egoístas é a ausência de propósito. Adotamos uma autopreservação selvática porque não entendemos o propósito de nossas existências. Por isso, nos envolvemos em diversas atividades, abraçamos causas alheias, nos ocupamos com currículos, cursos ou enriquecer, que é o que ocorre com a maioria. Contudo, se o que fizermos for ausente de compaixão, não nos preencherá. A compaixão é o que dignifica as nossas ações, porém, não é possível praticar compaixão fora de nossas casas enquanto a nossa própria família sente a nossa falta. Além dos problemas de exercer o bem ao próximo estranho, há o problema de não exercê-lo em nosso ceio familiar. O apóstolo Paulo tem frases muito fortes para a família, das quais:

I Timóteo 3:4 e 5: Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda modéstia, porque se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?

I Timóteo 5:8: Mas, se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé e é pior do que o infiel.

 

Estas são frases duras. Muitas vezes queremos ser humanitários a estranhos quando somos carrascos em nosso lar. O que falta é amar de forma consciente. O amor tratado na Bíblia é traduzido para nós a partir da palavra grega ágape. O grego possui quatro verbos distintos que designam amor. O fileo, que é utilizado para designar um relacionamento de amigos; o eros, que é utilizado para designar um relacionamento marital ou sexual; o storge que é utilizado para amor familiar; e o ágape, que é utilizado na Bíblia especificamente para explicar o amor que Deus sente pelo ser humano e o amor que os fiéis cristãos devem exercer uns para com os outros.

A grande diferença deste amor ágape é que se trata de um amor racional. Os demais amores traduzidos do grego representam afeto ou atração. O ágape representa decisão. Ele é melhor compreendido quando lemos as seguintes passagens:

Romanos 5:8: Mas Deus prova o Seu amor (ágape) para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores;

I João 3:16: Conhecemos o amor nisto: que Ele deu a sua vida por nós e nós devemos dar a vida pelos irmãos;

I João 4:11: Amados, se Deus assim nos amou, também, nós devemos amar uns aos outros;

 

O amor de Cristo tem origem em um propósito, a saber, o de redimir a humanidade. Ninguém abdicaria de sua própria vida para corrigir o erro dos outros. Ainda que por mais forte, o amor humano hesita antes de renunciar a certos hábitos em benefício de ambos. É por isso que o apóstolo Paulo diz acerca dEle:

Filipenses 2:8: E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.

 

O amor de Cristo é um amor inteiramente racional, nascido na mente, e não no coração. Havia duas possibilidades para o pecado: um sacrifício perfeito ou a extinção da criação contaminada. Ele decidiu a primeira alternativa. Este é o sacrifício genuíno, este é o amor verdadeiro. Um amor que faz aquilo que é correto aos olhos de Deus, não poupando sequer a si mesmo. É o amor que devemos ter e que, se não o exercermos, não seremos salvos:

I João 3:14: Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos, quem não ama a seu irmão permanece na morte;

I João 4:7: Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus, e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus;

I João 4:8: Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus É amor;

I João 4:20: Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?

 

É certo que sabemos e entendemos o que a Bíblia requer de nós. Contudo, muitas vezes nos indagamos em quem seria o nosso próximo, ou como amar verdadeiramente. Circula na internet uma pesquisa realizada com crianças por profissionais de psicologia e educação acerca do significado da palavra amor. Veja como algumas crianças definiram amor:

Amor é quando alguém te magoa, e você, mesmo muito magoado, não grita, porque sabe que isso fere seus sentimentos - Mathew, 6 anos

Quando minha avó pegou artrite, ela não podia se debruçar para pintar as unhas dos dedos do pé. Meu avô, desde então, pinta as unha para ela. Mesmo quando ele tem artrite - Rebecca, 8 anos

Eu sei que minha irmã mais velha me ama, porque ela me dá todas as suas roupas velhas e tem que sair para comprar outras - Lauren, 4 anos

Amor é como uma velhinha e um velhinho que ainda são muito amigos, mesmo conhecendo há muito tempo - Tommy, 6 anos

Quando alguém te ama, a forma de falar seu nome é diferente - Billy, 4 anos

Amor é quando você sai para comer e oferece suas batatinhas fritas, sem esperar que a outra pessoa te ofereça as batatinhas dela - Chrissy, 6 anos

Amor é quando minha mãe faz café para o meu pai e toma um gole antes, ara ter certeza que está do gosto dele - Danny, 6 anos

Amor é o que está com a gente no natal, quando você pára de abrir os presentes e o escuta - Bobby, 5 anos

Se você quer aprender a amar melhor, você deve começar com um amigo que você não gosta - Nikka 6 anos.

Quando você fala para alguém algo ruim sobre você mesmo e sente medo que essa pessoa não venha a te amar por causa disso, aí você se surpreende, já que não só continuam te amando, como agora te amam mais ainda - Samantha , 7 anos

Há dois tipos de amor, o nosso amor e o amor de deus, mas o amor de deus junta os dois - Jenny, 4 anos

Amor é quando mamãe vê o papai suado e mal cheiroso e ainda fala que ele é mais bonito que o Robert Redford - Chris, 8 anos

Durante minha apresentação de piano, eu vi meu pai na platéia me acenando e sorrindo. Era a única pessoa fazendo isso e eu não sentia medo - Cindy, 8 anos

Não deveríamos dizer eu te amo a não ser quando realmente o sintamos. e se sentimos, então deveríamos expressá-lo muitas vezes. As pessoas esquecem de dizê-lo - Jessica, 8 anos

Amor é se abraçar, amor é se beijar, amor é dizer não - Patty, 8 anos

Amor é quando seu cachorro lambe sua cara, mesmo depois que você deixa ele sozinho o dia inteiro - Mary Ann, 4 anos

Deus poderia ter dito palavras mágicas para que os pregos caíssem do crucifixo, mas ele não disse isso. Isso é amor - Max, 5 anos

 

Esta maneira inocente de enxergar o sentimento é a mesma maneira com a qual Deus nos amou. Apesar de sabermos o amor que devemos exercer, relutamos com desculpas esdrúxulas. Por exemplo, quem seria o nosso próximo para que o amássemos? Jesus, também, deixou isso explicado:

Lucas 10: 30   E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.

 

É a parábola do Bom Samaritano. O texto não diz quem era esse homem, de onde era, o que fazia, qual a sua cor, a sua profissão, a sua origem, se era de boa família, se era solteiro, se era casado. Ele era apenas um homem qualquer. Este é o meu próximo. Um homem qualquer que precisa de meus cuidados, de minha atenção, de uma palavra que só eu possuo, de um carinho que só eu tenho. A Bíblia se explica, aliás, esta é uma das regras da hermenêutica bíblica. Porém, o mais terrível nas leituras bíblicas é a responsabilidade que ela nos traz na medida em que a conhecemos. Tornamo-nos mais e mais responsáveis diante de Deus pelo conhecimento da Palavra, já que ela nos tornará indesculpáveis no dia do Juízo:

Lucas 12:48: Quem me rejeitar a mim, e não receber as minhas palavras, já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar no último dia.

 

O conhecimento da Bíblia trará sobre nós a nossa própria sentença. Aquilo que conhecíamos e deixamos de fazer. O pecado que sabíamos e mesmo assim o cometemos. Estas coisas não são relevadas quando as praticamos apesar de saber que o coração de Deus as despreza. Quando ignoramos a realidade das escrituras sequer somos ouvidos por Deus:

João 9:31: Ora, nós sabemos que Deus não ouve a pecadores, mas, se alguém é temente a Deus e faz a Sua vontade, a esse ouve.

 

É por isso que dizemos que ser cristão é algo muito difícil. Aprender a viver é o primeiro passo para uma vida saudável. Aprender a ser cristão é o primeiro passo para a sabedoria. É por isso que, as vezes, Deus imprime em nossas almas lições que só vieram a grave custo. Algumas destas lições não podem ser esquecidas.

