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Podem não colocar no papel, mas, não me impedirão de divulgar
 
 
 
UM OUTRO CRISTO
 

 

PRELIMINARMENTE

“Nunca está mais escuro do que quando está para chegar a manhã” – Provérbio popular

 

Este é um trabalho singelo. Acredito que seja muito mais um ato de confissão que um conteúdo teológico. Há em mim um sentimento de dívida e obrigação. O primeiro, para apresentar à nação cristã a realidade de algo que tem aparência de correto, mas, está edificado sobre erros. O segundo, conhecedor destes fatos não poderia carregá-los comigo em silêncio.

As instituições religiosas atuais fazem vista grossa a uma série de pecados que jamais foram tolerados nos ensinos bíblicos. Percebi que, se opondo ao Evangelho da Graça, a igreja evangélica desfruta hoje do evangelho da desgraça. Esta ausência de graça, de harmonia, de irmandade tem se difundido rapidamente. O legalismo e a intolerância na comunhão, enfim, posturas pseudo-moralistas, são mais admitidas nos meios evangélicos que o amor e o perdão, na semelhança do que aconteceu durante o ministério de Jesus. O que piora é que, não sendo mais um legalismo, essa postura remove a Lei e a graça, e apenas cerca de paparicos alguns privilegiados, ainda que eles estejam com suas vidas adormecidas no pecado, contudo, o investimento neles é maior por força do retorno, enquanto que capacitados e genuinamente dedicados são usados para manutenção do corpo que se ensoberbece e engorda ao bel prazer pessoal.

A vida cristã atual é tão contraditória que alguns utilizam textos da Lei ou versos que concedem larga interpretação para defender o próprio pecado que cometem, não lembrando o brocardo que ensina “ninguém pode usar a própria torpeza em seu benefício”. No lugar do perdão da graça (Mt. 5:39 e 18:22), há a intolerância da lei (Ex. 32:33; Lv. 4:1 a 6:7). A Lei e a Graça são inconciliáveis, mas, o povo de Deus, debaixo da Graça, quer agir conforme a Lei, na semelhança do que os apóstolos, debaixo da liderança de Pedro, queriam fazer antes dos esclarecimentos de Paulo sobre a desobrigação do legalismo véterotestamentário. É de bom tamanho ainda ponderar que a Lei não é o decálogo, ou seja, os dez mandamentos, a Lei é o livro de Levítico e todos os ritos e obrigações que permeiam o entendimento da nação judia em seus primeiros meses de vida. Para a formação jurídica do povo de Israel foi necessário que a Justiça sobressaísse ao amor, a fim de redargüir o povo. Todavia, depois do alicerce da nação, o amor é o resumo da Lei (Mateus 5:43 e 44; Marcos 12:31; Romanos 13:9; Gl. 5:14).Mesmo na Lei, a intolerância não tem funcionalidade contra os próprios judeus (Levítico 19:18), ao contrário dos cristãos que se destroem. Na verdade, a igreja ainda não aprendeu a amar.

O amor é a força da casa de Deus, porém, muitos ainda se encontram com os corações contaminados e as almas corrompidas pela sede de vingança, de sucesso e de conquista, contrariando aquilo que está depositado nos textos neotestamentários (I João 2:10,15; 3:10,14; 4:7,8,20,21). O evangelho da desgraça é comum em nossos dias, apesar de não ser bíblico, porque é ausente de amor e completo de ganância e egoísmo. As igrejas têm se destinado ao exercício e prática de fé que não se enquadram nos parâmetros bíblicos, distorcidas pelas vicissitudes do dia-a-dia. O meu desejo é que cada leitor acompanhe cada capítulo com a Bíblia em punhos. Costumo escrever com respaldo. A minha teologia é assim, apesar de não ter religião.

Eu não sou ateu, sou um cristão isolado. É por isso que neste trabalho me dispus demonstrar a verdade, o que acontece realmente quando estamos na liderança de uma denominação. Eu não quero com isso motivá-lo a abandonar sua fé. Quero abrir seus olhos, fazer com que entendas que nem tudo que reluz é ouro, nem todo aquele que ora é santo, nem todos os caminhos levam a Deus. Estas páginas, também, não são o testemunho de uma mágoa. O meu coração está limpo. O que aqui será apresentado não representa um calo ou um espinho em minha vida. Eu apenas não quero ser desonesto com a humanidade. Eu não quero que muitos se percam por acreditar em palavras de falsos profetas. Acima de tudo, não quero permitir que se propale um Jesus que não É bíblico, uma teologia deturpada e gananciosa. Eu não quero que nenhum se perca, porque esta é a vontade do Pai (João 6:39).

Desejo que os leitores deste opúsculo se conscientizem do problema que é o evangelicalismo.Da atual situação na qual o protestantismo se encontra não é mais possível determinar se a reforma de Lutero foi uma benção. Com isso não quero taxar ninguém de herege ou hipócrita. A condição do coração apenas Deus conhece (Salmos 44:21), e entendo que a intenção de Lutero foi legítima. Porém, pretendo demonstrar que há sérios prejuízos ao Cristianismo a ausência de um órgão regulador no protestantismo.Ao escrever esta obra não me preocupa a idéia futura que terão a meu respeito. Preocupa-me, tão-somente, a compreensão que terão desta obra e a libertação que a mesma possa provocar nos corações atualmente aprisionados por falsas promessas, inverdades, achismos e ventos de doutrina. Oro ao Senhor para que os efeitos pretendidos sejam alcançados.

 

nEle e para Ele,

 

JANSEY.

 

 

CAPÍTULO 1

No lugar de unidade, confusão

 

“O último cristão morreu na cruz”- NIETZSCHE

 

O evangelismo é o início de qualquer trabalho ministerial. Por evangelismo entendemos a abordagem de transeuntes em vias públicas, indivíduos em veículos, atos públicos de divulgação do Evangelho, ouvintes de rádio ou televisão, etc.. Entre as táticas estão a panfletagem, carros de som, eventos públicos, louvores, etc.. A idéia é ser breve. Um ataque sucinto e certeiro, alcançando a pessoa naquilo que ela mais necessita ouvir ou aceitar. A abordagem direta a transeuntes sempre me foi o método mais eficaz. No confronto pessoal torna-se mais fácil perceber as intenções, o interesse e a expectativa das pessoas. Semáforos e paradas de ônibus, áreas de grande concentração, são as mais favoráveis situações. Assim, nestes evangelismos rotineiros, em uma parada de ônibus, conheci uma jovem que nunca me saiu da lembrança. Eu a abordei, como de praxe, pedi-lhe alguns minutos para falar-lhe de Jesus. Gentilmente ela se dispôs e ouviu tudo o que eu tinha a dizer, até culminar no convite para um dos cultos de nossa igreja. Jamais foi de meu feitio convencer a pessoa à conversão, e explico bem isso adiante. Logo após concluir toda a exposição da obra salvívica de Jesus, aquela moça, olhando-me nos olhos, disse que entendera tudo, só não entendia o motivo de no meio evangélico haver tantas denominações.

É evidente que na ocasião eu me sai com uma daquelas desculpas de diferenças doutrinárias - algo que, também, não explica nada, já que se há um só Deus, um só Senhor, um só batismo (Efésios 4:5), não deveria existir nenhuma divergência doutrinária - mas, sequer a mim mesmo me convenceu. Ruminei aquelas palavras por meses. Por qualquer motivo, aqui ou ali, sempre retornavam à memória. Aos poucos pesaram na alma e se constituíram palco de dúvida e desolação. Eu sabia a origem das denominações, sabia as diferenças entre elas, mas, não sabia porque, mesmo assim, existiam. Será que ao longo de todos estes séculos os protestantes jamais tentaram uma coligação por razões tão pueris? Ora, a palavra religião não é religar? Então, por que tanto separatismo? Estes questionamentos me levaram a pesquisar um pouco da realidade eclesiástica brasileira. Os números são assombrosos.

Cada ano, apenas no Brasil, são mais de duzentas novas denominações país afora. Destas novas igrejas, mais de noventa por cento provêm de cismas. A religião que se diz verdadeira não possui unidade. Jesus ensinou que um reino dividido não subsiste (Mateus 12:25). Este mesmo Jesus Se tornou parte de incontáveis dissídios.As desculpas para tantas denominações não possuem horizontes, nem lógica. Nascem desde pequenas divergências por pontos de vista diferentes, para grandes escândalos como adultérios. Cada qual quer ter razão e, assim, não há diálogo. A liberdade que existe na eclesiologia protestante é uma doença. Algumas pessoas se dizem “chamadas” para iniciar uma “obra”. Esta “obra” seria um novo ministério, o qual, comumente, tem início na garagem ou no terraço de casas, ou áreas de lazer de condomínios. De lá, alguns desgostosos com a própria igreja, somam-se a pretensos líderes, e iniciam um novo ministério, uma nova denominação. Quando não é esse o caminho, algum líder comete um sério pecado, ou rixa bruscamente com seu companheiro de ministério. As rixas se dão por questões nada relevantes, como aspectos doutrinários. Estes ex-companheiros cismam a igreja, uma parte permanece com aquele fiel à denominação original. O punhado que diverge inicia um novo trabalho com o outro líder. Infelizmente, este último é o caso mais comum.

Acredito que esse não era o objetivo ou o motivo das orações de Lutero. Deveras que sequer passava por suas idéias que aquela revolta protestante serviria de aio para uma miríade de denominações. A verdade é que, diga-se o que disser ou ache-se o que achar, esta criatividade protestante para nomes eclesiásticos não é uma benção, é uma maldição, é uma vergonha.É extremamente ridículo que não haja unidade entre os protestantes a ponto de a rixa entre presbiterianos e batistas ser tão acirrada que há intrigas e muitos nem se falam, por exemplo. A pergunta daquela jovem ainda ecoa e, se hoje eu pudesse revê-la, se eu pudesse retroceder as horas, eu diria que estamos errados e que ela está certa, que não há resposta para a sua pergunta. Hoje eu reconheço que estas denominações existem não por orientação de Deus, mas, por capricho de homem. Existem porque há líderes que não possuem humildade, cristãos que não policiam seus líderes, irmãos que não sabem se amar.

É uma palhaçada e isto tem envergonhado o Reino de Deus. Os protestantes têm confirmado as palavras de Jesus em Mateus 12:25, dão claros sinais da incapacidade de subsistirem como corpo graças às suas divergências.Diante de tanto erro, de tanto jogo de interesses, não causa alarde ouvir de cristãos o desprazer para frequentar uma igreja atualmente. É normal, é inteiramente compreensível que as igrejas percam o crédito que mantinham no passado e não sejam mais referência. Por isso, é de suma importância que os protestantes reconheçam que há certos conteúdos bíblicos que não devem ser lecionadosa todos os fiéis. Quando alguns mistérios teológicos se desfizeram aos olhos da ciência, a incredulidade aumentou. Melhor que tivessem permanecido inexplicáveis. O mais importante é que a Igreja Protestante perceba que ela mesma não é a resposta da oração de Jesus (João 17:21-23). A falta de unidade é um pecado grave, aliás, é abominável (Provérbios 6:16-19).

Durante o meu chamado, em certa altura de meu ministério pastoral, desenvolvi trabalhos missionários em outro Estado brasileiro. Acompanhei, pessoalmente, o interesse de um determinado pastor, com o qual trabalhei, em romper com a igreja mãe, localizada no Rio de Janeiro, unicamente para não submeter-se à autoridade do pastor presidente. Ocorre, porém, que este pastor presidente não apenas apoiara e dera uma congregação para o pastor com o qual eu trabalhava, como, também, lhe assistia pessoalmente, orientanado e dando total liberdade de atuação. O pastor presidente fizera tudo, incluindo apoiar moral e financeiramente o curso daquele pastor no seminário local.

Enfim, para romper com a sede, como de praxe, o pastor desculpava-se sobre posição doutrinária divergente. Enquanto ali estive o dissuadi a não fazer aquilo, primeiro porque eu via sua ganância e seu orgulho, segundo porque eu não acredito em divisões. Contudo, durante um culto ali realizado, vi o chão da igreja rachado desde a porta até o altar. Por não coadunar com aquele pensamento, ausentei-me e pedi para deixar os trabalhos. Ao partirdaquele ministério as coisas já não andavam bem e, recentemente, soube que o pastor realizara seu sonho e rompera com o pastor presidente. De semelhante modo, um dos casos mais escandalosos do qual tomei ciência foi de um pastor muito conceituado na Paraíba. O pastor amado por uma multidão, em uma fase de tratamento médico, envolveu-se com sua enfermeira pessoal, deixou a mulher, cismou a igreja e abriu outra denominação. O fanatismo de alguns por este pastor era tamanho que mais da metade o acompanhou, mesmo ciente de seu adultério.

Maquiavel dizia que cada povo tem o governo que merece. Decerto que muitos seguidores de líderes imorais têm a mesma natureza que seus líderes e os seguem para justificarem os próprios pecados. É certo que não podemos perder a fé na igreja, mas, isto não quer dizer que devamos abrir novas igrejas para manter a fé. Esta liberdade eclesiástica tornou-se amoral no protestantismo. Inexiste qualquer princípio de probidade, ética, zelo bíblico, temor a Deus ou respeito mútuo. A igreja tornou-se um mero negócio. Quando dá certo, continua. Quando não dá, abre outra.A liderança evangélica não aceita confrontos, não rebate questionamentos e não se explica diante de certas realidades. Usa a fé como algo irracional para fugir das interrogações racionais, contrariando o que disse Paulo (Romanos 12:1). A fé não se dedica a entes físicos, contudo, responde às indagações do eu e da alma, saciando as dúvidas cruciais e existenciais. Ora, um Deus que não responde ou não se explica ao seu próprio povo, não é um Deus, é um ditador.

Acerca disto os judeus lecionam com maestria. Observe que quando Jeová se revela aos hebreus pós-exílio egípcio, começa demonstrando qual a Sua vontade, o Seu caráter e a Sua Lei. Deus, em momento algum, permanece misterioso, inacessível ou incomunicável. Ele determina os caminhos pelos quais Será Achado, a forma com a qual Será Adorado e amaneira que Seu povo deverá viver. Isto demonstra que Deus não É irracional, ilógico ou desvairado. Ao contrário, Ele É bastante organizado, racional, lógico e determinado. Desumindo, Deus não saiu por aí ordenando que o povo conhecesse a Palavra, interpretasse como bem entendesse e fundasse novos centros religiosos, tanto é que, mesmo havendo vários segmentos dentro do judaísmo, eles não se dividiram em denominações, mas, em formas de interpretação e pensamento.

As seitas judaicas não eram separatistas no culto, apenas nas idéias. Em contrapartida, os cristãos protestantes são separatistas nos cultos e nas idéias. Isto é um absurdo, pois, como pode um único Deus ser adorado de tantas maneiras diferentes? Ele não tem gosto? Ele não determinou como seria adorado?Assim, as várias denominações demonstram a irracionalidade da religião protestante, que difundiu a mensagem do Evangelho de forma aleatória e não conclusiva. Uma fé inconclusiva não pode ser uma fé salvívica. Quando até os seguidores não sabem sequer no que devem crer, esta fé jamais produzirá efeitos salvívicos. Um falso Cristo não é apenas um homem que quer tomar o lugar de Jesus, mas, também, um Cristo anunciado sob falsos preceitos. Um Cristo anunciado através de uma teologia inverídica e antibíblica.

 

 OLIMPÍADAS PASTORAIS

 

Acredito que precisarei ser um pouco mais pessoal neste capítulo, é imprescindível. Caracterizar desavenças ministeriais requer uma experiência própria, que atravessou o amargor de conflitos eclesiásticos. Quando se está por trás dos bastidores a verdade se torna mais aparente. O conhecimento de certas verdades não liberta, mas, abate. É triste aperceber que o cristianismo, uma religião baseada em amor e comunhão, sobrevive de ódio e desunião. Eu fui pastor, não o sou mais. Em momento algum perdi a fé em Deus ou abandonei o Senhorio de Cristo. Apenas não tenho mais um rebanho para pastorear, ninguém me oferta um pasto, um trabalho, um apoio. Algumas lideranças procuraram, a todo custo, me calar. Alguns desgostosos com o tipo de trabalho que iniciei, no qual, por exemplo, não havia o recolhimento de dízimos e ofertas e o templo em que pastoreei foi edificado com recursos familiares, e não alheios. Outros, premidos de inveja, armaram ciladas, espalharam mentiras, difamaram a todo custo. Destes eu contemplei a queda. É uma lei pauliana. Mas, o desfecho disto foi traição e, desde então, indiferença.

Deveras que posso dizer que todos me desampararam, menos o Senhor. Em minha caminhada muitos me olharam como uma ameaça. Eu não me vendia, eu não me omitia, eu não me calava. Isto irritava as lideranças. A primeira denominação com que trabalhei se opunha ao meu ministério com desculpas esdrúxulas. A segunda, porque eu não me formara em seminário daquela respectiva denominação. E assim continuou. Demorei até perceber que todos queriam me calar. Para não diminuir a minha luta, fui traído no ministério que eu mesmo iniciei, edifiquei e construí. A luta, em várias fases, parcia descomunal, desproporcional. Por anos eu não entendi o motivo do meu sofrimento. Eu apenas queria servir ao Senhor de acordo com o que Ele ensina em Sua Palavra. Eu apenas fui verdadeiro, seguindo o conselho bíblico, falei nos olhos, falei em aberto, não fui omisso. Hoje, escrevendo este livro, eu entendo o porquê do que passei. Hoje, eu percebo que sofri o que sofri para escrever este opúsculo e apresentar a todos a verdade e as vergonhas que o Cristianismo tem padecido por causa de falsas doutrinas, de falsos pastores, de teologias diabólicas. Em todo este tempo, ninguém jamais me procurou. A igreja evangélica não sabe ir atrás da ovelha que erra o caminho. Muito se fala e pouco se faz. Algumas igrejas beiram o farisaísmo, que com os lábio ensinavam algo que com a vida não demonstravam. Alguns chegam a decorar centenas de versículos sem, contudo, aprender o significado que possuem. O Papa João Paulo II desculpou-se com o protestantismo, em nome da Igreja Católica Apostólica Romana, pelas perseguições do passado. A liderança da igreja protestante, hoje, deve desculpar-se com a humanidade e com as centenas de corações ludibriados e fragilizados.

Há alguns anos, tenro ainda em meu ministério, estive pregando em certa igreja conhecida do Brasil, bandeira denominacional de uma antiga, famosa e popular linhagem evangélica. O sermão que eu separara para aquela noite era sobre o novo nascimento. Para minha exposição tomei por base o texto de I João 1:6. Pensando eu me dirigir a pessoas que tinham o anseio de viver com Deus, introduzi acerca da dependência para com Deus e do desprezo que o cristão deve ter pelas coisas do mundo. Atalhei com a parte histórica da epístola de I João, como reza um bom sermão expositivo e, então, passei a discorrer sobre os tópicos que elaborara. De início, falei que nem todo aquele que é usado por Deus é filho de Deus, baseando o argumento nos versículos de Mateus 7:22 e 23. Depois, expliquei que Deus não se mistura com as obras das trevas, apesar de amar ao pecador, baseando o argumento no texto de I João 1:5 e, por isso, não adianta estar na igreja aos domingos e no mundo durante todos os outros dias da semana. Por fim, expliquei que para que sejamos salvos não é suficiente que sejamos membros de alguma denominação, antes é necessário andarmos em perfeita luz e santidade, baseando-me no texto de Hb. 12:14.

Desci do púlpito crendo que tinha, de fato, pregado um bom sermão, e satisfeito com a exposição não enfadonha e bíblica que fizera. Ao fim do culto, o pastor me cumprimentou. Alguns irmãos vieram, também, me cumprimentar. Quando ninguém havia por perto e estávamos, eu e o pastor daquela igreja, a sós, este último me disse que eu havia “pregado a Bíblia, mas que o povo não necessita deste tipo de mensagem”. Entrei em questionamento pessoal e deixei escapar a pergunta “o senhor está a me dizer que o povo não precisa da Bíblia? De que, então, necessita? Não está escrito que sem conhecimento o povo perece (Os. 4:6)?”. Aquele pastor, já no exercício ministerial antes mesmo de meu nascimento, disse-me que eu era muito novo para entender, e que ao chegar na liderança entenderia. Bem, os anos se passaram e cheguei na liderança e o teor de meus sermões não se alterou. Contudo, percebi que nem todos gostavam de ser confrontados e, na época de meu pastorado, observei que as pessoas retornavam mais a igreja após uma mensagem simples e amistosa, do que quando as mensagens eram bíblicas e confrontantes. Percebi que aquele pastor, que anos antes comentara acerca de minha “imaturidade”, estava a tratar de política e não de cristianismo. O grande agente que decepciona o convívio evangélico é o trâmite político que se mantém em alguns meios. Existem líderes com ares presidenciais, que gerenciam, governam e criam normas, e a grande parte da população se afeiçoa a este tipo de liderança.

Anos a frente, iniciei um período missionário em minha vida, após uma problemática disputa invejosa por parte de alguns pelo ministério que eu liderava, ao qual, a fim de que não escandalizasse ou se perdesse totalmente, entreguei para que outros assumissem. Ademais, o sofrimento que eu padecera nos quatro anos anteriores tinha enfraquecido e muito minha disposição. Na congruência de tantos fatores, minha primeira esposa me abandonou e, assim, ainda que ela não participasse de minhas aflições, quedei-me inteiramente a sós em adversidades desproporcionalmente maiores que eu. Minha vida familiar tornou a ser abençoada com novos laços contraídos, porém, daquele ministério preferi me desligar. O que ali aconteceu foi vergonhoso, e entendi que existem mais interesses políticos que espirituais na casa de Deus.

A fase que o período missionário iniciou em minha vida foi ainda mais reveladora. Precisei auxiliar um parente muito próximo noutro Estado do país, aliás, a mesma pessoa que me invejara e me traíra durante meu exercício pastoral. Diante da peculiar e difícil necessidade que esta pessoa enfrentou, prontifiquei-me a ajudar-lhe, quando, caso eu me recusasse, ela certamente morreria, pois a mais ninguém tinha ao seu favor. Outramente, fui forçado por ambiente familiar a iniciar nova vida e precisei mudar-me para ajudar tal pessoa. Nesta mudança entrei em contato com ministérios pequenos, não menosprezando a nenhum deles, só que, quando comparados aos ministérios nos quais trabalhei anteriormente são, em proporção de bens, membresia e abrangência, menores, e é a isto que me refiro às dimensões que possuíam.

As denominações com as quais trabalhara anteriormente – Batistas, Presbiterianos e Puritanos - eram ministérios com prédios próprios, centenas de membros e vários líderes e pastores. Assim, envolvi-me com ministérios individuais, templos pequenos e alugados e apenas um líder para um rebanho que não ultrapassa 60 pessoas. Claro que sou conhecedor de que a quantidade não indica a qualidade, estou apenas identificando a mudança ministerial que Deus depositou em meu coração, para compreensão do leitor. Nunca me abalei com dados e estatísticas, creio que Deus opere aonde Ele queira. Isto não me turbou, porém, turbei-me profundamente quando descobri que, mesmo em proporções menores, as coisas tendem a se repetir, e ainda podem piorar, como de fato ocorreu.

Eu trabalho no Reino de Deus desde os 13 anos de idade, desde o dia 02 de Agosto de 1992, e de lá até a presente data não tiro férias. Desisti de todos os projetos que formulara. Repentinamente Deus mudou minhas perspectivas e abri mão de todos os meus sonhos, o que muito entristeceu meu pai. Afastei-me das companhias seculares nas escolas e faculdades, conduzindo toda a minha vida apenas para o Senhor. Comecei a pregar o Evangelho no dia 09 de Novembro de 1992. Por todos os ministérios pelos quais passei e trabalhei resta a saudade recíproca. Jamais fomentei contendas, orgulho-me de nunca haver recaído sobre mim qualquer tipo de disciplina, e ainda mais prazer tenho em dizer que jamais abandonei uma denominação com a qual trabalhei, antes, sempre que mudei de igreja foi porque me convidaram a exercer funções ministeriais noutra localidade.

Eu cresci em um lar sobejante. Tudo quanto possa um filho sonhar, o meu pai proporcionou-me. Todavia, ao ouvir o chamado do Espírito de Deus, imediatamente obedeci, abandonando todo conforto e segurança que a casa e a proximidade de meus pais proporcionavam-me. Desta maneira, o tamanho ministerial, o respaldo, a desenvoltura, a liderança, as condições, não me impressionam. Dos tantos cursos que fiz, preferi permanecer aonde Deus me queria, ao invés do local para o qual os meus diplomas me direcionavam. Logo, a mudança de ambiente não me causou outro sentimento senão alegria. Meus sonhos ministeriais se resumem a dois: obedecer e permanecer. Obediência para estar aonde o coração de Deus me leva, e permanecer na presença de Deus independente das situações. Contudo, apesar de inteira e felizmente dedicar-me ao ministério que brotava em minha vida, descobri outro contexto político nos meios eclesiásticos.

Nos ministérios com os quais vim a trabalhar ambos estavam necessitados de apoio, e ambos duvidaram de que Deus pudesse haver encaminhado mão de obra qualificada em apoio. Submeti-me a alguns exames rotineiros, como que para testificar a veracidade do singelo auxílio que Deus enviara. Após tal período, iniciei um trabalho docente que constituía na implantação de um seminário interno, para formação de líderes, modulando um bacharel em teologia para que fosse apresentado em 02 anos. Implantar o Bacharel em Teologia Concentrado, que dura 02 anos através de 12 módulos, foi prazeroso e não me causou problema.

Em troca da implantação do curso, que seria minha “tenda”, eu deveria auxiliar na liturgia dos cultos e no desenvolvimento dos trabalhos eclesiásticos. Evidente que, alegremente, também, me disponibilizei. Ocorre que naturalmente ganhei o carisma das igrejas, e isso enciumou os pastores que, então, jamais haviam trabalhado com outro líder ministerial. Este ciúme tornou-se perseguição com tolhimento, e tudo o que fôra pactuado, gradativamente foi minguando, com duplicidade de conversas, gerando um ambiente que me causasse indisposição, até que me visse obrigado a sair. Para não prejudicar o andamento do Reino de Deus e do ministério do próprio líder naquela comunidade, percebi o plano precocemente e sai rapidamente.

Noutra igreja houve uma politicagem ainda maior. O hábito do pastor local era a tolerância, e advertências por indiretas ou palavras dirigidas, prática essas aéticas para os padrões morais do cristianismo. Observando o que acontecia, percebi que minhas capacidades e informações passaram a servir apenas quando necessárias. Por outro lado, o seminário implantado seguia em bom andamento, e como o líder pastoral daquela denominação não tinha chamado à docência, pude suster-me sem maiores complicações. Nas liturgias dos cultos, porém, acontecia diferente. Em cultos para os quais eu era chamado a pregar, de início havia incontáveis oportunidades, tudo para restringir meu tempo e ofuscar a mensagem que Deus me dera. Nos cultos em que aquele líder iria pregar, só havia louvores e a mensagem. Destarte, sempre que necessitava de uma idéia ou um conselho, eu era a fonte de recurso a ser consultada. Nesse ambiente, foi possível conviver, fazendo-me de tolo e não me atendo a tais joguetes.

Os esforços que desenvolvi para manter-me ali, tentando auxiliar o ministério, foram desgastantes. Este é um parágrafo no qual quero aconselhar aos pastores que recebem co-pastores. Enquanto estive nessa segunda igreja, sofri horrores. Os membros, amáveis, gostavam de identificar a igreja pelo amor e pelo carinho que tinha. Porém, nos bastidores, a coisa era diferente. Como co-pastor, eu fui várias vezes lembrado de quem “mandava ali”, pois o pastor titular tinha o hábito de repetir que “o cajado da igreja estava nas mãos dele”. Durante o tempo que ali passei nunca fiz nada sem autorização, mas, ainda assim, eu precisava ser lembrado quem “mandava”. Eu sempre pensei que Cristo mandasse na Sua igreja e que, entre colegas ministeriais, esse tratamento era desnecessário. O problema dos ministérios quando alcançam certo porte e desenvolvimento é que se acham donos da fé. Ora, se igrejas são agências do Reino de Deus, e se o Reino de Deus é eterno, então, os homens não podem ser seus donos, porque não são eternos. Contudo, é costumeiro esquecer esse fato. Deveras, eu nunca tinha sido tão humilhado como fôra ali. O pastor titular costumava dizer que a sua igreja tinha uma identidade e que se alguém pregasse outro conteúdo, as ovelhas rejeitassem. Ninguém é totalmente certo, acho que já falei sobre isso, ou vou falar. O que ele dizia, na verdade, apontava para sua própria pessoa, tantas vezes disse demagogamente que Deus poderia enviar outro pastor, quando, na verdade, fazia propaganda contrária para nunca sair dali.

Infelizmente, foi terrível, uma experiência que não quero repetida e não a desejo para ninguém. Outro fator que muito me entristecia era o tratamento que o pastor daquela igreja me dava na frente de todos. Era costumeiro me tratar sem qualquer consideração de amigo e colega ministerial. Comumente não me apresentava e conduzia o culto como que eu não estivesse presente. Aprendi que um co-pastor apóia o trabalho e suporta ao lado do pastor que preside e de tudo participando para que em qualquer impedimento presencial do titular, possa o co-pastor resolver. Todavia, poucas não eram as humilhações. Ali, nada do que acontecia era conversado ou comunicado, e sequer era programado. Concordo que um pastor tenha a direção de Deus e a autoridade para desenvolver a obra confiada, mas, entendo que isso não é impedimento para ladear-se ao co-pastor que com ele dividir risos e lágrimas. O tratamento dispensado era de total indiferença, parecendo que estávamos competindo entre nós mesmos.

Era impossível dialogar e, cada vez que algum conselho era dado, as rebatidas vinham com humilhações, do tipo “já tenho trinta anos de vida com Deus e já trabalhei com vários pastores”, ou “temos maturidade para saber o que fazer e como conduzir”. A simplicidade aparente daquele pastor revestia um orgulho altivo e uma arrogância ferrenha, que o tornavam incapaz de receber um conselho ou aceitar uma ajuda. Foi quase impossível desenvolver um ministério ali, e só existiu porque havia o interesse da liderança em fundar o seminário na congregação e preparar seus próprios líderes. Antes de unirmo-nos dei-lhe tempo e pedi que orasse, para uma confirmação de Deus. Porém, foi precipitado e todos nós sofremos. Sua presunção ignorava o ministério de Deus na minha vida, chegava a afirmar que “quem se opunha ao seu ministério morria, ia parar na sepultura, e já três estavam enterrados”. Essas colocações fazem parecer que só existe o ministério dele, ou que apenas ele está certo.

Com o avanço do relacionamento, as coisas vieram à tona. Dia após dia, as pessoas me cercavam para dizer que eu estava me ladeando a uma liderança que estava debaixo de maldição. Acontece que esse pastor do qual falo, que era tão controlador, traíra o ministério ao qual pertencera, sendo o organizador e pivô de um dos maiores escândalos dos quais já tomei ciência em minha vida. Simplesmente, em suas épocas de ovelha, estando ele em disciplina - por motivo desconhecido - e não a aceitando, tomou a ciência de que o seu pastor adulterara (da igreja a qual pertencera antes que iniciasse o seu próprio ministério). De posse desta informação, cuidadosamente organizou um plano para filmar e, não obstante, além de filmar no ato a condição de pecado de seu pastor, ainda expôs a filmagem para toda a igreja tomar ciência, diante dos filhos e da esposa daquele ministro do evangelho. É capaz de, como leitor, você acredite que o adultério é um pecado grave para ser cometido no ministério, e eu concordo com você. Todavia, não é desculpa para levar ao escândalo toda uma congregação, destruindo a vida emotiva dos filhos menores daquele pastor, em uma atitude de total repúdio e de completa falta de ética, pudor e decoro. Em casos de adultério, tomando ciência o corpo da igreja, tudo deve ser conversado em reserva, porque apenas Deus corrige Seus filhos (Hb. 12:6), e o escândalo é algo grave e maldito (Mt. 13:41; Lc. 17:1), tanto quando o adultério.

Com sua vingança – que contraria todo o conteúdo bíblico (Rm. 12:19; Hb. 10:30) – deflorada contra o ministério que o disciplinara, então, começou seu próprio ministério, levando consigo uma parcela das ovelhas que o ajudaram em seu plano maquiavélico. Logo, as razões das atitudes para comigo ficaram bem entendidas. Nele permanecia o receio de ocorrer o mesmo que fez ao seu ex-pastor. Porém, essa nunca foi a minha índole. Como co-pastor, sempre soube bem o meu lugar. Aquele é um pastorado sob maldição. Tudo o que começa errado, continua errado e termina errado. É necessário voltar, corrigir o erro e continuar em paz (Pv. 28:13; Is. 37:29; Jr. 23:22; Jr. 31:21). É impossível haver benção aonde existe rebelião e insubmissão contra o conteúdo bíblico e o caráter divino (II Cr. 7:14). Como começara em maldição, permanecia em maldição. O interesse era de menosprezar todo e qualquer potencial, com o receio de ocorrer o mesmo com ele mesmo. Assim, ninguém fluía, e na qualidade de um co-pastor, padeci situações vexatórias. Caso alguém tenha um co-pastor, honre e saiba estar ao lado dele e respeitá-lo, tanto quanto ele está e respeita a liderança. No seminário implantado naquela igreja participava a esposa desse pastor. Ela, para maior ausência de paz, tinha o hábito de achar que toda e qualquer colocação feita era à sua igreja que eu fazia, então, as aulas eram tomadas por colocações pessoais, afirmações ministeriais e mensagens críticas contra as lições, desgastando o aprendizado e tomando muito tempo até que ficasse claro tratar-se de um conteúdo geral, e não local. Na apresentação de algum exemplo, mesmo de minhas experiências anteriores, havia uma postura defensiva, e achavam que eu criara aquele exemplo para identificar algo da igreja, ou que eu o dissera para fazer símiles, quando essas nunca existiam. Era terrível.

