Introductio      L´anima
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L´ANIMA 

O que sai desta alma que me possui
 
 
 

 
 

- SORRISOS E ACENOS


Já me disseram que eu não ando, me movo;

Que eu não uso estradas, desbravo caminhos;

Que eu não sou de carne, mas de aço;

Que minhas ondas rasgam as rochas, nunca se espraiam;

Que a minha tristeza é assim, como um oceano,

Porque nunca encontrei alguém semelhante;


Já me disseram que não escrevo, rascunho;

Que não sou poeta, apenas mendigo;

Que nada sei, nada sou, nunca fui, sequer serei;

Que meus sentimentos são origamis, rastros de estrela e ilusão;

Que minhas palavras são castelos de areia

E que minhas lágrimas são falsetes de teatro;


Com o tempo aprendi a ouvir sem sorrir e sem chorar,

Entendi que o fruto da tristeza é angústia,

Que o lar do medo é o desespero,

E mantive em silêncio, escondido das vistas,

As opiniões nascidas em meu coração,

Dissimulei o cinismo com sorrisos e acenos;


Compreendi que nem sempre sou produtivo,

Algumas palavras nascem da mente, não do coração,

Métrica pensada, rima intitulada, matemática e equação,

Aprendi que tudo dá em nada, que algumas frases são revistas e jornais,

Frases estampadas em calendários ou panfletos,

Uma verdade que sempre é mentira em cima do palanque;

 

Assim, cada artista tem seu tempo,

Cada idéia genuína é parida em calabouço,

Que as idéias, as vezes, são mais constantes,

E que o tempo, também, envelhece o pensamento,

E, então, o poeta para de escrever, faz uma roda,

Chama alguns amigos, toca uma viola, e a poesia acontece

                                                                         [sem precisa mais que seja lida.

 

JANSEY


- ÁGUAS AMARGAS

 

Um dia eu serei feliz!

Seja aqui, ali, no além,

Um dia meu semblante mudará,

E o meu coração encontrará,

A razão de ser tudo o que foi;

 

Um dia eu serei feliz!

Esse pão de choro e terra acabará,

Esse gosto de tristeza esquecerei,

Em meus lábios haverá apenas riso,

Em meus olhos haverá apenas paz;

 

Um dia eu serei feliz!

Deixarei de colecionar agonias,

De encher minha taça de murmúrio...

Me embriagar de tanta angústia,

Viver em tamanho desamor;

 

Um dia... sim, enquanto o sol não brilha,

Enquanto a luz se esconde,

Da farda da derrota me despirei

E as botinas da desolação descalçarei,

Enquanto os olhos ardem novo sol;

 

Meu céu de bronze se desfará,

Minha língua se afastará deste sabor...

As águas amargas que hoje me saciam

Em breve lavarão apenas meus pés,

E minhas rugas se desfarão...

 

A força que gastei em face contrita

Se renovará em face lisa, em dente aberto,

E eu serei apenas azul, nunca mais cinza...

Perderei o tom de chuva, a cor de ocaso,

Essa visibilidade de névoa...

 

Trocarei a lua e as estrelas

Pelo verde e pela terra,

Terei ar de montanha, jeito de campo,

Não mais me rodearei de água...

Não mais serei ilha.

 

JANSEY


- A TRISTEZA MORA NAS ÁGUAS

 

Ao fim desta hora o céu se encherá de tristeza,

E eu, com toda força e avareza,

Cerrarei o peito, trincarei os dentes,

 

Moderei os lábios ignorando o que sentes,

Até que a minha opinião a tua vença,

Pois o amor não é crença,

 

O amor não é sorte, não é acaso,

Não é fruto da chuva ou do vento,

(A tristeza é que mora nas gotas)

 

O amor não se dá a contento,

E o tempo não lhe dá azo

Para diminuir ou embranquecer,

 

O amor não é verso ou frases soltas,

Nem Camões, nem Cecília, nem Pessoa,

É aquilo que faz o homem envelhecer

 

Pensando ainda ser uma criança,

E que o poeta se aproveita a dizer

Em papel o que na mente o amor ecoa.