Elas têm o objetivo de melhorar nossa índole, nosso caráter. Afinal, se vivermos sempre ao nosso gosto seremos parecidos com o Diabo. O Diabo é a única criatura que preferiu viver segundo os seus próprios preceitos e abandonar a convivência com Deus. Será que muitas vezes não estamos caminhando na mesma direção? Nós agredimos uns aos outros, soltamos palavras ásperas, desobedecemos a Deus, tudo para realizar o desejo oculto de nosso eu, seja este desejo justo ou hediondo. Ser liberto não é fazer tudo o que quer, mas, ter a condição de discernir o que é melhor. Da internet, também, extraímos as cinco melhores lições para a vida:

- Primeira lição: Durante meu segundo mês na escola de enfermagem, nosso professor nos deu um questionário. Eu era bom aluno e respondi rápido todas as questões até chegar a última que era: "Qual o primeiro nome da mulher que faz a limpeza da escola?". Sinceramente, isso parecia uma piada. Eu já tinha visto a tal mulher várias vezes. Ela era alta, cabelo escuro, lá pelos seus 50 anos, mas como eu ia saber o primeiro nome dela? Eu entreguei meu teste deixando essa questão em branco e um pouco antes da aula terminar, um aluno perguntou se a última pergunta do teste ia contar na nota. “É claro!”, respondeu o professor. “Na sua carreira, você encontrará muitas pessoas. Todas têm seu grau de importância. Elas merecem sua atenção mesmo que seja com um simples sorriso ou um simples "alô". Eu nunca mais esqueci essa lição e também acabei aprendendo que o primeiro nome dela era Dorothy.

 

- Segunda lição: Na chuva, numa noite, estava uma senhora negra, americana, do lado de uma estrada no estado do Alabama enfrentando um tremendo temporal. O carro dela tinha enguiçado e ela precisava, desesperadamente, de uma carona. Completamente molhada, ela começou a acenar para os carros que passavam. Um jovem branco, parecendo que não tinha conhecimento dos acontecimentos e conflitos dos anos 60, parou para ajudá-la. O rapaz a colocou em um lugar protegido, procurou ajuda mecânica e chamou um táxi para ela. Ela parecia estar realmente com muita pressa mas conseguiu anotar o endereço dele e agradecê-lo. Sete dias se passaram quando bateram à porta da casa do rapaz. Para a surpresa dele, uma enorme TV colorida estava sendo entregue na casa dele com um bilhete junto que dizia: "Muito obrigada por me ajudar na estrada naquela noite. A chuva não só tinha encharcado minhas roupas como também meu espírito. Aí, você apareceu. Por sua causa eu consegui chegar ao leito de morte do meu marido antes que ele falecesse. Deus o abençoe por ter me ajudado! Sinceramente, Mrs. Nat King Cole"


- Terceira lição:  Numa época em que um sorvete custava muito menos do que hoje, um menino de 10 anos entrou na lanchonete de um hotel e sentou-se a uma mesa. Uma garçonete colocou um copo de água na frente dele.

- "Quanto custa um Sundae?" - ele perguntou.

- “50 centavos” - respondeu a garçonete.

O menino puxou as moedas do bolso e começou a contá-las.

- "Bem, quanto custa o sorvete simples?" - perguntou o garoto.

A essa altura, mais pessoas estavam esperando por uma mesa e a garçonete perdendo a paciência...

- "35 centavos" - respondeu ela, de maneira brusca.

O menino, mais uma vez, contou as moedas e disse:

- "Eu vou querer, então, o sorvete simples".

A garçonete trouxe o sorvete simples, a conta, colocou na mesa e foi atender outros clientes. O menino acabou o sorvete, pagou a conta no caixa e saiu. Quando a garçonete voltou, começou a chorar a medida que ia limpando a mesa pois ali, do lado do prato, tinham 15 centavos em moedas... o menino não pediu o Sundae porque queria que sobrasse a gorjeta da garçonete.


- Quarta lição: Em tempos bem antigos, um rei colocou uma pedra enorme no meio de uma estrada. Então, ele se escondeu e ficou observando para ver se alguém tiraria a imensa rocha do caminho. Alguns mercadores e homens muito ricos do reino passaram por ali e simplesmente deram a volta pela pedra. Alguns até esbravejaram contra o rei dizendo que ele não mantinha as estradas limpas, mas, nenhum deles tentou sequer mover a pedra dali. De repente, passa um camponês com uma boa carga de vegetais. Ao se aproximar da imensa rocha, ele pôs de lado a sua carga e tentou remover a rocha dali. Após muita força e suor, ele finalmente conseguiu mover a pedra para o lado da estrada. Ele, então, voltou a pegar a sua carga de vegetais mas notou que havia uma bolsa no local onde estava a pedra. A bolsa continha muitas moedas de ouro e uma nota escrita pelo rei que dizia que o ouro era para a pessoa que tivesse removido a pedra do caminho. O camponês aprendeu o que muitos de nós nunca entendeu: "Todo obstáculo contém uma oportunidade para melhorarmos nossa condição".


- Quinta lição: Há muitos anos atrás, quando eu trabalhava como voluntário em um hospital, eu vim a conhecer uma menininha chamada Liz, que sofria de uma terrível e rara doença. A única chance de recuperação para ela parecia ser através de uma transfusão de sangue do irmão mais velho dela, de apenas 5 anos que, milagrosamente, tinha sobrevivido à mesma doença e parecia ter, então, desenvolvido anticorpos necessários para combatê-la. O médico explicou toda a situação para o menino e perguntou, então, se ele aceitava doar o sangue dele para a irmã. Eu vi ele hesitar um pouco, mas, depois de uma profunda respiração ele disse: - "Tá certo, eu topo... Se é para salvá-la...". À medida que a transfusão foi progredindo, ele estava deitado na cama ao lado da cama da irmã e sorria, assim como nós também, ao ver as bochechas dela voltarem a ter cor. De repente, o sorriso dele desapareceu e o garotinho empalideceu... Olhou para o médico e perguntou com a voz trêmula: "Eu vou começar a morrer logo?". Por ser tão pequeno e novo, o menino tinha interpretado mal as palavras do médico, e pensou que teria que dar todo o sangue dele para salvar a irmã!

 

"Trabalhe como se você não precisasse do dinheiro, ame como se você nunca tivesse se machucado e dance como você dançaria se ninguém estivesse olhando"

 

 

Quem escreveu estas lições não se identificou, mas, agradeço por tê-las escrito e compartilhado com todos. Elas demonstram a prática da fé, a qual muitas vezes está oculta em fachadas e aparências, “sepulcros caiados”, como diria Jesus. Lenny Bruce disse que “cada vez mais as pessoas estão deixando as igrejas e se voltando para Deus”. Isto parece identificar a repulsa à hipocrisia religiosa. De que nos vale cantarmos, orarmos e chorarmos se as nossas almas estão secas e as nossas vidas vazias de exemplos? Será que ser cristão é fazer algo para que os outros vejam a nossa grandeza ou fazer algo para Jesus veja a nossa obediência? O que será mais importante: receber os aplausos dos homens ou o abraço de Deus? O devocional cristão sempre atrai vários assuntos, nos levando a refletir no fruto que estamos colocando:

Mateus 12:33: Ou fazei a árvore boa, e o seu fruto bom, ou fazei a árvore má, e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore.

 

É o fruto que demonstra aos demais a qualidade de nossas raízes. É até possível colocarmos em nossas árvores alguns fertilizantes, polirmos os frutos com alguns produtos, oferecermos em bandejas douradas, a fim de que no final aparentem ser de ótima qualidade. Mas, ninguém come a casca. É por dentro que interessa. É o sabor, a qualidade, o paladar que importa a quem o consome. Da mesma forma podemos aparentar sermos ótimos cristãos na sociedade, parecermos fervorosos, íntimos de Deus, quando, na verdade, a nossa família nos reprova. Quando, na verdade, não somos bons pais, bons filhos, boas mães, bons irmãos.