Não sei se amadureci tardiamente, sei que este ambiente de politicagem enoja-me, o que me forçou a entrar em sérios conflitos sobre o chamado e o ministério. A beleza do chamado não anda mais refletida no ministério, hoje existindo uma enorme deficiência na liderança evangélica do país, o que explica tantos e repetidos escândalos. Os estilos ministeriais com os quais convivi - os ricos e bem sucedidos, e os humildes e esforçados – funcionam da mesma maneira. Os ministérios ricos e bem sucedidos não se preocupam com seus cargos, porque geralmente têm a mesma instrução que os demais líderes e obreiros, ou entendem bem da norma estatuída ao ponto de saber que, no exercício do mandado, permanecerão no cargo até novo delibero. Contudo, se preocupam terrivelmente com o que é falado em seus púlpitos, com medo de que o rebanho venha a migrar para outros pastos. Em ambientes tais, falar a verdade nem sempre é “viável”, antes é preferível manter a freqüência com mensagens egocêntricas e esperançosas, ao invés de cobrar correção e conduta e perder suas ovelhas.

Doutra banda, o segundo estilo ministerial, humilde e esforçado, preocupa-se terrivelmente com o cargo que ocupa, sequer confiando que é Deus quem chama (I Ts. 5:24). Claro que o Brasil encontra-se abarrotado de enganadores e falsários, e é certo que os ministérios humildes são conquistados com esforço (Mt. 11:12). Contudo, a Palavra de Deus nos ensina que há testificância entre aqueles que são de Deus (Rm. 8:16), além disto, é possível, com o tempo de convivência, conhecer razoavelmente determinada pessoa (Mt. 7:17-20). Contudo, meu trabalho em tais ministérios deixou patente que há um enorme medo, por parte dos líderes, de perder ou cargo ou pessoas e, ainda, a atenção, o carinho e a afeição do rebanho. Ao que parece, os líderes temerosos deixam de perceber que a sustentação de toda a obra é do Senhor (Fp. 1:6), e ficam receosos se ao ministério deles são associadas pessoas mais qualificadas. É comum ouvirmos colocações ofensivas, indesejáveis e mesmo autoritárias, como que tentando identificar quem “manda”. Mesmo a ética da homilia é interrompida, pois, valem-se dos púlpitos para enviarem mensagens destinadas e dirigidas. Em tais circunstâncias não são poucas as dissimulações, boicotes e períodos de “inanição”, como que o líder esteja a fazer seu teste individual de resistência a outrem, deixando-o um pouco no “banco. E tais fatos não são isolados, ou só aconteceram comigo. Trata-se de uma repetição, algo que é, já foi e continua a praticar-se em todos os meios eclesiásticos, com o único objetivo de manter-se no cargo, de permanecer na berlinda.

Nos citados estilos ministeriais, jamais me amedrontei, nem diante da politicagem de seus líderes, nem diante das situações, porque mantive cristalina a idéia de que dei minha vida ao Senhor e, por isso, além de cuidar de mim (I Pe. 5:7), Ele me dirigirá sempre para o local que está em Seu coração (Jo. 3:8), ainda que não possa compreender em tantas vezes, nada me impede de crer (II Co. 4:18). Estive em meio a tais ambientes extremos e díspares, e perseverei. Percebi, com os dias, que o medo é o maior adversário daqueles pastoreios. Fobia é a palavra chave daqueles contextos, pois, a liderança estabeleceu a idéia de que ministérios bem sucedidos ou são imensos ou são singulares. Parece contraditório, mas, não é. A primeira leva ministerial com a qual lidei acredita que para perceber a benção de Deus em suas vidas é necessário haver uma grande quantidade de pessoas em seu rebanho, dimensionando a fim de que alcance grandes proporções, de modo que o ministério eclesiástico se torne atraente, dinâmico e sociável. A segunda classe ministerial acredita que a benção daquele ministério, daquela obra, está sobre eles, tornando-se singular, e por isso não dividem o peso funcional, porque aquilo foi dado a eles. Ambos estão errados, e por isso têm medo. O ministério, a priori, quando pensado, deve ser imaginado em patamares de eternidade, e nós não somos eternos. A continuidade ministerial só é adquirida com confiabilidade e parceirismo, e para isso faz-se prioritário abandonar o medo.

Para que um ministério não seja esquecido em poucos anos após a morte de seu iniciador, deve haver os que se lembrem daquela liderança e, não apenas, mas, também, os que dêem prosseguimento àquele estilo ministerial, do contrário, dentre três ou quatro décadas, quando ninguém sobrar daquela geração, da mesma forma, ninguém se mais haverá para se lembrar do pioneiro, porque não houve quem continuasse a tarefa de suas mãos. Essa continuidade só haverá se o líder souber dividir ou preparar alguém dentro da mesma visão que deu certo em sua comunidade. Isso sempre aconteceu ao longo das instituições religiosas, especialmente na Bíblia. Moisés preparou Josué (Nm. 11:28; Dt. 34:9), Samuel servia ao Senhor sob a orientação de Levi (I Sm. 3:1), Elias andava com seu sucessor Eliseu (I Rs. 19:19, II Rs. 2:14), Jesus tinha aos discípulos (Mt. 8:23; 10:1). Enfim, é impossível abranger o Reino de Deus se o desejo é de ter apenas um ministério local, tenha ele mil ovelhas ou sessenta ovelhas.

A partir do momento em que existe o receio de perder ovelhas ou de perder o cargo, o ministério resume-se ao indivíduo, e não a parte do Corpo de Cristo que está sendo abençoada. A Bíblia ensina que o amor lança fora todo medo (I Jo. 4:18). Líderes que se preocupam com a quantidade, jamais terão noção da qualidade presente no rebanho, o que pode, cedo ou tarde, disseminar más idéias e falsas argumentações. Por sua vez, George Barna e Peter Wagner dizem que ministérios individuais, firmados em uma única pessoa, jamais romperão além da denominada “barreira dos duzentos”, ou seja, jamais terão mais que duzentas ovelhas, porque já que centralizam o governo, os demais ministérios eclesiásticos e dons do Espírito desaparecem, tanto quanto um único líder se torna incapaz de assessorar tantas pessoas. Ministérios isolados tendem a permanecer raquíticos, enquanto que aqueles que se desenvolvem são multiformes.

Como se o quadro não fosse suficiente, aqueles que são impedidos de trabalhar em comunidades pequenas, acabam por buscar outros meios ou denominações, porque ninguém pode silenciar ou deter o chamado pessoal (Mt. 5:14; I Co. 1:9; Ef. 6:7). Todos os que se achegam ao Reino de Deus para ofícios ministeriais, o fazem porque foram individual e particularmente chamados. Ora, ninguém é obrigado ou forçado a trabalhar em igrejas. Logo, quando as portas da igreja em que congregamos são fechadas - além da decepção - há a certeza que outras se abrirão, pois fomos chamados por Deus, e não por homens, e tudo quanto fazemos, é ao Senhor que o fazemos (Cl. 3:23). Já nos casos de preocupações excessivas com a mensagem que é anunciada aos rebanhos alargados, há problemas semelhantes. Decerto, inicialmente, o rebanho ficará vulnerável a ensinamentos aprofundados de outros pontos de vista, falso profetismo e ventos de doutrina (Mt. 7:15; II Co. 11:13; Ef. 4:14; Tg. 1:22; II Pe. 2:1). Doutro lado, o líder despreza o fato de que a única maneira de estabelecer um rebanho fiel é através do conhecimento da Palavra (Mt. 7:25; Jo. 8:32; 17:17). Portanto, enquanto de um lado o rebanho não desenvolve com o medo do líder em perder o seu cargo, de outro lado a igreja não amadurece com o medo do líder em perder as suas ovelhas.

Ainda que em níveis diferentes, seja rico e bem sucedido ou humilde e esforçado, operam neles os mesmos valores, adequados a situação. A qualidade e a fidelidade de um rebanho só pode ser medida quando há fruto (Jo. 15:5, 8, 16). Em suma, o sucesso de um ministério só pode ser observado quando os membros participantes daquela comunidade brotam, crescem e multiplicam o fruto do Evangelho. Os ministérios de hoje são tão iluministas, no sentido antropocêntrico que teve o movimento histórico-cultural, que estão mais a mercê do homem do que do próprio Deus. É por isso que igrejas são comparadas a empresas e negócios, pois deixaram de depender do Senhorio de Cristo e passaram a ser gerenciadas por homens. Em uma das comunidades com as quais trabalhei em meu período missionário, na sala de aula do seminário fomentou-se uma querela acerca da unção e capacitação para o ministério, especificamente em torno de batalhas espirituais.

Ovelhas daquela comunidade disseram que, por alguém ter a consagração e o título de pastor, o reino espiritual teria maior respeito e este líder adentraria em níveis de batalha espiritual que simples ovelhas não podem adentrar. Após a aula, ao questionar o líder daquela comunidade sobre esta colocação de suas ovelhas, o mesmo me disse que estava correto, porque sendo ele pastor, teria maior autoridade. Ora, sempre entendi que Jesus É Quem detém toda a autoridade, na terra ou nos céus (Mt. 28: 18; Lc. 4:36; Jo. 15:5; 19:11; I Co. 1:24; 5:4; Ef. 1:20 ao 2:1; Fp. 2:10; Ap. 1:6; 4:11). A perspectiva de que a autoridade reside no indivíduo, ou na unção que tenha, ou porque seja ordenado, está completamente errado (I Co. 1:29; 3:5, 6; I Pe. 1:24), visto que remove algo que é glória de Deus e faz habitar no homem, que é carnal, falho e errante (Mt. 26:41).

A obra eclesiástica parece estar mais voltada para as capacitações de seus líderes e suas aptidões naturais, no lugar de a ênfase ser direcionada para Jesus Cristo, nosso Único e Suficiente Salvador, Sumo Sacerdote, Intercessor que Está a Direita de Deus (Os. 13:4; Lc. 1:47; 2:11; Jo. 4:42; At. 5:31; 13:23; Rm. 8:34; Fp. 3:20; I Tm. 1:1; Hb. 8:1; 9:11). Em termos gerais, a visão destes líderes não está voltada para o Reino dos Céus. Ambos pensam apenas naquilo que de Deus receberam, e semelhante aos judeus que não quiseram alcançar os gentios, ou os discípulos que não queriam sair de Jerusalém, se enclausuram caducando toda a obra e os sonhos do Senhor em suas próprias vidas.

Conforme apresentado, de uma maneira ou de outra há deficiências ministeriais que precisam ser suprimidas. Evidente que generalizamos o contexto aqui a fim de alcançar a maior contingência, contudo, é certo que há exceções e ministérios que sabem fluir na graça e no conhecimento de nosso Senhor Jesus. Todavia, tais exemplos são rotineiros e comuns nos meios evangélicos, porquanto a maior parte das igrejas evangélicas tem surgido de tais situações. Enquanto os líderes não entenderem que são passageiros e que o Reino de Deus é eterno, o Corpo de Cristo jamais fluirá em toda a sua capacidade e resplendor. Ao implantar algo pertencente ao Reino de Deus é necessário passar-lhe a dimensão de posteridade, porque sendo de Deus aquilo que é feito só terá fim no dia do arrebatamento.

Um ministério não pode fechar as suas portas porque o seu líder faleceu, pecou, ou foi levado a outro campo. Caso assim proceda, o ministério funcionava em torno da pessoa, e não debaixo da direção de Deus. Da mesma forma, um líder não deve preocupar-se com a quantidade de pessoas que freqüentam a sua comunidade, porque é de ciência universal que nem todos que freqüentam a casa de Deus são salvos (Mt. 7:21; 13:30), mas, deve preocupar-se com a mensagem de salvação, se está sendo recebida e desenvolvida na vida daqueles (Ef. 4:24; Fp. 2:12). Infelizmente, não é cristianismo o que temos presenciado. Costumamos citar Atos 2:40-47, sendo normal até cantarmos e orarmos para nos assemelharmos àquela igreja apostólica, porém, enquanto não nos decidirmos a mudar e renovar nossos hábitos, nada de diferente acontecerá.

Outro ponto negativo e costumeiro é o isolacionismo ministerial. Há uma delongada e fatídica distância entre as igrejas evangélicas. Poucas parcerias despertam, ainda porque o medo permeia o pensamento dos líderes. Em todos os quadros de avivamentos observados na história, nunca os mesmos aconteceram em localidades, sempre em nações. Citamos os avivamentos não por meio de seus avivalistas, e sim pelas nações nas quais caíram. Israel, Inglaterra, Irlanda, País de Gales, Coréia, África, Estados Unidos da América, Escócia, Oceania, apenas algumas das nações que presenciaram um avivamento em suas igrejas. O que tornou isso possível foi a unidade de todos os ministérios, denominações e líderes. Avivamento não cai sobre uma igreja, sim sobre uma nação. Logo, avivamento não é uma experiência individual, é uma experiência coletiva (At. 2:4 – “todos”).

Outra informação necessária, avivamento é precedido por conversões e confissões de pecado, então, surge o poder de Deus, visto que não é usual ao Senhor coabitar em meio a tantas coisas erradas. Enquanto não houver meios de líderes e ministérios se esforçarem para alcançar vidas perdidas e marginalizadas, abandonando a vida de pecados que muitas vezes é omissa, o Brasil, ou qualquer outra nação jamais estará hábil a experimentar um avivamento. A experiência de fé que só é desfrutada individualmente ou é pessoal e particular, ou é egoísta e antropocêntrica. O que de Deus nos é entregue vem para partilhar. Ora, o que de Deus nos é dado é impagável, inegociável, não pode ser adquirido a não ser pelo bem prazer do Senhor, então, deve ser diluído para o bem de todos, e não para adubar os ególatras (Mt. 10:8).

A conduta equivocada da maioria da liderança, anexada ao receio de perca, trouxe uma idéia mercantilista para a igreja. Além de associada com empresa e negócio, a igreja do Senhor é tratada como meio de subsistência, espírito empreiteiro e peculiaridades do indivíduo. Quando alguém aparece mais que o Espírito da Consolação (At. 9:31), sua importância é tão determinante quanto a de Cristo, e o que se há formado não é uma igreja, porém, uma seita, independente de haver ali credo ou uma confissão de fé corretas, ela tem uma ortodoxia prática errada, o que transgride o Espírito da Promessa (Ef. 1:13). A idéia de homens inerrantes, santos e representantes de Deus na terra não pertence ao evangelicalismo, mas ao catolicismo. Aliás, por idealizar que líderes são infalíveis, no momento em que demonstram fraquezas, a igreja tem agido sem misericórdia, deixando de perceber que são homens normais e comuns como todos os demais, apenas chamados e capacitados por Deus para o exercício de uma obra.

Por imaginar que a igreja sobrevive através do dinamismo de seu líder, é que aquela tem se associado com o mundo. Os tantos e milhares de eventos que são criados pelo homem para atrair a atenção das pessoas, desperdiçam a pregação simples e direta do evangelho. Os ensinos véterotestamentário e neotestamentário não são para se preocupar se pessoas ficam ou saem do ambiente eclesiástico, mas, se pessoas mudam e são transformadas pelo poder de Deus (II Rs. 17:13; Jr. 25:5; Ez. 18:32; Jl. 2:12; At. 3:19; I Co. 15:51; II Co. 3:18). Tampouco, a Bíblia não ensina que o líder deva se preocupar com o seu cargo, mas, que sua preocupação deva estar voltada para o Corpo de Cristo (Is. 40:11; Ez. 34:8; Zc. 11:16, 17; Mt. 9:36). Todos os que trabalham no Reino de Deus são apenas usados, todavia, a glória e os dons vêm dEle (I Co. 12:11; Ef. 3:7; I Tm. 4:14; Tg. 1:17).

Inobstante, para não haver comentários ambíguos, a situação em que somos compelidos a buscar ovelhas é quando estão perdidas (Lc. 15:4), não quando são rebeldes (Lm. 3:42; Mt. 9:12; Rm. 15:31; I Pe. 2:7; 3:20) ou falsas (II Co. 11:26; Gl. 2:4), e note que a parábola diz ovelhas, e não bodes, além de representar uma aplicação pessoal da natureza e da obra de Jesus. De fato, no ensino de Jesus em Mateus 25:32, a função de um pastor é apartar bodes de ovelhas, e não deixar que cresçam juntos. O líder tem por prioridade apartar o rebanho de junto a lobos e alcoviteiros. Precisa guardar o rebanho. Em João 10:11-12, Jesus diz que Ele É o Bom Pastor, contudo, deixa o claro ensinamento de que tal bondade se torna em sacrifício, sendo este o princípio ativo e funcional da vida de um pastor, ser capaz de se sacrificar pelo benefício do rebanho, ao invés do mercenário que foge e migra de pasto em pasto, visando apenas o seu próprio bem. Este pastoreio é condenado, profetizado, advertido e alertado na Bíblia, para que o povo de Deus fuja deles. O profeta Zacarias (Zc. 11) e Jesus (Mt. 9; Jo. 10) prevêem e ensinam acerca deste pastoreio mercantilista. Os apóstolos Paulo (II Co. 11), Pedro (II Pe. 2) e João (I Jo. 4) já redargüiam o povo acerca dos enganadores e usurpadores da fé. Os cristãos prosseguem perecendo e quedando-se a enganadores porque perderam o espírito investigativo que havia nos bereianos (At. 17:11).

Em momento algum estou apontando qualquer liderança, tão menos com as quais trabalhei, mas, denunciando que o uso de igrejas com fins de mercado, com o intuito de obter sucesso ou de crescer nesta vida, contraria diretamente tudo quanto foi ensinado pelo Senhor através da Sua Palavra. A ênfase na quantidade, sem perscrutar uma qualidade no rebanho, peca gravemente por abandonar princípios básicos da fé cristã, como a repreensão ou o dom da exortação (Pv. 3:12; Rm. 12:8; Tt. 2:15). Da mesma maneira, o individualismo ministerial, achando que aquilo que é exercido sob a direção de Deus serve apenas para si mesmo, está diminuindo o Reino de Cristo à brevidade da vida de um homem, e limitando ministérios a barreiras previsíveis. Enquanto este interesse separatista prosseguir, será difícil presenciar um manifestar da glória e do poder de Deus, limitando tais eventos a fatos isolados. Com certeza a resposta à pergunta “Por que os milagres hoje são tão raros?” é porque falta unidade no Corpo de Cristo (Rm. 12:5). Discutiremos melhor no capítulo quatro.

 

CHAMADO E MINISTÉRIO

 

 

Acredito que muito daquilo que significava ministério está perdido. Por exemplo: Por que todos os alunos de um curso de Teologia querem se tornar pastores? Por que não há candidatos a mestres? Ou evangelistas? Ou profetas? O ensino paulino é que uns são chamados para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, outros para pastores e outros para mestres (Ef. 4:11). Apesar da insistência de alguns, o ministério apostólico não existe mais (vide Atos 1:15-26, e perceba as características de um apóstolo nos versos 21 e 22), contudo, a igreja ainda necessita de mestres que ensinem o povo nas escolas dominicais ou nos seminários internos, necessita de evangelistas que alcancem almas para Cristo, necessita de profetas que dirijam o povo na vontade de Deus (Pv. 29:18), e não apenas de pastores. A diversidade do Corpo de Cristo não é um fundamento teórico, mas, necessita existir de fato. Mesmo os centros teológicos não deveriam existir dissociados das igrejas, porque são braços funcionais do meio eclesiástico.

Ainda maior tristeza é pranteada nas disputas entre pentecostais e cessacionistas. Para os primeiros, o segundo não é “crente”, para os segundos os primeiros são fanáticos. Nenhum dos dois percebe que ambos são essenciais. No judaísmo pré-cristão não havia apenas profetas, também havia escribas e copistas, levitas e sacerdotes. O que se quer mostrar é que homens que pensam são importantes tanto quanto homens agem, os dois grupos são essenciais, ainda que saibamos que o interesse do Senhor era que conhecimento andasse ao lado de poder (Mt. 22:29). Contudo, a um grupo devemos as traduções bíblicas, os comentários, os estudos, tudo quanto dirige e firma nossos passos e nos fazem conhecer a Pessoa de nosso Deus. Ao outro devemos a orientação de como falarmos, encontrarmos e relacionarmo-nos com Deus.

É lastimável imaginar que, sendo apenas um Corpo de Cristo, não consigamos atender ao clamor intercessório de Jesus em João 17:11, no qual Jesus clama para que sejamos um, e há dois mil anos só conseguimos existir em unidade nos céus. As infrutíferas posturas doutrinárias apenas demonstram ainda mais nossa incapacidade de andarmos em união. Até a presente data, nenhum corpo docente jamais reuniu para, biblicamente, buscar amadurecer uma fé sólida e singular do povo denominado evangélico. Em contrapartida, satanistas não são descentralizados, nem espíritas, nem macumbeiros, nem mesmo católicos.

As divergências denominacionais e doutrinárias identificam o egoísmo e a vaidade do homem, que não sabe ceder pelo bem comunitário do Reino dos Céus. Ora, ninguém é proprietário da verdade. A Bíblia é a Verdade, mas, a interpretação do homem não. A postura individualista de reivindicar a propriedade da razão, detentor de toda verdade, foi combatida por Jesus. Em Marcos 9:38-41, quando João se defronta com outra pessoa que em nome de Jesus expulsava demônios, Jesus incita a que os apóstolos permitam sem maiores preocupações, tendo em vista o Reino de Deus e a anunciação do Evangelho.

Este é um princípio básico e elementar, motivo pelo qual existe a permissividade de Cristo na anunciação das boas novas, a fim de cumprir o mandamento incluso em Mateus 24:14. Jesus não foi repreender ao homem, em conluio com os discípulos, a dizer algo do tipo “caso queira expulsar demônios em meu nome, necessário é que seja meu discípulo”. Contudo, muitos líderes, ou mercadores, agem assim, criando um monopólio do Reino de Deus, fiscais dos portais eternos, assim como, no passado, se portaram os fariseus (Mt. 23:13). Ao atingirem certo prestígio, alguns líderes apontam de seus pedestais quem deve ou não se aproximar, quem deve ou não servir, que é ou não é útil. Descumprem a própria Bíblia e se tornam xenófobos (Dt. 10:17; Rm. 2:11). Tudo se torna mais complexo do que ir à igreja aos domingos. Como se percebe, há um emaranhado de costumes e manias que foram assimiladas com os anos e a igreja jamais se preocupou em extirpar ou reorientar. Isso ocasionou disputas, hoje sendo quase impossível falar-se em unidade.

O separatismo é tão ferrenho que “a paz do Senhor”, entre alguns, é saudada como mera obrigação. Infelizmente, já tive o desprazer de participar de algumas reuniões para pastores, nas quais as ofensas, as pilhérias, as disputas e as rixas, eram mais notórias que a unidade, o zelo, o temor e o amor. Em tais chamados “cafés para pastores” só havia discórdia e olhares transversos, receosos uns dos outros, invejando uns aos outros, desde o terno até aos testemunhos pastorais. Caso algum leitor já tenha participado de reuniões assim, saberá de que estou falando. Destarte, já fui participar do “lazer” pastoral, um jogo de futebol, no qual os palavrões eram mais comuns que os gols. É triste!

A reforma luterana, assim, trouxe-nos benefícios e malefícios. A partir do momento que a Bíblia foi alcançada pelas mãos dos ouvintes, todos quiseram opinar na fé, até os não vocacionados. Ateus, pintores, poetas, escritores, filósofos, cientistas, médicos, músicos, os quais outrora eram meros admiradores e expectadores, passaram a analisar a fé como se quisessem explicar o divino, ou retalhar os propagadores das boas novas. O argumento seria a hipocrisia com que alguns, transparecendo santidade no altar, na penumbra têm vida dupla. Ora, e não há hipócritas em todos os segmentos da sociedade? Nunca existiram filósofos hipócritas, cientistas hipócritas ou músicos hipócritas? O joio não cresce junto com o trigo (Mt. 13:29-30)? Já sabemos e entendemos que nem todos estarão nas bodas no dia do Juízo (Ap. 13:8; 22:15)? Caso todos fossem trigos, não haveria inferno. Pois, na pintura nem todos foram exímios pintores e têm quadros valiosos e históricos; na música nem todos foram bons músicos e são até hoje lembrados – quem já assistiu ao filme “Amadeus” pôde perceber como certos músicos são olvidados.

Da mesma forma, nem todos os filósofos estavam certos; como nem todos os escritores escreveram algo bom. Assim, por ser a igreja mais um ambiente no qual está inserido o homem, com seus vícios, defeitos e pecados, está, também, sujeita a hipócritas. O pior é que estas críticas não permaneceram por fora de nosso convívio, porém, vieram a participar de nossos costumes. Alguns se tornaram tão fomentadores que, sendo um único Corpo vivo de Cristo, fazem piadas uns com os outros, criticando as denominações com base em pontos de vista insolúveis e deficientes.

Ridiculamente a liderança se divide mais e mais, fragmentando o Reino dos Céus. O Reino de Deus não deve ser fragmentado, mas, aumentado (Mt. 13:33). Para haver aumento não é preciso divisão. Evidente que para solucionarmos um problema tão sério faz-se necessário reorganizar o fundamento, a fim de que seja possível construir algo sólido e correto. E isto não é fácil. O erro se inicia com ausência total de informação sobre o funcionamento de um ministério e a não dependência ministerial para com Deus, depois que o chamado começa a tomar o corpo de função. Com o advento do capital os homens deixaram de confiar em Deus, e passaram a confiar em seus próprios braços, relegando o cuidado divino para com aqueles que O servem.

Esquecem que os ímpios necessitam trabalhar arduamente, porém, nós que servimos ao Senhor, dEle recebemos tudo quanto necessitamos (Mt. 6:25-34; 7:7-11; Jo. 15:7). Nos maravilhosos exemplos do passado, a vida de Jorge Müller (1805-1898) é o maior testemunho moderno de compreensão ministerial. Desde o início de seu ministério tomou a iniciativa com Deus de nada pedir a ninguém, a não ser ao Senhor, e colocou na igreja que pastoreava um caixa espécie de gasofilácio, solicitando que todos aqueles que desejassem contribuir com a sua vida e despesas pessoais, ali depositassem suas ofertas. Neste mesmo espírito e fé, construiu orfanatos e os mantinha sem nada pedir a ninguém, e sua vida é um dos maiores testemunhos de entrega, submissão e dependência divinas. O exemplo de Müller é o coração de Deus para Seus ministros.

O que o Senhor deseja é ensinar ao Seu povo a depender única e exclusivamente dEle, da mesma maneira Ele operou no passado, e quer fazê-lo novamente. Abraão teve de sair da casa de seus pais (Gn. 12:1); José teve de ser vendido como escravo por seus irmãos (Gn. 37:28); Moisés necessitou deixar a côrte de Faraó e deixou de ser príncipe (Ex. 2:15); Davi peregrinou pelo deserto fugindo de Saul (I Sm. 19:2); a fim de aprender a depender exclusivamente do Senhor, antes é necessário perder toda segurança que há em si ou nos outros. Veja o exemplo de Abraão quando é chamado em Gênesis 12:1, Deus convocou Abraão a deixar tudo o que dá a um homem segurança. Primeiro a casa do pai, aonde há comida, conforto e proteção; depois a parentela, que sempre na ausência de um familiar próximo, está pronta a defender quem for do próprio sangue; e por fim a terra na qual se criou, aonde há conhecimento, amizades e afeições. Este chamado não é simples, porque sequer havia endereço ou destino, e Abraão por anos viveu em tendas e cavernas, na sequidão e extremo que é todo deserto. Contudo, a fé de Abraão em Deus apenas aumentou, a ponto de confiar plenamente mesmo quando a vida de seu filho foi requerida (Gn. 22:2 e 3).

Como primeiro homem chamado por Deus, e sendo pai da fé, o exemplo de Abraão é o que significa viver com e depender de Deus. Assim, também, foram os profetas. Observando as vidas de Samuel, Elias, Elizeu, Natã, Isaías, Jeremias. O chamado não é fácil, porque a partir dele é que nasce o aprendizado do ministério. E este é o grande problema. Grande parte dos líderes atuais recebe o chamado sem passar pela escola que ele proporciona até a chegada do ministério. O próprio Jesus, enquanto homem, teve de ser alfabetizado nesta escola da fé. O início de Seu ministério é marcado por isolamento e deserto, aonde padece tentações durante todo o período em que lá esteve (Mc. 1:12-13). A própria família terrena de Cristo quis deter Seu ministério (Mc. 3:21), porém, Jesus prevaleceu, sendo fiel até a morte (Fp. 2:8). Da mesma maneira, é necessário aprender no ministério a ter uma vida de dependência para com Deus, do contrário, igrejas continuarão se tornando empresas diante das quais dirige um político e mercador. Essa foi uma escola a qual precisei, também, aprender. Minha criação familiar proporcionou-me certa comodidade e segurança, vivendo de maneira tranqüila no tocante a situação financeira.

Portanto, no início de meu período missionário crises de angústia e incerteza me abateram, pois, cuidando de uma família, nenhuma noção era havida em mim de como iria suster-me. Porém, Deus em Sua excelsa sabedoria, a tudo já provera antes mesmo de que eu me ausentasse da minha terra natal. Com o tempo, e ajudado pela paz e a fé de minha esposa, a situação acomodou-se e Deus manifestou, também para comigo, o zelo e o carinho com os quais Ele cuida de todos os Seus filhos. A minha comunhão com o Senhor Jesus fortaleceu-se de uma maneira que não é possível descrever. Em cada período e turbação que padeci, foi possível contemplar Seu amor e Sua proteção. De certo ponto, tornamo-nos mais íntimos, e passei a desfrutar da plenitude de Sua benção, desprovido dos medos que antes me enraizavam nestes aspectos materialistas do dia-a-dia. Isto não quer dizer que não passei privações ou problemas. Do contrário, muitas recaíram por sobre mim, contra as quais, inúmeras ocasiões, eu me achava impotente diante das tais.

Alguns dias o dinheiro faltava, mesmo para comprar pão. Minha esposa, então, vinha notificar-me da feira e de tudo quanto em casa já não tinha. A única frase que vinha aos meus lábios era “ore e peça ao Senhor, hoje Ele É Quem cuida de tudo por aqui”. Morando de aluguel, toda receita era destinada a priorizar as contas mensais do imóvel, a fim de não me ridicularizarem a fé. Por isso, tantas vezes vi-me impossibilitado de comprar o alimento que em casa faltava. Contudo, as orações de minha esposa eram respondidas, senão no mesmo dia, no dia seguinte, e assim recebíamos vitória e ganhávamos mais confiança quanto ao chamado e o cuidado que o Senhor mantinha por nós. Durante este mesmo período estive lidando com os ministérios que descrevi, e vi que muitos não conseguem viver genuinamente a fé que professam, porque não se escolarizam devidamente no chamado que recebem.

Dificilmente é feita a divisão entre chamado e ministério, porém, quando são vistos de maneira separada seus preceitos se tornam mais nítidos e as suas prerrogativas mais claras. Separar o chamado do ministério é necessário porque muitas vezes não é levado em conta que o chamado é para o ministérioque Deus tem em nossas vidas, e quando é feito o chamado, o vocacionado ainda necessita ser preparado. É no preparo que se aprende a depender do Senhor ou dos cavaleiros (Sl. 20:7). Portanto, o chamado não é o ministério, mas o ministério é o chamado. Todos os que são chamados precisam ser preparados. Em Israel havia a casa de profetas e os filhos dos profetas eram educados para serem profetas (II Rs. 2:5, 7); Jesus discipulou os doze apóstolos por três anos (Mc. 9:31); Paulo preparou e deixou líderes nas igrejas que abriu, e ainda mandou Timóteo manusear bem a Palavra (II Tm. 2:15). Os exemplos de preparo são inúmeros, já foi citado Samuel servindo no templo na presença de Eli (I Sm. 3:1); o tempo em que Davi esperou sendo preparado para ser rei de Israel, iniciando seu aprendizado como um mero zelador de armas (I Sm. 16:21); Moisés teve de peregrinar no deserto por quarenta anos, antes de voltar para libertar o povo, de modo que todos os que buscavam a alma dele já estavam mortos quando Deus manda que regresse (Ex. 4:19); Josué teve de andar próximo a Moisés, por todo o período o servindo (Ex. 24:13); enfim, tantos exemplos que demonstram que após o chamado vem o preparo, que aqui não caberiam.

Atualmente, o chamado implica em aprimoramento naquilo que se irá fazer para o Senhor, visto que este serviço não pode ser prestado de qualquer maneira (I Co. 14:40). A partir do momento que o cristão recebe a convocação para participar deste maravilhoso exército, seja de que maneira tenha este chamado surgido e surtido efeito, é necessário que haja o aperfeiçoamento, a fim de que seja possível fazer o melhor (II Cr. 15:7; I Co. 10:31). Contudo, o comodismo brasileiro tem levado os vocacionados a desprezarem cursos de aperfeiçoamento, como seminários, mestrados, doutorados, intensivos, especializações, congressos, até seminários, criando segmentos de profunda aversão aos estudos bíblicos e ao preparo pessoal.

Assim, surgem duas classes de vocacionados, a saber, aqueles que desprezam a formação acadêmica, e aqueles que a enfatizam tanto que nada produzem. Este não sendo todo o problema, ainda há a tendência das faculdades de teologia que não instruem na Bíblia, mas na doutrina denominacional, havendo uma ênfase muito maior em disciplinas teológicas – como teologia sistemática – que na preocupação de aprender a própria Bíblia. Entendendo que aqui não estou a desprezar a teologia sistemática, sim a demonstrar que a mesma é tendenciosa, pende para a via denominacional.