 

A tristeza mora nas águas,

A solidão mora no breu,

E o amor, seja o meu ou o seu,

Castiga o coração, grisalha o peito,

{Faz clara a dor que tanto amargas,

... Deixa o homem adulto perdido e sem jeito.}

 

JANSEY

- FARTO HEROÍSMO

 

As veias que banham meu coração são de tristeza,

Agouros quietos de um fado tocado no mesmo tom,

Canções de lamento, constante e desatinado som

Que caleja o peito, que amaldiçoa a existência,

 

É um fim em si mesmo, lúgubre cadência

De uma vida que não vive, apenas se descama,

De um corpo apaixonado que nunca ama

E tudo o que escreve é imaginada incerteza,

 

O meu corpo não será mais teu templo

E de tuas visitas esconderei o meu leito,

Eu já não consertarei tudo, não darei jeito

 

Naquilo que desfazes com teu egocentrismo,

Eu não serei o teu ópio e, com farto heroísmo,

Superarei tuas queixas enquanto tua agonia contemplo.

 

JANSEY


- VONTADE DE AMAR
 
Agora que não resta mais nada além de velas,
                                                   Missas, cantos e orações,
O corpo se prende a tudo, arde em quimeras
                                                   De tristeza, de luto e alucinações;
 
É tudo mentira e o tempo nada muda,
A vida sempre foi da maneira como é:
O resultado de um acaso ou experimento
Que tem horário incerto de terminar.
 
A única certeza da vida é o sofrimento,
Em meio a preces de socorro e ajuda
Que raramente conseguem mudar
Os esforços tolos de um punhado de fé.
 
E seguimos tortos em colchões e pano,
                                                   Dormindo ou limpando a sujeira,
Alguns encobrem a tudo com um gesto insano,
                                                   Outros espanam a fina poeira,
 
É assim mesmo: ninguém podemos mudar;
Apenas tardiamente amadurecer
A idéia de dividir uns sorrisos
Enquanto a paz definitiva não nos alcança,
 
Neste caminho encontramos fardos e guizos,
As tantas maneiras de o homem viver
As dores, alegrias, conto e dança
Que se resume na vontade de amar.
 
JANSEY

- FADOS OCOS
 
Estes são os versos da tristeza,
Um punhado de sal e agonia,
Olhos que não alcançam o dia,
Dedos que congelam a frieza,
 
Pedaços de um eu que não se via,
Uma dor que ao nada está presa,
Que se alimenta da própria natureza,
Noite que de todas é a mais fria.
 
São os versos do meu coração,
Canções de morte e desconsolo,
Os sonhos vãs de um homem tolo,
 
Os fados ocos de uma vida
Em tom de única despedida,
Fiapos de uma colcha solidão. 
 
JANSEY

- PORTO CORAÇÃO
 
Todos os dias me levanto como quem se arrasta da própria cova,
Como quem perde as forças na batalha e acorda em cativeiro.
 
Olho por uma brecha na janela para ver se o sol já despertou,
E num esforço desumano me empurro para o chão,
 
Finco os pés na sandália e me obrigo a ir em frente,
Penso comigo mesmo: É o jeito, mais um dia, devo ir.
 
E essa cantiga nunca espraia, e a tristeza nunca se despede,
Com os anos as coisas não melhoram, apenas nos acomodamos,
 
Nos acostumamos a viver a vida assim como ela nos vem,
Nem a queremos diferente, nem a queremos mudar. Puro medo.
 
De fato, as vezes, queremos regredir ao passado,
Enquanto noutros dias queremos que tudo seja da maneira como sempre foi.
 
É a vida acontecendo bem diante de nossos olhos,
E os dias nos levam a reavaliar todas as escolhas que fizemos.
 
O coração desacelera e a ansiedade normalmente se acaba,
É que já não há motivos para ansiar (e nem motivos para esperar),
 
Com a ansiedade some, também, a esperança, e quase sempre a fé.
Os lombos se acostumam com os açoites, e a mente se desengana.
 
Um dia, qualquer dia, a qualquer momento, a mente arrefece:
Não há idéia que resista ao sofrimento.
 
Diante da dor vendemos a melhor das idéias.
Trocamos cada pensamento por um sorriso, cada lucidez por um sonho.
 
Idéias não são mais fortes que sinapses.
Quando o prazer desaparece a mente não tem mais motivos para pensar.
 
É que quando nossas convicções não nos trazem felicidade,
Começamos a questioná-las e confrontamos suas certezas.
 
Nada é tão sólido quanto a autopreservação.
Na iminência de perigo o homem torna-se seu próprio mercador.
 
Mas, quando esta dor é prolongada, quando o sofrimento se alastra,
O homem não vende a si mesmo, vende todos os conceitos.
 
É assim que as guerras começam, é assim que comercializamos o Divino.
E não podemos julgar os que o fazem... há dores inesquecíveis.
 
O que sublima em tais momentos é o amor por outro alguém,
Quando já nos tornamos adultos para entender que não estamos sós,
 
Quando não há minha vida sem a tua,
Quando não há meu pensamento sem a tua interpretação.
 