Ganhar a admiração de estranhos não é tão importante quanto adquirir o respeito no próprio lar. Mesmo nas igrejas invertemos nossos padrões. Queremos que as pessoas nos aceitem sem que, para tanto, tenhamos em casa o mesmo exemplo e padrão que transparecemos a estranhos. O Cristianismo não é uma filosofia que se adota, discute e separa apenas o que nos agrada. O Cristianismo ou é a verdade ou é uma grande mentira. Inexiste um meio termo. Igrejas não são locais criados para que nos sintamos bem e a vontade. Igrejas são agremiações, quartéis, locais nos quais o povo de Deus se reúne para traçar planos e metas para alcançar o mundo para Cristo, para travar batalhas ferrenhas contra o inferno.

Esta luta, esta reunião, começa em casa. Começa quando nos tornamos exemplo para os nossos filhos, nossos pais, nossos esposos e esposas. Começa quando aprendemos a valorizar o lar e a família que Deus nos deu. Quantas vezes só valorizamos o que tínhamos depois que perdemos? Dizemos a nós mesmos que éramos mais felizes no passado. Isto é porque as coisas passam de forma tão depressa que não nos apegamos a elas, só as lembramos com grave saudosismo. Por que perder para reconhecer? Por que nos importamos tanto com coisas passageiras e pouco com aquilo que realmente necessita ser valorizado?

Pode ser que a sua família não seja perfeita, mas, as imperfeições de sua família não justificam a sua ingratidão. Vivemos de maneira tão competitiva que estamos sempre olhando para o que os outros possuem. Elogiamos os estranhos sem conhecer a intimidade deles. Do lado de fora todo mundo é perfeito. Apenas quando compartilhamos os mesmos lençóis e o mesmo banheiro é que conhecemos razoavelmente alguém. Passe a valorizar o que você tem. O que você tem é aquilo que Deus achou que você mereceria. Seja pouco ou muito, bom ou ruim, perfeito ou imperfeito, é o que te faz bem. Preste atenção na sua casa. É mais fácil amar quem está longe do que quem está perto. É amando a nossa casa que exercemos o amor de Cristo. É amando tal como é, tal como está, tal como Deus nos entregou. É uma missão, a maior missão, cuidar daqueles que nos cercam. Olhar sempre com ternura, falar sempre com paixão. Seria inviável encerrar este devocional apenas com as minhas palavras. Da internet, também, se divulga:

Dois irmãozinhos brincavam em frente de casa, jogavam bolinhas de gude. Quando Julio o menino mais novo disse ao irmão Ricardo: “Meu querido irmão, eu te amo muito e nunca quero me separar de você!”. Ricardo sem dar muita importância ao que Julio disse, pergunta: “O que deu em você moleque? Que conversa besta e essa de amar? Quer calar a boca e continuar jogando?”. E os dois continuaram jogando a tarde inteira ate anoitecer. A noite o senhor Jacó, pai dos garotos chegou do trabalho, estava exausto e muito mal humorado, pois não havia conseguido fechar um negocio importante. Ao entrar Jacó olhou para Julio que sorriu para o pai e disse: “Olá papai, eu te amo muito e não quero nunca me separar do senhor!”. Jacó no auge de seu mal humor e stress disse: “Julio, estou exausto e nervoso, então, por favor, não me venha com besteiras!”. Com as palavras ásperas do pai, Julio ficou magoado e foi chorar no cantinho do quarto. Dona Joana, mãe dos garotos sentindo a falta do filho foi procurá-lo pela casa, ate que o encontrou no cantinho do quarto com os olhinhos cheios de lágrimas. Dona Joana espantada, começou a enxugar as lágrimas do filho e  perguntou: “O que foi Julio, porque choras?”. Julio olhou para a mãe, com uma expressão triste e lhe disse: “Mamãe, eu te amo muito e não quero nunca me separar da senhora!”. Dona Joana sorriu para o filho e lhe disse: “Meu amado filho, ficaremos sempre juntos!”. Julio sorriu, deu um beijo na mãe e foi se deitar. No quarto do casal, ambos se preparando para se deitar, Dona Joana pergunta para seu marido Jacó: “Jacó, o Julio esta muito estranho hoje, não acha?”. Jacó muito estressado com o trabalho disse a esposa: “Esse moleque só está querendo chamar a atenção.”. Então, todos se recolheram e todos dormiam sossegados. As 2 horas da manha, Julio se levanta vai ao quarto de seu irmão Ricardo e fica observando o irmão dormir. Ricardo incomodado com a claridade acorda e grita com Julio: “Seu louco, apaga essa luz e me deixa dormir!”. Julio em silêncio obedeceu o irmão, apagou a luz e se dirigiu ao quarto dos pais. Chegando ao quarto de seus pais, acendeu a luz e ficou observando seu pai e sua mãe dormirem. O senhor Jacó acordou e perguntou ao filho: “O que aconteceu Julio?”. Julio em silêncio só balançou a cabeça em sinal negativo, respondendo ao pai que nada havia ocorrido. Então, o senhor Jacó irritado perguntou a Julio: “Então o que foi moleque?”. Julio continuou em silêncio. Jacó já muito irritado berrou com Julio: “Então vai dormir seu doente.”. Julio apagou a luz do quarto se dirigiu ao seu quarto e se deitou. Na manhã seguinte todos se levantaram cedo, o senhor Jacó iria trabalhar, a dona Joana levaria as crianças para a escola e Ricardo e Julio iriam a escola. Mas, Julio não se levantou. Então, o senhor Jacó que já estava muito irritado com Julio, entra no quarto do garoto e grita: “Levanta seu moleque vagabundo.” Julio nem se mexeu. Então, Jacó avança sobre o garoto e puxa com forca o cobertor do menino, já com o braço direito levantado, pronto para lhe dar um tapa, quando percebe que Julio estava com os olhos fechados e que estava pálido. Jacó assustado colocou a mão sobre o rosto de Julio e notou que seu filho estava gelado. Desesperado Jacó gritou chamando a esposa e o filho Ricardo para ver o que havia acontecido com Julio. Infelizmente o pior. Julio estava morto e sem qualquer motivo aparente. Dona Joana desesperada abraçou o filho morto e não conseguia nem respirar de tanto chorar. Ricardo, desconsolado, segurou firme a mão do irmão e só tinha forcas para chorar também. Jacó em desespero soluçando e com os olhos cheios de lágrimas, percebeu que havia um papelzinho dobrado nas pequenas mãos de Julio. Jacó, então, pegou o pequeno pedaço de papel e havia algo escrito com a letra de Julio. Dizia: "Outra noite Deus veio falar comigo através de um sonho, disse-me que apesar de amar minha família e de ela me amar, teríamos que nos separar. Eu não queria isso, mas, Deus me explicou que seria necessário. Não sei o que vai acontecer, mas, estou com muito medo. Gostaria que ficasse claro apenas uma coisa: Ricardo, não se envergonhe de amar seu irmão. Mamãe, a senhora é a melhor mãe do mundo. Papai, o senhor de tanto trabalhar se esqueceu de viver. Eu amo todos vocês."

 

Procure ser aprovado entre o seu rebanho, o seu próprio pasto. Procure valorizar os momentos mais ínfimos. Eles podem significar pouco para você, mas, será imenso para quem recebe. Lembre-se que essa sua realidade pode mudar iminentemente. Você não pode garantir certezas para o amanhã:

“Há um período em que os pais vão ficando órfãos de seus próprios filhos. É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados. Crescem sem pedir licença à vida. Crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância. Mas não crescem todos os dias, de igual maneira, crescem de repente. Um dia, sentam-se perto de você e dizem uma frase com tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura. Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do maternal? A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça! Ali estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes sobre patins e cabelos longos, soltos. Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão nossos filhos com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros. Ali estamos, com os cabelos esbranquiçados. Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias, e da ditadura das horas. E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros. Principalmente com os erros que esperamos que não repitam. Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios filhos. Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas. Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvirmos sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, posters, agendas coloridas e discos ensurdecedores. Não os levamos suficientemente ao Playcenter, ao shopping, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostaríamos de ter comprado. Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto. No princípio, subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscina e amiguinhos. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma a os primeiros namorados. Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas "pestes". Chega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e rezando muito (nessa hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar) para que eles acertem nas escolhas em busca de felicidade. E que a conquistem do modo mais completo possível.  O jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos, e que não pode morrer conosco. Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam. Aprendemos a ser filhos depois que somos pais. Só aprendemos a ser pais depois que somos avós...Affonso Romano de Sant'Anna

 

Eu espero que você não se espante com o alarido da multidão e se ensoberbeça com os aplausos. Aqueles que te aplaudem hoje, quando as águas turvam, não permanecem ao teu lado ajudando a levar o teu barco em segurança até o cais. Jesus falou destas pessoas que se iludem com a aceitação da massa:

Mateus 7:22: Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitas maravilhas?