Diante deste quadro tantas variações de solução aparecem que fica quase impossível organizá-las. A questão da docência só poderia ser modificada com uma reciclagem de professores através de uma campanha levantada entre igrejas de várias denominações e educadores de teologia, o que gera esforço ímpar e que, por não ser este o objetivo do capítulo, aqui não irei tratá-lo. Contudo, a questão do chamado pode ser resolvida quando houver a determinação de cada denominação, por líderes ou liderados, de exigirem a seus vocacionados a devida preparação para que estejam a frente de uma obra. O chamado é seguido de um longo caminho que conduz ao ministério. O ministério só é assumido quando o caminho da preparação encontra-se percorrido. Com todos os homens citados anteriormente, também, assim aconteceu. O grande problema é que as pessoas costumam não levar a sério os ofícios eclesiásticos.

A ninguém é permitido advogar sem ter o curso de direito; para medicar ou operar é necessário ser formado em medicina; para reger uma orquestra são necessárias horas de estudo além do curso de música; há curso até para pintura, culinária e escrita, mas, na casa do Senhor é possível se tornar um líder sem sequer saber ler ou escrever, muito menos pregar e ensinar. Destarte, não estou comparando profissão com vocação, mas, todo aquele que exerce bem a profissão que escolheu não foi vocacionado para aquele fim? Ou não é comum dizermos “fulano nasceu para isso”? Não escolhem as pessoas as profissões de acordo com as suas inclinações? Que isso quer dizer, senão que Deus É Quem capacita o homem e Quem lhe dá o dom que tem, segundo o preceito de que Ele faz tudo, tanto aos bons, como aos maus (Is. 45:7; Mt. 5:45)? Quantas vezes cantoras e cantores acima da média, irretocáveis, perfeitos, são observados e se diz “que desperdício, podia estar usando esta voz para louvar ao Senhor”?

Quando frases assim são ditas em forma de cogito são similares à mesma expressão que fez Paulo no versículo 8 do capítulo 4 de Filipenses. Assim, apesar de vocação e profissão serem incomparáveis, não podemos de todo desprezar, porque nas coisas do mundo todos buscam fazer com a melhor competência possível o que escolheram exercer, porém, para grande tristeza, nas coisas de Deus a maioria costuma fazer de maneira relaxada e desatenciosa, e não poucas vezes faltando com a reverência. Recordei-me de um fato que se diz acerca de Lloyd-Jones. Certa feita, um rapaz muito esforçado, mas, com problema na dicção - com voz nasalar - procurou conselhos com o ministro de tendência puritana, pois, havia se decidido pelo serviço ministerial. Lloyd-Jones lhe disse que, antes de qualquer decisão pessoal, deveria pedir ao Senhor que lhe resolvesse o problema na voz, já que para pregar é necessário se fazer entendido. Ainda, recordo-me que, durante meu período acadêmico, muitas foram as opiniões avessas à Lloyd-Jones, contudo, o zelo pelas coisas do Senhor, e a dedicação expositiva e o testemunho ministerial daquele servo de Deus, demonstram que sua frase nada mais fôra, senão preocupação com a pregação e a exposição bíblicas. Ora, é dever de um ministro ser gramatical e teologicamente irrepreensível (I Tm. 3:6; Tt. 2:8). Por isso, é simples entender que o mercantilismo com as coisas sagradas se deve ao total vazio de zelo (Sl. 69:9). Desde que a era globalizante adentrou em todos os parâmetros sociais, existe uma tendência de tornar mundano tudo o que é sagrado. Os hábitos vividos pelo mundo e praticados pelos ímpios em suas iniqüidades têm ganhado uma aparência de santidade, mas, é mundanismo.

Na música não são mais levitas que divulgam sua adoração, são músicos ordinários e compositores que vendem suas canções; pregadores que cobram enormes quantias antecipadas para que possam dar alguma preleção, como se fossem gurus ou palestrantes; uma estreita ligação entre política e igreja, quando o conselho sobre tal direção é para evitar, visto que da política só sai corrupção (Rm. 12:9; I Ts. 5:22). Dos ritmos ao comportamento, a liderança tem mercantilizado a casa de Deus a fim de que possa lograr êxito ministerial. O interesse, em tantos casos, é crescer pessoalmente, e não coletivamente. Cada dia mais a música litúrgica tem se assemelhado com a do mundo, e as roupas se tornado mais indecorosas. Faltam zelo e temor no serviço (Sl. 2:11; 111:10; Pv. 1:7; 8:13). Desta maneira, o chamado tem gerado ministérios que tendem a cometer erros porque os líderes desconhecem a dependência para com Deus e sequer passam por algum tipo de preparo. É nascida, no meio evangélico, uma obra vaga, sem força ou determinação em fazer discípulos na Palavra, mas, com muito ímpeto de aparecer ao mundo como ministérios ricos e famosos. O mundo está carente de santos e a lembrança de tantos homens heróicos na fé está saudosa.

O problema é tão vasto que, nas livrarias evangélicas, em uma simples olhadela, percebe-se a mesmice do cenário nacional, discorrendo repetidamente sobre os mesmos assuntos, nada inovando e nenhuma originalidade surgindo. O cenário é tão decadente que quando lancei a obra de 2003, que pouco nela há de inovador – assim como neste simples material – questionaram-me de onde eu tinha movido aquelas informações e com que autoridade eu ensinava aquilo, semelhante ao que fizeram com Jesus (Mt. 21:23) – não querendo fazer comparações, apenas símiles. Isto ocorreu porque os cristãos estão firmando seus valores em ministérios que são bem sucedidos materialmente, ainda que pobre espiritualmente, como Laodicéia (Ap. 3:17). É por não percorrer o caminho do chamado, aprendendo a depender de Deus, aprimorando a vocação e encontrando o ambiente para o qual foi designado, que a maioria dos que se acham no seminário quer se tornar pastor, pois, além de obter um meio de vida e salário certo, pode ganhar destaque – e, numa intempérie com a denominação, podem abrir outro núcleo ou fundar outra denominação.

Logo, eis o motivo de igrejas estarem mancas e aleijadas. Falta-lhes um evangelista para ganhar almas, um mestre para ensinar o conteúdo bíblico, um profeta para orientar sobre a vontade de Deus, enquanto há sobrando muitos pastores, que discutem entre si mesmos sobre quem irá pregar no Domingo a noite. Parece engraçado, mas, na verdade, mareja os olhos. Decerto que até livros de piadas evangélicas e histórias narradas como anedotas são vendidos abertamente. Nada contra o riso, mas existe hora de rir, e hora de chorar (Ec. 3:4), e agora é hora de chorar. Os ministérios estão em disputas, o Corpo está desunido e há muitos líderes sem condições para o exercício do cargo que ocupam simplesmente porque deixaram de lado o aprendizado que alicerçou a todos os vultos do passado: a confiança e a dependência exclusiva para com o Senhor; a obra sincera e genuína sem busca de recompensas; e preparar-se adequadamente para o ministério.

Ao pular este processo natural, os vocacionados assumem, inexperientes, a liderança de um ministério, desconhecendo completamente o que seja interagir com o Senhor e, por isso, tendem a repetir, nos futuros candidatos, tudo quanto sobre eles foi assimilado, gerando um fantasmagórico presságio redundante. Ademais, como não passaram pela triagem divina e a escola que aperfeiçoa o caráter, os líderes atingem o êxito ministerial por força, e não pelo Espírito (Zc. 4:6), e temem a perca de tudo que conquistaram para alguém mais competente, ou temem decaírem do pedestal ao qual se envaideceram. Eis o motivo dos melindres ministeriais que expliquei e presenciei. Logo, a fobia e o isolacionismo são mecanismos de defesa comuns de qualquer indivíduo.

Aliás, os mais presentes em transtornos ansiolíticos desenvolvidos por força deste quadro patológico que cerca tais posturas ministeriais. Enquanto não houver retorno aos rudimentos da fé, pensadores e filósofos cristãos tecerão suas opiniões acerca deste problema, sem, contudo, compreenderem que é no chamado que nascem tais distúrbios. Como tudo o que posso fazer sozinho desta minha poltrona é dar o passo que estou dando ao discorrer sobre o assunto, de bom alvitre, também, seria ponderar sobre as características de um líder. Sobre este tocante é mister apontar que, dos chamados ministeriais, o único que tem a direção de liderar é o pastorado. Enquanto os demais dons eclesiásticos de Efésios 4:11 se desenvolvem em torno de ofícios, como ensino (mestres), salvação de almas (evangelistas) e anunciação (profetas), apenas o pastorado cresce conduzindo pessoas e as orientando acerca do caminho no qual devam andar. Saber disto gera maior expectativa e receio quanto aos líderes de amanhã, pois, todos querem pastorear, ainda que seja nítido que o Espírito não distribui o mesmo dom para todos. Contudo, gera, também, a calma de saber identificar que nem todos foram de fato chamados para liderar. Nos frustrantes períodos em que, ouvindo o conselho de vários, mantive-me na frente de trabalhos pastorais, pude perceber que não fui escolhido para liderar, e tornei a ater-me aos primórdios de meu chamado, que é ensinar. Espero que estes gracejos que escrevo possam estimular mais e mais vocacionados a encontrarem o chamado original de suas vidas, evitando tantos esforços desperdiçados e tantos problemas ministeriais.

 

AS CARACTERÍSTICAS DE UM LÍDER

 

É criterioso tomar padrões para adjetivar um pastorado. A respeito de liderança, de acordo com a Bíblia, nenhum padrão ali demonstrado é melhor que os conselhos de Jetro para Moisés. Apesar de Moisés ser um líder nato, e haver sobre si a direção e o apoio irrestrito de Jeová, Jetro observa o processo de julgamento de Moisés no decorrer de todo o dia, quando as causas eram trazidas ao seu conhecimento (Ex. 18:13-24). Os conselhos de Jetro são dirigidos sobre a exaustão que aquele procedimento trazia sobre Moisés e sobre o próprio povo, já que permaneciam debaixo do sol (verso 13) enquanto resolviam as questões necessitadas de direção.

Como Moisés era o homem através do qual o Senhor libertara o povo do Egito; e apenas através de Moisés, Deus se revelava ao povo; a prota-nação judia gerou o primeiro ícone de liderança, e tudo no que havia desentendimento era trazido para que Moisés dirigisse o povo e dirimisse o pleito, mostrando qual era a vontade de Deus (verso 15). Este foi o caso e as palavras de Jetro:

Ex. 18:13 - E aconteceu que, no outro dia, Moisés assentou-se para julgar o povo; e o povo estava em pé diante de Moisés desde a manhã até à tarde.

Ex. 18:14 - Vendo, pois, o sogro de Moisés tudo o que ele fazia ao povo, disse: Que é isto, que tu fazes ao povo? Por que te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até à tarde?

Ex. 18:15 - Então disse Moisés a seu sogro: É porque este povo vem a mim, para consultar a Deus;

Ex. 18:16 - Quando tem algum negócio vem a mim, para que eu julgue entre um e outro e lhes declare os estatutos de Deus e as suas leis.

Ex. 18:17 - O sogro de Moisés, porém, lhe disse: Não é bom o que fazes.

Ex. 18:18 - Totalmente desfalecerás, assim tu como este povo que está contigo; porque este negócio é mui difícil para ti; tu só não o podes fazer.

Ex. 18:19 - Ouve agora minha voz, eu te aconselharei, e Deus será contigo. Sê tu pelo povo diante de Deus, e leva tu as causas a Deus;

Ex. 18:20 - E declara-lhes os estatutos e as leis, e faze-lhes saber o caminho em que devem andar, e a obra que devem fazer.

Ex. 18:21 - E tu dentro todo o povo procura homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que odeiem a avareza; e põe-nos sobre eles por maiorais de mil, maiorais de cem, maiorais de cinqüenta, e maiorais de dez;

Ex. 18:22 - Para que julguem este povo em todo o tempo; e seja que todo o negócio grave tragam a ti, mas todo o negócio pequeno eles o julguem; assim a ti mesmo te aliviarás da carga, e eles a levarão contigo.

Ex. 18:23 - Se isto fizeres, e Deus to mandar, poderás então subsistir; assim também todo este povo em paz irá ao seu lugar.

Ex. 18:24 - E Moisés deu ouvidos à voz de seu sogro, e fez tudo quanto tinha dito;

 

O processo que Moisés vive com os israelitas nasce da necessidade de direção, de diretrizes que determinem o que está certo e o que está errado (Verso 13 – “para julgar”). Ao observar a organização de todos os demais povos da história, coincidem neles a procura por estatuir a conduta. Os milhões que eram conduzidos por Moisés, antes eram escravos, sem lei, sem normas, sem Deus. O dever que conheciam estava na palavra submissão e o direito que tinham era o de obedecer, mesmo sob risco de morte. A primeira dificuldade encontrada por Moisés foi de organizar aquele povo em novos costumes e hábitos, torná-los livres de cadeias que se agrilhoavam na alma.

Paulo Freire, um dos maiores educadores brasileiros, em “Pedagogia do Oprimido”, diz que o brasileiro foi colonizado na alma e nas idéias, de onde não consegue se libertar. A mudança de comportamento e de pensamento são os processos mais difíceis na vida do ser humano, e por isso Deus não escolheu um escravo para libertar o povo do domínio egípcio. Para que aquela nação de escravos ganhasse liberdade só seria possível através de um homem que nascesse livre e conhecesse o que era liberdade. Um exemplo semelhante é o elefante que, para ser adestrado, desde novo seu pé é amarrado em uma estaca fincada no chão. Quando cresce, ainda que tenha nas patas a força de duas toneladas e pese até doze toneladas, uma simples corda amarrada na estaca fincada no chão lhe remete à sensação de limite, e dali não se move.

Com os israelitas não foi diferente. Um escravo pensa como qualquer escravo. A sua mentalidade subjugada não dimensiona a liberdade. Isso ficou visível na insegurança do povo diante do mar vermelho (Ex. 14:11, 12), ainda que fosse maioria sobre os egípcios (Ex. 12:37; 14:7); no desejo do povo em permanecer escravo por um prato de comida (Ex. 16:3); na ignorância do povo em adorar ídolos apesar de todas as maravilhas que o Senhor fizera (Ex. 32:4); enfim, a mentalidade que permaneceu escrava raciocinava como escrava, e na peregrinação pelo deserto do Sinai não conseguia romper com os limites forjados no Egito, tanto que a geração que adentra a Canaã é a geração que nasceu livre, e não a geração que nasceu escrava (Nm. 14:30).

A única pessoa dentre elas que nascera livre, e tinha condições de instruir o povo acerca do novo estilo de vida, era Moisés, que precisava não apenas diluir as disputas entre o povo, mas, também, de ensinar aos jovens todo o conteúdo da Lei (Js. 4:10; 11:15). A formação de um povo inicia com a necessidade de ser direcionado. Evidente que em proporções bem menores, porém, se firma a liderança nos mesmos princípios os quais obedeceu Moisés. O início de todo líder é dirigir, dar atenção e se preocupar com as coisas do seu povo.

Moisés fazia aquilo não um dia na semana, mas todos os dias, porque instruía e mantinha o povo unido, resolvendo as dissidências. Um líder deve ter prazer em auxiliar e amparar o povo que lidera, deve com ele se preocupar e todos os problemas existentes deve o líder resolver. Assim, o rebanho não é um meio para o sucesso, o fim para a conquista, mas, a razão de um pastor existir. Sem o rebanho, não existe pastorado. A principal e primeira característica de um líder é a preocupação, o dever de manter a homogeneidade e a paz entre o povo. Pastores que se distanciam de seu rebanho presenciam divisões e cismas. Por vezes, alguns dizem que o rebanho cresceu demais para cuidar de cada família, contudo, ninguém neste planeta tem um rebanho de 2 milhões de pessoas. Este era aproximadamente o povo que acompanhava Moisés durante a peregrinação no deserto do Sinai. Mesmo sendo em número tão vasto, Moisés cuidou e a todos buscou ouvir. Esta é a segunda característica de um líder, saber ouvir o seu rebanho.

Para julgar o povo, Moisés tinha, primeiro, de ouvi-los. Cada qual levava sua queixa, seu problema e sua dor, e Moisés os ouvia. Contudo, há hoje líderes tão espirituais que a ninguém ouvem, e dizem que tudo lhes é revelado, mesmo que ninguém jamais será como Moisés (Dt. 34:10). As ovelhas não têm apenas necessidade de saber, têm necessidade de falar. Para que isso possa ser corrigido, é necessário que se faça conhecido. Lembro-me de uma liderança que não tolerava a palavra “crítica”, dizia que toda crítica é destrutiva, inclusive a “se reveste de falsa modéstia e chama de crítica construtiva”. Esta é uma liderança que denuncia seu pecado às vistas de todos, visto que é uma liderança que não é humilde, que não sabe ouvir. Falar tudo o que aperta a alma, que incomoda a vida, que tira a paz, que rola o pranto. Logo, as duas primeiras e principais características de um líder são preocupar-se e ouvir ao seu povo. A liderança absorve a responsabilidade por suas ovelhas, preocupando-se com o bem estar delas e ouvindo suas queixas, ao fazer isso, o líder mantém a unidade de seu povo, fortalecendo o ideal e o objetivo. Ora, não é um povo aquele que tem mesma origem e parentela, mas aquele que tem mesmo objetivo e ideal (Gn. 11:6). Apesar de toda capacidade de Moisés, Jetro preocupa-se não com as aptidões de seu genro, e sim com o método por ele adotado (verso 14 – “Por que te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até à tarde?”). A boa intenção de Moisés estava levando-o ao stress e o povo à fadiga. A liderança de Moisés era singular e individual, como as quais eu mesmo me deparei em meu período missionário. Ora, tal tipo de liderança, apesar das limitações e dificuldades, para 40 ou 100 pessoas pode suster-se, todavia, para 2 milhões, seria capaz de agüentar?

Nos acampamentos hebreus, ao redor de Moisés, diariamente, quase 1 milhão de pessoas recorriam àquela liderança em busca de solução. Isto forçava o povo a permanecer de pé, diante de Moisés, durante todo o dia, e é evidente que, nesta proporção, quase todas as questões eram levadas para o dia seguinte. O método de Moisés estava errado. Moisés responde a seu sogro esclarecendo o seu ofício, demonstrando que toda orientação que o líder dá após ouvir ao povo é baseada nos ensinos de Deus, e não dos homens (verso 15 – “vem a mim, para consultar a Deus”). Apesar de esta ser a terceira característica de um líder, ensinar o povo na Palavra e não nas filosofias humanas, não era contra o caráter de Moisés que Jetro falara, mas, contra a forma, e Moisés achou que Jetro questionava o ofício, por isso deu tal resposta.

Com isso, Moisés, então, apresenta uma determinante característica para quem lidera e que é a referência utilizada para liderar. O ex-príncipe do Egito não tinha nenhum livro de cabeceira, não dava conselhos do Dalai Lama, não ensinava provérbios ou máximas árabes, não contava estórias com lições ocultas, não discorria acerca da forma correta de batizar, não fazia leilões para recolher dízimos e ofertas, não se autopromovia ou vendia a sua imagem, não disputava a liderança com seu irmão Arão e seu servo Josué.

Simplesmente, Moisés ensinava ao povo qual era a vontade de Deus. A vontade de Deus só pode ser conhecida através da Sua Palavra (verso 16 – “e lhes declare os estatutos de Deus e as suas leis”). É para andar na observação desta Palavra (Sl. 1:2) que os cristãos são conclamados (Dt. 4:2; 30:14; Sl. 18:30; 33:4; 119:11, 105; Pv. 13:13; 30:5; Lc. 11:28; Jo. 15:3; 17:17). A nobreza de um líder da fé é destacada quando ele desaparece em benefício da glorificação do Seu Salvador (Jo. 3:30). Moisés sabia lecionar ao povo a vontade de Deus, e não a sua vontade. Muitos líderes têm ensinado as suas vontades, e não a vontade de Deus. O funcionamento da liderança em algumas comunidades hodiernas está ao oposto do que fôra determinado a ser pelo Senhor. Quando os Pietistas, os Puritanos ou os Moravianos se reuniam, estudavam a Palavra por horas. O culto tinha hora para começar, mas não tinha hora para terminar. O resultado deste compromisso foram os avivamentos despertados nas colônias inglesas na América, na Grã-Bretanha, e nas tantas outras nações que presenciaram os rebentos de pais membros daqueles movimentos. Ao ensinar um povo acerca da Palavra de Deus, o resultado será uma geração contaminada pelo poder do Altíssimo (Pv. 22:6; Jl. 2:28-30).

No caso de Joel, especificamente, se torna mais contundente, pois, antecedendo a promessa dos versos 28 a 30 do capítulo 2, há a exigência de Deus a que o povo se converta, pranteie, retorne, se arrependa e jejue. Para que uma geração se torne referência é necessário haver a restauração e o retorno à Palavra de Deus, a reedificação de tudo quanto se perdera nos anos de indolência. O que Moisés faz quando procurado e tendo a causa do povo em suas mãos, é julgar a tudo na conformidade dos estatutos e das leis do Senhor. Um líder deve levar ao povo o conhecimento do Altíssimo, de tudo quanto Ele ensinou, fielmente atendo-se ao conteúdo da Palavra, e não às perspectivas alhures doutros teólogos. Como teólogo e professor há sete anos, preocupo-me mais em ensinar a Bíblia e o que a mesma diz acerca de algo, do que ensinar o que alguém diz acerca de determinado assunto. Possa estar me ufanando, mas acredito que esta fôra a perspectiva de Moisés. Alguns cultos doutrinários são permeados de informações néscias e desprezíveis, não demonstrando qualquer solidez de conteúdo ou arrimo com a exposição bíblica. Outros tantos sobem ao púlpito semanalmente para defender o ponto de vista, e não lutam com tanto afinco pela verdade de Deus. De fato, as pessoas sabem cerrar os dentes e em polvorosa defender seus interesses. Todavia, não procedem da mesma maneira quanto as coisas divinas, e as verdades bíblicas muitas vezes são distorcidas para acomodar a perspectiva pessoal.

Discordando não do caráter e sim da metodologia de Moisés, Jetro o repreende (verso 17 – “não é bom o que fazes”). Jetro identificou que aquela atividade era excessivamente pesada para Moisés e para o povo (verso 18 – “desfalecerás, assim tu como a este povo que está contigo”). Decerto que Jetro era uma resposta às preces de Moisés. Apesar de se tratando do maior profeta depois de João Batista (Mt. 11:11), aquele não era trabalho para uma pessoa apenas. As instruções de Jetro se iniciam, e na primeira frase ele ensina que as tarefas que são dadas pelo Senhor não se tornam exclusividade de quem as recebeu. Ainda que Moisés fosse aquele que intercedia diante de Deus pelo povo (Ex. 32:11), não seria capaz de desenvolver, por todo o período de transcurso à Canaã, um trabalho tão árduo e contínuo diante do povo. Ademais, as responsabilidades de Moisés já se viam diversas e variadas, toda a responsabilidade e o desenvolvimento de todas as tarefas se encontravam em mãos de um único homem.

O problema que fosse Moisés tinha de socorrer. Fome, sede, proteção, abrigo, cura, intercessão, lei, guerras, pelejas. A cobrança tornava insuportável o fardo, e o preceito bíblico não é de carregar tamanho peso a sós (Gl. 6:2). O próprio Moisés exclamou sua incapacidade de lidar com tantos problemas (Dt. 1:9-14). Da mesma maneira, a distribuição dos dons é sobre o Corpo de Cristo, e não sobre um homem apenas. Ninguém que queira presenciar resultado de seus ensinos e crescimento de seu ministério poderá permanecer a sós para tudo fazer.

A igreja se manifesta através de Cristo, e dos talentos que Ele mesmo distribui e cobra do Seu Corpo (Mt. 25:14-29). A liderança que concentra todos os afazeres, ou a todos perderá ou nenhum ficará bem feito. Aquilo que é confiado pelo Senhor às mãos de alguém não quer dizer que apenas aquele indivíduo seja capaz de realizá-lo. Na própria passagem dos talentos, citada ainda a pouco, aquele que não soube multiplicar seu talento é condenado, pois poderia ter investido ou dado (Mt. 25:27), mas preferiu desperdiçá-lo enterrando-o. Os líderes precisam aprender que, ainda que não queiram, os sonhos de Deus são grandes demais para um homem só sonhá-los (Rm. 11:33; I Co. 1:25; 2:14).

Outro problema levantado por Jetro é que isto não era ruim apenas para Moisés, mas, também, para o povo. O fato não é o cansaço ou o sol, mas a pressão. O que Jetro ensina é que a parte do povo que não teria a causa julgada naquele dia, ou no dia seguinte, ou no próximo, tenderia a cumular problemas que fugiriam do controle de Moisés, ou tentariam eles mesmos resolverem os seus problemas, podendo vir a não mais depender da liderança de Moisés, ou assimilarem práticas contrárias as que foram estatuídas por Deus. Claro, o conselho de Jetro tem fundamento. Aqueles israelitas foram escravos em uma das nações mais pagãs do oriente antigo. A idolatria egípcia era voltada a homens, animais e forças naturais. Com certeza, nascendo e crescendo em tais ensinos, muitos foram contaminados por crenças errôneas, e a prova disto é o bezerro de ouro levantado no capítulo 32 do Êxodo. Manter este povo fora de uma observação próxima e diária era perigoso demais. Esse é o princípio da indivisibilidade, da preservação dos ideais (Sl. 133:1; Is. 35:3; Jo. 17:23; I Co. 12:25; Ef. 4:3, 13; Fp. 3:14). Um líder deve preservar os ideais de seu rebanho, a fim de que não sejam dispersados (II Cr. 18:16; Jr. 23:1, 2; Ez. 34; Mt. 9:36). A unidade do povo o torna indestrutível (Gn. 11:6). Para manter a homogeneidade do povo é necessário acompanhá-lo em todos os momentos, tarefa essa imensa para um único homem o fazer.

Como Moisés não foi capaz, ninguém o será. Quanto mais intentar em proceder assim, mais problemas se acumularão. Aliás, deveras que se faz de bom tamanho definir o verbo liderar. O termo designa capacidade de distribuir e organizar tarefas. Quer dizer, liderança não é preencher todos os departamentos sozinhos, mas, ter a capacidade de chefiar um grupo que o segue debaixo de um mesmo propósito. Evidente que uma igreja não é uma empresa ou uma companhia, porém, os métodos de liderança utilizados em alguns segmentos comerciais podem servir para alicerçar ou instruir algumas áreas deficientes da igreja. Para isso, é desnecessário tomar por referência empresas multinacionais de grande porte e extremamente organizadas, basta observar uma aeronave comercial. Dentro do avião trabalham de 07 a 10 funcionários da empresa. Nem todos ali são pilotos, nem todos são co-pilotos e nem todos são aeromoças, contudo, todos são responsáveis por fazer o avião decolar. O piloto opera direto com a torre, o co-piloto observa se está tudo funcionando devidamente e as aeromoças organizam os passageiros em cada ocasião entre a decolagem e o pouso. Desumindo, o piloto não alçaria vôo sem o auxílio dos demais, por melhor piloto que fosse, da mesma maneira que o avião não sairia do chão se contasse apenas com a organização das aeromoças.

É bastante simples quando é abandonada a vaidade e o orgulho. É descartável tomar a noção de sistemas de encadeamento em pirâmides, ou mesmo os métodos modernos do sigma seis. Basta entender que cada um tem uma função a desempenhar no Reino de Deus, e a função de um líder é organizar tarefas, distribuí-las e gerenciá-las. Aliás, o próprio líder é um descobridor de talentos. Moisés descobriu Josué, Elias descobriu Eliseu, Jesus descobriu Mateus e todos os demais. Quando um líder encontra alguém talentoso em alguma área, não abafa e não silencia, do contrário, é o primeiro a chefiá-la, despertá-la e engajá-la. Contar com braços de apoio e saber com quem contar é uma das mais notórias características de líderes natos.

Jetro sabia disso, tanto que seu conselho seguinte é para que Moisés permaneça apenas exercendo a finalidade para qual foi chamado (versos 19 e 20 – “Sê tu pelo povo diante de Deus, e leva tu as causas a Deus, e declara-lhes os estatutos e as leis, e faze-lhes saber o caminho em que devem andar, e a obra que devem fazer”). Quando alguém intenta fazer mais do que o Senhor solicita, nada sai bem feito (I Sm. 15:22). Cada um tem um chamado específico, como já foi de maneira sobejante demonstrado. Ultrapassar esses limites implica em fazer de maneira insatisfatória um serviço que não é seu, além de ocupar um local destinado a outrem. É impossível portar-se de maneira agradável em áreas diversas (Lc. 16:13), mesmo porque intrometer-se em áreas desconhecidas ao chamado original é arriscar-se a passar vergonha, pois como uma enfermeira nada sabe de advocacia, o mesmo preceito é válido no Reino de Deus. De minha própria experiência posso atestar que sou um péssimo evangelista e, quando aluno ainda do bacharel em teologia, por disciplina missiológica, fui forçado a participar de eventos evangelísticos em praças e avenidas, dando maus resultados.

De fato nenhuma alma eu levei a Cristo, inclusive frustrei-me certo tempo da vida, porquanto não tinha facilidade de conduzir almas à igreja. Apenas com o amadurecimento pessoal percebi que minha função não é levá-las a igreja, mas mantê-las por lá, as firmando na Palavra. Da mesma forma Jetro orienta a Moisés, este, como líder, era o único e fiel representante de Deus no momento, fazendo conhecer ao povo aquilo que era vontade e mandamento do Senhor. Todavia, julgar as questões, desde as mais simples às mais complexas, não era a sua vocação, e o povo estava exaurindo diante desta liderança, assim como as forças do próprio líder iriam passo a passo se extinguir. Em outras palavras, Jetro passou a Moisés a função pastoral, de mediar o povo e de ensinar ao povo na Palavra, estando livre para criar e chefiar outros departamentos. Este preceito não apenas auxilia o povo e a Moisés, como, também, desenvolve o povo em sua própria formação. A partir da comissão e do chamamento de Moisés surgem guerreiros, sacerdotes, juízes, levitas, enfim, o povo se torna dinâmico, não mais estático. A metodologia de Moisés não surtira efeito antes – o povo já tinha tentado apedrejar-lhe (Ex. 17:4) – e nem agora. Contudo, a graça dos conselhos de Jetro inverte a situação.

A situação altera de tal maneira que aquela chefia passa a descobrir talentos (versos 21 – “E tu dentro todo o povo procura homens”). Este é o procedimento de um líder, constituir e qualificar liderados. É isto o que um pastorado faz ao consagrar diáconos, presbíteros, co-pastores, pastoras, professores, evangelistas. Em suma, ele está a lapidar pedras, ou qualificar seu ministério ao convocar demais vocacionados a dividirem o exercício daquela árdua tarefa, assim como fez Moisés. A grande diferença, todavia, entre a liderança de Moisés e a contemporânea, é a identificação e a mensura com a qual se escolhe estes liderados. Para Jetro havia certos preceitos que qualificavam um liderado (versos 21 e 22 – “homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que odeiem a avareza; e põe-nos sobre eles por maiorais de mil, maiorais de cem, maiorais de cinqüenta, e maiorais de dez; para que julguem este povo em todo o tempo; e seja que todo o negócio grave tragam a ti, mas todo o negócio pequeno eles o julguem; assim a ti mesmo te aliviarás da carga, e eles a levarão contigo”).

No entender do sacerdote de Midiã (Ex. 2:16) esses homens deveriam, antes de qualquer outra coisa, ser capazes. Em todo e qualquer parâmetro funcional busca-se qualidade para exercer o ofício (Dt. 31:21; Js. 1:9; I Cr. 28:10; Ed. 10:4; At. 7:22; 18:25; 22:3; II Tm. 3:17), sempre foi assim. Esse esforço citado, repetidamente não apenas nesses e noutros inúmeros versículos, é de dedicação, de aprimoramento, assim como de instrução e capacitação. Todo que é chamado ao ministério deve, pois, se aprimorar no ofício para o qual foi chamado, da melhor maneira que possa.

No meio secular só são chamados os qualificados, por que no Reino de Deus, então, as pessoas vão de qualquer maneira? Ao que parece, para as coisas de Deus pode-se servir de qualquer maneira, cantar de qualquer maneira, pregar de qualquer maneira. Para desespero dos que acreditam que os serviços eclesiásticos podem ser feitos de qualquer maneira, este não era o entendimento de Jetro, nem de Moisés ou de Jesus. Os homens separados por Moisés para a tarefa deveriam ser conhecedores e astutos (Dt. 1:15). Em toda a Bíblia sempre foi assim, além dos conselhos de Paulo a Timóteo, a narrativa de Gideão, que só vai para a guerra com os valentes (Jz. 7:7), é o testemunho vivo de que para exercer a obra do Senhor é necessário haver qualidade.

Quando alguém faz uma entrevista para emprego se analisa o currículo. Ao ser contratada, a pessoa não foi por conta da entrevista, mas, por conta do currículo. Como pode o homem, para tudo o que vai fazer que tenha seu interesse, dedicar o melhor, e para tudo o que é de Deus dedicar o de mais baixo nível? Caso alguém tenha um comércio, seja autônomo ou tenha empresa, jamais irá contratar alguém que lhe dê prejuízo. Ora, por que iria Deus? Seria do interesse do Senhor ver a Sua obra ruir? Jamais. Esta ilusão Satânica não deve mais prosperar. Durante toda a Bíblia é possível presenciar a Deus tomando em Seu favor os mais fortes, inteligentes e capacitados homens. Contudo, a aversão é tamanha nos dias presentes que, quando alguém surge numa igreja, devidamente instruído e capacitado, ele pode ser rejeitado.