Eu sou produto da tua leitura.
E tu és o objetivo de minha escrita.
 
Eu sou a vela da tristeza e tu o mar da saudade.
Juntos nos dirigimos ao mesmo cais: porto coração.
 
Juntos somos a essência e o ente.
Eu sou um rio que deságua e tu és mar que me oceana.
 
JANSEY

- A VIDA É UMA ESTRELA
 
Algumas coisas já me deixaram
E nem mais me visitam,
Outras não falam comigo,
Eu sequer lhes ouço a voz,
Acho que é assim que tudo termina:
Indefinidamente solitário;
 
E não adianta procurar entender,
Tão menos me contra-argumentar,
Eu já tenho minhas rugas,
Não me fale sobre a saudade,
Não queira me ensinar sobre amor,
Eu conheço o que perdi e sei o que partiu,
 
Reconheço os passos da tristeza
Quando se espalham pela casa,
Acabou-se em mim tudo
O que um dia foi criança,
Tudo o que ainda me lembrava
O tempero de minha mãe,
 
Hoje é apenas sinapse
E alguns perfumes
Que me lançam em um passado
Distante e remoto,
Do qual nem reconheço os rostos,
Apenas ecoa no peito,
 
Ainda disfarço alguns fatos,
Escondo a opinião
Para não enxergar
Como de fato é,
E assim não discutir
A natureza das pessoas,
 
No fim tudo é solitário,
Todo pensamento é autosuficiente,
Ele brota de idéias
E idéias são meras ilusões
Que antecedem, as vezes em séculos,
O que um dia será visível,
 
Enquanto isso, carrego meu fardo,
Por mais que eu não queira,
Sou apenas outro alfaiate,
A multidão se espalha
E minhas peças não são melhores,
São a descrição do meu ponto de vista,
 
Quando o sol se põe tudo é cinza,
Quando a luz se apaga
Tudo é preto e branco,
As cores são a ilusão do dia,
O colorido de uma vida
Que só brilha enquanto o sol brilhar,
 
Assim, também, como tudo,
A vida é uma estrela,
Poeira que "algo" ou "Alguém"
Acendeu por mera distração,
Um relance de luz
No universo escuro,
 
É isso o que todo poeta é:
Uma chama de esperança na história.
Um oráculo que alguém descobre
Quando a alma entende
O frivolismo da vida,
O livro que alguém lê
                           Antes de fechar os olhos.
 
JANSEY

- TARDES FRIAS
 
Hoje já não me interessa mais nada,
O tempo passou e o que me resta é tristeza,
Eu só posso lembrar com vaidade
As escolhas boas que fiz,
E lamentar, com uma saudade
Que jamais será saciada,
As tantas outras escolhas
Que deixei de fazer.
 
Hoje eu não tenho mais curiosidade,
As coisas que eu queria ver
Algumas me lavaram os olhos
E outras são sonhos que levarei comigo,
Aquilo que eu queria saber
Algumas me enganaram
E outras me maravilharam,
Mas, todas são fumaça,
 
A parca ilusão que o homem
Abraça sobre o que desconhece,
Uma vaidade que recobre suas palavras
Quando nada mais são que desespero,
A ansiedade de explicar em teses
As fobias de seu próprio medo existencial,
Tudo aquilo que pode ser contado
Apenas por mera observação.
 
Eu já não tenho cobiça
E tudo o que almejei ter
De certa maneira conquistei.
Algumas foram duradouras,
Outras esforços de um dia,
Mas, todas passaram
E hoje eu as olho com desprezo
Porque nada mais fazem, senão ocupar espaços.
 
Hoje eu só posso admirar
Os lábios que jamais beijarei
E os que beijarei ainda
Por um tempo que
Está fora de minhas possibilidades
Contá-lo, pará-lo, guardá-lo...
Um tempo que não esperou
Que eu consertasse meus erros
 
E enquanto eu me levantava
De cada queda que eu levei
Ele continuava a contar meus dias,
E eu não o pude convencer
A esquecer as minhas tardes frias,
E com o seu desprezo eterno
Ele não observou a solidão
Que me cercava a alma e a vida.
 
E no ocaso de meu ser
Conjecturo os corações que não amei,
Os que nunca amarei, os que amo.
São todos iguais, todo amor é o mesmo,
Alguns nos criam feridas
E outros nos causam alegria,
Mas nenhum amor, permanentemente,
Nos faz bem o tempo todo.
 