Mateus 7:23: E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.

 

Perceba, são pessoas que vivenciaram o exercício do ministério. Pessoas que estavam mais preocupadas com a popularidade que tinham do que com a própria salvação. Aquelas pessoas que tinham dons, que fizeram maravilhas, que possuíam seguidores. Porém, por dentro, seus frutos eram podres. De nada vale alcançar o favor de estranhos se o resultado disto for a rejeição Divina. De nada adianta cuidar das coisas de Deus, exercer uma atividade eclesiástica, secundarizando a vida familiar. Eu espero que estas lições permaneçam ativamente em seu coração.

 

 

JANSEY


AS PARÁBOLAS DE LUCAS


Como alguns sabem, estou ministrando as parábolas de Lucas, aquelas que são peculiares a este evangelho. Trata-se de um estudo detalhado da cultura da época e o que levou Jesus a utilizá-las, bem como a avaliação do efeito que as mesmas tiveram sobre os ouvintes. Abaixo eu trago alguns resumos das aulas que tenho ministrado. De fato, são resumos e nada detalhado. Estamos para começar duas turmas de seminário, em duas igrejas que já estão organizadas para isso, com o bacharel em no máximo 02 anos, com aulas de 15 em 15 dias, e diploma reconhecido pelo MEC, e isto nos tem absorvido. Ademais, não saber dos detalhes mais profundos das aulas, faz com que reste aquela curiosidade. Espero que os leitores gostem.

 

LUCAS 14:15-24

 

INTRODUÇÃO: Sempre que a Bíblia fala em banquete, no sentido de parábola, alegoria ou profecia, está se referindo às bodas, ao encontro do Noivo com a Sua noiva. Aqui, é deste banquete que Jesus trata, do banquete último que reúne os salvos de todos os cantos da terra, uma grande reunião para a qual apenas os que foram convidados podem comparecer (Salmos 23:5; Isaías 25:6-9).

 

ELUCIDAÇÃO: Inicialmente o que notamos é um duplo convite. É feito um convite que depois é refeito. Isto era, e em alguns locais ainda é, por demais normal. O primeiro convite é a confirmação de quantos convidados estarão presentes. O segundo convite é o aviso de que a comida já está preparada e todos podem comparecer. Na prática o que é feito é fazer o convite para a festa. Quando o hospedeiro sabe quantos irão comparecer, então, prepara a comida para aquele número de convidados. Assim, quando a comida está pronta, o hospedeiro avisa para que os convidados possam ir e iniciar a festa. A vergonha, então, que sofre esse hospedeiro da parábola é inimaginável. Ele foi publicamente ultrajado, pois, convidou, preparou a comida e, quando todos tinham de comparecer, não foram, deixando o hospedeiro padecer constrangimento público com a desonra causada pelos convidados.

 

A PARÁBOLA: Todas as desculpas são mentiras. A primeira, porque quando se adquiria propriedade rural naquela época se comprava com tudo o que havia nas terras, ou seja, como dizemos no Brasil “de porteiras fechadas”. Ninguém iria, portanto, olhar as terras depois que o negócio já estava fechado. A questão era tão curial que até o registro histórico e pessoal do imóvel era passado ao comprador. Porventura, se houvesse qualquer pendência, a resolução seria para o dia seguinte e, uma vez fechado o negócio, não poderia jamais ser desfeito. De todo modo, a festa só começava após o expediente, o que não justificava deixar de estar com os amigos para verificar uma propriedade. O que o primeiro convidado diz com isso é que as terras, o dinheiro, seus negócios, eram mais importantes que a amizade com o hospedeiro. O segundo mente, igualmente, porque as juntas de boi só eram vendidas no mercado ou sob horário marcado na propriedade do vendedor. Quer dizer, no mercado, em um canto específico, era feito um cercado no qual as juntas eram testadas, pois, ninguém compraria um par de bois que não soubessem andar conjuntamente e puxar o arado. Caso as juntas estivessem a venda na propriedade de alguém, era feito o anúncio verbal e, no horário marcado e combinado, todos os interessados compareciam para testar os bois. O negócio só seria fechado após as juntas serem experimentadas, e não antes. Desta maneira, ninguém compraria as juntas antes de testá-las. O convidado dizia, com isso, que havia coisas mais importantes do que ir a festividade. O último traz a pior de todas as desculpas. Ele utiliza algumas expressões no grego que transparecem a idéia de que para ele era melhor ter relações sexuais com a mulher do que ir a festa. O casamento não era no dia da festa porque nenhuma aldeia comportaria duas grandes festividades no mesmo dia. O fato de mencionar a mulher (pois ele diz que precisava estar com sua MULHER) demonstrava sua rudeza. A sociedade judia não menciona a mulher em meio aos homens, pois, é desonroso. A questão é tão forte que, se um pai daquela época viajasse e não tivesse um filho homem no lar, sendo casado e tendo apenas filhas moças, ele escrevia a carta ao filho que ainda nasceria, mas, não escrevia às mulheres da casa. O terceiro, então, informa que o prazer carnal era maior que a comunhão com o hospedeiro.

 

A APLICAÇÃO: Os convidados acreditavam que a festa jamais se daria sem a presença deles. Eles estavam enganados. Não apenas se daria como o hospedeiro recebeu os proscritos na qualidade de convidados. A mensagem é clara. Jesus estava falando da hipocrisia espiritual de Israel e do apego que as pessoas têm às coisas deste mundo. Ao mesmo tempo, Jesus diz que, se não O ouvirem, a reunião se dará da mesma forma. Outras pessoas ocuparão o lugar que era deles, mas, o hospedeiro não passará tamanha vergonha. O lugar não pode estar vazio, e não apenas por causa da salvação, mas, para que os convidados não chegassem à uma festa e percebessem que a festa não era para eles, mas, para outros. Por isso, Ele não recebe na qualidade de proscritos, mas, como se fossem os verdadeiros destinatários da festa.

 

LUCAS 15

 

INTRODUÇÃO: A ovelha perdida, a moeda perdida e os dois filhos perdidos constituem as mais ricas parábolas da Bíblia. A parábola do filho pródigo (os dois filhos perdidos) é chamada de o evangelho dentro do evangelho. Nestas parábolas Jesus demonstra toda a Sua genialidade e aplica o amor de Deus de maneiras riquíssimas e intransponíveis, de forma que qualquer ouvinte de Sua época entendia claramente as comparações que Ele fazia.

 

1o – A OVELHA PERDIDA

ELEMENTOS: Em todo momento Jesus demonstra que ao Se acompanhar de pecadores Ele demonstrava a maior aplicação prática possível da graça, com amor e perdão nítidos. Assim, na construção desta idéia, Jesus compara os fariseus a pastores, talvez, porque pastor era aquela pessoa contratada para cuidar do rebanho, ou era uma tarefa muito simples dada a um familiar menos favorecido. Jamais um fariseu se tornaria um pastor de ovelhas, até porque os pastores eram mau vistos, em detrimento de as ovelhas se alimentarem nos campos de qualquer pessoa. Quando Jesus conta a parábola Ele o faz no sentido de um pastor que está cuidando de um rebanho que não é seu. Provavelmente, vários rebanhos de vários proprietários e, com certeza, acompanhado por outros pastores, pois, quando a ovelha se perde ele imediatamente deixa as demais e ao regressar já retorna para a aldeia com a ovelha nas costas, demonstrando que as demais foram guiadas pelos outros pastores. Não socorrer a ovelha perdida faria com que o pastor indenizasse o proprietário pela perca, e isso não poderia enquadrar-se em seu orçamento.