Na segunda comunidade com a qual trabalhei no campo missionário, o pastor, do qual já descrevi sua postura política, não pregava sempre de maneira lúcida, propalando, muitas vezes, sermões incompreensíveis. Alguns de seus sermões iniciavam numa pauta e terminavam noutra completamente diferente, de modo que, para muitos, não se sabia quando terminava, a não ser quando todos eram solicitados para orar encerrando. Algumas ovelhas saiam sem entender o que realmente aquele pastor quis transmitir naquela noite. Entendo as limitações educacionais e financeiras do Brasil, e não quero neste opúsculo ser juiz de ninguém. Entendo que nos corações de muitos pastores deste país paupérrimo habita o genuíno interesse de ser útil no serviço da casa de Deus. É de praxe, porém, o ditado que diz “o inferno está cheio de boas intenções”. A limitação não assassina a força de vontade. Quer dizer que porque não pôde adquirir uma boa formação ou ter as mesmas oportunidades, não pode ser humilde para desejar aprender?

A Palavra de Deus deve ser pregada com seriedade e compromisso, mas, acima de tudo com humildade. Naquele pastor, apesar de sua carência nítida às ovelhas que o amavam, faltava-lhe a humildade de pedir explicações, auxílio na preparação dos sermões, reconhecimento das limitações, enfim, o que um homem que preze pelas coisas divinas buscaria fazer: melhorar. Como pode haver edificação do povo se ninguém entende o que se queria falar? Todo líder deve ser capaz de executar a tarefa para qual foi chamado, senão para que seria chamado? O diálogo rico em conteúdo sobre liderança pastoral entre Jetro e Moisés tende a demonstrar as características necessárias para conduzir o povo de Deus. Jetro orienta na escolha de homens capazes, e não apenas assim, também tementes ao Senhor. O Reino de Deus deve ser desenvolvido debaixo de temor e da perspectiva de que Deus contempla e determina tudo. Ao trabalhar na obra é imprescindível que haja o pré-suposto de que é para Deus e não para homens que se faz, então, deve haver temor. Deparei-me, certa feita, com uma situação inusitada. Na primeira igreja que trabalhei no campo missionário o pastor padecia de situação angustiante. A priori, um dito presbítero levara-lhe metade do rebanho para outro pasto, numa intriga que não me foi detalhada e que acontecera antes de minha chegada. A posteriori, as que ficaram não tinham nenhum tipo de reverência nos cultos. Riam, brincavam, se atrasavam, conversavam, atendiam telefonemas, faltavam, visitavam outros cultos em dias de reuniões na igreja.

Aquele pastor estava desesperado e pediu-me orientação, na hora eu lhe disse “Como podem ser reverentes se não temem a Deus?”. Aquele pastor esgarçou os olhos em admiração, agradeceu-me a dizer que eu tinha razão. Depois passei a refletir a respeito do que dissera. A resposta me viera aos lábios impensadamente, como que transmitida diretamente pelo Espírito Santo. O temor ao Senhor é a marca que identifica um cristão (Lv. 25:36; I Sm. 12:24; II Cr. 19:9; Jó 4:6; 28:28; Sl. 2:11; Pv. 9:10; 10:27; 14:27; Is. 8:13; Ef. 5:21; I Pe. 2:17; 3:2; Ap. 14:7). Uma terra sem temor a Deus não mede as conseqüências de seus atos (Gn. 20:11). Para Salomão, temer ao Senhor é odiar o mal, a corrupção, o caminho errado, a arrogância e a soberba (Pv. 8:13). Claro, no serviço em temor ninguém deseja tomar o lugar de honra, que é destinado ao Todo-Poderoso. Os soberbos e arrogantes não temem a Deus, antes confiam em si mesmos. Também, em provérbios, é o temor ao Senhor que desvia o homem do pecado (Pv.16:6). Para Paulo, apenas temendo ao Senhor se pode seguir na santificação (II Co. 7:1). O conselho de Jetro é perfeito, e todo líder necessita, além de ser capacitado, ser temente.

Ao encontrar homens capazes, Moisés teria a ajuda da qual necessitava, porém, ao encontrar homens capazes e tementes, além de auxílio, teria a certeza da companhia de homens que fariam de tudo para não prevaricarem os preceitos de Deus. Estes são autênticos líderes, capacitados para a função que exercerão, tementes a Deus de todo o coração, e contra Ele evitam pecar ou entristecer (Ef. 4:30; I Ts. 5:19; Tg. 4:5). A adjetivada liderança deveria ser complementada com a verdade. Falar a verdade é uma postura de autenticidade e a denúncia da coragem, de espíritos que não têm covardia. Isto porque a verdade quase sempre é dolorosa, e por pior que seja, não deve ser faltosa, nem deve ser mascarada. Por isso, Jetro ainda estabelece que os homens escolhidos deveriam falar a verdade, o que deve de fato fazer todo o que é chamado para liderar, pois no Reino dos Céus não há lugar para a mentira (Sf. 3:13; Ef. 4:25; Tg. 5:12; I Jo. 1:6; 2:4, 21; II Jo. 1:4; Ap. 21:27; 22:15), aliás, a mentira tem pai (Jo. 8:44). Um líder deve sempre falar a verdade, ainda que incomode (II Tm. 4:3), porque ao que profere mentira resta o descrédito. Quando uma liderança é surpreendida em mentira sua recuperação pode haver, a depender da situação, mas, será longa e vagarosa, com vários receios e questionamentos, gerando a dificuldade de haver novo depósito de confiança.

O falar a verdade produz confiança, e esta é base de todo relacionamento. Um matrimônio não sobrevive quando inexiste confiança e, também, nenhum relacionamento. Ainda que o casal seja eternamente apaixonado, a dúvida, e os problemas que ela atrai, acaba por destruir a união. Da mesma forma é com uma amizade, e a situação tende a piorar com líderes e liderados. A confiança não é conquistada, é merecida. Quer dizer, ninguém conquista a confiança de outrem, ele a recebe por mérito de acordo com suas capacidades. Uma vez perdida a confiança, em alguns casos, jamais é recuperada. No mundo, quando um funcionário é inconfiável, ele é demitido. E no Reino de Deus? É o Senhor obrigado a trabalhar sempre com líderes inconfiáveis? Deve o povo suportar tal julgo? De maneira alguma. O maior exemplo de que mentirosos não sobrevivem no seio da igreja é o casal Ananias e Safira (At. 5:1-11). Logo, os líderes a serem eleitos por Moisés deveriam se portar em verdade, tanto mais pela contradição que seria servir a Deus proferindo mentiras.

A última característica apresentada por Jetro, então, era odiar a avareza. Pode parecer que seja algo desconecto no meio do conselho, mas, não é. Avareza não é apenas apego a bens materiais, também é a prioridade deles em lugar de todo o resto. Quem é avarento ama mais as riquezas que ao Senhor (Lc. 12:34; 18:23, 25). É, pois, que se fazia necessário a Moisés escolher homens desapegados das coisas deste mundo, senão jamais poderiam cuidar das coisas do Senhor. A destruição que causa o apego ao dinheiro é desmedida (Mt. 6:19, 20; 16:26; I Tm. 6:10).

Escolher homens avarentos significaria se acompanhar daqueles que, por qualquer quantia, seriam facilmente comprados. O coração de um líder não pode estar no dinheiro, e esta é, de todas as características, a mais escassa de todas. A evolução e o comodismo da modernidade seduzem a humanidade com tranqüilidade. É difícil, hoje, encontrar líderes que não usufruam de todas as regalias que o dinheiro lhes possa dar. Aos bem sucedidos líderes, com salários astronômicos, como nas igrejas com as quais trabalhei no início de minha caminhada ministerial, restam bons carros, boas moradias, contas bancárias gordas e uma poder visionário que é medido pela capacidade de prosperidade que tenha. Todavia, o Rei dos reis nasceu numa manjedoura (Lc. 2:7), e não tinha aonde reclinar a cabeça (Lc. 9:58). Ademais, a avareza atrai infidelidade. A corrupção por somas e quantias é comum. Escândalos envolvendo servos de Deus e dinheiro, preenchem as colunas de jornais e revistas semanalmente, além de ocuparem as manchetes televisivas. Como poderia Moisés escolher líderes que, por somas e dotes, mentiriam, enganariam, ou mesmo roubariam do povo, já que tinham função de líder? A liderança não pode apegar-se a matéria, ou se corromperá, deixando de redargüir o povo para não afastar os fiéis dizimistas.

Em uma das igrejas de grande porte com as quais trabalhei, tomei ciência por terceiros do adultério de um presbítero que ali trabalhava. O adultério se fizera gritante, pois, quando vim a informar-me do mesmo, soube porquanto, noutra igreja da cidade, consagrara o filho fruto deste adultério. Tomei a iniciativa de contar a liderança daquela igreja o que soubera, e perguntei se tinham conhecimento do fato. Ao terminar de me ouvir disseram-me que já sabiam do ocorrido, mas, nada podiam fazer e que evitariam transtornos naquela ocasião, pois, o dízimo daquele presbítero era alto. Quase cai da poltrona ao ouvir aquilo. Pus-me de pé, disse-lhes o quanto estavam errados, e que aquela não era a postura correta, portanto, não contassem com o meu silêncio. Todavia, silenciei-me, não por maiores receios, mas, por dó dos filhos daquele presbítero, os quais eu discipulava. Desde então, demonstro que a liderança não pode se associar aos anseios deste mundo. Na semelhança de Jetro, procuro identificar os malefícios que causa o dinheiro, que deveria servir ao homem, e não homem servi-lo.

A ganância é uma inevitável arma diabólica quando o coração do homem está a serviço de si mesmo, e não do Senhor Jesus. O problema do apego a matéria é enquadrado em todos os demais textos bíblicos que falam acerca do pastorado. Tal vício materialista gera a usurpação para com o rebanho, dele não cuidando, apenas sugando-lhe os recursos e tudo quanto tem (Ez. 34:8; Zc. 11:5, 17; Jo. 10:12). Infelizmente, tantos líderes ainda são assim. As ovelhas servem para o alento de suas regalias, e quando rebanhos mais cevados ele encontra, migra sequer lembrando das ovelhas que o enriqueceram. Ainda há líderes semelhantes, e quando são denunciados, “Jerusalém mata os seus profetas e apedreja os que lhe são enviados” (Mt. 23:37). Enquanto personalidades de marketing e liderança procuram ganhar espaço com suas idéias e teorias, todas se encontram encapsuladas no conselho de Jetro. Há mais de três mil anos um simples morador da terra de Midiã já sabia como gerenciar adequadamente e governar resolutamente uma nação. Estes conselhos encabeçam as qualidades de um líder, de alguém que irá lidar diretamente com o povo. Isto não quer dizer que aqueles que demonstram tais adjetivos não estejam sujeitos a errar, mas que estarão mais propensos a acertar.

Há a congruência de ensinos que arregimentam a postura pastoral. Preocupar-se com o povo, saber ouvir, ensinar a Palavra e a vontade de Deus, ser capacitado, ser temente, falar sempre a verdade e não amar as riquezas. Tais qualidades remetem a vida de Jesus, que Se portou desta maneira durante todo o Seu ministério. Destarte, Moisés ainda tinha algo a ensinar, porquanto ao ser chamado, Deus não o chamou aleatoriamente, sim, decididamente, porque – claro – era sabedor de sua determinação e de suas habilidades.

Assim, Moisés, desdenhando de ser preocupado com as questões do povo, de saber ouvir ao povo, de ter as características de um líder e ser mediador sacerdotal entre o querer do Senhor Deus e o destino daquela nação, Moisés era extremamente humilde (versos 23 e 24 – “Se isto fizeres, e Deus to mandar, poderás então subsistir... e Moisés deu ouvidos à voz de seu sogro, e fez tudo quanto tinha dito”). Que fato maravilhoso de se observar. Ele não foi consultar ao Senhor como orientara Jetro ao término do conselho, ele deu ouvidos ao conselho que recebera e fez tudo quanto seu sogro lhe dissera. Moisés agiu porquanto sabia que o conselho era bom, porém, especialmente porque era humilde. A humildade é a base do crescimento de qualquer ministério.

Bem que Moisés poderia ter dito algo parecido com “Olhe, Jetro, eu sou aquele que foi escolhido, então, quem entende e manda por aqui sou eu, ou acaso falaste com Deus face a face? Já foste arrebatado numa nuvem para a presença do Senhor? Como queres ensinar a mim, que ando com Deus, como devo proceder? Sabes tu que fui educado na côrte de faraó? Tenho muito mais formação que você, assim, não me venha com suas tolices”. Enquanto muitos líderes são presunçosos e arrogantes, o maior de todos os profetas de Israel era humilde e simples. Por isso, diz-se dele que tinha o coração manso (Nm. 12:3). Particularmente, já tentei dar conselhos para alguns líderes. A maioria deles me disse que eu ainda era novo. De fato, sou muito novo, mas, não significa que não tenha algo a ensinar.

Fica-se a refletir como seriam recebidos os apóstolos de Jesus nas igrejas de hoje. De todos, Pedro era o menos instruído. Porém, todos eram apaixonados por Jesus e pregavam contundentemente a verdade, a ninguém agradando, senão ao Senhor. Criou-se uma estória quanto a determinada igreja que busca preencher a vaga pastoral ali vacante. Dois candidatos se propuseram. O primeiro, muito educado, era pastor luterano, escritor, combatente das forças nazistas na Europa ocupada pela Alemanha de Hitler, audaz, verdadeiro, ético, tinha uma conduta irrepreensível. O segundo, sendo mui sincero, informa que já estivera preso, que fôra apedrejado, que já o expulsaram de sua cidade natal, que já padecera perseguições e calúnias, e que, apesar de tudo, prosseguia em sua fé. A igreja, então, comparando as duas cartas, escolhe o primeiro candidato, ninguém naquela comunidade queria um pastor problemático e que já estivera preso. A escolha que supostamente fizeram se chamava Rudolf Bultman, o antiteólogo que deu início ao movimento de secularização da Bíblia. O segundo, ao qual desprezaram, era o apóstolo Paulo.

 
 
 

CAPÍTULO 2

No lugar de orações, pedidos

 

“O desejo de orar já é oração” - Bernanos

 

Algumas características enquadram a vida daquele que passou pelo processo do novo nascimento. A Bíblia elenca condutas que são absorvidas pelo cristão na medida em que o mesmo inicia sua trajetória de fé.Quase todas serão demonstradas nos capítulos subseqüentes. Entre tantos adjetivos que a cada pessoa, gradativamente, são incorporados, encontramos o hábito e o exercício de orar. Orar não é uma regra, não é um dever, não é ocasional, não é circunstancial, é um prazer, simplesmente porque é a única atividade cristã que põe, individualmente, em comunhão com Deus.

Ocorre que ao longo dos anosem torno da oração criou-se um momento conturbado da vida cristã, no qual uma parcela enfatiza a importância tendo em vista as guerras espirituais, outra parcela dedica sua ênfase no exercício da oração como forma de adquirir bênçãos através da insistência, enquantooutra parcela não dá crédito algum tratando apenas como regra de um sistema religioso. Essas três maneiras de conceber o gesto de orar, apesar de algumas bem intencionadas, pecam por ausência de harmonia com os demais ensinamentos bíblicos acerca da oração.

Claro que para adquirir bênçãos e uma vida próspera o ensinamento bíblico não é de orações voltadas para este fim, mas, de manter a comunhão com Deus e Ele suprirá as nossas necessidades (Fp. 4:19). Aliás, ao caráter de Jesus, Aquele que verdadeiramente enfatiza a urgência de orar, Ele jamais ensinou, comentou ou afirmou que os cristãos teriam uma vida voltada para o sucesso financeiro e pessoal, porque isso é hedonismo. Do contrário, Jesus sempre ensinou acerca das aflições (Jo. 16:33); das perseguições (Jo. 15:18,19); da renúncia (Mt. 16:24); negação (Mt. 19:29); e os discípulos seguiram sempre o mesmo raciocínio (Rm. 8:36; I Jo. 2:15-17; 3:1, 17; 4:4; 5:4), como adiante ficará bem demonstrado.

Ainda, o grande enfoque em batalhas espirituais colocou os cristãos em uma postura quase que mística, com transcendência do espírito, viagens espirituais (ou seriam astrais), beirando o risco de, sem um discipulado e orientações bíblicas, trazer um grande misticismo para dentro das igrejas evangélicas. Manter a comunhão com Deus é o único meio que o cristão terá para vencer as suas intempéries do dia-a-dia. No caso da batalha espiritual, especificamente, não foi orando que Jesus venceu a tentação, mas através da Palavra (Mt. 4:1-10). O período de oração e jejum de Jesus O manteve em comunhão com o Pai, e O fortaleceu.

Evidente que no momento que o cristão se mantém em comunhão com Deus é certo que vencerá as batalhas e o reino das trevas, pois o império satânico não se sujeita ao nível de santidade, aos dias de jejum ou a ênfase na oratória do indivíduo, contudo, se sujeita ao Nome de Cristo (Mt. 7:22; 10:22; 18:20; Mc. 9:38; Jo. 14:14; 15:16; 16:23; At. 2:21; 4:12; 16:18; Fp. 2:9,10).Em experiências dos ministérios do próprio Jesus e apostólico, jamais o crédito esteve nas pessoas, nas circunstâncias, na consagração ou no ambiente, contudo, os milagres, as libertações e tudo o mais que acompanha o anúncio e a implantação do Reino de Deus sujeitou-se e aconteceu mediante o poder que existe no Nome de Jesus.a ausência total de um norte sobre o que significa orar, ou sermões voltados para a área, especialmente no Brasil, causaram uma disfunção no Corpo de Cristo a nível nacional. A oração perdeu o sentido primário de sua eficácia e a motivação de seu exercício.

Por exemplo, há quem diga que o melhor horário a se manter em batalhas espirituais é entre 00 h. e 03 h., ou seja, pela madrugada. Bem, pergunta-se, por quê? A informação dada é que compreende o período em que o Diabo mais atua. Decerto que é costumeiro haver trabalhos satânicos nas madrugadas, porque não são invocados à luz do dia, especialmente quando existe o exercício de uma prática ilícita para o alcance dos fins, como sacrifícios. Contudo, não opera o Diabo a todo tempo (I Pe. 5:8)? E na madrugada do Brasil, não é dia no Japão? O Diabo opera em qualquer hora, e em qualquer lugar, por isso que a oração deve ser constante (I Ts. 5:17).

Construir uma idéia requer alicerce e fundamento bíblico, amparo que desenvolva legitimidade naquilo que é proposto. Ao invés de demonstrarem claramente o que significa e qual é o papel da oração dentro das Sagradas Escrituras, autores diversos passaram a ensinar como orar, tentaram entender o mecanismo que torna uma oração aceita ou não, o que faz Deus ouvir e atender, ou o que O faz nem sequer prestar atenção nas palavras balbuciadas de alguns servos. As orações, apesar de haver nelas a característica de demonstrar necessidade, carência e dependência, não servem para constranger Deus a que faça algo. A Bíblia é límpida e cristalina ao demonstrar que as três únicas forças que motivam a operação de Deus são a perseverança (I Sm. 8:7; Lc. 18:5); a fé (Lc. 7:50;8:48; 17:19; 18:42; Hb. 11); e oquebrantamento (Sl. 34:18; Lc. 18:13). Estas forças, quando agem ao lado da oração, sempre aplicam determinada e desconhecida influência sobre a Pessoa de Deus.

Quando tais forças estão associadas a períodos de oração, podem, sim, constranger a ação e a intervenção de Deus na história, mas, não significa que toda oração disporá de um atendimento imediato do Senhor, porque a oração serve muito mais para se colocar na disposição e de conhecer a vontade de Deus (Sl. 40:8;143:10; Is. 46:10; Mt. 6:10; 26:42;Mc. 3:35), do que fazê-lO atender os caprichos de nossos sonhos e emoções.É importante, de uma vez por todas, entender que orar é buscar o querer de Deus (Mt. 6:10; 26:42).Durante o agir de Deus na história da humanidade, sempre foi assim que Deus quedou-Se a prestar auxílio aos Seus filhos. De nenhuma outra maneira Deus demonstrou atitudes em prol de Seus servos, que não através de uma forte comoção, quebrantamento (II Cr. 7:14); de uma evidente demonstração de perseverançae fidelidade (Dt. 28:1 a 14); ou de uma inequívoca prova de fé e confiança (Mc. 9:23; Lc.8:48; 17:19; 18:42; Jo. 3:16, 18; 5:24; 14:12).

A Bíblia é a maior referência a disposição para provar inúmeras outras ocasiões em que assim aconteceu. As situações em que houve respostas às orações com a realização de um milagre, existiram porque em tais orações estes elementos estavam presentes. Bem, de logose percebe que há um ponto a considerar que muitas vezes não é enfatizado por certos líderes, a saber, que oração não é petitório. Desde crianças todas as pessoas são conduzidas ao pensamento de que orar é pedir, e oram para que Deus socorra e atenda às preces. Em raríssimas situações é ministrado o entendimento de que orar é manter comunhão. Por força disto, as reuniões das igrejas, de um modo geral, quando congregadas a orar, criam um cansativo e ininterrupto monólogo aonde apenas uma pessoa fala e a outra escuta, e É Deus Quem Está sempre ouvindo. Inexiste a perspectiva de que, eventualmente, queira Deus, também, falar, e assim as preces seguem, verborragicamente, em direção aos suplícios e favores que se almeja dEle receber.Doutra banda, por não haver o pré-suposto de que o Todo-Poderoso possa dirigir ao indivíduo algumas palavras, os ouvidos estão sempre tapados, exercitando involuntariamente o hábito de ouvir Deus através da manifestação de dons em indivíduos que em Seu favor sejam usados em profecia, revelação, e dons afins. Ocorre que Deus não quer manter este tipo de relacionamento, em que alguém, mais próximo e sensível, ouve e discerne a voz dEle, transmitindo o Seu recado.

Na verdade, quando olhamos as características de uma profecia, e todas as vezes em que Deus através deste ato Se revelou ao povo, foram sempre necessárias porque o povo de Deus endureceu o coração ou se desviou de Seus propósitos (Is. 44:20; Jr. 2:35; Ez. 6:9). Ao olharmos não apenas para os textos mencionados destes profetas maiores, percebemos a mesma característica em todas as demais atividades proféticas desenvolvidas na terra de Israel. Samuel como juiz auxiliou a estruturação da monarquia judaica removendo o péssimo reinado de Saul pelo de Davi; Elias combatia o reinado corrompido de Acabe; Eliseu combatia a idolatria e a prostituição da nação israelita; Isaías condenou o povo pela corrupção que resultou em dois cativeiros; Jeremias apontou os pecados do povo que sobreviveu em Jerusalém após o ataque de Nabucodonosor; Ezequiel demonstrava ao povo no gueto babilônico que ali estavam por haverem profanado o caminho do Senhor em suas vidas; e assim sucessivamente. O próprio João Batista nasceu para advertir o povo e prepará-lo para a chegada do Cristo.

Sempre que os homens endurecem o coração, Deus busca os mais quebrantados para que levem adiante o Seu recado.Contudo, a obra da cruz não existe para isso, para que o povo permaneça corrompendo-se com ídolos e mundanismo, e permaneça Deus suscitando servos para alertar e corrigir o povo. A cruz existe para romper grilhões, amarras e abismos, e todo indivíduo ter livre acesso ao Santuário de Deus (Mc. 15:38; At. 2:4; II Co. 3:18; 5:10; I Pe.2:5). Note que o ato de orar não é a manifestação pública ou eclesiástica de expor as palavras de uma maneira correta, sim o hábito particular e isolado de manter comunhão com Deus, assim como Jesus costumeiramente se retirava para locais isolados a fim de orar (Gn. 24:63; Mt. 6:6; 26:36; Mc. 6:46; Lc. 6:12; 9:28).

Era costume de Jesus, e de vários outros servos, além de Isaque, sair e, afastado do turbilhão da cidade, se apresentar a Deus em oração, a semelhança das vidas de Elias e João Batista.Esse isolamento demonstra, gritantemente, que a oração é o desenvolvimento da íntima comunhão com Deus, não apenas de se entrar na intimidade dEle, mas de deixá-lO entrar na intimidade pessoal.Isto demonstra, evidentemente, que o interesse da oração é fazer de cada indivíduo um sacerdote e intercessor (I Tm. 2:8) em seu lar. O propósito do Senhor não foi o de instituir a oração como uma via de solicitações à Ele mesmo, contudo, um diálogo aonde o ser humano encontra refúgio, refrigério e recebe orientação para sua vida cotidiana comum, passando a ser guiado por Deus.

O interesse do hábito de orar para aquisição de benefícios, mudança de quadros e bênçãos da parte de Deus, fez com que o povo não ponderasse nas demais coisas que intervém para o agir de Deus, levando-as de encontro a um Cristianismo sem prática ou desenvolvimento diário da comunhão com Deus, portanto, um Cristianismo sem efeitos e sem desfrute da vida e do companheirismo do Salvador.É de bom alvitre, ainda, perceber que, mesmo as parábolas sobre oração narradas em Lucas 18, estão firmadas em perseverança e quebrantamento, a título daquilo que já foi explicado; de mesma sorte que a oração modelo, enunciada por Jesus no capítulo 6 de Mateus, constitui-se na fé firme em Deus (versos 9 e 10),confiança (verso 11), quebrantamento (versos 12), e perseverança (verso 13).Deste modo, os exemplos de hábitos de oração como maneira de comunhão prevalecem desdenhando do uso vulgar da oração que hoje se faz qual lista natalina.

Ao invés de os cristãos deste novo milênio estarem em busca de uma intimidade com Deus através da oração, estão muito mais em busca de resultados práticos através do exercício de orar, o que gera desapontamento quando a resposta é tardia, demorada ou, ainda, quando não vem.O imediatismo e o pragmatismo oriundos do pós-moderno corromperam e cauterizaramaté mesmo os cristãos, que hoje buscam nas suas orações o mundo VISA ou MASTERCARD de ser: receber a benção, nem que seja parcelada em dez vezes.

O importante é adquirir a benção, e não mais manter comunhão com o Deus que abençoa. O princípio ativo do Reino de Deus é tão inversamente proporcional ao atual que as bênçãos, que tanto buscamos nos dias de hoje, eram comuns e conseqüentes à uma vida de comunhão com Deus (Dt. 28:2).Esquecem-se os que assim procedem que nem todos da galeria da fé de Hebreus (capítulo 11) tiveram orações respondidas. Veja do verso 35 ao verso 40. Heróis que, ainda que não tenham cometido nada contra o Senhor, não alcançaram a promessa (verso 39). Isto não os diminuiu, contudo, os enobreceu, ao ponto de o mundo não ser digno de haver sido pisado por tais indivíduos (verso 38).

A partir do momento que criamos o preceito de que toda oração é respondida, entendendo que esta resposta é física, materialou, melhor dizendo, entendendo que esta resposta é sempre “sim”, esquecemos que Deus, também, sabe dizer “não” (Dt. 3:26; Ap. 6:10, 11). Ainda mais porque o texto Sagrado diz que o Senhor Está atento às orações (Sl. 34:15; I Pe. 3:12), e não que Ele atende aos pedidos de todas as orações. O homem é quem se sujeita a vontade de Deus (Sl. 40:8; 106:4; 143:10; Is. 46:10; Mt. 6:10; 7:21; 10:29; 12:50; Rm. 12:2; Fp.2:13), e não Deus Quem Se sujeita a vontade do homem. Sujeitar-se ao querer de Deus é a única maneira de alcançar as Suas promessas (Hb. 10:36). Todavia, devido ao falso entendimento de que a oração altera o curso da história - como que Deus, Onisciente e Onipotente, já não o tivesse visto e feito caso algo possa ser alterado – os cristãos são direcionadospara um exercício ineficaz da oração, que apenas procura de Deus o Seu auxílio, e não a Sua companhia. A oração não tem o único fundamento de levar Deus a tomar nota de tudo quanto necessitamos, pois, de tudo que necessitamos, Ele já sabe (Is. 65:24; Mt. 6:8, 32). A oração tem por fundamento envolver a Deus em nossas vidas singelas, e adentrarmos em comunhão com o Todo-Poderoso (Sl. 30:10; 39:12; 86:17; Jr. 33:3; Mt. 26:37).

A importância de reter o conhecimento correto acerca da oração é necessária e útil, porquanto na medida em que a prática de orar se desenvolve erradamente, os cristãos tendem a culpar Deus por suas próprias frustrações. Esta ignorância não pode prosperar. O próprio Gandhi, líder pacifista da Índia, já ensinava que “orar não é pedir. Orar é a respiração da alma. Como o corpo que se lava não fica sujo, sem oração se torna impuro”. Com o manifestar do hábito, ficará percebido que o exercício da oração não significa que Deus atenderá a todos os pedidos que são feitos, mas decerto que Ele as ouvirá (Sl. 34:17) e Estará em íntima comunhão. Há no texto Sagrado relatos claros e concisos de quando orações são feitas e pedidos não são atendidos, e orações acompanhadas de pedidos que foram atendidos porquanto nos mesmos se achava íntima comunhão entre Deus e aquele que clamava. Decerto, o próprio Jesus ensinou que as orações petitórias só são atendidas quando existe comunhão entre quem ora e o Senhor, que atende (Jo. 15:7),mesmo porque é impossível saber o que Deus pode fazer sem comunhão para conhecer a este Deus.

Aliás, o próprio Deus ensinou que ouve a todas as orações e ajuda a todos os que Lhe clamam por socorro, porém, o que impede o Seu agir é a separação pela ausência de comunhão (Is. 53:1, 2). É impossível ensejar que Deus nos agrade obrigatoriamente quando sequer somos fiéis a Ele e ao que Ele quer de nós. Gerou um vício o hábito de orar por bênçãos sem que para isso haja uma necessária, abrupta e total mudança de vida.Os cristãos adquiriram o costume de “profetizar” por suas bênçãos, “tomando posse” da Palavra de Deus. Ocorre que a posse desta Palavra é tomada com vida prática, com esforço, com dedicação e com abnegação (Lc. 9:23; 13:24).Este errado costume fez com que muitos decorassem os textos Sagrados nos lábios, mas não na vida, no coração. A Bíblia precisa ser decorada como conduta e ética diária, precisa ser a nossa práxis e dela testemunharmos (Sl. 37:31; 40:8; 119:11; Tg. 2:26; I Jo. 1:7; 2:3, 4, 6), não como informação para se repetir em dias tempestuosos.

Infelizmente, pelo desejo ardente de sucesso neste plano físico, os cristãos têm desenvolvido um relacionamento superficial com Deus. De fato, os evangélicos demonstram tanto interesse em serem bem sucedidos neste mundo que estão gerando o questionamento se de fato crêem no céu e na vida eterna. O apego a este plano é tão contumaz que as doutrinas de céu e vida eterna devam ser divagações distantes nos planos de algumas comunidades.Chega-se a questionar se realmente esperam uma vida melhor do que esta física, porque a conduta, mesmo nas orações em busca de sucesso e vitória, está tão ligada ao plano terreno que o plano divino deva ser algo escapista, um recurso na ausência de melhoria na qualidade de vida deste planeta.

Assim, a crescente onda de oração em busca de realização pessoal contradiz todos os ensinamentos bíblicos, e muito mais a conduta dos próprios discípulos e demais cristãos do primeiro século de vida da Igreja. Os sermões e as conotações concedidas à postura de um cristão na sociedade, atualmente, estão em oposição direta à vida dos discípulos e à implantação do Reino dos Céus realizada nos ensinos de Jesus. Orar nunca foi um gesto público, nunca foi uma lista de necessidades, nunca foi o exercício para o alcance material, nunca foi um caminho para o sucesso. Orar é entrar em íntima comunhão com Deus, entrelaçar nosso espírito com o Espírito de Deus, e sermos totalmente dirigidos e preenchidos com a presença dEle (Ef. 5:18), enquanto que nos esvaziamos de nossa natureza caída e corrompida (Ef. 2:3).

Logo, o hábito de orar é o passo para desenvolver a mais íntima comunhão com Deus, enquanto que o realizar de Deus, o agir de Deus e Seus milagres estão intimamente ligados ao quebrantamento, à fé e à perseverança. A vida cristã não pode e não deve se resumir ao que Deus É capaz de fazer, porquanto significa dizer que esta servidão e esta vida religiosa findarão quando Deus nada fizer. A hipocrisia espiritual é a doença que contamina todo o Corpo de Cristo e não combatê-la significa aceitá-la.

As ações de Deus se distinguem não por tempo de oração, porém, por qualidade de comunhão. O tempo que se passa em oração não classifica a espiritualidade de ninguém, define a comunhão e o prazer que se sente em estar próximo de Deus. Quanto mais tempo, significa que maior é o prazer em estar na intimidade do Senhor. Em contrapartida, para que Deus opere em favor de alguém, Ele leva em consideração alguns itens necessários, valoradas apenas por Ele mesmo. Por exemplo, Jacó perseverou em oração e Deus removeu a esterilidade de Raquel (Gn. 25:21); Ezequias quebrantou-se em oração e teve resposta (II Rs. 19:1; 20:3); Abraão teve e foi justificado (Gn.15:6); o homem creu na palavra de Jesus, e o filho foi ressuscitado (Jo. 4:50); e os exemplos não acabam no decurso de toda a Bíblia, sempre que as orações petitórias receberam respostas imediatas do Senhor, foi porque estiveram acompanhadas das agências que abaixam os céus um pouquinho mais, e faz com que Deus se incline em nosso favor (Sl. 51:17).

O exercício da oração é a manutenção do espírito do ser humano, é a comunhão com o Criador, é o discernir e o buscar conhecer a vontade de Deus. Orar é o ato de amor que se desenvolve para com Deus. Assim como o beijo, o abraço, o afago são demonstrações de afeto para com aqueles que amamos, nossa demonstração de afeto para com Deus é a oração. Enquanto não houver o entendimento explícito de que orar é manter comunhão com Deus, os cristãos não desenvolverão comunhão fortalecida com o Senhor, restando sempre à sombra de alguns mais sensíveis a voz do Espírito Santo.