Hoje eu já não tenho sonhos,
Já me deixou a força de realizá-los,
Tudo o que me resta é observar
As vidas das quais me afasto
E os ossos dos quais me aproximo,
A esperança que já esconde o sorriso,
A vida que já perde a beleza,
O descanso que já é cobiçado.
 
JANSEY

- O SOM DO GUIZO
 
Até quando irei lágrimas contabilizar,
Sufocar-me no próprio pranto
Alimentando a depressão
Com o som de minha tristeza?
 
Esconder meu rosto da alegria,
Apagar dos lábios todo riso,
Trocar a noite pelo dia,
Somar apenas prejuízo?
 
Eu já passei dos vinte anos,
Não tenho mais os pés galantes,
Já não sou o que era antes,
 
Não sou mais resposta às tuas dores,
Não sei mais o que procuramos,
Espero apenas mais tantos dissabores,
 
Dos olhos se apagou o que se via,
E ao longe, apenas ouço um guizo:
O som da morte, a foice fria,
A fuga da alegria, o aborto de outro riso.
 
Até quando nada irei desfrutar,
Envolver-me cálido em meu manto,
Olvidar qualquer alheia opinião
Enquanto afundo ainda mais nesta tristeza?
 
JANSEY

- QUALQUER POESIA
 
Todos os poetas escrevem a mesma coisa,
Descrevem o mesmo assunto,
Narram a mesma epopéia.
 
É o que ocorre a qualquer pena,
As rimas de qualquer poesia,
A tradução de qualquer saudade,
 
Todo sentimento é igual,
Toda dor é a mesma,
A diferença está
Entre a folha e o pincel,
 
É possível descrever tudo
Com a lampejo de um pensamento,
Mas, nem sempre no pano branco
Constam as mesmas palavras...
 
Um poeta não diferente do outro
A não ser na forma com que se traduz,
Nos gestos implícitos em sua poesia,
 
E eu não sou diferente de você,
Apenas não tenho medo de classificar
Em palavras a tristeza que me acompanha.
 
JANSEY

- A CANÇÃO DE UM MORIBUNDO
 
Já me levanto de minhas cinzas
E deixo para trás o desespero,
O peso que queimava minha alma
Nunca mais irá arder,
As lágrimas de sangue
Nunca mais derramarei,
Uma nova lua se levanta
Prefaciando outra primavera,
De minha carne morta
Os ossos caminham,
A mente prevalece
Contra tudo o que era angústia,
Tudo o que era medo,
Inevitavelmente desvanece,
As forças da tristeza desaparecem
E os calos dos pés ressecam,
Das folhas mortas nasce um sorriso
Que nos embriaga,
Um vento de esperança que ofusca
Um passado de crueza e solidão,
E enquanto caminho,
Encharcando os pés na areia molhada,
Deixo que as águas do mar
Lavem a barra de minhas calças
Desempoeirando meu coração,
Rejuvenescendo minha alma,
Apagando do rosto a idade,
Reerguendo meu corpo cálido
Das palavras de derrota atacadas,
Pois, ainda que a carne tremule
As pernas continuam se movendo,
Os braços ainda se sustentam,
As mãos enxugam as últimas lágrimas,
O coração sufoca o último choro,
E o triunfo do convalescido
Revira-se em um grito inaudível,
Um hino que prevalece sobre a derrota,
A canção de um moribundo que revive,
Um dia a mais, a face da decisão,
O dia em que a justiça se faz
Mesmo quando não é procurada,
E a língua seca recobra a fala
Enquanto um hino de alegria
Vara um céu de desespero
Embranquecendo toda noite
E alvejando qualquer ferida,
Limpando o caminho que ressurge
Enquanto reaprendo a caminhar
E respiro nova juventude
Nesta nova jornada que se espraia...
A canção de um moribundo
Acompanhada por novos batimentos,
Manhã de todas as cores,
Dia de todos os amores,
Versificando o tempo, nunca desisto,
Rimando a vida, sempre retorno,
Nascido para ser o que sou.
 
JANSEY

- CRIANÇA
 
Ontem eu me via em outro rosto,
Eu chorava, o outro rosto sorria...
A mente, em desafeto contragosto,
Antigas lembranças percorria.
 
A alma desfazia-se qual lama,
No peito aglutinava-se desgosto,
E quanto mais o rosto eu via,
Mais se apagava a minha chama.
 
Eu reprimira esta lembrança,
Continuara a seguir arrebentado,
Olhava as mãos, os pés, o chão,
 
O tempo que já vivo em solidão,
O choro que já tenho segurado,
As vagas e distantes intenções,
 
As tristes isoladas emoções
Que escondi no fraco coração,
 
Que com o tempo só têm maltratado
O pouco que restou-me de criança.
 