 

APLICAÇÃO: A mensagem é clara. A ênfase está na alegria da restauração. A obra não termina quando a ovelha é encontrada, mas, quando a ovelha é restaurada. Jesus ensina aos fariseus que a ênfase não é cuidar das ovelhas encontradas, mas, procurar e restaurar as perdidas. A verdadeira alegria não está em apascentar o rebanho, mas, em atrair ao aprisco as desgarradas. Jesus rebate os fariseus explicando que a ênfase ministerial é ir aos perdidos. É o pastor quem cuida e trata suas ovelhas. É de sua responsabilidade, carregando-as quando preciso.

 

2o – A MOEDA PERDIDA

ELEMENTOS: Esta moeda traz uma grave redução de proporções. Na parábola da ovelha é uma que se perde de cem. Na parábola da moeda é uma que se perde de dez. É algo que, com muito esforço, se pode achar. Uma moeda perdida em tempos de cativeiro faz muita diferença. O povo pagava tributo e vivia opresso. Perder qualquer centavo faria grave diferença no orçamento. Jesus, assim, utiliza uma mulher. Ele O faz para que o povo assimile a importância daquela moeda. A moeda, decerto, tratava-se de um pingente de colar. A mulher deve ter perdido uma moeda que fazia parte de um colar, pois, era comum que naquela época fizessem colares com moedas e, em um colar de moedas, a ausência de uma seria de logo notada. É por isso que a moeda não tinha uma significância monetária, mas, pessoal.

 

APLICAÇÃO: Antes Jesus ensinou que a mensagem do evangelho deveria estender amor a todos os perdidos. Agora, Jesus pergunta como vão as coisas dentro de casa. O amor do evangelho deve se manifestar dentro de casa. O fato de a moeda ter um valor representativo maior que o monetário demonstra que era alguém próximo que ainda estava perdido. Jesus estava perguntando aos fariseus se aquela vida espiritual deles estava se manifestando dentro de casa. Por fim, Jesus conclui que, se houver amor e dedicação, o maior dos perdidos será encontrado.

 

3o – OS DOIS FILHOS PERDIDOS

ELEMENTOS: Costumeiramente chamamos esta parábola de “o filho pródigo”. Na verdade, é um título equivocado. Por algumas razões veremos que ambos os filhos estavam perdidos. É preciso entender que o pai destes filhos não É Deus, é um homem comum. É o amor fático do pai que, na parábola, representa o amor de Deus pela humanidade. Quando o filho pede a sua parte da herança, ele está pedindo que o pai morra. Naquela sociedade um filho só recebia a herança por morte de seu pai, do patriarca da casa. Este filho estava totalmente perdido, mas, o filho mais velho também. O filho mais velho não demonstra nenhuma manifestação de indignação com a atitude do filho mais novo, nem de conciliar a relação pai e filho. Isto, talvez, se deva pelo fato de o filho mais velho, também, não ter boa relação com o irmão mais novo, pois, o filho mais novo vai embora, sequer consegue conviver com o irmão mais velho. O pai, todavia, demonstra um nítido amor, um incompreensível amor, pois, não reage, não agride, mas, concorda. Naquela sociedade o máximo que o pai faria seria repartir os bens em vida, em detrimento de um novo casamento, por exemplo, mas, os bens ficariam com usufruto do pai até o dia de sua morte. É por isso que a reação do pai é estranha, pois, ele teria todo direito de bater em seu filho rebelde, todavia, concorda com o pedido do filho e dá sua parte. Por causa disto é que nunca houve registro histórico de que tal atitude tenha jamais acontecido. Nunca, em toda a história, um pai repartiu o que tinha para dar a herança a um filho rebelde. O filho que esperasse a morte do pai para receber o que era seu. O amor do pai é tão grande que aceita a maior das rejeições e o maior dos ultrajes, até mesmo de quem se ama. A relação daquela família era terrível, pois, fracassam em tudo. O filho mais novo, então, gasta tudo com meretrizes e fartura. Ele foi em busca de prazeres mundanos e, quando o dinheiro acaba, ele procura um emprego no mundo. A situação dele se torna a mais degradantes e inimaginável possível. Ele vai para o mundo, ser contratado por ímpio mundano, para cuidar de porcos. Tudo o que um judeu jamais faria. Ele trocou o que era santo pelo que era impuro. A miséria em sua vida é tamanha que ele passa a se alimentar daquilo que os porcos rejeitavam. As alfarrobas não eram alimentos de porcos, mas, os carrapichos que caiam das plantas nas quais os porcos se coçavam. Ele comia o que nem porcos engoliam.

 

APLICAÇÃO: O jovem, em meio aquela tribulação, não se arrepende. Ele bola um plano para sair daquela condição miserável. Ele premedita tudo e planeja como seria o encontro com seu pai a fim de poder, ao menos, se alimentar condignamente. A reação do pai deixa o jovem sem palavras, pois, o pai sai correndo assim que o vê. O pai faz isso porque o jovem renunciara a sua parte da herança e envergonhara publicamente o pai, assim, se qualquer dos servos de seu pai o vissem antes de o pai alcançá-lo, aquele jovem poderia ser apedrejado ou expulso da propriedade. Por isso, o pai o abraça, o beija e põe o anel, simbolizando que ele ainda era seu filho, e que ainda tinha parte na herança. Assim, ninguém o agrediria. O filho mais velho estava trabalhando no campo. O pai não o chama. Ele faz isso para que não despertasse ciúme e o filho mais velho não estragasse o banquete. Por isso, o filho só surge quando ouve o som das celebrações. Ao reagir com inveja, o filho mais velho demonstra que estava tão perdido quanto o filho mais novo. O pai diz ao filho mais velho que aquele jovem perdido era seu irmão, ou seja, aquele pecador era, também, seu irmão. Jesus quer dizer que aquele filho mais velho são os fariseus que não compreendem o amor de Deus pela humanidade e, apesar de estar sempre a serviço de Deus, não são capazes de demonstrar amor ou misericórdia. A mensagem cai diretamente e certeira nos ouvidos dos fariseus. Eles sabiam que eram, na verdade, maus filhos. Estavam ali apenas porque tudo era deles, mas, não tinham o interesse de dividir. A alegria do reino, novamente, está na alma que retorna, seja de fora (ovelha perdida), seja um parente (moeda perdida), seja quem já era filho (os dois filhos perdidos).


CONCLUSÃO: Maravilhosamente Jesus reduz a proporção dos perdidos. Ele sai da multidão dos de fora, para o grupo familiar e, por fim, entre a pequena família. Entre pai e filho. Todos são dignos de misericórdia, mas, há maior alegria por um pecador que se arrepende.
 

 

LUCAS 16:1-13

 

INTRODUÇÃO: Por muitos esta é a mais difícil das parábolas. Para Bultmann ela era inconclusiva. Isto se deve porque Jesus utiliza de advertências para com as pessoas que pensam que podem barganhar com Deus. Ele traz orientações que, para os ouvintes, parecem sérias, mas, são advertências cênicas, que levam o ouvinte a ponderar a situação em que se encontra.