 

·         O ATO INTERCESSÓRIO

 

Agora que existe o conhecimento daquilo que significa orar, é bom desmistificar algumas superstições quanto a oração. Há muito tempo os cristãos se envolvem com movimentos repentinos, que surgem e desaparecem assim como a força do vento. Estes “ventos de doutrina” (Ef. 4:14) corromperam e deturparam vários segmentos doutrinários da igreja. Em meio ao alvoroço que estes ventos causam, os métodos de oração foram subdivididos para batalhas espirituais, para petições e para intercessões. Como já demonstrado, as batalhas espirituais, apesar de bem intencionadas, pecam por centrar o caráter autoritário na oração e na santidade do crente, e não na Palavra de Deus e no nome de Jesus que são os exemplos biblicamente instruídos (Mt. 4:4, 7, 10; Jd. 1:9).O fato de tomar passagens de Paulo, como Efésios 6:12, para explicar as batalhas espirituais, é inconsistente, porque nesta passagem, por exemplo, o apóstolo não ensina um combate espiritual.

Paulo, durante todo o capítulo seis de Efésios, ensina sobre submissão e sobre resistência, não sobre batalhas espirituais. Ele aplica principados e potestades, assim como a armadura do cristão, em um ambiente de plano físico, e não espiritual.O que o apóstolo quer ensinar é a não revidarmos ofensas e mantermos a consciência de que tudo quanto fazemos é para o Senhor que o fazemos, pois, não andamos na carne e sim em espírito, então, devemos ter o discernimento de que aqueles que nos ofendem estão manipulados por forças espirituais, mas nós somos revestidos da armadura de Deus. Ou seja, é bastante diferente daquilo que comumente é aplicado. Paulo não queria intrigas e inimizades, ou brigas e contendas, ou ofensas e injúrias. Ele queria que cada cristão tivesse o discernimento de que alguns são usados por demônios para proferir afrontas, mas não se deve revidar, por já estarmos todos revestidos de uma armadura. Ora, o que isso significa, uma armadura, senão que o nosso corpo está protegido contra estes ataques das trevas?

Logo, o verdadeiro cristão não insurge em contendas, pois, como seu corpo se encontra revestido da armadura de Deus, ele é imune contra as farpas e as palavras dos adversários, ainda que eles estejam manipulados por principados e potestades. Assim, o cristão salta do plano físico para o espiritual, e não anda conforme a carne e suas inclinações, e sim consoante o Espírito e o Seu fruto (Gl. 5:19-22). A lida de cristãos com demônios é um cotidiano, pois, bem sabemos que o Diabo e suas hostes são nossos adversários (I Pe. 5:8), e não adversários de Deus (Dt. 32:39; 33:26; Is. 45:5). Com base neste princípio entendemos que a armadura do cristão descrita por Paulo não é uma vestimenta especificamente espiritual, mas, uma simbologia da vida com Deus.

A primeira parte da armadura é cingir os lombos com a verdade e vestidos com a couraça da Justiça (Ef. 6:14). É evidente que Paulo está conclamando a que os Filhos de Deus andem na luz e nunca faltem com a verdade (Sl. 119:30; Pv. 8:7; 16:6; Mt. 5:37; Jo. 3:21; 8:32; 14:17; 16:13; 17:17; Ef. 4:15; 4:25; I Jo. 1:6, 8; 2:4, 21; 3:18), seguindo os demais princípios bíblicos acerca deste ensinamento, e agora simbolicamente demonstrando que tais preceitos revestem o ser espiritual contra os ardis do Adversário. Por conseguinte, a couraça da Justiça não é outra senão a Justiça que herdamos de Cristo (Rm. 3:24; 4:25; 5:1; Gl. 2:16; 3:24; Tt. 3:7) e a desenvolvemos por meio da fé, andando sempre em retidão (Gn. 15:6; Dt. 16:20; 32:36; Jó 8:6; Sl. 4:5; 11:7; 15:2; Pv. 11:5, 6; Mt. 6:33; Rm. 5:21; 6:18; Ef. 4:24; 5:9; I Tm. 6:11; Tg. 3:18; I Pe. 2:24), quer dizer, é a justiça reconciliadora (Jo. 6:37; 10:28; Rm. 8:35), por meio da qual temos acesso ao Pai (Ef. 2:18; 3:12).A segunda parte da armadura é constada de calçados com a preparação do Evangelho da Paz (Ef. 6:15), na qual o apóstolo, mais uma vez, transparentemente, está apontando para a proclamação do Evangelho como dever de todo e qualquer cristão (Is. 52:7; Mt. 9:13; 10:6; 28:19; Mc. 16:15; Lc. 10:3; Rm. 10:15). A universalidade do ide não faz distinção de pessoa, classe ou condição.

A penúltima parte da armadura é o escudo da fé (Ef. 6:16), que dirige o pensamento à confiança e à fé que resiste aos ataques do Diabo (Mc. 9:23; 16:17, 18; Tg. 4:7; I Pe. 5:9), remete à fé que transporta montes e que opera os sinais (Mt. 17:20; Lc. 8:48; 17:6, 19; 18:42; Rm. 4:20; I Co. 16:13; II Co. 5:7; Hb. 11). E, enfim, o apóstolo Paulo apresenta o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra (Ef. 6:17). O capacete da salvação é o revestimento do novo homem, da nova natureza, que está selado e sua mente se encontra em Cristo (Rm. 6:6; I Co. 2:16; 6:20; 7:23; Ef. 4:22, 23; Cl. 3:9;Ap. 14:3, 4),assim, a proteção vem pela salvação, já que, estando em Cristo, por ele somos protegidos (Dt. 33:12; Jó 11:18; Jo. 3:15, 16; 6:47). Neste verso, a parte final diz que a Espada do Espírito é a Palavra de Deus, fazendo alusão ao fato de que a Palavra é a arma do Espírito contra as investidas do Diabo, já que nela se encontram as eternas promessas de Deus (Sl. 119:25; Mt. 4:4, 7 e 10;I Tm. 4:5; Tg. 1:22, 23; I Pe. 1:23;I Jo. 2:14; Ap. 3:8; 12:11).

Percebe-se, assim, que a armadura do cristão não é uma fórmula mística de transcender o mundo físico, mas a prática de andar de acordo com os preceitos estabelecidos por Jesus e pelos apóstolos, como reforça o próprio Paulo demonstrando que é uma atitude de oração (Ef. 6:18). Logo, o que se percebe da explanação da armadura do cristão é que constitui em desenvolvimento do conteúdo do Evangelho. A primeira parte é prática, chamando os cristãos a viverem as verdades do evangelho através de uma postura transparente, sem falsidade, sem mentiras, praticando a justiça que foi herdada em Cristo, pregando e anunciando as Boas Novas como dever evangelístico de todo aquele que herda tal riqueza.A parte final é um prolongamento da vida cristã através do ato de crer na providência e na ajuda inequívoca do Senhor, andando conforme a nova natureza através da mente de Cristo de acordo com a Sua Palavra. Resume-se a ser cristão e assumir uma postura sem vícios da velha natureza, sem revides e sem afrontas, tudo suportando em amor (Mt. 5:3-12; 39-44; 6:15; Ef. 4:2). A mania de se utilizar desta passagem, bem como da passagem de Daniel e a batalha com as hostes da Pérsia (Dn. 10), para ensejar batalhas espirituais ou fórmulas mirabolantes de enfrentar o Diabo, constitui afronta aos princípios de interpretação da Bíblia e mesmo aos ensinos apostólicos sobre oração, consoante demonstrado aqui.

No caso específico da passagem de Daniel, o mesmo perseverava em oração e, como forma de permanecer em oração, jejuava (Dn. 10:1-3). Daniel não desenvolveu uma fórmula mágica de jejum que produz resultado apenas porque deixou de comer manjares, carne e vinho, e nem se ungiu com ungüento. O que aconteceu com Daniel foi perseverança. Ele permaneceu em oração até que Deus revelasse o que estava acontecendo. Caso um anjo tenha tido problemas para ir ao encontro de Daniel (Dn. 10:13) não foram as orações de Daniel que modificaram o quadro, pois as mesmas foram ouvidas desde o primeiro dia de sua consagração (Dn. 10:12).Na verdade, foi sua perseverança como característica mais marcante de um servo de Deus.Da mesma forma, o jejum não é abstinência, e simcontinuidade, tem a significância de permanecer. Acreditar que o jejum sacrificial, por si só, retém poderes espirituais nas batalhas, pelejas e preparo, é ignorar tudo que se encontra ensinado nas Sagradas Escrituras. De fato, o jejum produz o efeito de permanecer na presença de Deus e, naquele período em que se estaria fazendo qualquer outra coisa, como, por exemplo, se alimentar, estar-se-á em oração.  O sinônimo de jejum é perseverança. Deixa-se de fazer o que costumeiramente se faz para manter o período prolongado de oração (I Co. 7:5). A Bíblia não é favorável a jejuns sacrificiais (Is. 58:5, 6). Aliás, a Bíblia não é favorável a sacrifícios (I Sm. 15:22). O jejum é a prática de não se alimentar para permanecer em oração, dedicando-se em todo tempo,não ocorre quanto a deixar de fazer algo, como assistir um programa televisivo que muito gosta. Jejum só se aplica a alimentos. Deixar de fazer algo que se goste muito para orar é abstinência, e não jejum.

O termo utilizado por Joel 1:14“sacrificai jejum”, que por vezes está traduzido como “santificai jejum”, encontra-se no sentido de não se alimentar para orar e manter-se na presença de Deus, não denotando que o sacrifício, em si, é estar na presença de Deus. O mesmo acontece com todas as outras passagens em que o jejum representa, solidamente, a continuidade no propósito que se lançou a Deus. Deixar de comer ou de fazer algo sem permanecer em oração representa passar fome ou desperdiçar tempo. O sentido de deixar algo de lado, de jejuar, é para estar na presença de Deus. Todos os exemplos de prática de jejum narrados na Bíblia demonstram um funcionamento desta maneira, a saber, para permanecer em oração na presença de Deus (Ex. 24:18; 34:28; Dn. 9:3; Mt. 4:2; At. 10:30). A mesma coisa acontece com demônios que resistem e só saem com jejum e oração (Mc. 9:29). O texto não está ensinando que o jejum produz efeitos maiores que a oração, porém, está ensinando a perseverar em oração se abstendo de fazer o que costumeiramente se faz, a fim de permanecer em oração até que a entidade se submeta.

Clareando o entendimento, há possibilidade para conhecer de fato aquilo que satisfaz a vida de oração. Qualquer entendimento que contrarie o que na Bíblia está positivado, deve ser analisado em conjunto com as demais referências bíblicas, a fim de não construir em torno do assunto uma informação errônea, uma teologia cotidiana totalmente equivocada. Portanto, pelos não resumidos textos que aqui foram apresentados é possível perceber que o fundamento da oração é comunhão com Deus, um diálogo com o Senhor para que haja edificação pessoal e confissão de culpas ou necessidades (I Tm. 5:5). Neste patamar, entendendo que a oração é um diálogo, assim, ela é ativa e funcional. Note que até o presente momento demonstrei de maneira bíblica que a oração não serve de muleta para pelejas travadas no meio espiritual, assim como não serve de aio para alcançar os sonhos egotistas em barganhas verborrágicas com Deus.

A oração pode ser ouvida e atendida, quando ela não é em busca dos próprios ideais ou em prol dos próprios benefícios. De acordo com os ensinamentos bíblicos é por certo que a oração tem dois períodos distintos e diferentes entre si. O primeiro é a oração pessoal, que por demais já foi apresentada em sua significância, conteúdo e destino. O segundo é a oração intercessora. A oração intercessora (Mt. 5:44; Lc. 6:28; Jo. 17:15; At. 8:24; II Co. 1:11; I Ts. 1:2; 5:25; I Tm. 2:1; Hb. 5:7; 7:25; Tg. 5:16) tem a finalidade de apresentar as necessidades do povo de Deus e suprir as carências do Corpo de Cristo. Um dos mais fortes exemplos de intercessão vem de Abraão, o qual intercedeu por seus familiares (Gn. 17:18-20), inimigos (Gn. 18:20-32) e amigos (Gn. 20:17).

Intrigantemente aconteceu a mesma coisa com Moisés, que soube exercer a intercessão por seus inimigos (Ex. 8:12, 13, 30, 31; 9:33; 10:18, 19), amigos/patrícios (Ex. 32:11-14, 31-34; 33:15-17; Nm. 11:2; 14:13-20; 21:7-8) e família (Nm. 12:11-14). Assim, aconteceu com muitos outros homens de Deus, mostrando que o exercício da intercessão é altruísta, sempre clamando por todos em volta, família, amigos e inimigos. Ora, não quer dizer que não seja um desenvolvimento da perseverança, assim como o ato de orar individualmente. Contudo, sua relevância é um quanto maior, pois, aquele que clama a Deus pelo bem de seu irmão, de um ministério, de um líder ou para o bom andamento em geral da obra de Deus, local ou missionária, está deleitando o seu coração nos interesses do próprio Deus, visto que são voltados para suster a propagação da Sua Palavra, cuidar de Seus servos e ao alcance daqueles que ainda são inalcançados. O povo de Deus não se atém aos apegos materiais que permeiam comunistas e capitalistas. Sabe que sua pátria não é neste plano (Jo. 14:2, 3; II Co. 5:20; I Pe. 2:9, 11) e que a morte lhe trará maiores benefícios do que permanecer neste mundo corrompido e prevaricado (Fp. 1:21).

Por força disto, a intercessão é o bálsamo que unta as feridas do Corpo de Cristo, velando por aqueles que militam ininterruptamente pelo prosseguimento da anunciação do Evangelho. Por ser abnegada, a oração intercessória tem avanços mais rápidos que as orações pessoais. Quando questionaram Spurgeon acerca do sucesso de seu ministério, o príncipe dos pregadores respondeu que devia às pessoas que oravam no salão térreo da Catedral enquanto ele pregava. Quando o Juízo Final é deflorado no livro do Apocalipse é iniciado em atendimento às orações intercessórias por justiça, feitas pelos mártires e pela a igreja (Ap. 6:10; 8:3-5) – veja que o juízo final, narrado no capítulo 8 do Apocalipse é motivado pelas orações dos santos. Pedro estava preso e, enquanto a igreja de Jerusalém clamava, um anjo foi à prisão e libertou Pedro que se encontrava algemado (At. 12:5-7).O maior exemplo de uma oração intercessória vem de Jesus (Jo. 17). Em momento algum Jesus pretende desviar-se de Seu caminho e apesar de Se encontrar em momento de extrema delicadeza, desenvolve toda Sua oração em clamor intercessor por Seus discípulos.

Outro exemplo vem, novamente, da igreja de Atos, a qual permanecia em oração até que no dia de Pentecostes cumpriu-se a promessa do Consolador (At. 1:13, 14; 2:1-3). Desumindo, o caráter da intercessão é mais voltado para necessidades alhures e, por isso, tem força mais relevante sobre a atuação e os princípios éticos do Reino de Deus. Ocorre que a oração pessoal é gritantemente afligida por ideais de sucesso, ganância e riqueza, comumente se relaciona com a felicidade pessoal, o que contraria diretamente os próprios ensinamentos e a vida de Jesus (Mt. 6:19-20; 19:21; Lc. 9:58; 12:33). A direção de nossas orações, na verdade, revelam a inclinação de nossos corações (Mt. 6:21; 12:34; Lc. 6:45). Desta maneira, algumas orações permanecem sem resposta, porque não são dirigidas com motivos justos ou de maneira correta (Tg. 4:3).

 

·         CONCLUSÃO

 

Durante todo o capítulo busquei apresentar uma teologia bíblica acerca da oração, esta que, tantas e tantas vezes é um exercício cristão que busca um fim em si mesmo, nunca noutrem ou no prazer de manter um relacionamento com Deus. Não poucas vezes a oração é um monólogo em que se pretende, por meio da mesma, forçar ao Senhor que atenda e socorra-nos em todas as nossas necessidades. Esquecemo-nos que nem sempre a resposta de Deus será sim, e que muitas vezes, para o nosso próprio bem, nos dirá não, afinal, Ele sabe como trabalhar em nossas vidas e nós precisamos aprender a confiar plenamente nEle, já que a Sua vontade jamais nos causará dano ou malefícios (Pv. 10:22; Rm. 12:2). Os cristãos do século XXI têm um desafio maior se comparado com todos os cristãos de todas as demais épocas, que consiste em resistir ao materialismo marxista.

A mídia, as propagandas, os parentes, a igreja, os líderes e tudo mais buscam medir o sucesso dos cristãos através da prosperidade e do equilíbrio financeiro que possam manter, e não de acordo com suas vidas, testemunhos e espiritualidade.Esta necessidade de status e aparência forçou um estilo de oração, também, materialista. É comum contemplarmos no Brasil campanhas em torno da já fatídica “teologia da prosperidade”. Ocorre que esta famigerada teologia da prosperidade nada mais é que o marxismo conservado na eclesiologia. A ausência de comunhão com Deus, ou esperança na pátria celestial,é tamanha que, em caso de enfermidade, a ansiedade em prol da cura ultrapassa a ansiedade em estar com Cristo na glória, aonde não há enfermidade, pranto, nem dores (Is. 65:19). Quer dizer, de fato muitos não acreditam, de forma prática, que há uma morada, uma nova Jerusalém.

Lembro-me de um congresso adolescente no qual estive como preletor. Pedi que todos dali que tivessem convicção da própria salvação fizessem um sinal com as mãos. Dois ou três o fizeram, dentre duzentos e cinqüenta.O mais interessante é que, quando os cristãos são confrontados acerca disto, costumam dizer que “ainda estão vivos”, que “não praticarão loucura ou suicídio”, que “ainda têm muito para viver”. Viver neste plano de pecado nunca foi um prazer para nenhum cristão. Claro, não estou dizendo que devamos nos matar, ou haver um suicídio, ou deixar de cuidar-se. Mas, que, se aumenta a proximidade do encontro com Jesus, o mais Amado das nações, porque os cristãos têm medo e procuram, por todos os meios, tardar este encontro?

Os discípulos tinham um desejo apenas, a saber, de estar com Cristo. Lutero anelava pelo dia em que se encontraria com seu “justificador”. Agostinho dimensionava o céu de uma maneira tão contumaz e próxima que escreve acerca do céu, que espera pelo céu, que busca o céu. Aquino, após uma revelação sobre as coisas do céu, deixou de escrever e disse que “tivera uma revelação tão avassaladora das coisas que estão por vir que tornou todos os seus escritos como que palha”. As pessoas se apegam a seus entes, às suas casas, aos seus templos, aos seus bens, à sua vida. De fato, tudo isto, também, representam ídolos, pois apontam que o deleite de muitos corações não está no Senhor e na esperança que nEle existe (Cl. 1:27; I Tm. 1:1; Hb. 10:23).

É importante haver uma restauração dos princípios cristãos, antes que inicie um declino do Cristianismo semelhante ao que ocorre nos países mais desenvolvidos.Logo, oramos não porque o Senhor pode atender o desejo de nossos corações, mas porque nEle encontramos refúgio, consolo, amizade, carinho, proteção. Oramos porque necessitamos dEle, sendo nosso único e verdadeiro Amigo, precisamos ouvir Seus conselhos, desabafar, confessar, receber. Oramos porque só Ele tem “palavras de vida eterna” (Jo. 6:68). Cada joelho que se dobra deveria buscar restauração, unção, resposta, e não apenas os pedidos que se aglomeram entre a terra e o céu. As orações atuais são ineficazes ao ponto de tardarem até mesmo a volta de Cristo. Anteriormente expliquei que no capítulo 8 do Apocalipse o juízo final se inicia porque a igreja e os santos clamaram por justiça. Inobstante, no capítulo 22 do livro do Apocalipse, no versículo 17, João apresenta qual é a oração do Espírito Santo, da Noiva (igreja) e dos que têm sede – sede de vida eterna, por isso que ele diz que beba da água da vida – que é o clamor “vem”. Quer dizer, esta é a oração da igreja verdadeira, do corpo místico de Cristo. O Espírito e a noiva estão clamando pela volta do Noivo. E pelo que os cristãos têm clamado senão por si mesmos?

No casamento judaico, pela predominância varonil, a noiva espera no altar por seu amado noivo. É por causa do casamento judaico que a igreja, sendo a noiva, aguarda pelo Noivo, sendo o casamento da igreja com Jesus um símbolo do casamento judaico. Ora, é claro que ninguém gostaria de ser deixado no altar do matrimônio, o que causa ainda mais estranheza ao ver que a igreja, na qualidade de noiva, não clama para que seu amado Noivo venha selar estas núpcias.Desumindo, Jesus ainda não veio porque a Sua noiva não O deseja mais.A maior crueldade que age hodiernamente na igreja é a inexistência de perspectiva celeste. Na antiguidade todos os povos indagavam as motivações de existirem, e tais motivações resultavam no questionamento acerca do lugar para o qual há de se ir quando morre, ou se de fato quando a vida acaba, acaba, também, o ente. Por séculos esta foi a maior preocupação do ser humano, ou seja, encontrar a solução para o pós-morte, encontrar o Deus Verdadeiro. Porém, agora o ser humano não quer encontrar uma solução pós-morte, e sim pré-morte. Por todos os meios que pode, consegue e conhece, busca furtivamente evitar a morte, pois o seu prazer está nas coisas deste mundo. Este é o coração da humanidade neomoderna (vide meu outro livro:Filosofia e Teologia no Século XXI).

A crise existencialista já existia na dramaturgia idealizada em Dr. Fausto, na mitologia em Sísifo, e hoje existe de maneira prática, já que o homem tem, de maneira escapista, buscado evitar seu encontro com o Criador.A ênfase em orações materialistas tem criado uma antinomia na doutrina cristã. O Cristianismo é uma religião voltada para a vida eterna. A sua prevalência sobre as demais religiões do mundo é que apenas o Cristianismo concede certeza acerca da vida eterna, é a única religião que garante salvação por meio de si mesma.As pessoas que passam pelas portas de igrejas evangélicas têm um desespero que não é saciado neste plano físico. A partir do momento que, sendo cristãos, passamos a pregar a possibilidade de uma vida de prazeres aqui - um hedonismo - estamos contrariando os princípios bíblicos que aqui já foram apresentados. O Cristianismo não estará saciando a razão última do ser humano, mas a razão primeira. A colocação de Jesus aos discípulos sobre a consistência da vida prossegue ecoando (Mt. 16:26). É inconciliável pregar acerca de céu, de abnegação, de altruísmo, enquanto as orações estão voltadas para prosperidade, sucesso e realização pessoal. Por força disto, muitas e muitas orações não são atendidas, por serem mal ensinadas e, assim, gera ainda mais dúvidas.

Porque muitas orações não são respondidas os cristãos indagam sobre a importância da necessidade de orar, já que para as mesmas não há resposta. A resposta não vem porque as orações são egotistas, superficiais ou frívolas. Quando as orações forem para que o Noivo volte, para que a igreja vença, para que os fracos sejam fortalecidos (Hb. 12:12), sim, elas terão respostas. Enquanto estiverem voltadas para obtenção de bens materiais, para o sucesso individual, para conquistas pessoais, continuarão zunindo sem resposta, e é mais provável que, se forem respondidas, sejam por intermédio de outro ser que se usurpe como deus, pois é apenas Satanás quem faz estas promessas de vida fácil e prosperidade terrena (Gn. 3:4, 5; Mt. 4:8, 9; 7:13; Lc. 4:6). Quando observamos as vidas daqueles que andaram com Deus, e que tinham orações respondidas, nenhum deles orava pelo próprio benefício, mesmo Ana, quando orou por um filho, o recebe porque jurou devolvê-lo ao Senhor (I Sm. 1:11), e mesmo assim ela foi perseverante (I Sm. 1:12).

Mais importante é que nenhum deles fez da oração um meio para atingir um objetivo, porém, todos tinham na oração o interesse de descobrir a vontade de Deus e obedecer.Ademais, o texto de I Coríntios 7:24, diz que cada um deve “permanecer na posição para a qual foi chamado”. A Bíblia é clara ao perceber, desde a oração do Pai Nosso, que o atendimento de Deus se limita à necessidades, e não vaidades. Destarte, o atendimento de Deus, assim como a distribuição dos dons de Seu Espírito, ocorre de acordo com a utilidade ministerial (I Co. 12:7), pois cada um recebe apenas o que lhe é devido, conforme suas capacidades (Mt. 25:15).Isto nos leva a entender que, em se tratando do beneplácito de Deus, Ele fará aquilo que de fato for necessário aos Seus servos.

Quando Jesus ensina a orar não ensina Seus discípulos a pedirem o que for desnecessário ou vaidoso, sim, a pedir o que é essencial (Mt. 6:11). Esse é o princípio da fé cristã, a conformidade com as adversidades da vida (Sl. 34:19; Mt. 5:11; Jo. 16:33; Rm. 8:18; II Co. 1:5; II Co. 6:4; I Pe. 3:14). Acontece que o mais difícil na fé é aceitar aquilo que Deus separou para nós. Os cristãos não podem viver orando a Deus tendo por mensura a vida dos outros, o sucesso pessoal ou a condição financeira. Assim, jamais terão aquilo que de fato Deus separou para eles. Muitos experimentam apenas um reflexo opaco e parco daquilo que Deus tem a derramar. De outra sorte, o Corpo de Cristo é diversificado, nEle não existe apenas profetas, não existe apenas pastores, não existe apenas o dom de cura, não existe apenas o dom da visão. O Corpo de Cristo necessita de todos os dons e ministérios operando na igreja. Apenas assim a multiforme graça de Deus é revelada (I Pe. 4:10).

Então, percebemos que o problema da oração não é tão simples como parece. Fórmulas engendradas não servem para definir ou melhorar a relação pessoal que se desenvolve com Deus. Enquanto a oração não tiver por primeiro objetivo manter a comunhão com Deus e descobrir o que Ele deseja realmente de Seu povo, ficarão estranhamente perdidas no vácuo sonoro. Ainda, é de bom alvitre jamais tornar a misturar intercessão com oração. Enquanto que o ato intercessório é em benefício de outrem ou do Reino de Deus, a oração é pessoal e individual. Também, a oração não serve para a realização dos sonhos, como demonstrado, ela serve para a comunhão com Deus, em total demonstração de submissão e dependência. Na oração o único sonho que se busca é o sonho de Deus para as nossas vidas. A oração, também, não é uma força mística ou cósmica, que aliada ao jejum, exerce certa autoridade contra os principados e as potestades, como no corpo deste capítulo está exposto. O que torna principados e potestades sujeitos ao cristão não é sua vida de santidade ou sua oratória, mas o grau de comunhão e dependência que ele tem de Deus, pois quem repreende É o Senhor, É o nome de Jesus que tem poder. A santificação e a busca pela mesma são deveres cristãos que apenas irão melhorar a comunhão, o temor e o zelo pelas coisas divinas (Hb. 12:14), aperfeiçoando o caráter (I Co. 2:16).

Espera-se, pois, que este capítulo tenha clareado o que, biblicamente, é a oração. Há inúmeros livros, especialmente, os que discorrem sobre batalhas espirituais, que elaboram fórmulas para que a oração seja ouvida, aceita e atendida. É bom lembrar que, nas ditas orações de batalhas espirituais, o cristão está, na verdade, intercedendo, por isso essas orações têm um efeito mais proeminente, específico e contumaz, já que, sendo ato intercessório, clama pelos benefícios e vitória do Reino de Deus. No caso das orações individuais, elas têm a finalidade de manter ou entrar em comunhão com Deus, enquanto que para que Deus opere em nosso favor, nada é preciso além de fé, quebrantamento e perseverança. Espero que haja maior confiança na vontade de Deus e que, ao entrares em teu quarto para orar, estejas na sala do Todo-Poderoso, não para que ele saiba o que queres pedir, mas, para que conheças o que Ele quer fazer.

 

 

CAPÍTULO 3

No lugar de Jeová, Mamom

 

“O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano” - Newton

 

Certa manhã, enquanto Eva adornava o jardim, e Adão cuidava das demais criaturas,um estrondo desaferrolha os céus. Atemorizados,debaixo das cópulas das árvores, o primeiro casal contempla a indescritível cena da batalha entre as hostes do Diabo e o exército do príncipe Miguel. Após diasem que o céu se manteve rubroe as nuvens em chamas, alancinante batalha ainda parecia não ter fim, até que, com a intervenção do próprio Deus, o Adversário foi arremessado contra a terra, banido e destituído de todas as suas atribuições divinas, encabeçando a fileira daqueles que, desde ali, são chamados de demônios.Humilhado, enquanto Satanás sacudia o pó de seus ombros e mirava vingativamente seu olhar contra o hades, o último anjo era expulso da eterna morada de maneira tão violenta que sua queda abriu imensa cratera, para onde as águas do Tigre e do Eufrates revolveram, formando o Golfo Pérsico. No interior daquele enorme buraco, enquanto a água gotejava em sua cabeça, o novato demônio, a semelhança de seu mestre, também, planejava a sua vingança.Sentado na escuridão de seu recôndito, tacitamente ouvia murmúrios e uma voz feminina se distinguia no diálogo. A sua desprivilegiada condição nos céus não lhe concedera a mesma astúcia que retinha seu senhor, mas, furtivamente, assimilava aquela conversa como se uma lição lhe era ensinada. Aquele poderoso diálogo, que culminou com o pecado de Adão,lhe revelara não apenas a inclinação desobediente da natureza humana, mas, também, a mesma sede de poder que Satanás detinha.

Encolhendo-se, outramente, ao profundo de seu esconderijo, enquanto a água lhe cercava as coxas, engendrava planos sedutores para arrebatar o homem e fazê-lo continuamente ofender ao Deus que o criara. Nada lhe ocorria. Seus comparsas se aproveitaram oportunamente da queda do homem, agindo na lascívia, no sexo e na rebeldia, então, ele achava que Satanás havia arquitetado o melhor e o mais perfeito projeto, e que já fôra bem sucedido. Recostando as mãos contaminadas de ódio nas paredes internas do golfo, indignado por não ter encontrado em si capacidade para desfechar uma vingança, desfalcou do sedimento pequenas pedras coloridas, brilhosas, reluzentes, tão penetrantes que ofuscavam o raciocínio. Todavia, não ofuscaram a sua perspicácia.Em sarcasmo perene, ensaiando sorriso nos lábios, toma algumas daquelas pedras, retira-se de sua cratera e parte para aplicar sua recém artimanha entre os filhos de Eva, Caim e Abel. Contra o coração de Abel, todavia, não obtém êxitoe, frustrado, pensa em recolher-se ao seu abismo novamente.

Em retorno às fossas abissais, fogueando a terra com seus pisares malévolos, seu rastro atrai os olhares de Caim, que o persegue. Este, se encontrando numa distância de trezentos côvados, vê as pedras no bolso do demônio encandeadas pelo sol, e as cobiça. O cheiro da cobiça é inalado pelo anjo caído, que desaparece, para reaparecer apenas ao lado de Caim encoberto de sangue e o corpo de Abel, seu irmão, morto no chão. O sucesso lhe chegara, e a cobiça pelas pedras produzia no coração do homem uma ganância homicida e egoísta, causando mais divisão do que qualquer outra tentação ofertada pelos demais demônios.Em troca de seus pecados e de suas almas, aquele demônio ensinou os homens a cavar para encontrarem as pedras preciosas, que com nomes que as qualificavam – ouro, jaspe, rubi, berilo, diamante –foram, vagarosamente e com o passar dos séculos, substituídaspor moedas e cédulas, porém, sem nenhuma perca de relevância e jamais arrefecendo os ideais e a influência daquele demônio, do contrário, apenas piorando.

O disseminado pecado se transmutava em vários outros. A cobiça em homicídio, a riqueza em luxúria, mas, a ganância criava no homem um pecado que engrandecia o prazer daquele demônio, chamado de avareza pelos caldeus da antiga Ur, ao que os povos de descendência árabe e tradição siríaca passaram a chamar aquele demônio de Avareza, que em aramaico quer dizerMAMON.

 

·         A ORIGEM DO MAL

 

Esta introdução foi a minha pequena versão da narrativa mitológica siríaca que tantas vezes foi contada por outros autores, desde que a obra “Paraíso Perdido”, do poeta inglês John Milton (1608-1674), ganhou admiradores. Em seu livro, Milton concorda com a idéia antiga de que Mamon (ou Mammon, Mamom) fôra (ou seja) um demônio adorado pelos caldeus.O pensamento de que Mamon, que é traduzido no Novo Testamento por dinheiro, mas, que, na verdade, significa a doença espiritual causada pelo dinheiro - tanto que no texto é comparado a um deus a quem se pode servir (Mt. 6:24; Lc. 16:13) – é um demônio, também, foi defendido por Tomaz de Aquino. Para o monge escolástico “Mamon veio do inferno cavalgando em Cérbero, para inflamar o coração humano com ganância”. O fato de, para Aquino,Mamonvir do inferno montado em Cérbero, o cão de múltiplas cabeças guardião dos portais do inferno, é natural na idade média, pois Mamon era associado a Plutão (ou Hades na mitologia grega),o qualna mitologia romana era o deus do mundo inferior e das riquezas, ademais,a figura de cães ou lobos naquele período era denotada por ganância, por isso vir Mamon cavalgando em Cérbero, ou seja, o deus das riquezas e dos prazeres mundanos montado sobre a ganância.