JANSEY

- PESSOAL TORTURA
 
Eu serei tudo o que você necessitar,
Qualquer coisa, qualquer um, seja o que for,
De todas as formas provarei o meu amor,
E aprenderei tantas quantas precisar.
 
Eu serei a brisa, a calma ou o mar,
Suportando e aliviando toda dor,
Te escondendo de qualquer dissabor,
Me esforçando para me eternizar
 
A fim de te poupar qualquer ventura,
E ser teus olhos na noite mais escura,
Prolongando, minha vida, até que, enfim,
 
Me digas que eu não me esforce mais, e sim
Que eu descanse a minha pessoal tortura,
Pois, agora, tu que cuidarás de mim
 
JANSEY

- OUTRAS FORMAS
 
Estou aqui, tenha calma.
O que poderá te acontecer?
O que vier, qualquer acaso,
Absorverei para nada te atingir.
 
Eu farei qualquer sacrifício,
Os meus esforços jamais mensurarei,
Existo para te fazer bem...
Nesta forma sempre te amarei.
 
Não quero nenhum benefício,
De ti nada requererei,
O teu abraço já tem
Tudo aquilo que precisarei
 
Para prosseguir e batalhar,
Vencer as feras desta vida
E deixar-te caminhar,
 
Fazer teu chão seguro,
Fazer teu riso mais puro,
Meios de venceres tua lida...
 
Tenha calma, estou aqui!
E mesmo quando a vida me deixar
Encontrarei outras formas
De continuar a te proteger.
 
JANSEY

- DESACATOS
 
Preciso ir para um lugar
Longe de meu coração
E ali me perder;
 
Um lugar no qual
Tempo e tristeza
Inexistam,
 
Em que eu possa esperar
Que minha alma se cure,
E, então, permanecer
 
Ali, em que não precise mais
Lutar ou vencer, onde as
Vicissitudes desistam
 
De me perseguirem
E atormentarem
Minha lucidez,
 
E os meus devaneios
Orvalhem o mundo,
Contos e fatos:
 
As misturas eternas
Do imaginativo e
Meus desacatos.
 
JANSEY

- MENTE CASTIGADA
 
A cada dia, a cada hora, venço minhas lutas,
E no mesmo tempo me aumenta a tristeza,
É como se um buraco não fechasse e as labutas
Se tornassem minha única certeza;
 
Será que um dia meu riso irromperá?
E de alegria se encherá minha alma?
E deixarei todo estresse e, então, a calma,
A minha mente castigada abraçará?
 
Até quando irei sorrir dos desafios?
Por quanto tempo serei apenas a vergonha
E como ferro velarei pelos meus brios
Para na noite ensopar a minha fronha?
 
Será que a vida é apenas a correria
Ultrapassando adversários, conquistando
Os sonhos consumeristas e revirando
As vidas que não vencem o dia-a-dia?
 
... Estes versos são apenas esforços silentes
Ecoando pelo tempo do ninguém para o nada,
Fatalistas, cultuando uma vida inacabada,
O ser humano que agarra a presa pelos dentes.
 
JANSEY

- ME SAIBA DESEJAR
 
Vou esperar o amanhã e o que será,
Reler as cartas, rever as fotos,
Lembrar das juras e, ao se dar,
Como era intenso, como era forte,
 
Vou arriscar a me perder,
E deixar tudo se acabar,
Quero saber se há algo mais,
Quero voltar a aprender
 
O que a vida me deseja
E respirar a nova brisa
Que o inesperado me oferta,
... De qualquer forma e como seja
 
Quero viver, viver e amar
Um novo rosto, outra beleza,
Que também me ame e queira,
Que também me saiba desejar.
 
JANSEY

- AINDA ASSIM
 
Chega de pensar no que seria se o que foi já se acabou,
Se foi um erro, uma aventura, só o tempo nos dirá,
Por agora, se o amor que tínhamos não restou
A amargura e o sofrimento não precisamos prolongar,
 
Não precisamos debater, nem nossas juras atacar,
Usar nosso romance não irá reviver o que murchou,
Cada passo que se der continuará a magoar
Ainda mais a história que você mesma assassinou,
 
Eu não irei quedar-me em tuas intrigas,
Eu já sofri o bastante, já chorei nossos lamentos,
Aceitei a derrota, murmurei as brigas,
 
Já basta, aprendi a levantar e prosseguir,
Levar a vida e sufocar os sentimentos,
Perder e lutar, amar e tentar-me existir.
 