 

ELEMENTOS: Este mordomo representava os interesses do proprietário. Ele era um administrador assalariado (pois é demitido) e que recebia taxas por cada negócio fechado. O que texto deixa a entender é que ele recebia propinas ou cobrava por fora de suas funções, aproveitando-se do poder que lhe fôra outorgado. Naquela época havia três tipos de arrendatário: o meeiro – que dividia sobre a produção; o arrendatário – que pagava um percentual fixo sobre a colheita; e o inquilino – que utilizava as terras e pagava em dinheiro. Na parábola Jesus trata de arrendatário. Estes arrendatários não sabiam dos crimes cometidos pelo mordomo, e nem o proprietário sabia até tomar conhecimento, pois, se qualquer das partes soubessem, eles seriam desonestos, pois, estariam fazendo negócios ilícitos às custas de uma das partes. Os contratos só eram firmados com a assinatura de ambas as partes, o que significa que ambos deveriam saber dos acordos propostos pelo mordomo, o que deixa claro que ninguém sabia que o mordomo estava a fazer coisas ilícitas. Até que pessoas de fora desta relação (talvez, servos ou conservos do proprietário ou do próprio mordomo) comunicam ao proprietário. Quando o proprietário toma conhecimento, demite imediatamente o mordomo. Porém, antes de os arrendatários serem notificados de que o mordomo não detinha mais poderes para representar o proprietário, o mordomo começa a faze negócios estranhos para granjear amigos. Ao que tudo indica, o mordomo cobrava percentuais maiores na colheita sem que os arrendatários soubessem que ele estava onerando o pagamento. Por isso, ele reduz os pagamentos e manda que cada um anote com a própria caligrafia, com isso, o mordomo não se envolvia nos negócios escusos (pois, a caligrafia era dos arrendatários) e os arrendatários pensavam que o mordomo o fizera por ordem o proprietário (pois, ainda não sabiam que ele tinha sido destituído de seu cargo). Note quão habilidoso ele foi, pois, chama cada arrendatário individualmente, a fim de não causar conversas entre eles e ser desmascarado. Quando ele altera os livro caixa ele não está corrigindo seus erros, ele está se prejudicando ainda mais diante do proprietário, pois, afinal de contas já estava mesmo demitido e, agora, precisava de um emprego. Ele não conseguia plantar e nem trabalhar braçalmente, pois, se era administrador das propriedades, com certeza era alguém culto e parente do proprietário e que nunca trabalhara com as mãos. Ele não mendigaria, também, para não ser ridicularizado por já ter gozado de alta posição. Desta forma, ele arma um plano que é elogiado pelo proprietário. Ele faz com que pareça que o proprietário baixou a cota do arrendamento, e faz com que o proprietário não possa desfazer o negócio, haja vista que foi anotado pelos próprios arrendatários. Desfazer, faria o proprietário de avarento. O elogia, todavia, não é porque o mordomo fez algo bom, mas, porque com certeza seria bem recebido em outra casa por sua astúcia, granjeando amigos injustos e iníquos, e levando esta iniquidade até o além. Quando Jesus diz que os amigos o receberiam nas moradas eternas, não é do céu que Jesus fala, mas, do inferno. A coisa sai muito sútil, pois, se as pessoas soubessem que o mordomo já era demitido quando fez o negócio, os arrendatário não celebrariam o negócio, já que pareceriam injustos ao proprietário. Ainda que as dividas não estivessem vencidas, eram vincendas, a cota de contribuição decaíra, o que era muito bom para os arrendatários. O fim deles, todavia, é o inferno.

 

APLICAÇÃO: Jesus, com isso, demonstra aos fariseus que eles eram injustos, apegados a este mundo, apegados ao dinheiro e mais dados aos prazeres da vida que aos valores eternos. É por isso que Jesus conclui com um ensinamento sobre o dinheiro, atribuindo Mamom, como um deus ao qual ninguém poderia servir conjuntamente ao verdadeiro Deus. O dinheiro só traz infidelidade e apego existencial. As pessoas se tornam infiéis e, sendo infiéis, não podem ter confiadas as verdadeiras riquezas.

 

LUCAS 17:7-10

 

INTRODUÇÃO: Aqui os discípulos estavam aprendendo acerca do que era servir no ministério. Jesus, então, inicia dizendo que no serviço do ministério não deve haver escândalo e o amor deve ser ininterrupto e estar acima de tudo. Os discípulos acham muito forte estas palavras. Jesus diz que a pessoa que causasse escândalo deveria amarrar uma pedra no pescoço e se jogar em um rio, para nunca mais ser achado ou aparecer. Quando fala de perdão, Jesus ensina que deveria ser constante, ilimitado e diário. Ele utiliza o número sete como símbolo de perfeição. E, como os discípulos acham aquilo duro demais, Ele ainda É mais duro.

 

ELEMENTOS: Jesus conta a parábola de um servo que estava trabalhando e ao voltar do campo ainda tem de preparar a mesa do seu senhor. Isto dói na mente do homem moderno porque ele não consegue entender a escravidão. Naquela época muitos tinham servos em suas casas, até mesmo as pessoas que não eram muito ricas, porque as pessoas miseráveis corriqueiramente mandavam os filhos para se tornarem servos, a fim de que pudessem ao menos ter uma refeição. Por isso que Jesus se dirige aos discípulos, pois, mesmo os discípulos tinham seus servos. O pai de Tiago e João, Zebedeu, era mero pescador, mas, tinha servos ao dispor. Aqui, contudo, Jesus faz questão de distanciar essa relação de servo e senhor. Jesus demonstra que Deus É Deus e está acima do servo. Jesus já dissera que os discípulos eram Seus amigos (João 15:15), mas, aqui, o servo não é maior que o Senhor (João 15:20). Jesus quer que os discípulos entendam a condição na qual se encontram, de apenas servos.


APLICAÇÃO: Ao fazer isso, Jesus explica que, ao cumprir suas tarefas, o servo nada mais faz senão a obrigação que lhe foi dada a fazer. Isso não é mérito algum, não é para se agradecer. O servo, então, diz que é inútil. Este termo é mais corretamente interpretado como dispensável. O que o servo quer dizer é que nada tem nele de especial, porque só cumpre suas tarefas. Ao chegar do campo e ir preparar a ceia parece algo terrível, mas, primeiro, esta ceia não é vespertina, é uma refeição à tarde, por volta das 15 horas, segundo, o Senhor mostra que o dever de servo é servir primeiro, e alimentar-se depois. Jesus quer dizer que Ele É o centro de tudo, que Deus É a razão de nossas vidas. Ele É o motivo de estarmos aqui e a razão de ainda existirmos. É por isso que a Ele a glória, que primeiro o Seu Reino, que devemos servir, pois, o milagre Ele já fez, que foi nos salvar.


JANSEY


OS DOIS DEVEDORES

Lucas 7:36-50

 

As parábolas de Jesus estão sempre permeadas de riqueza. As maiores riquezas, todavia, permanecem cegas para nós ocidentais, pois, têm relação específica com a cultura da época. É quase impossível perceber sem uma perfeita exegese. A exegese inclui a análise do contexto, da realidade cultural, do idioma original, do idioma falado, dos ouvintes, da perspectiva teológica e doutrinária, enfim, uma série de correlações que eram facilmente percebidas pelos ouvintes da época, mas, que não é tão facilmente assim para nós ocidentais.

É preciso, primeiramente, ter a idéia fixa de que a parábola não é uma alegoria, mas, uma forma de interpelação que exige uma reação ou interação imediata do ouvinte. Jesus as lançava em sentido teológico, doutrinário ou, como no caso em tela, diretamente para alguém específico a fim de que dele ouvisse uma única solução para a parábola em questão. Em todos os casos as parábolas tinham a mesma finalidade que era ensinar sobre o Reino de Deus ou como devem se comportar os filhos de Deus. No caso em análise há uma parábola dentro de uma situação determinada. Jesus utilizou o momento para ensinar uma pessoa como ela deveria se comportar se de fato fosse filho de Deus.