Ainda que grande parte dos estudiosos aceite a interpretação neotestamentária da palavra Mamoncomo designando a palavra dinheiro, negando referir-se Jesus a um demônio antigo, tendo em vista a fragilidade documental acerca deste assunto, o desejo materialista que há por trás da cobiça cria, em si mesmo, um culto. Ademais, o serviço e a dedicação, com agrado ou desagrado, conforme relaciona Jesus – “ou hás de odiar a um e amar ao outro, ou hás de agradar a um e aborrecer a outro” –dá idéia de personificação, enquanto que o dinheiro em si, inanimado que é, não pode sentir amor ou ódio, paz ou raiva. A diferença é tamanha que, tratando do mesmo problema entre os cristãos, omesmo raciocínio não é usado pelo apóstolo Paulo (I Tm. 6:10), para o qual o dinheiro se trata de toda perturbação da alma que gera avareza e paixão pelas coisas materiais, causando uma cobiça que modifica o propósito da vida em algo estritamente fatalista.

O triste neste assunto é que, encarando por quaisquer das vias, demônio ou dinheiro, Mamon conquistou o mundo. Pelo dinheiro famílias se intrigam, casais se separam, homicídios acontecem. Também, por causa do dinheiro pessoas passam fome, são humilhadas, assaltam para sobreviver. Como que não seja o bastante, o dinheiro ainda gera doenças, como a depressão e a obsessão compulsiva. Que dizer mais? Por ganância e sede de domínio, a busca pelas riquezas, as monstruosas guerras mundiais revelaram a real faceta do ser humano. O dinheiro é a raiz da corrupção parlamentar, policial e comercial, é por dinheiro que todos se vendem. A inclinação profissional, por exemplo, dos cidadãos do amanhã, é determinada pelo status e pelo retorno financeiro que proporciona, e não pela inclinação natural do indivíduo para determinada área. A prova disto é a saturação de segmentos profissionais como informática, medicina e direito.

No tocante ao direito, as universidades não conseguem atender a demanda, e os vestibulares que, antigamente, eram anuais, agora são semestrais. Na capital em que nasci, João Pessoa, Estado da Paraíba, havia uma necessidade limite de três mil advogados para suprir a carência jurídica social.Hoje,são mais de dezessete mil advogados naquela cidade, que quase se atropelam de frente ao Tribunal de Justiça e o Fórum da comarca. Isto porque, de todas as profissões, a que gera maior abrangência de mercado e maior retorno financeiro é o direito. Mesmo o grande problema do aquecimento global persiste pela ganância de certas pessoas que se recusam a encontrar uma maneira saudável para viver e mudarem seus negócios.

Por força de tais notícias é impossível desassociar a idéia de Mamon a um demônio, porque o que acontece no mundo em torno do dinheiro, nada mais é que a cobiça enraizadano coração humano, e quando esta cobiça é atiçada nas duas maiores fraquezas do homem – sexo e poder –o resultado é catastrófico. Perceba que o dinheiro sempre é seguido por prazeres carnais, e não espirituais. Aonde há dinheiro, há sexo, no sentido mais depravado do termo. Isto, para não citar álcool, drogas e mundanismo.O dinheiro é sempre associado à satisfação física e pessoal, e jamais espiritual e coletiva. Não é interessante que quanto mais dinheiro, no lugar de haver maiores doações e auxílios, eles tendem a diminuir?

Ao que parece, os caldeus estavam certos. O intrigante é que a lenda siríaca dá-se nos arredores da antiga Ur, cidade dos caldeus. Toda aquela região foi a antiga Mesopotâmia. Aqueles mesmos ares e arredores, também, foi o lar de Adão e Eva, da Torre de Babel e do reinado de Nabucodonosor.Inobstante, Babilônia, cidade que foi fundada por volta de 3.800 a.C., tem origem na mesma raiz Babel, que, apesar de ser uma palavra de origem duvidosa, é proeminente em desfechos indeléveis. Caso suas raízes sejam hebréias, como garantem os judeus e como se encontra na Bíblia, a tradução seria “confusão”, caso seja a transliteração de alguma palavra persa, como “abirush”, ou uma forma da palavra mesopotâmica “babilu”, sua tradução significaria “porta (ou portal) de deus”. Bem, ambas estão corretas, porque o uso idiomático permite as divergências de interpretação.

Ainda que a Bíblia cite ser o sentido ali usado da palavra Babel como “confusão” (Gn.11:9), pode designar apenas o sentido hebraico do termo, mas, não lhe omite a tradução que tem noutros idiomas. Na antiga região Mesopotâmica a palavra Babel (ou Babilônia) relacionava-se diretamente com as ocorrências e crenças em torno da localidade, designando o espaço físico aonde acontecimentos não humanossão, pela primeira vez, historiados, por isso a tradução por “portal de deus”.Essa idéia está interligada com as várias divindades adoradas ali pelos povos que habitaram naquelas terras. Durante séculos, Arameus, Assírios e Caldeus brigaram pelo controle da Mesopotâmia, três povos marcados pela ganância, pela soberba e pela idolatria. A origem destes povos já provinha de uma raiz idólatra e prevaricada. As primeiras etnias que ali se reproduziram, descendem de Cão (Gn. 10:6), filho de Noé, todos de raízes que aplicam dores e dificuldades ao povo Hebreu, que são Jebuzeus, Amorreus e Girgazeus (Gn. 10:16); Heveu, Arqueu e Sineu (Gn. 10:17); Arvadeu, Zemareu e Hamateu (Gn. 10:18), os quais se mesclam na formação dos Cananeus.As raças que, então, procriam e desenvolvem a Babilônia a partir de Ninrode (Gn. 10:10), foram avançadas se comparadas com as demais nações.Os povos que se espalharamna antiga Mesopotâmia foram o prenúncio da idéia ariana de superioridade, colocando-se sempre acima dos demais povos, criando suas regras políticas, códigos civis e escrita peculiar. De fato, a diversidade cultural, o avanço na arquitetura e no paisagismo,deslumbrava todos que visitavam a capital Babilônia. Desde o poderoso caçador Ninrode (Gn. 10:9) até a ampliação dada por Hamurabi – Anrafel, conforme Gn. 14:1 - com a conquista da Acádia e da Suméria, e Nabucodonosor II e sua queda diante de Ciro, rei da Pérsia, a Babilônia demonstrou toda sua corrupção e ganância.

A sedução da Babilôniaera tão voraz que cada conquistador que dela se apoderava, dela fazia sua morada. Assim foi com Alexandre Magno, com os Selêucidas, até que os Partos a destruíram completamente.O mais surpreendente é que, aoadotar o preceito de que Babel significa “portal de deus”por força da idolatria e da grande turbação que foi aquele período, a definição tem muito sua relevância.Como dito, naquela mesma região havia o Éden. O jardim, local não apenas do homem e da mulher, também, era o paraíso pelo qual Deus Se revelava ao homem (Gn. 3:8). A presença de Deus no prólogo indica que havia anjos, pois a função destes é servir e foram criados primeiro que aos homens (Gn. 3:24; Sl. 8:5; 103:20; Mt. 4:6, 11; 13:41; Mc. 1:13; Lc. 4:10; Hb. 2:7, 9; II Pe. 2:11). Por isso que, na alegoria da queda do capítulo três do Gênesis, a serpente (o Diabo) conversa com Eva de maneira informal, como que já se conhecessem (Gn. 3:1-7). Evidente que a serpenteastuta (Gn. 3:1) não era o réptil que conhecemos, mas, o anjo caído.A relação dele com a serpente é a mesma relação da peçonha e a traição que são características daquele animal, adjetivando o Acusador (Ap. 12:10) de perigoso e traiçoeiro.

Jamais o animal falou e tentou a Eva, o que é alicerçado pela revelação do próprio Deus (Ap. 20:2). Também, é perfeitamente claro de que não era uma árvore que dava o conhecimento do bem e do mal, mas, figurativamente ilustra a tentação pelo poder e a revolta total contra a submissão e a dependência divinas. Árvores não concedem conhecimento, nem frutos de árvores. A forma alegórica de narrar este acontecimento é apenas uma linguagem típica do hebraísmo. Aliás, é importante sempre manter clara a idéia de que, ainda que inspirado por Deus, a preocupação de Moisés ao escrever Gênesis era de relatar a descendência escolhida e separada dos judeus, tanto que na genealogia de Adão a Noé, o escritor toma apenas a descendência de Adão até a progenitura de Enos, a partir do qual se invoca o Nome do Senhor (Gn. 4:26; 5:7).Portanto, entendendo que tudo é uma alegoria hebraica, fica cristalina a idéia de que Eva não se veria quedada às ofertas de Satanás caso sua presença não fosse familiar, como de fato o era (Ez. 28:13).

Deste pressuposto, percebe-se que manifestações divinas e angelicais eram comuns entre os povos que ali se desenvolveram. Os informais diálogos de Deus com Adão (Gn. 3:9), com Caim (Gn. 4:6, 7, 9), com Noé (Gn. 6:13), a presença de anjos caídos entre os homens (Gn. 6:2), a convivência do Senhor com Enoque (Gn. 5:22), estes relatos demonstram uma comunhão constante de Deus com sua criação, constituindo Babel – ou Babilônia – um verdadeiro “portal do céu”.O “portal do céu”, contudo, é o portal do pecado e do mal, a primeira casa do inferno. A linhagem que cresce ali é contaminada, impura e pecaminosa (Gn. 6:4, 5). A lascívia e a corrupção são tamanhas, da mistura de homens com anjos caídos, que a determinação de Deus é extirpá-los da face da terra (Gn. 6:7, 13). O meio de Deus seria o dilúvio, o qual tem abrangência total, ou seja, não é local, é planetário. O intuito era destruir todos os homens, os quais contendiam com o caráter e os preceitos de Deus (Gn. 6:3). A intenção era de iniciar um processo de purificação e aperfeiçoamento da humanidade.

O que, para alguns, até a presente data constitui um enigma é como há registros de outros povos acerca deste fato, como babilônicos, assírios, africanos, inclusive os índios norte-americanos, e como a descendência dos Nefilins consegue sobreviver a este dilúvio (Gn. 6:4; Nm. 13:33). Todavia, quanto aos relatos dos demais povos a respeito do dilúvio, é algo plenamente plausível. A narrativa hebréia pré-escrita, quanto aos fatos que demarcaram a formação do povo, eram tradicionais. A tradição é a parte histórica de uma nação que se torna de conhecimento descendente, um conhecimento que é passado de geração a geração.A escrita surge apenas com os Sumérios, na linguagem cuneiforme, em período quase que contemporâneo ao Egito antigo.

Antes desta forma de comunicação, os fatos eram preservados tradicionalmente. Assim, após o dilúvio, é comum que os relatos de tal acontecimento tenham perdurado entre os povos descendentes de Noé, até que fossem registrados na forma escrita, dentre as quais, o relato mais antigo é Sumério, datado de 2.900 a.C. A explicação de que os relatos diluvianos dos demais povos são narrativas tradicionais de descendentes noéticos, é plausível, quer dizer, até a escrita, os descendentes de Cão (ou Cam), Jafé e Sem repassaram oralmente a narrativa do dilúvio. Porém, isso ainda não explica os “Gigantes”, os Nefilins continuam perturbando a história.

O problema é que Deus afirma que toda a criação pereceu no dilúvio (Gn.6:17; 7:22).Desumindo, ainda que posterguemos a idéia de que o dilúvio foi totalitário e destruiu a todos os povos, entendendo que todas as descobertas sobre relatos diluvianos de outras nações são da descendência noética, ainda resta a impossibilidade de explicar os Nefilins. Eles não apenas sobreviveram como deixaram descendentes (Nm. 13:33). É importante saber detalhes acerca disto, pois influi no pós-dilúvio.A raça de gigantes pré-diluviana compreende apenas aos Nefilins. O termo significa, literalmente, “aqueles que caem sobre nós”, e este termo só é utilizado em duas ocasiões na Bíblia, nos textos de Gênesis 6:4 e de Números 13:33. No texto de Números os gigantes filhos de Enaque (ou Anaque) são descendentes de Nefilins. Enaque era filho de Arba (Js. 15:13), um gigante de linhagem Nefilim - que alguns dizem ser setenita, mas, sem provas -pai de todos os povos gigantes pós-diluvianos, chamados de Enaquins (ou Anaquins) por Josué.

Desde a época de Abraão, Hebrom era chamada de Quiriate-Arba (Gn. 35:27), em homenagem a Arba, que foi o maior dentre todos os gigantes (Js. 14:15). Bem, a raça de gigantes preocupa em caráter apologético a Palavra de Deus, porém, a priori, é inegável a sobrevivência desta raça. O que a Bíblia orienta é a formação de quatro raças distintas a partir dos Nefilins. Os Zuzins e os Emins foram exterminados pelo Rei Elão Quedorlaomer (Gn. 14:5), restando apenas os Refains (Gn. 15:20), que os Moabitas chamavam ainda de Emins (Dt. 2:10,11) e os Amonitas de Zanzumins (Dt. 2:20), e os já citados Enaquins. Estes sobreviveram através de suas principais tribos Talmai, Sesai e Aimã, expulsos por Calebe (Js. 15:14) de Hebrom, escondidos em território filisteu, nas cidades de Gaza, Gate e Asdode (Js. 11:22), enquanto que os Refains de um pouco resistiram ao ataque de Moisés (Js. 13:12).A proporção era assustadora. Como Golias era de Gate (I Sm. 17:4), o mesmo que Davi matou, talvez descendesse dos Enaquins, e tinha 2,99 m.;o último dos Refains, Ogue, rei de Basã, media 4,12 m. (Dt. 3:11).Os Refains, conforme já citado o texto de Josué 13:12,fogem, resistem e perduram, criando sérios problemas para Davi ao longo de seu reinado (I Cr. 20:4-6).

Fica evidente que a própria Bíblia declara a sobrevivência dos Nefilins que, adequados a terra pós-diluviana, constituem famílias e prevaricam a própria linhagem, criando as demais raças dos Enaquins (Gn. 9:2). O texto de Amós 2:9 possibilita que os Amorreus fossem gigantes, contudo, talvez indique apenas a força e o domínio que tinham na terra de Israel, como principal povo que ali habitava na época da testilha, e os que dão maior trabalho, dores e dificuldades aos judeus (Gn. 15:16, 21; Ex. 3:8; Dt. 20:17; Js. 10:5-14; Jz. 1:35; 3:5; 6:10). Assim, explicamos biblicamente a origem e a ascendência dos Enaquins. Quanto aos povos mesopotâmicos, sejam Sumérios, Acadianos, Assírios ou Babilônicos, ao que todos seriam descendentes de Cão (Gn. 10:6-20), filho de Noé, a Bíblia concede explicações ricas – ainda que muitas vezes não aceitas por arqueólogos e antropólogos – acerca disto. A descendência de Cão compreende todos os povos da antiga mesopotâmia que hoje são estudados arqueologicamente. Está claro que os Assírios descendem de Cão (Gn. 10:11), assim como o primeiro império antigo, os Sumérios, na Bíblia chamada de Sinar (Gn. 10:10). Apesar de alguns discordarem de que Sinar indique a terra dos Sumérios, a compreensão é plausível demais. Primeiro, porque Babel, aonde é edificada a torre do capítulo 11, na verdade, é uma zigurate (templo piramidal com vários cômodos interiores a partir de uma coluna de tijolos central) historicamente comprovada.

Segundo, porque as planícies de Sinar eram a extensão territorial que varria de Arã a Ur, compreensão governamental arqueologicamente atribuída aos Sumérios, terra de Abraão (Gn. 11:31). Todavia, ainda que explicadas as descendências, constitui um problema saber como e porque os Nefilins sobreviveram ao dilúvio. A idéia seria de que o plano divino era de exterminar o comportamento daquele povo e aquela primeira geração errante de seres humanos (Gn. 7:21-23), portanto, os Nefilins não seriam considerados homens como os demais, pois quando surgem em Gênesis 6, ali são apresentados como se outra espécie. Como espécie os Nefilins seriam poupados por Deus (Gn. 7:8, 14, 15; 8:17) e estariam presentes na arca.Por conseguinte, pode-se fazer uso do verso 4 para afirmar que os Nefilins, diferidos dos demais, sobreviveram ao dilúvio, visto que tal versículo afirma que “havia naqueles dias... e também depois...”. Ou, por última tentativa, pode-se entender que os Nefilins eram setenitas e a mesma característica genética foi passada aos demais filhos de Sete.

Há algumas ponderações contra a herança genética de Sete. A maior é a falta de provas quanto a serem setenitas, além da formação dos povos antigos. Os homens pré-diluvianos atingiam longos períodos de vida. A extensão compreendia mais de novecentos anos. Tome-se, por exemplo, um homem comum, de nossos dias, que pode desenvolver-se até seus 21/23 anos de vida. Esta idade compreende aproximados ¼ da vida humana hoje. Só que esta mesma fração aplicada em um homem pré-diluviano compreende, aproximadamente, 225 anos de vida. Então, imagine a que estatura poderia chegar um homem que vivia novecentos anos, se atualmente, vivendo numa média de 80 anos encontramos indivíduos com mais de 2,80 m.Ainda que o período entre Adão e Noé contasse com a longevidade e com um desenvolvimento prolongado, todavia, os Nefilins a todos se sobressaiam, visto serem contemporâneos de Noé (Gn. 6:4), e ainda assim a Bíblia diz que eram maiores.

Portanto, pensar que os Nefilinsnecessariamente eram descendentes de Sete representa um argumento falacioso, pois, não eram semelhantes aos demais, já que, mesmo com o desenvolvimento centenário dos homens, ainda assim eles eram mais altos. Há, então, duas colocações necessárias. Um, se fosse uma descendência setenita, não seria feita menção a Nefilins dos quais os gigantes de Enaque descendiam (Nm. 13:33), nem tão menos a Arba (Js. 14:15; 15:13), e sim a Sete, e todos os descendentes de Sete teriam a mesma formação genética, já que provinham de uma mesma árvore. Assim como os filhos de Arba eram todos gigantes, caso aquela linhagem fosse setenita, seus filhos seriam gigantes. Dois, surge uma indagação:como essa hereditariedade genética atrofia a partir de Noé, se eram descendentes de Sete e, supostamente, deveriam herdar as mesmas características? E, se fosse de Sete, como reaparece mais tarde após gerações sem quaisquer descendentes gigantes?

Para que fatos assim ocorram na genética é necessário haver uma descendência comum e dominante, e jamais recessivo. Caso o gigantismo de Arba fosse uma herança setenita passada a seus descendentes, este gene era dominante, e daí não há como explicar várias gerações sem esse gigantismo. Caso esta genética não estivesse presente nos demais descendentes, como poderia surgir isoladamente em uma raça posterior, já que era recessivo? Ou seja, aplicar uma herança setenita que mais tarde é despertada nos filhos de Noé cria uma probabilidade muito pequena, remota e improvável. É possível que, havendo descendentes no passado de grande estatura, algum neto ou bisneto possa adquirir o mesmo porte físico, assim como avós de olhos azuis que têm filhos de olhos castanhos, geralmente, ganham netos de olhos azuis. Porém, um caso na família não é o mesmo que a formação de uma raça com sessenta cidades edificadas (Dt. 3:4).É impossível que uma raça inteira surja a partir do nada em dado momento da história sem que haja uma descendência pré-disposta. E, na remota possibilidade de a raça desenvolver-se entre os descendentes de Noé, para que a estatura dessa raça diminuísse, frente as demais nações, seria necessário um relacionamento com outros povos, o que é impossível, pois, só a família de Noé restou (Gn. 7:23).

Outro fator determinante é que as características deste povo agigantado não era uma má formação, mas, algo por eles preservado, sendo todos gigantes (Dt. 2:21), semelhante a judeus que têm o hábito de casar primos, a fim de não perder a consangüinidade e a origem tribal. O que isso quer dizer é que houve um aperfeiçoamento de espécie, aonde houve descendentes agigantados que casaram com semelhantes.É evidente que nada aconteceu de um dia para o outro, e nenhum Nefilim já nasceu gigante. O que a biologia nos permite entender é que indivíduos agigantados casaram entre si, gerando uma raça única com essas características, que eram os Nefilins. Esta raça era predominante e singular, tanto que Josué a identifica ao revê-los (Nm. 13:33). Desta raça, que decerto levou séculos para se formar, vieram as demais raças com a mesma unicidade, e assim os povos dos quais já debatemos. Cientificamente falando, então, esta não era uma característica dos filhos de Sete, sim da raça dos Nefilins, que se aperfeiçoou durante séculos e ressurge após o dilúviodotando das mesmas qualidades.

Por muitas vezes, pessoalmente, me decepcionei com comentaristas destes assuntos bíblicos, os quais foram vagos, rasos e omissos, permanecendo, quase que sempre, sem adotar uma postura convincente ou manterem argumentos sólidos sobre os capítulos seis a oito do Gênesis. O próprio G. H. Pembe, em “As Eras mais Primitivas da Terra”, se torna confuso ao dizer que os Nefilins seriam os descendentes dos filhos de Deus (anjos caídos) com as filhas dos homens (Gn. 6:2), quando a Bíblia não diz isso, e deixa claro que eles são anteriores a este relacionamento (Gn. 6:4). A posição de Pembe descende de uma idéia que não tem aparato canônico. Até o presente período expus de uma forma bibliológica e apologética a história dos gigantes.Porém, existe uma teoria divergente desta, e perturbadora. A Bíblia que hoje conhecemos provém de um concílio eclesiástico,ocorrido em 367 d.C.. O Concílio de Hipo convalidou a aceitação unânime que havia na igreja antiga quanto aos 66 livros da Bíblia Sagrada. Esse códice fechado ganhou o nome de Cânon (palavra que literalmente se referia a junco ou cana, mas, que passou a designar medida ou regra) Sagrado, e para que os livros ali contidos fossem aceitos houve uma ponderação quanto a identificação autoral, a harmoniatextual e os testemunhos históricos.

Quanto aos 37 livros do Velho Testamento não houve problemas, visto que os mesmos já eram utilizados e reconhecidos pelos judeus. Porém, quanto aos livros do Novo Testamento houve sérios problemas. Aqui iremos relevar a discussão quanto às inúmeras cópias e referências gregas, com palavras em que se faz uso de sinônimos em algumas fontes, porquanto acredito que essa discussão seja desmerecedora de caso, já que mesmo as obras de Homero tiveram inúmeras cópias, mas, ninguém cogita se a Odisséia ou a Ilíada foram escritas realmente por Homero, figura de quem não há concretude histórica. Ora, no mais, o fato de o texto grego do Novo Testamento ter várias cópias ao longo destes séculos sem perca de conteúdo e apenas com uso de sinônimos, demonstra a preservação Divina nas letras sagradas. Passemosaos argumentos utilizados pelos pais da igrejapara distinguir o que era ou não texto bíblico.

O primeiro problema neotestamentário foi acerca dos vários livros e cartas que circulavam abertamente no meio das igrejas cristãs da época. Esses livros, obviamente, não inseridos no Cânon, hoje são popularmente conhecidos como apócrifos. Estes materiais foram descartados pela fragilidade identificadora, muitos não apontam o autor diretamente e não têm referências históricas, enquanto que outros têm textos que não se harmonizam com os demais livros. Esses princípios são simples e determinantes. Para que um livro fosse analisado, as evidências autorias deveriam estar explícitas, ou quando assim não estivessem, eram vistas as referências históricas feitas ao livro e identificando o autor – ou possíveis autores – como meio para adequar a obra. Passada a prova pericial, era feita a análise do conteúdo, se estava em harmonia com os demais textos bíblicos, especialmente com o Velho Testamento, que já era universalmente estudado da maneira que até hoje se mantém. É evidente que o trabalho foi árduo, até que os livros sem quaisquer referências ou em desarmonia com o conteúdo teológico do Reino de Deus fossem totalmente afastados.Bem, desta maneira os livros neotestamentários permaneceram por funcionalidade, reconhecimento autoral, evidências externas e a plena harmonia que existe entre eles. Em contrapartida, livros que até aquele período eram utilizados rotineiramente nos meios religiosos, tornaram-se malvistos, e viraram a companhia de uma facção mais mística da fé, ou mais cética. Alguns perduraram em alguns meios até que a Septuaginta foi editada e entrou em circulação, e entre eles está o Livro de Enoque.

O livro de Enoque, sem quaisquer evidências autorais, nem internas, nem externas, e em desarmonia com o material bíblico, seria escrito pelo mesmo Enoque que foi trasladado (Gn. 5:24), e tornou-se aceito por tantos anos graças a um motivo específico, a saber, é dele que Judas faz menção em seu livro no versículo quatorze.Ora, alguém pode perguntar “que problema há nisso”? Bem,além de tratar-se de um autor canônico citando um texto não-canônico, há o problema de Judas se referir acerca de um dos maiores problemas bíblicos, uma colocação que exige posicionamento não legalista e não contundente. Em seu livro, Judas discorre sobre as prostituições, a humana e a angelical. Ao fazer menção da prostituição angelical (versos 6 a 14), cita como que os mesmos tenham decaído do estado no qual foram criados, ou seja, espíritos ministradores (Hb. 1:14), seres incorpóreos, para se tornarem corpóreos e se prostituírem a semelhança de Sodoma e Gomorra (Jd. 6,7). A citação que Judas faz, no verso 14, do livro de Enoque – “Eis que Ele vem com dezenas de milhares de Seus santos” – está no capítulo dois, versículo um, daquele apócrifo. Esta menção faz introdução às revelações que o autor, o suposto Enoque, diz haver recebido da parte dos anjos (Livro de Enoque 1:1). Pembe retira suas conclusões deste livro, e do Livro do Jubileu, outro apócrifo que supostamente foi escrito por Moisés. Nestas obras, as raças de gigantes Zuzins, Emins e Refains provêem do abominável acasalamento entre os anjos (demônios) e as filhas dos homens (Gn. 6:2; Livro de Enoque 7:11; Livro do Jubileu 5:1).

Já os Nefilins, segundo o Livro de Enoque, teriam gerado outra raça, antes de serem extintos pelos filhos dos anjos,os quais, conforme o mesmo livro, se acasalaram com as mulheres Nefilins, gerando a raça dos Enaquins, e trazendo maldade sobre a terra.Em contrapartida, o acasalamento de anjos caídos com mulheres humanas teria procriado as raças dos demais gigantes citados a partir do capítulo 14 do Gênesis. Em razão disto, os Nefilins teriam sobrevividoao dilúvio e deixado descendentes, os Enaquins, que seriam uma raça mista entre mulheres Nefilins e filhos de anjos caídos, não lhes parecendo mais inteiramente humanos, podendo, pois, tanto sobreviver ao dilúvio, quanto estarem na arca, porque o juízo de Deus veio sobre o homem, e não sobre os gigantes e, assim, os últimos estariam fora deste juízo. Todavia, em toda minha vida acadêmica sempre achei desonesto para com a Teologia utilizar textos não-canônicos como meio de obter certo embasamento nos pré-supostos pessoais. Mesmo que haja muita informação que ainda é desconhecida pelos estudiosos, prefiro manter, quanto aos gigantes, o entendimento que pode ser extraído da Bíblia, conforme já apresentado. Mantenho a opinião de que a Bíblia é a verdade, e já que o é, prefiro entender que os Nefilins geraram as demais raças de gigantes, abraçando a idéia de que estiveram na arca, preservados, por serem de outra espécie. Ao baixar das águas, multiplicando-se, formaram os demais povos agigantados, que apenas se diferiam em etnias pela região que ocupavam.

Isto não significa dizer que não creio que os filhos de Deus (Gn. 6:2) não eram anjos caídos, do contrário, creio que o fossem, e que era o maior interesse de Deus exterminar aquela raça abominável. O desprazer do Senhor (Gn. 6:6) é com o nascimento desta raça específica, formada por um acasalamento profano.Em questões teológicas, especialmente quando a Bíblia não tece maiores informações a respeito, é necessário adotar uma perspectiva e defendê-la, de forma coerente e harmônica com o que já se encontra explícito e declarado na Palavra, até que “conheça como se é conhecido” (I Co. 13:12).Por força de correntes errôneas, é de bom feitio explicar o relacionamento dos filhos de Deus com as filhas dos homens (Gn. 6:2), visto que gera duas perspectivas.

Os ramos que estudam esta raça ou defendem que a expressão “filhos de Deus” significa anjos, no caso, anjos caídos que se relacionaram com mulheres; ou defendem que a expressão “filhos de Deus” designe setenitas, enquanto que “filhas dos homens” seriam cainitas. Há um grande preconceito em encarar a expressão “filhos de Deus” (Gn. 6:2) por anjos caídos, mas, a mesma expressão é usada em várias outras passagens bíblicas (Jó 1:6; 2:1; 38:7; Dn. 3:25), nas quais designa “anjo”. Há um ceticismo para entender a expressão designando anjos, e de outro lado, em se entendendo a assertiva por descendentes cainitas e setenitas, há uma dificuldade gramatical, pois, a expressão hebraica que é traduzida por “filhos de Deus” em todas as demais passagens bíblicas é traduzida ou significa anjo, o que leva a entender que a delimitação apenas em Gênesis 6:2 foi para acomodar a perspectiva teológica do tradutor com as citadas passagens.

O ceticismo é denunciado quando se adota a premissa de que tal coisa não poderia acontecer. Então, é necessário deixar de lado a informação de que anjos são assexuados. A Bíblia não diz isso, os teólogos que subentendem. Anjos não se multiplicam segundo a própria espécie (Mc. 12:25) é o que afirma Jesus, e a Bíblia se omite quanto a possíveis relações com espécies diferentes, muito menos é sabido o que aconteceria se abandonassem o estado original no qual foram criados. Desta maneira, não adianta adotar uma opinião sem manter a discussão aberta, porque neste assunto, ninguém detém a verdade, todos adotam uma postura. Outra informação preponderante é que a passagem de Marcos em que Jesus diz que seremos como os anjos, diz respeito ao estado eterno do ser, e não ao estado caído. Quer dizer, no céu não existe casamento porque não existe procriação, já que o número dos salvos está completo.

O que Jesus queria ensinar é que o número de salvos é um quadro fechado, aonde ninguém entrará ou sairá, porque já a primeira ordem é passada (Ap. 21:1). Assim, o casamento não é necessário no significado de haver multiplicação, porque aquela humanidade não terá mais o mesmo destino (Gn. 1:28), sim, um mais nobre (Ef. 1:12). Logo, nenhum de nós tem condições de afirmar do que são capazes os anjos que deixaram o estado para o qual e no qual foram criados.Particularmente, abordo a perspectiva de aquela expressão designar anjos caídos. De todo modo, fora da própria espécie é impossível descrever o que aos anjos seria possível, mesmo porque a Bíblia não menciona figuras angelicais femininas, no céu só existem seres de perfis másculos. Em tal ambiente é evidente inexistir procriação.

No céu os seres angelicais adotam aparência e caráter de homem, e apenas os anjos caídos se manifestam de maneira feminina (Zc. 5:9-11),demonstrando assim a corrupção e a degeneração da queda.Isto não é difícil de aceitar, já que mesmo hoje os demônios além de corporeidade, viraram espíritos, e em castas possuem corpos, o que não acontece com os anjos que permaneceram fiéis a Deus. O porquê de demônios assumirem a forma feminina é totalmente desconhecido, mas, na prática, é comum, como na expulsão há “Maria Padilha” ou “Pomba Gíria”. Possa ser que, como tiveram relações com mulheres, com certeza estas não deram a luz apenas a homens. Shakespeare dizia que “há muito mais entre o céu e a terra do que sonha a vossa vã filosofia”. Logo, encarar a passagem do verso dois como designando anjos é o mais fiel possível na questão gramatical, não corrompendo o texto para teorias humanas baseadas em oitiva inconfirmável, por puro capricho de não querer aceitar.

Em qualquer estudo não pode haver pré-supostos, caso existam, jamais irá descobrir a verdade do texto. Por exemplo, em concordância com este sinistro caso do passado está o apóstolo Pedro (II Pe. 2:4-6), e tomando este conhecimento por fiel e verdadeiro, entende-se que aqueles anjos abandonaram totalmente suas características divinas para coabitar com as mulheres, corporificando, como entende Judas (Jd. 6, 7 – especificamente, neste texto Judas compara estes anjos com os habitantes de Sodoma e Gomorra, ou seja, imoralidade sexual).Ainda que os gigantes não descendam desta abominação, de todo modo, ao que parece, de fato ocorreu algo hediondo no passado da humanidade, entre anjos caídos e mulheres humanas.

Abraçando esta perspectiva, o propósito divino com o dilúvio seria destruir aquela geração, porquanto nela havia filhos de mulheres humanas com demônios.Isto explica o motivo de Deus dizer “porque ele também é carne” (Gn.6:3), se referindo aos filhos nascidos daquela relação abominável.Assim, o interesse de Deus ao precipitar as águasdo dilúvio é fundadona corrupção sexual daquela sociedade.Deus não tolera depravações sexuais, a que os homens abandonem a relação natural, e este juízo irá repetir-se, trocando água por fogo (Gn. 19:5, 24). Isso quer dizer que, na semelhança do texto de Judas, em que os anjos se prostituíram na mesma proporção que Sodoma e Gomorra, os homens permitiram essas abominações e depravações (Gn. 6:12; Rm. 1:26-32; Rm. 2:2).Os anjos caídos não apenas desobedeceram, mas, depravaram e intentaram planos malévolos contra o Senhor.

Houve o interesse de Deus de exterminar aquela raça prevaricada.Esta maneira de Deus, de destruir povos ou as demais nações, é comum no Velho Testamento (Gn. 6:6, 7; 12:1-3; 19:13; Ex. 32:10; Nm. 14:12; Dt. 2:34; 3:6; I Sm. 15:3), e servia para extirpar a idolatria, a perversidade e a maldade das demais etnias.Vendo o Senhor que esta maldade não seria de todo exterminada, visto que o coração do homem é quem se inclina para tanto (Gn. 8:21), há uma noção dos povos que habitam a Mesopotâmia quando as águas do dilúvio começam a baixar. Povos de guerra, fortes, mas, com uma origem depravada e pecaminosa, os quais, apesar de descenderem de um justo (Gn. 6:9), praticam más obras(Gn. 9:22, 25) e idolatrias.