JANSEY

- DE PENSAMENTO PARA ALMA
 
Ando tão amargurado que só quero amargurar-me,
Tão mortificado que só quero assassinar-me,
Depressivo de tal modo que só quero deprimir-me,
 
Com vontade de partir e um desejo de fugir-me,
Evadir-me desta vida e para sempre abandoná-la,
Desencontrar a minha alma e nunca mais achá-la,
 
Quero apenas apagar-me, inteiramente inexistir-me,
Ter-me dó e compaixão e nunca mais amar-me,
Destes laços de carne e sangue desatar-me,
 
Desta existência de angústia despedir-me,
A morte mais existencialista desejá-la,
Esta emoção de poeta despejá-la
 
Das águas turvas de meu próprio coração,
Vagar e vagar, perder-me e achar-me, e então,
Perder-me novamente e não mais procurar-me,
 
Até que esteja só em minha própria solidão,
Até que ninguém mais possa encontrar-me,
E em minhas cinzas a mim mesmo enterrar-me.
 
JANSEY

- ADEUS MUDO
 
Melhor se despedir assim, enquanto a gente se respeita,
Guardar em silêncio o que haveríamos de dizer,
Velar o sentimento que nos resta, e não morrer
Culpando um ao outro o que nenhum dos dois aceita,
 
É melhor assim, em meio a boas lembranças,
Posso não concordar contigo, mas, te entendo,
Não há culpa, nem mágoa... foram apenas se perdendo
As promessas e as juras, as coisas simples de crianças,
 
Vou seguir guardando um pouco de tudo,
O fim se aproximava com as rinhas, e bem sabíamos,
Então, foi bom o tempo e a história que vivíamos,
Melhor levar-te em mim neste adeus mudo,
 
E não é que exista indiferença, é apenas a verdade,
Que foi tão repentino... acabou tão rápido quanto veio,
E eu não vi formas de cultivar, nem outro meio
Que não abandonar e assistir pela saudade
 
Se duraria outro outono, outro inverno,
E nada mais havendo, por que o prolongar?
Ser adulto é saber, também, que ao amar
Tudo pode ser um céu, ou apenas um inferno.
 
JANSEY

- NUM ALÉM
 
Se eu estiver morrendo, o que é que tem?
Faço isso desde que eu nasci,
Piorou depois de amar alguém,
De modo que as vezes penso se morri,
 
O que passo não interessa a ninguém,
E se assim é, se assim já existi,
Não quero saber se não sei quem
Tem dó de mim porque nunca sorri.
 
É o que a vida é: nada engraçada
E a única coisa certa é lutar.
A única esperança é partir.
 
Se na vida eu não pude amar
Por que esta esperança de existir
Num além uma vida mais aliviada?
 
 JANSEY

- LOUCA DESPEDIDA
 
Um fio de loucura atravessa o pensamento,
Cavalgando a angústia e a tristeza,
Enegrecendo a força da beleza,
Aniquilando tudo num momento,
 
Da vida apagando o sentimento
De esperança, de trunfo e fortaleza,
Assassinando a esperança e a certeza,
Largando a fé num eterno isolamento,
 
É a hora suicida, o mar desesperado,
Tormentas sem azo e sem medida,
É o fim de um coração apaixonado
 
Que se entrega a dor que lhe acomete
E que a tudo de ruim se submete,
Enquanto morre nesta louca despedida.
 
JANSEY

- O VAZIO DO IMPOSSÍVEL
 
Um dia passa e tudo acaba,
A vida foge entre os dedos
E os olhos perdem os medos
De encarar a negra escuridão,
 
Um dia este mundo desaba,
E os sonhos se tornarão papéis,
E os ricos se tornarão anéis,
Moedas e mera distração,
 
É certo que esta tristeza irá
Um dia despedir-se de meu peito,
Sentado, lúgubre, em meu leito
 
Irei sorrir a última partida,
E despedindo-me das dores desta vida,
No vazio do impossível caminhar.
 
JANSEY

- FRAGILIDADE 
 
As vezes eu quero ser agarrado,
Sentir-me querido nos braços de alguém,
Ser um ente e da essência, um tanto além,
De lábios unidos ser beijado,
 
As vezes eu quero chorar,
Deixar a tristeza expor sua maldade,
Desabrochando minha fragilidade
Em sonatas de pranto e mar,
 
E decerto eu não quero mais nada,
Nem falar, nem ver e nem ouvir,
Desaparecer-me em cinzas e partir,
 
Deixar esta vida, esta dor, esta história,
Perder meus versos, a alma e a memória,
Enquanto me sinto uma pessoa desamada.
 