A cena se desenvolve após Jesus pregar. Ele recebe o convite de um fariseu para ir a sua residência. Estes convites eram comuns na época. Os teólogos judaicos se reuniam para longos debates teológicos que, por muitas vezes, varava a noite. Eles eram chamados de Haberim. Durante estes debates as portas da residência ficavam abertas e as pessoas se aglomeravam para ouvir as discussões, graças a isso a mulher aparece na cena. Jesus estava participando deste tipo de reunião. O convite do fariseu não tinha o propósito de reconhecê-lO, tão menos de confessá-lO como Salvador. O propósito era de confrontá-lO. Jesus aceitou o convite silente e assim permaneceu todo o tempo, até o momento oportuno. As afrontas contra Jesus são nítidas desde o início. Era hábito cultural que, nestas reuniões, os convidados tirassem os calçados ao entrarem na casa e tivessem os pés lavados pelos servos e, seguindo, fossem beijados na face pelo anfitrião. Caso o hóspede fosse um mestre, todos os filhos varões do hospedeiro deveriam ir recebê-lo com beijos. Após, ao ir à mesa, o hóspede seria ungido com óleo de oliva, tradição passada entre os sacerdotes.

Para Jesus, nada daquilo foi feito pelo fariseu. Jesus assenta-Se a mesa sem ser recebido na qualidade de Rabi como fôra convidado pelo Fariseu. As mesas baixas, rentes ao chão, cercadas de tecidos e almofadas, forçava a pessoa a debruçar-se sobre os cotovelos colocando os pés - parte discriminada e impura para a cultura judaica - para trás de si mesmo, deitando-se lateralmente. Jesus o fez com os pés sujos, sem o beijo do anfitrião, sem para Ele ser direcionado qualquer tipo de respeito, qualquer atenção. Assim, repentinamente, uma mulher começa a lavar-Lhe os pés com lágrimas, beijar e enxugar com os próprios cabelos e, por fim, ungir com um frasco de perfume caríssimo. A ação da mulher é a reação de alguém genuinamente grato, verdadeiramente convertido. Ela faz o que o hospedeiro não o fez.

O hospedeiro confronta a ocasião desdenhando de Jesus, desfazendo de Sua condição de Ungido, e dizendo a todos que se de fato Jesus fosse profeta saberia quem era aquela mulher que lhe tocava. O fariseu Simão dá a conotação de que a mulher O "tocava" com o intuito de com Ele se relacionar sexualmente. A mulher, com certeza, era uma prostituta. O frasco de perfume caríssimo era, habitualmente, pendurado no pescoço pelas prostitutas da época para, então, estarem sempre cheirosas aos clientes, por isso o perfume caro já estava com ela. É certo, também, que a mulher seguira Jesus após a Sua pregação ou já com Ele se encontrara anteriormente, pois, sabia onde Ele estaria e chega no local na mesma hora ou antes dEle, já que realiza o lava pés e Jesus afirma que ela O beija desde que chegou (verso 45). Como Simão sabia quem era a mulher, então, eles também se conheciam. Destarte, é mais certo ainda este encontro com Jesus devido às lágrimas deitadas pela mulher, em nítido quebrantamento. Ela tinha por Jesus o respeito que Simão não teve.

No auge deste clímax, Jesus conta a parábola. A parábola é simples, mas, Jesus usa as palavras corretas. Ele usa a expressão aramaica para devedores. Ele direciona a parábola para Simão e, quando Simão aceita ouvi-la, é encurralado por Jesus. A parábola só tinha uma resposta e Simão sabia que essa resposta o confrontava diretamente. Ambas as dívidas são perdoadas, mostrando que Deus não faz qualquer acepção de pessoas. Porém, Jesus expressa uma realidade: a pessoa que muito pecou e foi perdoado possui maior capacidade de amar a quem o perdoa. Os sentimentos de dívida e devoção são maiores. Jesus Estava falando dos dois devedores. O primeiro é aquele que errou pouco e, por conta disto, acredita que não precisa de perdão. O segundo é aquele que muito pecou e sabe que precisa de perdão. Simão era do primeiro tipo e foi diretamente afetado pela parábola. O fariseu Simão se achava muito correto, muito certo, e, por isso, acreditava não precisar de Jesus e de nada do que Ele tinha a oferecer, em razão disto O convida apenas para confrontá-lO. A mulher era do segundo tipo. Pecou demais, errou demais e, mesmo assim, teve os seus pecados perdoados.

O sentido é perdão - amor. Ama-se depois de ser perdoado. Como Simão não se achava necessitado de perdão, não era capaz de amar. É tão nítida a superficialidade de Simão que, mesmo diante de cena tão indescritível, ele ainda chama a mulher de pecadora (verso 39). Em contrapartida, aquela "pecadora" derramou todo o seu perfume. Ela demonstrou publicamente que não precisava mais daquele perfume, que não iria mais usá-lo, que mudara de vida. Todos estes fatos não alcançam o coração de Simão. Jesus, então, Estava a dizer que a espiritualidade de Simão e toda a sua religiosidade não o fizera um homem capaz de perdoar. Ele era insensível e incapaz de perdoar um pecador que, na mais pura verdade, era tão pecador como ele. Aquela mulher que desfrizara os cabelos (por muito menos o talmude aconselhava os homens a se divorciarem), demonstrou toda sua gratidão Àquele que foi capaz de lavar-lhe a alma.

Jesus, então, começa a falar com Simão, enquanto olhava para a mulher. Em meio àquela sociedade preconceituosa com o estado da mulher, Jesus desmoraliza o anfitrião. Jesus diz que aquela mulher era mais digna que Simão. Aquela prostituta soube reconhecê-lO, Simão não. Ao longo da situação e da parábola nascem três verdades, a saber, os dois tipos de pecadores, os dois tipos de hóspedes e as duas naturezas de amor. O primeiro pecador, apesar de ser pecador, acha que não precisa de perdão; o segundo pecador, sabendo que é pecador, sabe que só o perdão pode salvá-lo. O primeiro hóspede, sendo anfitrião e se dizendo religioso conservador dos desígnios de Deus, não reconhece Deus nem Ele estando em sua frente; o segundo hóspede, não sendo hóspede, reconhece-O e recebe-O com todas as honras e méritos que Ele merece. O primeiro amor é superficial, baseado em arquétipos, um amor que só ama aquilo que é bom aos seus olhos; o segundo amor é puro e amar independente da natureza do pecador. O segundo será sempre exaltado. Em nada importando o histórico daquela mulher, ela foi honrada na presença de todos, pois, quando Deus nos alcança, quando Cristo nos inunda, tudo de ruim em nós é apagado e perdoado para que somente Ele possa habitar. É assim que Deus faz e sempre fará conosco.

 

JANSEY


AUSÊNCIA DE PROPÓSITO

 

Adoro biografias. Ler detalhes da vida pessoal e das lutas de alguém me alimenta e estimula a prosseguir. Acredito que isso seja fruto da educação que recebi. Ainda novo meu pai me deu uma coleção de biografias como presente de aniversário. Aos oito anos eu já havia lido bastante acerca das personalidades mais influentes do século passado. Desde então, continuei aumentando minha coleção. O meu pai sempre dizia que devíamos absorver o melhor de cada pessoa e eu procurava colocar isso em prática. Evidentemente, não deixei faltar biografias de personagens bíblicos em minha coleção. Entre eles, Jó. O personagem cria certa identidade com o leitor. Muito se deve ao fato de sua dor se assemelhar a quase todos os nossos sintomas.

Sabe quando você atravessa determinada situação e, por mais que você se esforce, seja solícito e tenha bondade em seu coração, você não consegue enxergar nada de bom ou proveitoso daquele quadro? Então, alguns se aproximam e te dão conselhos, dizem para levantar a cabeça, que isso vai passar, que tudo vai melhorar, que Deus sabe o que você está passando e Ele fará algo a respeito, que a Bíblia diz isso ou aquilo outro? Você ora, se esforça e, mesmo assim, não consegue aprender nada com aquela dor. Por mais cristão que você seja, você se questiona, acha que está perdendo a fé, perde a esperança, perde a credibilidade em si mesmo. De todos os conselhos dos que se achegam nos momentos de crise, o único verdadeiro é que você não é o único. Tudo isso aconteceu, também, com Jó.