Como as águas prevaleciam sobre a terra (Gn. 7:19, 24; 8:9), percebe-se outra informação determinante, a de que Noé viveu em uma era glacial. As eras glaciais pelas quais a Terra passou, provocadas pelo deslocamento de calor sobre a superfície do planeta, causando os mesmos sinais de aquecimento global presentes, acontecem como a solução que é dada, pelo próprio planeta, para consertar o clima e regular o alinhamento dos pólos, a atmosfera e a conservação da vida.Este aquecimento já fôra proporcionado pelos acidentes geográficos, o movimento do magma e das placas tectônicas, além dos acidentes cósmicos advindos das quedas de meteoritos. Os Sumérios relatam, em seus escritos, que tudo ocorre após uma catástrofe astrológica, com o choque de uma imensa massa com o planeta terra, o que, também, não é descartado pela ciência. A terra entra em vasta instabilidade e estes acidentes determinam as mesmas erupções que destruíram os habitantes de Sodoma e Gomorra (Gn. 19:24) e que explicam os poços de betumedo vale de Sidim (Gn. 14:10). Ora, a frase “fez chover fogo e enxofre” citada no verso 24 do capítulo 19 do Gênesis é apenas uma questão de narrativa, de quem não sabia o que acontecia e via o fogo chovendo nas cidades, contudo, o que de fato ocorreu foi uma erupção (Gn. 19:28), o que determina o sal tanto do mar Morto (Nm. 34:3), quanto da mulher de Ló (Gn. 19:26).Logo,o fim de um período glacial, na verdade, a última Era Glacial desde então, as condições climáticas explicariam as chuvas excessivas, ocasionadas pelo reaquecimento planetário que, após o congelamentogerado pela mudança de direção da corrente do Oceano Atlântico, passava a ter um volume de águas crescente, auxiliado pelas chuvas que derretiam as calotas e faziam os leitos dos rios e a movimentação oceânica subirem.Em tal cataclismo planetário estava Noé, boiando nesta sopa de catástrofes.Uma observação importante é que, o fato de a Terra haver passado por mais de um Era Glacial, os demais relatos sobre um dilúvio não dizem respeito a outros dilúvios que não seja o da época de Noé, pois seria o mesmo que dizer a respeito de Deus que Ele mentiu (Gn. 8:21; 9:15).

Pois, com as informações que descrevemos, pode haver uma distante idéia do que existiu nos corações das raças que provieram dos filhos de Noé, e porque Deus tinha tanto interesse em destruí-los, visto suas descendências.Os relatos tornaram-se tradicionais, a presença dos gigantes, os demônios que ainda investiam contra os povos antigos, uma linhagem humana complexa e difusa. Os filhos de Cão, por sua vez, se tornam profundamente místicos. De sua raiz descendem os povos que habitam a terra de Canaã, enquanto que os descendentes de Jafé e Sem habitam a crescente fértil, ali permanecendo, de onde sai Abraão.A filiação de Cão retorna à Mesopotâmia à época de Ninrode, para ali firmar o império Sumério (terra de Sinar – Gn. 10:10; 11:2), que domina sobre o restante da herança de Noé, até as incessantes disputas entre Assírios e Caldeus, que hegemonizam o poderio Babilônico, perdurando até a queda ante o exército Persa.

A herança de Noé, portanto, é eclética, e apenas em Sem é achada a semente do propósito divino.Com a baixa das águas e repovoamento oriental, os descendentes de Cão e Jafé forjam raças desprovidas de temor, criando nações politeístas e que, de acordo com os relatos antigos, adoravam os seres caídos que ainda andavam entre os homens, ou seja, demônios. Assim, a descendência bíblica, agora, se interessa pelos semitas, dos quais provêem os judeus (daí dizer-se de toda xenofobia judaica ser sentimento anti-semita). É bom observar que Deus não se importa em apresentar as demais etnias. A unidade destas etnias se agrega no capítulo 11 do Gênesis, que é o ponto inicial da grande Babilônia. Aquele capítulo narra a respeito da torre de Babel, e que as etnias se ajuntam na planície de Sinar, estabelecendo o primeiro império babilônico, que é governado por Sumérios e, mais tarde, no reinado de Hamurabi (Anrafel na Bíblia),os Acadianos são adicionados.Esta é a formação das tribos pós-diluvianas, de onde pode haver clareza quanto ao distanciamento que mantinham das coisas de Deus.

Assim, tornamos ao ponto do qual saímos, ao “portal de deus”. O motivo em toda esta exposição histórica, e explicações bíblicas,é para demonstrar as perspectivas religiosas da antiga Mesopotâmia, e adquirirmos a noção de que Mamon jamais designou dinheiro, sim uma das muitas entidades idolatradas na antiguidade.Aquela região,aonde existiu o Éden, tornou-se o centro das adversidades de Israel, de todos os exílios, de todas as calamidades. Exemplificando esta perdição no período pré e pós-diluviano, em descobertas Sumérias, nas proximidades da antiga Eridu – supostamente a primeira cidade edificada – foram encontradas grafias que indicam veneração a antigos reis, dos quais um tenha reinado por 28 mil anos (Alulim), e outro por 36 mil anos (Alalgar).

É notória a ciência de que tais períodos de vida são inconfirmáveis e improváveis, levando uma série de estudiosos a acreditarem que tais reinados foram exercidos por demônios, por conseguinte a queda e expulsão das habitações eternas, os quais subjugaram a raça humana até a formação do povo de Jeová.O entendimento de que os reis Sumérios foram demônios se torna ainda mais forte quando se lê, nos relatos históricos Sumérios, que tais reinados tiveram início “depois que a realeza desceu do céu”. Quanto ao prólogo já demonstrei que não apenas o Senhor, mas, os seres celestiais, caminhavam entre a humanidade.O que torna ainda mais intrigante é que os relatos – que foram tradicionalmente mantidos entre os povos – de Eridu indicam uma cidade na semelhança do Éden, cercada por rios. Ou seja, caso houvesse tal cidade em período pré-diluviano, é plenamente plausível que na tanta conturbação exordial, os anjos caídos tenham exercido domínio sobre a humanidade, o que, também, explicaria os relatos que existem entre os povos antigos sobre criaturas celestiais, desmistificando a idéia ufológica.

Esta porção, em particular, concede a exata noção do porquê de tantas divindades entre os povos antigos, já que os anjos caídos, passando-se por entes divinos, usurpando do Senhorio do Pai, buscaram usurpar no coração do homem um lugar que pertence apenas a Deus. De fato, esta explicação auxilia não apenas a compreender o misticismo dos povos Mesopotâmicos, sim o sentimento religioso contido na humanidade, que das raízes politeístas disseminadas diretamente pelos demônios, contaminou o discernimento e a sensibilidade humana para afinidade espiritual singular que exige Jeová. Os antigos deuses de Eridu, Apsu (criador dos deuses), Enki (o neto substituto), Enlil (o eterno rival de Enki), Marduk (deus dos prazeres e filho de Enki) que é adorado até pelos babilônicos, são poucos dos tantos deuses sumerianos. Estes mesmos deuses se reproduziram com mulheres, que alcançaram a idéia de deidade feminina, estabelecendo o misticismo que se arraiga nas terras pós-diluvianas.

A entidade chamada de Enki pelos Sumérios faz algum tempo é relacionada com Jeová. Isto constitui um grande equívoco. Primeiro, porque arqueologicamente não é provado. Segundo, porque essa associação com Jeová deve-se ao fato de, na história Suméria, Enki ter a capacidade de criar através da linguagem, da reprodução das palavras, assim como Jeová chama tudo à existência apenas pronunciando. Todavia, para Enki não é um poder criador, mas, uma magia desenvolvida, o que distorce completamente de Jeová.De toda forma, o misticismo da antiga Babilônia é variado e religioso. Após a incursão de caldeus, com a derrota de Senaqueribe, há uma mescla de divindades, e Marduk, intrigante deus Sumério e Babilônico que auxilia as descobertas humanas, é venerado pelos caldeus, lá simbolizando todo prazer e conquista dos homens, e por isso denominado de Mamon.Enfim, alcançamos êxito em compreender que a citação de Jesus não foi sinônimaa dinheiro, como é traduzida. Nas escavações das cidades da antiga mesopotâmia (Nippur, Ur, Nínive, Eridu, Acádia), os reis relatados na história do povo são divindades que se relacionam com mulheres. Esta analogia mostra que da antiguidade pré e pós-diluviana, pouco é conhecido.

É claro que se possa imaginar que nos relatos mitológicos de outras nações seja comum a identificação de reis com divindades, como no Egito antigo, porém, é impossível generalizar a matéria, por se tratar de área ainda nebulosa para nosso conhecimento. Porque outras nações, posteriores, repetiram os costumes, não quer dizer que tiveram as mesmas crenças. Generalizar tais conceitos seria fugir da lógica, como a se dizer: quem tem fome rouba e pessoas pobres roubam para matar a fome, logo toda pessoa pobre é ladra; ou mulheres usam saias e saias são vestes femininas, logo todos que usam saias são mulheres, o que contraria nossos irmãos escoceses. Esta fórmula é falaciosa.

Os descendentes de Cão compreendem um dos maiores enigmas da história, tanto pelo mistério de seus achados, quanto pela pouca informação concreta que existe acerca deles, e seria prudente não tirar conclusões precipitadas baseados em pré-supostos ou pré-conceitos.Com a menção dos textos Sumérios, pode-se perguntar como os relatos dos povos primitivos se assemelham tanto aos relatos bíblicos. Isto é explícito, e desejo de uma vez por todas encerrar esta discussão que serve de subsídio para idéias atéias. Dois fatores contribuem para isso. O primeiro é o uso da tradição oral repassada aos descendentes, conforme já explicado. Oralmente os pais ensinavam seus filhos a história de seus antepassados, assim, os diversificados relatos semelhantes às narrativas bíblicas, na verdade, são maneiras diferentes de contar a mesma história, e isto não torna a história mítica ou fictícia.Os evangelhos, por exemplo, narram a mesma história por perspectivas diferentes. Aonde um é resumido, o outro é prolixo, contudo, isto não afeta o conteúdo e não é contraditório.

Segundo, em Babel, quando as línguas são distribuídas (Gn. 11:7), cada nação narra à sua maneira a história dos antepassados, substituindo apenas nomes e substantivos para tanto. Isto explica crucialmente o conhecimento dos demais povos, todos descendentes de Noé, quanto aos fatos bíblicos, que até então eram passados oralmente e que, com o surgimento da escrita, passam a ser relatados após Babel, cada povo em “sua própria língua” (Gn. 10:5). Logo, tradicionalmente os descendentes de Noé preservaram a história e, por conseguinte, contaram e escreveram em suas próprias línguas, cada qual na compreensão particular e mencionando aquilo que lhe era mais prioritário. Então, a mística mesopotâmia Suméria lega uma herança aos demais povos, a convivência e as histórias com seres angelicais caídos, com demônios. Decerto, mesmo na escultura Suméria há demônios retratados, demonstrando que a presença dos tais era comum. É-nos possível, assim, compreender a origem de Mamon, e como passou a ser cultuado.

O interesse pelas riquezas, poder e domínio enegrecem a alma humana, e em busca de riquezas e status, o homem passa a idolatrar o seu maior inimigo. Tal informação está contida no relato de Babel. O interesse dos homens não era alcançar os céus com a torre, porém, de prevalecer perante os demais povos, e por eles serem venerados (Gn. 11:4). Aquele desejo era demoníaco, similar ao sentimento de Satanás. A nós foi possível observar como o misticismo entrou na humanidade, mesmo com a exterminação pelas águas diluviais. Destarte, ficou provada aqui a convivência mantida entre os homens e os demônios, ainda antes dos fatos de Noé. Isto, então, nos ilumina quanto a idolatria e o culto aos falsos deuses, aliás, não apenas a religiosidade é explicada, mas, a própria origem das entidades antigas e falsas, estas que estavam longe de ser fruto da imaginação do homem, sim representavam a escravidão e o domínio do homem subjugado aos enganos diabólicos.Inobstante, não é bom tratar Mamon como uma divindade particular, ou um demônio em particular. Ele é uma agência malévola a serviço de Satanás. Domínio e poder não se repetem na história? Os homens têm as mesmas paixões e os mesmos desejos que sempre tiveram, com as mesmas fraquezas e as mesmas inclinações que desde o Gênesis são usadas pelo Diabo para fracasso pessoal.

Foi por este mesmo motivo que o pecado entrou no mundo através de Adão(Gn. 3:5).A tentação de Satanás sobre Adão é na fraqueza que se tornou peculiar no homem. Ao tentar no Éden, o seduz baseado em seus interesses pessoais de grandeza e domínio. Por isso que o termo é “sereis como Deus”. É claro que a tentação não é a informação que Satanás oferta sobre o bem e o mal, nem que os olhos sejam abertos. A ganância do primeiro casal é em ser igual a Deus. Assim, como este era o mesmo sentimento que havia na Torre de Babel. Satanás estava por trás daquele projeto.

Os olhos de Adão e Eva devam ter cintilado quando viram a frase que realmente significa a tentação de Satanás, ou seja, alcançarem grandeza, domínio, a ninguém prestarem contas, serem auto-suficientes e fazerem tudo o que quiserem. Quando o primeiro e o segundo Adão são tentados, ambos sofrem a mesma aflição. O primeiro, é tentando e cai, demonstrando que queria ser como Deus. O segundo, Jesus, sofre diretamente quanto a saciedade carnal (Mt. 4:3 – após quarenta dias, claro que Jesus tinha fome, e o Diabo o tenta em sua fraqueza mais evidente, para saber se trocaria a consagração pela satisfação da carne), os anseios espirituais (Mt. 4:6 – o interesse de Satanás neste ponto peculiar era de desestimular a continuidade da consagração de Jesus, como de fato muitas vezes é bem sucedido em propósitos particulares de oração, levando a crer que Deus não responderá e, portanto, não há motivos para continuar, quando ocorre justamente o contrário - Mt. 4:11) erealizações humanas (Mt. 4:8 –por fim, o Diabo tenta a Jesus em busca de avaliar sua ganância e nível de perspectiva, pois é natural a todo homem querer riquezas, sucesso e poder, demonstrando, assim, o mais nítido exemplo do pecado do primeiro Adão, a corrupção gananciosa contra a ordem divina). Em ambas as tentações é nítido o interesse pela rebelião do homem contra submeter-se à autoridade Divina. Em Adão o homem foi incapaz de submeter-se em obediência, porém, graças ao amor do Senhor e Sua misericórdia, em Cristo fomos capazes de cumprir os Seus desígnios, vencendo a ordem da desobediência e iniciando o advento da Graça.

A tentação passa a ser o símbolo do que enaltece e seduz o coração do homem. É por isso queMamom é a tentação. E, se assim o é, sendo um dos artífices do inferno, ou o próprio Diabo, desde o Éden que é bem sucedido no que intenta fazer.Esta maldade toda, esta sede por prazeres carnais, por grandeza, por riquezas, por domínio, é simbolizada na Bíblia pela Babilônia, que foi o ponto de partida desta explicação. A Babilônia, Babel ougrande cidade (Ap. 18:18), localizada na região central da antiga Mesopotâmia, capital de todas as prostituições e profanações, erao ideal de moradia do inferno. Naquele ambiente que serve de habitat para diversos impérioshouve a primeira residência do mal. Ali, o Acusador (Ap. 12:10) iniciou seus planos de ataque contra a humanidade.

A idolatria Suméria, Acádia e Caldéia confluem, unidas aos devaneios Persa e Assírio, gerando as prostituições social, moral e sexual da Babilônia.Daquele primeiro ambiente, dominado por comunidades subjugadas por anjos caídos, contempla-se o governo de impérios que tiveram por principal característica escravizar o povo de Deus, os descendentes de Abraão. Os sucessivos impérios que dominam e controlam aquela região do Crescente Fértil fazem da portentosa Babilônia a capital de suas depravações. E, então, a cidade que ostentava uma das maravilhas do mundo antigo, seus jardins suspensos, despertava no homem a lascívia, a ganância, o assassínio, a luxúria, a guerra, a idolatria. Babel se torna ícone de toda e qualquer forma de insubmissão e divinização do homem. É o mais atrevido ideal desobediente da humanidade, em que criaturas, corrompidas com seres decaídos, idolatram e veneram demônios em troca de riqueza e poder, colocando-se acima de todas as demais etnias, em busca deser adorado.

A Babilônia não foi apenas uma cidade, também, a primeira metrópole do mundo antigo. O fascínio que exerce sobre Hamurabi, Nabucodonosor, Ciro, Dario, Xerxes, Alexandre, demonstram um pouco do quanto significava posição e honrarias. A cidade se torna um centro de adoração a ídolos estranhos, de orgias e de poderio contra os demais impérios que ousassem levantar. Este egotismo é inverso aos valores bíblicos e, exatamente portanto, é que Babilônia ocupa o lugar de tudo o que se move contra os propósitos divinos. Enquanto buscava crescer em pecados, perseguia a formação da nação hebréia.Ali, aonde Mamon iniciou seus desfechos, ensinando aos homens corruptos como dominarem uns sobre os outros, em guerras, em conquistas, em posses, é o berço da maldade, da insubmissão, da desobediência, da imoralidade. Quer dizer, ali o intuito diabólico de Mamon inicia a caminhada que adorna seus objetivos.

O que acontece não diz respeito a uma cidade, ou a um local físico, mas, ao ideal que a cerca e que demonstra tudo o que não faz parte do coração de Deus. Humilhações, assassinatos, ganância, avareza, ódio, intrigas, mentiras, em busca de singular intuito: tomar o lugar de Deus. Lugar que é tomado diariamente, sempre que é substituído pela ambição humana. Espaço que é ocupadoquando famílias se destroem por dinheiro, quando irmãos se intrigam por dinheiro, quando o Corpo de Cristo não se une por dinheiro, quando não há perdão por causa de dinheiro, por toda esta avareza, todas as vezes em que a ganância corrompe a alma de alguém, e o torna avarento, tão prostituído quanto aqueles que conviviam com Noé, com Abraão, que veneravam a falsos deuses, que se prostituíam com anjos, que idolatravam Mamon - aquele que ensina a priorizar matéria e a si mesmo.

 

·         O LEGADO DO MAL

 

A Babilônia foi destruída pelos Partos, como dito, e é escavada desde 1811. Intrigantemente,passou a ser reconstruída em 1924, como a ensejar que a profecia do Apocalipse (Ap. 18), interligada a Daniel (Dn. 2:32, 33), é literal, e não simbólica como se imaginava, mas, tais especulações ocultam apenas o real intento do Adversário. A Babilônia de Apocalipse não é a cidade dos jardins suspensos, mas, um governo financeiro, um modelo de lucratividade e de vida voltada para os prazeres mundanos e passageiros (Ap. 18:3, 11-19). Ora, isto é claro, perceba que na profecia do Apocalipse há um grande choro e lamento sobre o desmoronado mercado e toda sorte de produtos finos e caros que naquela cidade eram vendidos. Quando no Apocalipse Deus apresenta a queda da Grande Babilônia, João contempla a queda do governo de Mamon.Este demônio, comandante do exército das trevas, ou quem sabe o próprio Satanás em mais uma de suas máscaras, cria no interior do homem a veneração pelo poder através das riquezas. Sua influência é devastadora e irresistível. Tudo o que gira em torno de finanças é problemático e procria certa idolatria. Como para tudo é necessário ter dinheiro, desde o medo àincredulidade, tudo é capaz de acontecer.

A mórbida dependência financeira cativou e domesticou a fé do ser humano. O dinheiro, a lábia de Mamon, é tão contumaz que, pessoas vocacionadas para o ministério, sentem pavor e pânico de abandonar seus empregos, explicitamente demonstrando que confiam mais no dinheiro e no trabalho do que no próprio Deus a Quem servem. Há quem tenha muito mais do que necessite para se viver por toda uma vida, e ainda que seja assim, deseja mais. Isto não é natural, contraria diretamente o que se encontra no caráter cristão (Mt. 6:19,20).É provável que uma igreja se torne apta a perdoar adultérios, fornicações, mentiras, fofocas, intrigas, falsidade, hipocrisia, disputas, insubmissão, sim, é bem provável.

É provável que líderes realizem três ou quatro casamentos de uma mesma pessoa que provém de uma série de divórcios e prostituições sexuais. É provável que a congregação até perdoe aquele pastor que cometeu adultério. Todavia, quando se trata de dízimos, ofertas, dívidas, empréstimos, dinheiro, é muito improvável que alguém exerça perdão. Quando há o perdão, ainda assim persiste a desconfiança, que bloqueia a aproximação.Quando o problema não é a respeito de dívidas, é costumeiro que os irmãos com maiores posses jamais se compadeçam de irmãos necessitados.Logo, a igreja descumpre o papel de amparar os necessitados (At. 4:34; I Jo. 3:17). O hábito é voraz a tanto que ovelhas sequer têm a atenção de cuidarem de seus próprios pastores, algo que é dever, também, da igreja (Fp. 4:18; Hb. 13:7).A iconoclastiado dinheiro, nesta sistemática e arquitetada manipulação de Mamon (ou Satanás, como preferir), faz com que a igreja desabilite sua funcionalidade filantrópica (Mt. 25:40; Lc. 10:33), esquecendo preceitos valorosos de eternidade (I Tm. 6:7). Enquanto esta for uma área vencida no coração do homem, Deus não terá o lugar de honra que merece.

Os absurdos são tamanhos, sempre mais heréticos. Por exemplo, é dito que indivíduos que se encontram em dívidas estão debaixo de maldição. Pergunto: E indivíduos que não se libertam do vício do sexo? Ou do cigarro? Ou da bebida? Sexólatras que fornicam (Mt. 19:9; Jd. 1:7)? Que adulteram (Mt. 5:28)? Estes não estariam em maldição (I Jo. 3:8; 5:18)? Que critério os diferencia de quem peca na área financeira, a não ser a idolatria que a humanidade tem no coração por dinheiro? Não é exigido o mesmo preço para perdoar quem mata e quem se endivida, que é o sangue de Jesus (Cl. 1:14)? E aqueles que dividem igrejas, gerando escândalo (Mt. 13:41; 18:7; I Co. 12:25)? Os que provocam contenda entre irmãos, coisa abominável para o Senhor (Pv. 6:16-19; Fp. 2:3; I Tm. 2:8)? E os que não se compadecem da necessidade do irmão, e apenas acusam (I Jo. 3:17,18)?

Doutra sorte, num país de terceira potência, que passa fome, miséria, furto, assassinato, estelionato, golpes, calotes, contrabando, narcotráfico, pirataria, escassez, desemprego, oscilação de câmbio, instabilidade econômica, concorrência voraz, sistema de saúde precário, corrupção generalizada, desabrigados, retenção salarial, o mais duradouro e delongado e prolixo sistema judiciário do planeta, enfim, um quadro social extremamente carente, no qual a má distribuição de renda concentra a riqueza da nação em 7% (sete por cento) da população, em tal ambiente, problemas financeiros pode ser fruto do acaso, e nem sempre da força de vontade. Pode ser causado por um filho que perde o emprego e repentinamente seu pai vê-se obrigado a suster toda a família que aquele filho contraiu; é o salário ou a aposentadoria que atrasa, retida pela corrupção parlamentar e governamental, e o cheque é devolvido; uma doença que acomete inesperadamente alguém da família e o plano de saúde, caríssimo, não cobre sequer a internação. Bem, um problema financeiro está tão mais passível de ser originado pelo acaso deste Brasil desgovernado, do que um adultério que é sempre cometido por vontade, desejo e egoísmo próprios. Assim, apercebe-se que o coração da igreja evangélica deste século XXI não está no Noivo, mas no dinheiro.

A partir do momento que despreza o zelo e a pureza de uma instituição divina e sacramental como é o casamento, mas, sabe ser juiz de seu irmão devedor, demonstra que o dinheiro é uma instituição mais importante que o enlace matrimonial, ainda que não seja divina ou sacramental. Este evangelho da desgraça, contudo, não tolera o adultério quando o mesmo é cometido por um líder, bispo, pastor, etc.. Caso o erro venha de cima, erro de qualquer tipo que seja, ele é extremamente intolerado.Isto se deve ao fato de haver na consciência brasileira a idéia de papado e que líder religioso é infalível, apesar de todo e qualquer evangélico saber que nenhum homem neste planeta alcança o status de inerrante e infalível, e que ninguém pode dizer que não está sujeito ao pecado (I Jo. 1:10).

A cauterização do catolicismo é tão enraizada na consciência brasileira que todos nutrem a idéia de que líderes religiosos, assim como o Papa, também, não podem pecar. Logo, quando algum líder, homem e natural que é, cai em pecado, a comunidade local ou nacional o despreza de imediato, e ainda que ele restaure sua conduta e integridade, jamais tornará a ser aceito pela igreja a qual liderou. Quer dizer, as ovelhas podem conduzir a vida com uma espiritualidade precária e pobre, mas, os líderes sequer parecem humanos. Este problema é tão amplo que alguns líderes chegam a não transparecer defeitos, com ares angelicais, e mais e mais heresias são formuladas graças a estes ideais.

Todos os pecados, diante de Deus, são iguais, com exceção da blasfêmia (Mt. 12:31). Assim, o grave preconceito contra dívidas e problemas financeiros deve-se ao amor que se tem pelas riquezas (Mc. 10:24; Lc. 18:24; I Tm. 6:17; Tg. 5:2), não porque seja um pecado mais grave que os demais, pois, em considerar piores ou melhores, a contenda entre irmãos é o mais sério pecado, odiado pelo próprio Deus. De fato, aonde existe dinheiro não há paz (I Tm. 6:10). O dinheiro é capaz de assassinar as coisas divinas (Mc. 4:19), sendo exatamente o que está acontecendo. Por mais que procure negar, o dinheiro é o deus deste século, pois é o caminho pelo qual o homem detém o poder, e é por isso que se torna tão cobiçado. Sorrateiramente as mentiras de Mamon foram substituindo os valores de Cristo, e mesmo a igreja se encontra vendida aos tesouros deste século.

A ganância pelo poder, esta maldição adâmica, parece que não pode ser vencida, a não ser por aqueles decididos a não mais se envolver com negócios e lucrativos. Através dos séculos Mamon alternou sua abordagem, porém, todas se entrelaçam nos anseios de conquista e domínio que enegrecem a sensatez humana. O dinheiro tornou-se o meio para atingir o malévolo objetivo. Todos os prazeres e o status que proporciona conseguem distorcer a noção de justiça e os sensos de misericórdia e compaixão no homem.A dimensão que alcança nos meios sociais, desrespeitando famílias e crenças, deve-se aos sonhos que se dispõe realizar.

Como as pessoas deixaram de sonhar com a vida eterna e com o céu, desejam o frívolo e imediatista que o capitalismo oferece. As roupas de grife, os perfumes franceses, os celulares bonitos, os computadoresmelhores, os cartões de crédito mais altos, as contas bancárias prestigiosas, os carros mais caros, e todos os demais utensílios que parecem demonstrar um grau de satisfação duradouro, mas que, na verdade, não ultrapassa os cinco minutos entre a compra e o abrir do pacote. De fato, o dinheiro é preocupante ao ponto de fazer parte em todos os círculos de oração. Os cristãos se apresentam desacreditados de uma vida celestial. Os cultos de campanha e oração, atualmente,têm propósito financeiro, voltando as intercessões e os milagres para o campo da realização pessoal. Desde a casa própria à liquidação das dívidas, tudo isto se apresenta nos cultos, como que os cristãos não mais confiem nas promessas bíblicas (Sl. 27:10; 68:10;Pv. 11:8; Is. 41:13;Mt. 6:19, 20, 25-34; 7:7)

Recordo-me de um pastor amigo, que conta de mais anosministeriais e experiências que minha pessoa, o qual, por desacerto, envolveu-se em um escândalo nas épocas eleitoreiras.A política é um período naturalmente conturbado em qualquer localidade, seja nacional ou estadual, produz muito enganoe desvio de verbas. Particularmente, vejo esta área como algo em que nenhum cristão deva se envolver, o princípio que utilizo para mensurar minha opinião firma-se nos repetidos escândalos envolvendo políticos evangélicos, o que demonstra que o preceito bíblico – “fugir da aparência do mal” - deva ser seguido exatamente (I Ts. 5:22). Este é o mesmo norte que nos orienta acerca de jamais evangelizarmos a sós, pois, além de envolver-se em situações físicas ou espirituais imprevisíveis, ainda é possível que nos haja corrupção de ideologias na exposição da fé. Bem, de todo modo, o princípio não foi seguido por meu colega.

Certa feita, quando este citado amigo foi visitado na congregação por um irmão em Cristo candidato ao cargo de vereador, sob arrimos de promessas foi celebrado acordo entre o pastor e o político. O acordo foi divulgado na igreja em tons de ditames, orientando a congregação a votar no candidato. Enquanto fazia seu anúncio, um dos diáconos, pondo-se de pé, bradou-lhe em alta voz: ‘Amado pastor, a Bíblia narra acerca de um homem, chamado Judas, que traiu Jesus por trinta moedas de prata. Por quantas o senhor O traiu?’. Creio que seja desnecessário relatar os infortúnios que aquela congregação foi obrigada a atravessar.É fato que, de faixas a paredes pintadas, o período das urnas já trouxe grande mácula ao Corpo de Cristo. Testemunhos infiéis que mancham a igreja do Deus Vivo.Líderes que se deixam levar pela ilusão da matéria e corrompem a fé, adornando-a com escândalos que desfavorecem a credibilidade protestante.

Durante o meu período no seminário usava todos os recursos disponíveis para crescer na graça e no conhecimento das Sagradas Escrituras. Assim, todo dinheiro que me era dado por meus pais era utilizado na aquisição de livros. Até os presentes comemorativos anuais quando não fossem discos de música clássica, seriam livros. Cheguei a formar uma biblioteca com mais de mil e quinhentos títulos, e li a todos, um por um. A grande maioria destes livros foi adquirida com um senhor, de mesma fé e da mesma igreja da qual eu era membro, que em seu automóvel montara uma pequena livraria com os títulos utilizados no curso de teologia. Todo intervalo de aula ou término de culto, lá estava o irmão, na porta do seminário ou na entrada da igreja. Durante os quatro anos acadêmicos, adquiri em média oitocentos reais por mês de livros com este senhor.

Todavia, em meu último ano no seminário, padeci algumas necessidades motivadas pela necessária readaptação pessoal. Encontrava-me deixando a tutela de meus pais, de mudança para outra cidade, além das decepções logradas por minha liderança local.Inobstante, encontrava-me nas bodas de meu primeiro casamento, o que transformou minha perspectiva de vida, alterando a minha própria realidade. Isto me fez atrasar com os pagamentos do irmão.Ao estacionar minha nova situação, contatei o irmão e expliquei-lhe tudo. Após isto, não foram poucas as humilhações que me fez passar. Pagava-lhe uma importância paulatinamente, porém, era insuficiente para fazer-lhe compadecer.Aquele irmão, que antes dizia que me amava muito, sequer me dirigia mais a palavra, nem me saudava com paz. Suas atitudes eram assim porque tinha noção da posição social de minha família, mas, não foi sensível para entender que, independente das condições financeiras de meus pais, agora eu estava a sós, arcando com as próprias despesas.Imediatamente aquele irmão esqueceuos delongados quarenta e oito meses nos quais fui seu cliente fiel e assíduo.

O mesmo aconteceu com outro irmão na fé, proprietário de uma loja de informática. Por longos nove anos fui seu cliente, nada de informática adquirindo com outrem, apenas com aquele irmão. Pensava que, se há de adquirir algo, melhor que seja e permaneça entre irmãos, para que não se cumpram as palavras de Jesus (Lc. 16:8), ao menos não comigo. Levei amigos e o escritório de meu pai para serem clientes de suas lojas, todas as manutenções operadas apenas pelos estabelecimentos e funcionários dali. Entre o mesmo espaço de mudanças, atrasei poucas parcelas firmadas entre nós. Anteriormente, todas as aquisições eram a vista, pagamentos antecipados. Os primeiros computadores e notebooks que adquiri foram em suas lojas, e todas as manutenções, também. Em um espaço de tempo ínfimo, esqueceu de nossa irmandade em Cristo, e dos nove anos de clientela exercida. Extorquiu juros abusivos e cobrou pela mesma parcela duas vezes. Espantei-me com a falta de compreensão. Vi, uma vez mais, o reinado de Mamon prevalecer. A veneração pelas riquezas acima da compaixão, da reciprocidade, do amor, do amparo, do auxílio.

Claro que honrei com as situaçõesdescritas, visto que minha situação pessoal não serve de escusa para não procurar meios de sanar os percalços. É triste apenas perceber que o coração, até do povo de Deus, não está no Senhor e no Seu Corpo, mas nos próprios interesses. Ainda que os percalços sejam sanados, todavia, nunca mais a amizade e a comunhão retornam eficazmente.Isto é o que o dinheiro nos faz passar, e muito mais. Estou em busca de ser o mais transparente possível, é assim que costumo ser, e porque não quero criar o falso ambiente de que cristãos não passam situações financeiras difíceis, já que isto constitui uma mentira. Há duas condições distintas que identificam problemas pessoais em se tratando de dinheiro. Um, é aquela em que divergências de fatores e mudanças de ambiente, afora a fraca economia nacional, viabilizam uma crise pessoal. Dois, é aquela em que o indivíduo é descarado e com abusividade costuma lesionar alheios, o que não foi o meu caso e espero que não seja o de nenhum trigo.