JANSEY

- TEUS PASSOS
 
Quando os meus braços não puderem mais te abraçar,
Quando eu tiver me tornado apenas ossos e pele,
E nem de longe consigas minha antiga beleza lembrar,
Deixa aqui as agruras, coloca um tango suave e leve.
 
Quem sabe eu calce os mocassins e comece a dançar?
Visto aquela calça xadrez, uma camisa que não serve,
Ensaio uns beijos, frases de efeito, versos suspirar,
E quem sabe os últimos passos o nosso amor sele?
 
Já não é a idade quem amedronta. É a saudade de tudo.
É a certeza momentânea. Toda certeza é passageira.
Diante do espelho todo arrogante é mudo,
 
Este galante quer só adormecer em teus braços...
Deixa que a partida seja como a primeira
Vez que me perdi em teus passos.
 
JANSEY

- MAIS QUE UM DUO

 

Quero ser de tal forma que não me existindo, não exista você,

Que desde os teus sonhos eu seja os teus pensamentos,

E que ao olhares por dentro, em teus sentimentos

Só exista a mim e nada mais a querer;

 

Quero ser o teu jeito de olhar, teu modo de viver,

Ser em tua história a tua vida e todos os teus momentos,

Quero ser tudo, sem pudor e sem fingimentos,

E mais que um simples pensar, eu quero ser.

 

Ser o cancro que corrói o teu coração,

A lágrima que já não consegues ocultar,

O gemido que soltas quando eu te possuo,

 

Quero mais que um casal, mais que um duo

De amores, de saudade, de tristeza e solidão,

Em nosso sexo o amor encarnar.

 

JANSEY

- COISAS DE MORTAIS

 

Que amor tão grande assim

Pode acontecer? Coisas de mortais,

Versos de papel, rimas de jasmim,

Ipês que se desfolham nos quintais...

 

Tu vieste a mim com risos e gracejos

E dei-me aos teus encantos, enfim,

Entreguei-me inteiro aos teus beijos,

Véus e buquês, rosas no altar: Sim.

 

O vento ainda dança a nossa dança,

Os hóspedes nos olham, todos invejosos,

Mas tudo em ti é meu, e obsequiosos

Olhares atravessam-nos, não cansa

 

A nossa história, nunca transpira,

Os nossos beijos jamais ressecam,

E os teus olhos, que dissecam

O meu corpo, a mente gira...

 

Gira! E gira tudo em nossa volta,

Só que o tempo nos esqueceu

E os dias congelados... Ó meu

Amor, te quero leve e solta

 

À sombra desta vida!

Sentir, teu corpo, realizei-me

E não conheço despedida

Atiro-me e atirei-me,

 

Eu fui vencido por amar-te,

Eu fui teu homem verdadeiro,

Possuído até amalgamar-te,

E neste poema derradeiro

 

Não quero nada de adeus,

Nem outro choro e nem história,
Nem outra vida e nem memória...
Só viver todos os beijos teus.

 

JANSEY

- AMOR DE PERSEU

 

Eu não quero sair do teu lado,

O teu sorriso é a minha conquista,

Toda a distância que minha mente dista

É o tempo que dura entre o beijo e o beijado,

 

Eu não preciso ser muito amado,

Apenas que te lembres que eu exista,

E nestes lampejos de saudades, tua vista

Se encontre com meu coração apaixonado,

 

Eu só quero ter-te ao meu alcance,

E na cama, dormindo, em tua pele encostar,

Agarrar tua cintura, cheirar teus cabelos, amar,

 

Recolhendo teu corpo para o meu,

Buscando em cada instante uma chance

De me fazer mais inteiro e per-seu.

 

JANSEY

- APRENDIZ INSUBMISSO

 

Sou o poeta da angústia, a pena da tristeza,

A minha vida é reflexo do nada, plena insegurança,

Há sempre ausência de sorriso e de beleza,

Há sempre motivos que o coração cansa,

 

Eu sou a vaga solitária que a noite dança

Enquanto chora um rio de incerteza

Sufocando de si a própria natureza,

Acalmando a dor que nunca amansa;

 

Eu sou o véu que encobre a amargura,

O amante anônimo da loucura,

Um aprendiz insubmisso do amor,

 

Que nunca é correspondido no que sente,

E que por mais que o objeto intente

Sempre acaba abraçando a própria dor.

 

JANSEY

- NOVA AURORA

 

Dentro de quatro paredes me fecho

Que aos poucos tomam meus sentimentos,

Aquilo que meus olhos viam me prendendo

É trasladado para o meu coração,

 

Passo a ser privado de minha própria ilusão,

E os sonhos de amor vão se perdendo,

A cada passo que dou, menos me mexo...