Jó tinha de tudo. Propriedade, família, filhos perfeitos, terras produtivas, animais. Repentinamente, perdeu tudo, inclusive a família. Nem a esposa ficou ao seu lado. Jó ficou literalmente sem amparo e incomparavelmente só. Os “amigos” só criavam teorias e filosofias sobre os seus problemas, nenhum lhe estendia a mão. Aliás, aquelas pessoas só se alimentavam da miséria de Jó, assim como fazem os fofoqueiros que só se aproximam quando querem colher notícias. O mais certo é que todos nos deixam nos momentos difíceis (Marcos 14:50). Aqueles que se rodeavam da fartura de Jó, agora, o escarneciam. Os que sofrem sabem, muito bem, que não existe nada mais irritante do que pessoas considerando a nossa miséria quando tudo o que mais queremos é modificar aquele quadro. Ao invés de auxiliarem, os “amigos” de Jó ficavam cogitando o motivo de aquilo tudo haver lhe sucedido.

Levantar teorias é uma prática até hoje adotada. Por exemplo, alguns estudiosos afirmam que Jó foi o homem mais rico do seu tempo. Eu ainda sou da época de não acrescentar matéria sobre assuntos nos quais a Bíblia silencia (se bem que naquele período quem tivesse terras produtivas e um rebanho de qualquer espécie já seria considerado rico). Outros dizem que o propósito de tudo aquilo foi porque Jó não conhecia bem a Deus, era um religioso e não um servo, o que não é verdade, pois, desde o começo do livro Jó é chamado de servo, ao qual ninguém se igualava (Jó 1:8). Jó era temente ao Senhor e, mesmo que ainda não houvesse a instituição de cultos naquela época, Jó ofertava holocaustos por si e pelos possíveis pecados de seus filhos (Jó 1:5). Além de temente, Jó era um intercessor. Inexistente era a Lei, mas, Jó sabia que era responsável pela vida espiritual de sua família, e velava por todos. Ele era a ovelha que qualquer pastor ou padre gostaria de ter em seu rebanho. Fiel, temente e intercessor. Um homem que praticava a sua fé e guardava em orações toda sua família.

Em momento algum o livro narra que houve qualquer coisa que justificasse os eventos desencadeados na vida de Jó. Do contrário, o mais estarrecedor de tudo isso é que não existe nenhum motivo e nenhum propósito. Os eventos não possuem causa e efeito. Eles são abruptos, fatalistas e acidentais. Eles não provinham de pecado, de infidelidade ou de apostasia. Eles nasciam do interesse de Deus em prova-lo (Jó 1:9-12; 2:3-6). É que muitas vezes ignoramos a vontade de Deus com antropomorfismos, ou seja, criamos um ideal de Deus mais assemelhado ao homem e a esta nossa forma de pensar. Porém, Deus tem Seus propósitos (Isaías 55:8) ainda que eu e você desconheçamos Suas razões ou nela não encontremos propósito. Relevamos corriqueiramente que Deus nos prova (Salmos 11:5), enquanto Satanás nos tenta pelas fraquezas de nossa carne (Mateus 26:41; Lucas 4:13; I Tessalonicenses 3:5). Deus a ninguém tenta (Tiago 1:13).

Estas provações, às quais Deus nos faz atravessar, têm o único objetivo de provar a nossa fidelidade. Elas não demonstram razão alguma, não nos levam a propósito algum, delas não extraímos lições e a maioria só nos aumentará as dores e as vicissitudes desta vida. Contudo, se formos aprovados, tais provações nos fortalecerão a fé. O objetivo de Deus ao nos provar não é nos ensinar alguma coisa, mas, nos conhecer. É do interesse de Deus saber se o amaremos mesmo que Ele nos tome tudo o que nos faz bem e nos propicie conforto, mesmo que Ele nos arranque a preciosidade de nossos corações. Tudo o que Jó passou foi apenas para que Deus tivesse certeza que Jó O amava (Jó 1:20-22; 2:10). Os acontecimentos na vida de Jó são, em mesmo número e grau, idênticos aos que tantas vezes nos deixam sem resposta. É porque a provação não requer explicação, apenas fidelidade. Em momentos de crise culpamos a Deus, porém, Jó não o fez. Em momentos de percas parentais culpamos a Deus, porém, Jó não o fez. Em dificuldades financeiras culpamos a Deus, porém, Jó não o fez.

Com certeza muitos brasileiros estão, no dia de hoje, culpando a Deus pelas tragédias na região serrana do Rio de Janeiro. Ninguém culpa o Diabo. No caso de Jó, por exemplo, os meios utilizados por Satanás para provar a vida de Jó foram TODOS naturais. Os sabeus roubaram o gado e as jumentas de Jó (Jó 1:15); uma chuva de saraivas devastou as ovelhas e os servos de Jó (Jó 1:16); os caldeus roubaram os camelos (Jó 1:17); e um vento derrubou a casa matando a todos os filhos de Jó (Jó 1:18); e, por fim, as enfermidades que apareceram por sobre Jó (Jó 2:7). Tantas vezes esperamos que o Diabo crie meios sobrenaturais de nos afrontar, porém, ele utiliza os mais pueris exatamente para gerar em nós sentimentos que nos levem a culpar a Deus pelas tragédias que nos afligem, e não ao Diabo. Sempre que uma tragédia se abate sobre nós culpamos a Deus, quando elas estão mais propensas a serem obras do Diabo.

É do interesse do Diabo nos destruir (João 10:10; Apocalipse 20:8). Aliás, aos que acreditam que o Diabo não possui poder para matar as pessoas, precisam ler um pouco mais do Apocalipse (Apocalipse 6:4; 6:8). O que ocorre é que a idéia que absorvemos acerca da bondade de Deus exclui automaticamente Sua justiça, Sua vingança e Sua correção. Queremos o melhor de Deus sem que, para isso, Ele precise ferir nosso orgulho e nos mostrar o quão dependente somos dEle. Queremos nos sujeitar a Deus não precisando reconhecer que sem Ele nada somos e nada podemos fazer (João 15:5). É muito fácil ir a igreja quando não se faz preciso confessar e abandonar pecados (Provérbios 28:13). A verdade é que quando Deus quiser e quando bem Lhe convier, Ele provará a nossa fé buscando como resultado a nossa fidelidade. Ao escrever às sete igrejas da Ásia, o anjo do Senhor finda cada mensagem com a mesma advertência: AO QUE VENCER.

Ainda que você não acredite em salvação pelas obras – como eu também não acredito – não é possível misturar qualidades do novo nascimento com soteriologia. Fidelidade faz parte do novo nascimento, é prerrogativa salvívica (Mateus 25:21). É através dos frutos que o novo nascido dá que conhecemos se as raízes das árvores mudaram (Mateus 7:20). A provação é o meio pelo qual Deus – e a igreja - avalia nossos frutos. Por mais que se rejeite este idéia só existem dois caminhos: aceita-la ou adequar a Bíblia ao seu entendimento pessoal. O que infelizmente ocorre é que a fé de muitos não consegue sobreviver a certas verdades. Há pessoas que não suportam ouvir que Deus as prova apenas para saber se permanecerão fiéis. Porém, a história dos relacionamentos de Deus com homens foi sempre assim. Deus provou Abraão, Jacó, Moisés, Sansão, Saul, Davi... Deus provou até ao Seu próprio filho (Mateus 26:38, 39, 42). É a maneira de Deus nos aprovar. É o exame pelo qual, eventualmente, todos havemos de passar. É por isso que eu não quero lhe encher de falsos provérbios, de falsa esperança. O que por enquanto é certo é que a situação vivenciada por Jó é idêntica a de quase todo mundo e esta dor que eu e você vez por outra enfrentamos não possui razão, não possui propósito, não nos trará lições. Contudo, se passarmos por elas, sairemos mais firmes, aprovados e o fundamento de nossas casas estará cada vez mais aprofundado na rocha.

 

JANSEY
POWERED BY Site Center