O tempo leva meus melhores momentos.

 

O meu coração se debate e implora

Por um pouco de paz e liberdade,

Em mais dias desta breve mocidade

Ao teu lado romper nova aurora.

 

Ah, se eu pudesse interromper a idade!

Poderia prolongar para sempre o agora,

Rebanhar as lágrimas de quem chora

Por causa da tua feminilidade,

 

Estou preso por dentro e o corpo livre.

És o único prazer que desfrutei,

E hoje meu coração não sabe mais amar,

E eu não quero ninguém mais além de ti.

 

Se eu não estou ai e não estás aqui,

Não há porque este fardo prolongar,

Perdi. Perdi o maior amor que já tive,

A pedra preciosa que encontrei.

 

JANSEY

- ANTES QUE POSSAMOS NOS AMAR


Quando me amar, se faça por inteira,

Não me rodeie com desculpa ou saída,

O romance alcança apenas a primeira

Atitude estúpida e atrevida,


Não me venha com lições de sua vida,

Cada um tem sua própria macieira

E mesmo que lhe seja a derradeira

Pouco me importa se é vivida,


Então, só me ame e deixe tudo acontecer,

Você não sabe o que amanhã se espera,

Esta rosa pode ser a última quimera,


Este sonho pode logo se acabar,

E a vida inteira apodrecer

Antes que possamos nos amar.


JANSEY


- VERSOS DE ENTARDECER


Entreguei meu coração a quem não soube cuidá-lo,

E isto me fez sofrer na vida mais do que sorrir,

Fez-me desprezar o ontem, o agora e o devir,

Fez-me buscar algo que não pude encontrá-lo,


Antes chorava e hoje afogo meu pranto,

Engano o meu coração com atividades pueris,

Disfarço o meu orgulho com decrépitos e senis,

Não atraindo atenção, inveja ou encanto,


Busquei outras metas, outros objetivos,

Achando que me fariam superar o vazio

E por mais que a tudo lhe faça com brio,

Nada me fez esquecer meus antigos motivos,


Para não enlouquecer ou desaparecer

Fixei os meus olhos nos sorrisos alheios,

E, depressivo, expressei meus anseios

Através de rimas e versos de entardecer,


Me aproximei do outono, amei o inverno,

Deixei a mente sofrendo longe do peito,

Pois, já que não havia outro jeito,

Apenas um deveria viver no inferno,


Já que nasci com este carma, esta sina,

De ser incompreendido e desamado,

Não posso evitar o destino traçado,

Mas, posso renascer em cada rima.


JANSEY


- MAZELAS


Tornei-me a canção da tristeza, o tom do enfado,

A melodia macabra que passeia a poesia,

Trouxe os temores da noite para o dia,

Cantei as agruras da vida em um único fado,


Segurei o tom com-passo e descompassado,

Escondi as lágrimas, fingi que não via,

Disfarcei minha dor com manifesta fantasia,

Até que a morte deitou do meu lado


Se chamando noutro nome, um tanto diferente,

Sorriu de tais mazelas, brincou calamidade,

Se dizendo nada, senão minha saudade,


Reclinei em seu ombro, busquei por consolo,

E nada achando, tornei-me este tolo

Que nos versos narra o que sente.


JANSEY


- MENTE OCA


Quando meus olhos tocaram os teus

E eu me perdi nas palavras, gaguejei,

Esqueci de falar, só sorri, confessei

Com o medo que havia algo mais;


Como um presságio, como se Deus

Houvesse ordenado, assim, te amei,

Instantaneamente eu me entreguei,

Perdi minhas forças e, hoje, a paz;


Procuro teus olhos... teus olhos que amo,

Tateio teu corpo, desnudo minh’alma,

Longe dos teus braços não há outra calma:


O corpo inerte e a mente em você.

Sonâmbulo te quero, dormindo te chamo...

A tua beleza quero em mim esconder;


E foi assim que a vida escolheu:

Amores ainda surgem do acaso.

E eu, que de um indigente não passo,

Palpejo teu carinho qual adolescente,


Sujeito-me até ao que não é meu,

Disputo ansioso o desfecho do caso

Pelo qual me esforço, por quem tudo faço

A fim de teu corpo me ser pertencente,


A fim de a idade chegar ao teu lado...

Renovar os meus anos em tua boca,

Afogando-me em beijos, a mente oca


Se afastando da tristeza, da saudade,

Já que agora és meu último fado,

Ao teu lado há só felicidade.


JANSEY

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