O que procuro neste trabalho é deixar de fora a técnica e a hipocrisia de que certas coisas não acontecem. O príncipe deste mundo é Mamon, e aqueles que acreditam que situações financeiras difíceis nenhum cristão deva passar, devem pensar que Jesus vivia em maldição, por ter nascido numa manjedoura e por não ter aonde reclinar a cabeça (Lc. 2:12; 9:58). Doutra sorte, não é desculpa buscar riquezas deste mundoalegando que Jesus morreu para nos dar uma vida melhor aqui, porque Ele nunca se referiu ao aqui, e sempre às mansões celestiais (Mt. 6:19, 20, 33; Lc. 12:21;Cl. 3:1). Então, posso falar por mim e pelo que já passei, desde quando deixei a segurança que o equilíbrio de meu pai proporcionava, para viver estritamente pela fé, na obra de Deus, sem salário algum. Os momentos pelos quais passei foram severos e tinham, no coração de Deus, o objetivo de me preparar para o atual ministério que desenvolvo. Nesta épocaos recursos eram poucos e limitados. Cheguei a ficar na rua, parado, ao lado do carro, sem gasolina e sem dinheiro; dias em que não houve dinheiro para o pão, para a carne, ia à igreja a sós, andando.

Nessa circunstância fui convidado para um café pastoral.Em minhas sérias limitações financeiras, a única roupa propícia que tinha era um terno branco com o qual me casara. Ora, vi-me forçado a vesti-lo na ocasião, sem gravata, e com uma camisa preta por dentro. Ao chegar no recinto já havia uma grande discussão entre alguns líderes e piadinhas ao tom sarcástico eram comuns, desde a porta até o assento e durante toda a reunião. Ao passar em direção à minha mesa não faltaram brincadeiras dos outros pastores: “Chegouo homem de branco”. Sentei-me quieto, sem nada refutar, tristemente pensando que nenhum daqueles líderes ali presentes conhecia a situação na qual me encontrava. Este não é o propósito do Corpo de Cristo (Is. 1:17; I Co. 12:23, 26; Hb. 12:2; 13:3).Esta condescendente maneira de encarar a ânsia por dinheiro como um processo natural e necessário da vida, está destruindo tudo quanto os ensinos de Cristo prezou por manter distante (Mc. 10:21; Lc. 10:33, 34). A maior de todas as dúvidas reside no questionamento dos valores eclesiásticos. O Cristianismo que prega a respeito do céu e do não ajuntar tesouros neste plano físico, ou seja, o Cristianismo, que é uma religião metafísica, está repleto de líderes que ensinam tais dogmas dos púlpitos, e os prevaricam em seus apartamentos luxuosos e carros valiosos, além de salários exorbitantes, sem que haja um retorno missionário e evangelístico. Os líderes atuais parecem gritar de seus palanques: “Vamos todos morar no céu, mas, enquanto o céu não chega, vamos aproveitar a vida”.

Ao ligar o televisor em algum canal religioso é comum, sempre ao término das programações ou dos cultos, a busca de investimentos. Isto é contraditório. Há um minuto pregava-se do ter esperança e confiar em Deus, para em seguida buscar apoio e ajuda do homem. Não deveria o líder que ensina a confiar em Deus para problemas sérios como cura e libertação, confiar, também, na provisão? Não É Deus o mais interessado no andamento de Sua obra?De fato, as experiências com dinheiro são sempre negativas.

Na publicação de um de meus livros fiz todos os acertos por telefone e email com a editora. Sendo ambos cristãos, as promessas foram demarcadas pelo princípio da boa-fé e da probidade, e o contrato foi assinado em termos editoriais, mas, com a segurança e a garantia concedidas pelo representante editorial. Com a circulação do material editado, recebi a cobrança pela edição do volume, ao que, não apenas fui obrigado a pagar toda a editoração, como perdi os direitos autorais da obra que eu mesmo escrevi.Na publicação daquela obra, assim como esta, deixei claro que não busco locupletamento, apenas a editoração, a publicação e o que me for de direito, por ser o patrimônio cultural de um autor protegido por direito constitucional. Porém, naquele caso, foi insuficiente.Este é outro fator determinante no meio evangélico quanto ao dinheiro, que é acerca do material religioso produzido. Diariamente presenciamos literaturas de outras religiões distribuídas gratuitamente, o que favorece a evangelização e a conversão de mais e mais vidas. Em contrapartida, tudo o que é produzido nos meios evangélicos tem um custo altíssimo, mesmo entre irmãos e líderes nada é suavizado.

Deve haver um momento de reflexão para os que encabeçam o protestantismo, pois esta celeuma impede o avanço do evangelicalismo, enquanto propicia a disseminação das demais crenças. Aonde se encontram os investidores evangélicos? Aqueles que têm o dom da contribuição (Rm. 12:8)? Enquanto o povo do Senhor permanece nesta veneração evangélica a Mamon, as demais religiões avançam em unidade, e a fé protestante em descentralização. Tantas vezes líderes já criticaram a idolatria de outros segmentos cristãos, mas, não é idolatria, também, venerar finanças, a nível tal que nenhum investimento é feito na divulgação de nossa fé? Não é idolatria no momento do ofertório quando as cédulas mais baixas são deixadas no gasofilácio para o zelo e a manutenção do Reino de Deus, e as mais altas são gastas em um passeio no shopping?A avareza é uma corrupção generalizada, e precisa ser declinada no meio cristão. Destarte, Mamon não apenas cria a avareza, mas, a inveja e o desequilíbrio.Ao tempo em que uma parcela dos evangélicos idolatra suas finanças, a outra parcela é irresponsável e desequilibrada. Existe um número de evangélicos que, por se acharem espirituais e herdeiros da promessa, não quitam seus débitos, não honram seus compromissos e escandalizam a fé com estelionato. Como militante do direito em anos passados, posso dizer que a caracterização do agente culpado é a má-fé, ou seja, é quando a situação não foi ocasional, sim proposital. Atravessar períodos de turbulência por transição de vida, desemprego, enfermidade, não é o mesmo que lesar o comércio comprando o que não tem condições de pagar. O conhecimento prévio da situação pessoal e a noção de incapacidade de liquidação da compra é estelionato, e muitos cristãos têm praticado abertamente, ainda achando ruim quando precisam responder por suas ações juridicamente.Guardo em minhas lembranças um dos maiores absurdos que ouvi em minhas visitações a igrejas locais.

Certa noite, não muitos anos atrás, fui convidado para pregar no aniversário da igreja de um colega. Situada em bairro humilde, a festividade foi organizada pelas ovelhas daquele pasto. Na liturgia do culto havia muitos louvores, danças e testemunhos. Na oportunidade concedida aos testemunhos, uma irmã subiu ao púlpito para contar acerca da benção que lhe fôra entregue no decorrer daquela semana. Segundo ela, na parte da tarde, no meio da semana, chegou um caminhão baú para fazer a entrega de alguns produtos comprados por uma de suas vizinhas. O caminhão teve de parar de frente a casa desta irmã que testemunhava, pois o acesso até a casa da compradora esta inviável. Os entregadores, cansados e indesejosos de conduzir as mercadorias (uma televisão de vinte e nove polegadas, um aparelho de DVD e um micro system) para a casa da compradora, perguntaram a irmã que testemunhava se ela conhecia a compradora, ao que disse que sim, e os entregadores acharam por bem deixar as mercadorias ali mesmo, para que depois fossem repassadas a adquirente.

Naquele testemunho, entendeu a irmã que aquilo era uma benção do Senhor, e não entregou as mercadorias para a real proprietária, as possuindo e delas fazendo uso como que fossem suas.Ao término do culto, não pude permanecer omisso, e avisei-lhe do crime que cometia. Contudo, creio que não tenha obtido êxito em minha exortação, pois, saiu dali dizendo que eu não entendia as coisas de Deus. Ora, isto não são atitudes divinas. Jamais o Senhor agiria daquela maneira, antes devolve o que é devido (Mt. 22:21).

A ganância e a inveja são armas adicionais deste império das trevas. Este pavoroso crescimento que causa o dinheiro, atraindo olhares e criando falsos amigos, tem destruído a comunhão eclesiástica. Igrejas que não se desenvolvem na mesma proporção que as demais têm ministérios pacatos, fundados em autocomiseração e limitações preconceituosas. Os líderes da atualidade se equiparam com o tamanho de suas igrejas, medindo o sucesso ministerial pela quantidade de pessoas e as dimensões do templo, não pela qualidade dos membros e pelo conteúdo do sermão. Este hábito machista de equiparar as grandezas de si mesmos por aquilo que possuem é antigo, desde empregos a contas bancárias, mansões a automóveis, esposas a filhos, tudo passou a ser medido pelos níveis de prazer, satisfação e comodidade, e não pelo decoro, prudência e o amor.A perspectiva mundana adentrou o ambiente do cristianismo, assim como todo o fascínio mundano gradativamente povoou os locais de adoração ao Senhor, desde ritmos a vestes, tudo que não convém (I Co. 10:23)se encontra aonde convinha santidade (Sl. 93:5; Ef. 4:24).Por causa dos valores mundanos apenas adentram certos círculos sociais os que têm origem na nobreza ou que possuem riquezas, porém, no seio da igreja não deveria haver acepção (Dt. 10:17; Jó 13:10; Rm. 2:11; Tg. 2:9).Inexiste uma prática idêntica ao que é difundido teoricamente.

A idéia de que a igreja é um local de reunião dos privilegiados foi o mesmo pensamento que causou a cegueira de Israel face a Pessoa de Jesus (Jo. 1:11; II Co. 4:4). A igreja é o recinto dos necessitados (Mt. 9:12; Mc. 2:17), e não uma casa de reunião para homens de negócios ou bem sucedidos. Este é um costume da maçonaria. Contudo, a igreja tem se tornado um ponto de encontro para sádicos e humoristas. Em 15 anos de ministério já presenciei famílias inteiras trocarem de banco na igreja, por inveja, intriga ou preconceito. Pessoas necessitadas, com filhos famintos, sem nada em suas dispensas, exporem à igreja a situação, enquanto hipocritamente os de melhores condições diziam: “Vamos orar”. Absurdos já foram pronunciados, trocando uma vida por matéria. Pessoas que, vendo seus irmãos em Cristo na miséria, disseram ser impossível ajudar naquela ocasião, pois tinham trocado de carro. Ao que parece, a frase de Schindler, ao término do famoso “A Lista de Schindler”, quando diz “uma vida por isto, um broche... eu podia ter feito mais”, continua ecoando. Como é possível que um carro seja mais importante que a vida e o sustento de nossos irmãos?

Como é possível que, vendo o Corpo de Cristo, do qual fazemos parte, em precária situação, contemplemos tranquilamente, e ainda com citações bíblicas, tapinhas nas costas, orações sem fé? Promessas não matam a fome, tapinhas não passam a dor, orações não alimentam o corpo, apenas o espírito. Prometer não resolve, assim como apenas orar, também, não (Tg. 2:26).Este não é o modelo ensinado e praticado pelos apóstolos (At. 2:45; 4:34). Situações tão vexatórias que citá-las ainda causa vergonha, mas, é preciso aprender com os erros do passado. O dinheiro precisa deixar de ser prioridade na vida dos cristãos, e o trigo precisa aparecer demonstrando cotidianamente a convicção da sua fé. É impossível que acontecimentos semelhantes tornem a acontecer. Líderes que, mundialmente conhecidos, quando indagados se alguém poderia dizimar não sendo salvo, em rede nacional e em horário nobre dizem: “Claro que sim, primeiro vem o seu dinheiro, depois a sua salvação”.

Eu mesmo, além dos acontecimentos relatados, contemplei minha própria família ser vitimada por causa de dinheiro. Referendei no capítulo anterior acerca de minha criação e a maneira em que cresci na casa de meus pais. Contudo, houve períodos em minha família nos quais o dinheiro era mais importante que as pessoas formadoras daquela instituição sacramental. Poucas não foram as situações em que o dinheiro manipulou os humores e as desavenças estavam presentes. Momentos dos quais fugi e, para corrigi-los, Deus Se utilizou de extremos marcantes e decisivos, mas, que alteraram definitivamente a maneira de enxergar e priorizar valores.As intrigas em assuntos de finanças viabilizavampalavras negativas diariamente, o que ainda ocorre em vários matrimônios, e destrói sonhos, esperanças e projetos (Pv. 18:21).

Inobstante, padeci situações com minha única irmã tão abruptos, com voraz profundidade, que ainda dói relembrar. De fato, quando a instituição não é preservada (I Tm. 3:5; 5:8), resta uma expectação coercitiva do Senhor, inesperada e transformadora. O dinheiro, de fato, destrói todo e qualquer relacionamento. É costume dizer “amigos, amigos; negócios a parte”, como que fosse uma verdade bonita de repetir, quando é vergonhosa. Como é possível colocar o dinheiro acima da amizade?Presenciei pessoas que, costumeiramente, confessavam a Cristo com lágrimas, um pouco adiante se desviavam, ao presenciarem o mau testemunho da pessoa que as evangelizara, abandonando a fé e nunca mais a ela tornando. O motivo de estas pessoas abandonarem a fé: dinheiro. Conheci determinada pessoa que costumava evangelizar seus clientes, mas, em seus negócios, caso algo saísse erradona paga de negócios avençados, as pessoas que evangelizara eram humilhadas, cobradas e envergonhadas, até liquidar o débito.

Como não sendo suficiente, meu primeiro casamento me trouxe decepções monstruosas, a começar da conduta e do testemunho de vida de minha ex-mulher. O que parecia ser correto era infundado em mentiras.Eu, que me conduzira virgem ao casamento, presenciei enganos e versões quanto uma experiência sexual que tivera minha primeira esposa antes de nosso casamento, algo que só me foi totalmente revelado após meses de casamento celebrado. Posso dizer que foi o começo de minhas angústias.Durante os quatro anos de meu primeiro casamento nada comprei pessoalmente, porém, sobrevivi às loucuras e desacertos da luxúria e do consumismo de minha ex-mulher.Aquém disto, não foram poucas as humilhações que a parentela me causou, porquantoser apenas um pastor, um pregador do Evangelho.De fato, para uma parcela de minha família, um pastor é desocupado, ganha pouco, precisa trabalhar mais, para enriquecer. Estas pilhérias, enfim, acabaram, já que não sou mais pastor.

Tantos acontecimentos fatídicos por causa de dinheiro, e toda dor multiplicada por causa de avareza. O dinheiro alcançou o prestígio de ser mais importante que qualquer outro bem desta vida. Mamon conseguiu substituir os anseios futuros da humanidade. Até o século XVIII as pessoas andavam desejosas de morar no céu, e mais de 90% do mundo conhecido professava alguma crença. Agora, o deus do homem é a avareza, e o percentual dos despreocupados com a fé subiu, dos meros 10% se tornaram mais de 30%. C. S. Lewis, certa feita, disse que em se tratando de crenças entre o céu e o inferno, o mais importante é o inferno, já que ninguém quer morar lá. Porém, o que dizer a quem não acredita em céu ou inferno?

A despreocupação com as coisas divinas, com a vida após a morte, removeu do homem todo temor que nele havia. Ausente de temor a humanidade passou a quebrar todos os preceitos da lei divina, uma vez que não mais criam em Deus, não mais precisavam seguir Sua Palavra. O alvo mais atacado foi a família. Os absolutos de formação familiar, atualmente, inexistem. Foram substituídos por ganância e usura. Assim, os padrões foram quedados ao dinheiro, e passaram a ser modelos de uma vida antiquada, pois, o que realmente importa, na sociedade neo-moderna, é a busca pelo sucesso pessoal, a realização individual, para que isto ocorra, filhos e casamentos são sacrificados.

O casamento não é mais um ato de formação familiar, a unidade de pessoas que se amam. Tornou-se um contrato, que precisa ser arquitetado, para que não surtam calamidades inesperadas no futuro. Ao tempo de minha vida advocatícia deparei-me com divórcios e separações. Casais em litígio que procuravam meus serviços, primeiramente, eram por mim aconselhados a reverem seus motivos.Entristecia-me ver que quase todostinham por motivo dinheiro. E sendo este o motivo, nenhum deles buscou a reconciliação. Do contrário, as reconciliações só se tornavam possíveis mediante mais dinheiro. Ou seja, não é o amor que fortalece o matrimônio (Ct. 8:6, 7), são os zeros da conta bancária.

Isto é um pouco da tristeza que o dinheiro causa. As pessoas ainda não perceberam que tudo o que se pode adquirir não é suficiente para preencher questionamentos existencialistas, e não são capazes de substituir os valores. Os objetos ou substantivos, em si mesmos,não designam funções, eles precisam do predicativo. Nós amamos pessoas porque elas têm qualidades, virtudes e defeitos, e não por causa de seus nomes. O nome não distingue as características da pessoa, nem as aponta. Assim, o mesmo acontece com objetos e bens de consumo. Por mais que aparentem preencher alguma indisposição da alma, na verdade, ajudam a aumentar o vazio. Quando são conquistados e demonstram a incapacidade de satisfazer os anseios, generalizam um quadro depressivo ainda maior, que se torna manifesto nos vícios e nos hábitos.

Pessoas que acreditam encontrar paz, amor e respeito na matéria, quando desenganadas, se prostituem, comem descontroladamente, se tornamalcoólatras, drogados, neuróticos, workholics, se atiram em algo que desvirtue a tristeza e o abismo interiores (Sl. 42:7). Até que esta situação direcione para a fé em Cristo, que alimenta e sacia a alma, muita desgraça e destruição já acometeram esta vida e o seu lar. Tudo por dinheiro. Nesta ganância, jovens recebem uma má formação, desde a mais tenra idade aprendem a escolher as profissões que lhes garantam riquezas, e não a profissão de seus sonhos. Nesta avareza, 1/6 da população concentra as riquezas do mundo. O que se é gasto em pesquisas e passeios lunares poderia acabar com afome em Serra Leoa, Angola, Moçambique. Porém, o mundo não é tão grande quanto o ego do homem.

O que ocorre no mundo não é diferente do que conhecemos nas igrejas. A igreja tem adorado mais a Mamon que a Jeová, mais as riquezas que ao Deus da provisão (Ml. 3:10). A confiança é baseada no milagre, e quando parece faltar mantimento, esquecemo-nos que servimos ao Deus Todo-Poderoso, que quando Quer, até os corvos obedecem (I Rs. 17:6). Por dinheiro as pessoas têm perdido a dignidade, mesmo quando se trata de sacros ofícios. Templos suntuosos são edificados, enquanto missionários passam fome. Igrejas elegantes e enfadonhas de conforto, enquanto alguns sacrificadamente se esforçam na obra de Deus. Que contraste. Imagino que alguns sonhem que o céu será assim, separado por alamedas.

Alguns irmãos em Cristo usufruem de tudo o melhor, como a dizer: ‘terei um corpo incorruptível, mas, enquanto ele não chega...’; enquanto uma fração do mesmo Corpo desfruta das bênçãos de Deus com profícua avareza, a maior metade sofre com limitações, dificuldades e escassez. Que cristianismo é esse? Esta ortopraxia evangélica é o avesso da ortodoxia testamentária (I Co. 12:26). Um membro, conforme citado por Paulo no versículo de Coríntios, não é o membro local da comunidade, sim, o membro do Corpo de Cristo. Ou seja, quem for membro deste Corpo sabe o que seu irmão sente e com a dor dele se compadece (Rm. 12:15). É, pois, que esta insensibilidade material demonstra que há pouquíssimos cristãos verdadeiramente membros do Corpo, um trigo refinado, o qual muitas vezes é incapaz de alcançar aos demais que sofrem.

Esta tragédia precisa parar. A igreja não serve ao Deus da avareza, da inveja e da ganância. O Deus da multiplicação É a Quem servimos (Mc. 6:44), possuidor de toda riqueza (Ag. 2:8), que não precisa de nossos favores, mas que nos sustém (Sl. 37:17, 24). O desapego material é a marca do ministério de Jesus (Mt. 8:20), dos apóstolos (Fp. 4:11, 12), e demarca as fronteiras dos grandes homens de Deus, seja Moisés, Elias, Samuel, vultos do passado, sejam heróis de um tempo recente como Moody, Müller, Spurgeon, Finney, homens que confiavam apenas em Deus.A ausência de desapego material é o único fator que reprova o jovem rico (Lc. 18:23). A riqueza de Deus não subsiste para as idealizações pessoais, sim para a repartição entre os demais, pois, apenas repartindo se multiplicará (I Rs. 17:12-16). É preciso haver um retorno aos princípios da fé, em que ambos se cuidam, de acordo com as condições e as possibilidades de cada um.

O trigo que usufrui de riquezas nesta existência deve lutar para que as profecias contra os ricos não se cumpram neles (Mt. 19:24; Tg. 5:1-6; Ap. 3:17). A presença é sensível de uma entidade que distorce os valores humanos e, por cobiça, conduz a avareza, a ganância e a inveja aos corações. Pode ser chamada de Mamon, ou como se creia nisso, de pecado, de declínio, de queda, de Diabo, de Satanás. A maneira como a isto chamamos não importa, mas, é fundamental conhecer a maneira com a qual será combatido. Importa sabermos a maneira de vencer e mudar esta situação. O conjunto de desgraças que o dinheiro tem causado precisa ser interrompido. Famílias destruídas, irmãos intrigados, igrejas competitivas, acordos políticos, escândalos e furtos, avareza e miséria. Isto não está correto. É impossível que igrejas cresçam ao ponto de construírem edifícios milionários, enquanto são incapazes de saciar a fome da pessoa mais próxima.

De nada adianta templos luxuosos, ar condicionados centrais, cadeiras acolchoadas, se o irmão que ali se senta todos os cultos passa fome, frio e nem o alimento do próprio filho tem para dar. É desproposital a edificação destes centros religiosos, pois, o dinheiro que se é gasto na edificação deles libertaria missionários capturados em países restritos, compraria cestas básicas para os irmãos carentes, auxiliaria igrejas que estão crescendo e, o mais importante, abriria várias congregações. Concordo que cada ministério deva ter seu prédio próprio, para que saia do desperdício do aluguel, mas, apenas quando a comunidade não estará descumprindo os princípios da fé cristã de acolher o necessitado, de fortalecer o enfraquecido, de cuidar uns dos outros (Gl. 6:2; Fp. 2:4; I Pe. 4:8, 9; I Jo. 4:12).

A igreja ou passa a dar demonstrações práticas do evangelho que prega (Mt. 24:14; Jo. 1:7; 5:31, 32; At. 4:33; I Tm. 3:7; 4:12), ou cairá cada vez mais em descrédito.Ao tempo da crucificação de Jesus, em busca de acusá-lO, ninguém tinha nada para dEle dizer (Mt. 26:59,60). Este é o dever da igreja, não apenas falar, mas testemunhar com amor e compreensão, com misericórdia e auxílio. O falso moralismo da igreja em torno de dinheiro já não resulta sucesso. A igreja não é correta financeiramente, do contrário, é avarenta. Ensejando parecer correta, julga ao próximo, descumprindo princípios éticos (Mt. 7:1; Lc. 6:37; Tg. 4:11), além de não compadecer-se com as dores alheias, demonstrando idolatria a Mamon e desprezoaos princípios de Jeová.

A idolatria ao dinheiro é tão presente que mesmo nos dízimos os membros são infiéis, roubam abertamente a Deus com escusas, como que Ele não veja e não saiba os reais intentos do coração. Muitos não dizimam de tudo quanto ganham, e separam apenas uma quantia mensal, que não representa a décima parte do que lucrou. Outros, aos quatro cantos afirmam que não dizimam porque “não sabem o que será feito com o dinheiro deles”. Desculpa engodada do Diabo. Ora, o dinheiro que é ganho não é da pessoa, pertence a Deus, e deste ganho apenas uma fração é dizimada.

Ademais, se algo ilícito será feito com dízimo recairá a responsabilidade sobre os administradores, enquanto que o cristão que dizimou cumpriu com seus deveres. O mais intrigante é que muitos se prendem ao percentual véterotestamentário, quando no período da graça tudo o que Deus colocar no coração a que seja dizimado, deve ser entregue (II Co. 9:7).É bem verdade que há uma sedição em torno do dízimo por parte de alguns líderes, deve ser dado, obrigatoriamente, e muitos o fazem visando apenas o retorno que possa haver. Particularmente, discordo que pessoas com dívidas devam continuar dizimando. Entendendo que dever é pecado (Rm. 13:8), assim como adulterar, e a pessoa deveria estar em disciplina, não participando das atividades do Corpo de Cristo, devendo primeiro arrumar o próprio altar, antes de ofertar a Deus (Mt. 5:24), para que sua oferta não se torne igual a de Caim (Gn. 4:5-7).É insano inadimplir ainda mais, cumulando dívidas, para satisfazer as exigências eclesiásticas, as quais devem ser cumpridas de coração, e não de obrigação (Zc. 4:6; II Co. 9:7). Aliás, a igreja que recebe este dízimo, recebe um dinheiro que está debaixo de maldição e que tem a mesma conotação que dinheiro proveniente de tráfico, furto e contrabando. O membro que dizima e mantém dívidas em sua vida social, deixa de pagar a quem deve, age de má-fé, enquanto no meio da igreja é adulado e parece bom cristão, quando seu testemunho fora da igreja é totalmente contrário.

Muitos membros, sob ameaças de maldição (algo que se encontra na Lei, e não na graça), deixam de comprar o leite dos filhos, pagar as contas da casa, liquidar os débitos no comércio, tudo baseados em futuras promessas. No gravame desta situação, foge a fé e adentra o desespero. Assim, de hora a outra, tudo se encontra perdido. Durante o curso de psicologia, no período de minha residência, trabalhei diretamente com hospícios. As vergonhas que ali enfrentei concernentes à fé,não podem ser padronizadas. Ocorre que mais de 50% dos internados se tratava de evangélicos que perderam tudo o que tinham mediados pelas cobranças, ameaças e solicitações de seus líderes. Um absurdo, repetido diariamente.Em minha adolescência ser evangélico atraía respeito e confiança. As pessoas podiam até detestar evangélicos, todavia, ao mínimo sinal de problemas era a um evangélico que pediam orações. Agora, ser evangélico é motivo de zombarias, e pastor é sinônimo de gatuno. Isto se deve ao dinheiro, ao enriquecimento sem a presença de obras concretas da fé. As pessoas investem em alguns ministérios que alcançam expressão nacional, porém, deles nada se vê de deveres cristãos cumpridos, de apoio a carentes, de alicerces de conhecimento. O investimento que é feito é apenas para que permaneçam na mídia, e não para ser aplicado em vidas necessitadas.

Estes líderes, em tudo o que projetam, buscam encontrar meios de ganhar mais dinheiro. É certo que tudo há de piorar antes do fim (Mt. 24:12; Lc. 18:8; II Tm. 3:1-9), porém, o que faz o trigo? Esconde-se? Onde estão os profetas, os que clamam por justiça? O que está havendo no meio evangélico são injustiça e desigualdade social. É necessário que os líderes retornem a confiar em Deus, e não em si mesmos, na capacidade que têm ou na quantidade de membros. Uma pregação que não confronta o erro não é evangelho (Mt. 10:34). É dever de um cristão partilhar de acordo com a precisão do Corpo de Cristo. O que deixar de ser feito pelo membro do Corpo será cobrado pela Palavra (Jo. 12:48). É comum dizer que a miséria e o analfabetismo são problemas do governo e que a ele cabe o dever de sanar. Todavia, os países de primeiro mundo com predominância evangélica, como a Irlanda, têm um índice de analfabetismo quase nulo, não por causa dos esforços solitários do governo, mas, porque as igrejas evangélicas tiveram a pré-disposição, na época de suas implantações, de abrirem escolas alfabetizantes ao lado dos templos.O mesmo ocorre na Inglaterra, aonde os orfanatos administrados por igrejas evangélicas são comuns, porquanto a igreja identifica, desde a época de Müller e Spurgeon, o dever de amparar socialmente os marginalizados, quando de verdade este é um dos deveres da igreja de Cristo (Mt. 18:10; 25:35-46; Lc. 10:33-35).

Ao contrário de tais modelos, a igreja brasileira parece evento anual de arrecadação contra a fome, que sacia a fome um mês no ano, e durante onze meses restantes as pessoas sequer são lembradas. De tanto investimento que é doado para alguns, aonde se encontram as ações recuperadoras? Quer dizer que o suporte que é concedido serve apenas para manter determinado líder na mídia, no auge?Chega de hipocrisia. Nós não nos encontramos mais na Lei. O dever de um cristão sequer é de emprestar, sim de doar (Mt. 5:42; Lc. 6:30). Porém, tantas vezes as pessoas se ocultam na Lei para não demonstrarem a Graça. Há no meio do povo de Deus um espírito maligno operando nos corações. Orgulho, competitividade e arrogância. Tenho dito em salas de aula que, se o maior cego é aquele que não quer enxergar, o maior ignorante é o que não quer perguntar. Eu e mais uma grande parcela do Corpo de Cristo estamos cansados de tanta hipocrisia e de amores falsos. O verdadeiro amor do homem é a matéria e o dinheiro, Mamon e seu império.

Estou cansado de ver pastores na televisão pedindo ajuda a homens de negócio. Um servo de Deus só precisa do Senhor, o que tiver de pedir é a Ele que pede e, caso Ele não mande, vai fazer sua própria “tenda” para vender (At. 18:3). Paulo era assim, solicitando ajuda apenas ao Senhor, incitava as igrejas a sequer o ajudarem, mas, sabia ser grato quando recebia da parte delas (Fp. 4:10-19). Quando não recebia, trabalhava pelo próprio mantimento. De minha parte, não foram poucas as vezes que fugi das conversas em família, ainda que presente, mas, a mente distante. Traumaticamente circulavam em torno de bens e dinheiro, o deus deste século, enquanto eu presenciara dores e dificuldades maiores, como pais que acompanhem a morte de filhos, enfim, coisas que, uma vez perdidas, não podem ser restituídas. Matéria é sempre matéria, vem e, também, vai. É criada, porém, terá seu fim. Chega de nojeira. Esta não é a igreja de Cristo. Lembro que no campo missionário o pastor da segunda igreja com que trabalhei fazia contas de quanto eu ganhava com o seminário. Havia ali uma família que me ajudava mensalmente, de primeiro porque eram alunos, depois, não puderam mais, todavia, permaneceram me ajudando. O pastor daquela comunidade, invejando, orientava a família a que não fizessem isso, visto que teriam o dever de ajudá-lo, e não a mim. Ora, este, além do salário que recebia, ainda tinha sua profissão e ainda residências para alugar. Mas, a ganância, o mundo de Mamon, lhe corrompia a fé.

Este é o império de Mamon, que ensina a humanidade sobre cobiça, luxúria, ganância, avareza.Isto é o que faz jovens bonitas se prostituírem no lugar de serem servas de Deus, mães e donas de casa; é por dinheiro que crianças se vendem e que a vida de muitos é interrompida ainda precoce. Estes pervertidos, imorais e idolatras, ficarão de fora dos portais eternos (Ap. 22:15). Ou abraçamos a Graça e somos por ela alcançados, ou voltemos a Lei e aos rudimentos antigos e deles façamos uso para que nos salvemos. Pessoalmente, eu preferi andar no caminho de Cristo e seguir a doutrina da graça.A conversão em nossas vidas, ou o processo de salvação, acontece em todas as áreas do ser humano, não apenas naquelas áreas que ele deseja (Fp. 2:12; Hb. 4:12). Portanto, é preciso haver uma crença digna de confiança em Deus, nEle que tudo supre e que cuida de cada um dos Seus (Jo. 6:37; Fp. 4:19).É necessário que a utilização dos recursos deste mundo seja destinada para o apoio e o crescimento do Reino de Deus, não para os anseios egotistas ministeriais. É dever apoiar os que engatinham, os que ainda são imaturos na fé (I Co. 3:2; Hb. 5:12; I Pe. 2:2). Acredito que tudo quanto aqui foi exposto acerca do dinheiro, tanto pelos testemunhos que mencionei, quanto pelos ensinos transmitidos pelos textos bíblicos, deva servir para a formação de uma igreja melhor amanhã. Esta é a minha oração.

 

 

CAPÍTULO 4

No lugar de amor, ódio

 

“Amar não é mais que morrer em si para renascer no outro” – Provérbio popular

 

Durante quatro anos fui pastor titular de uma igreja. Este foi o começo de meu ministério pessoal. Antes, de origem pentecostal, passei a desenvolver ofícios em igrejas presbiterianas. Apesar de a denominação reconhecer meus talentos e capacidades, não se inclinou a ordenar-me por conta de minhas origens pentecostais. Assim, ao me formar recebi o convite de uma igreja de origem assembleiana, dirigida por um irmão em Cristo que me acompanhara desde minha conversão. Ali recebi a imposição de mãos para o ministério pastoral e, devido a alguns fatores relevantes, precisei caminhar sozinho, quando pastoreei um rebanho por um quadriênio. A lida direta com os problemas da comunidade local concede uma visão mais abrangente das dificuldades que o Corpo de Cristo atravessa, especialmente notando a completa ausência de amor. Por exemplo, este rebanho que pastoreeicom zelo e dedicação, traiu-me entre o dia e anoite, e pude perceber que a igreja do Senhor ainda não sabe amar.

Em meus anos acadêmicos estive em um congresso da missão “Food for Hungry”, no qual nos era exposto os motivos pelos quais as igrejas não investem em missões. Em um dos tópicos levantados, e o grande causador de tanta mesquinhez, estava a ausência de compaixão, e foi exposto como a igreja evangélica é carente de compaixão, por isso não tem capacidade de exercê-la. Pretendo aqui ir um pouco além. A compaixão, do latim compassione, é palavra que exemplifica o ato de misericórdia exercido em benefício de outrem, é a dor sentida perante mal alheio. Este sentimento só é gerado em corações que têm amor e senso de justiça, ou seja, indivíduos que, além da piedade, se revoltam contra a injustiça de ordem social, emocional ou moral. Corações desprovidos de amor são incapazes de se compadecerem com as angústias e dores do próximo. É por isso que o capítulo anterior é tão comum no meio da igreja, pois, esta já não sabe operar o amor. Ao sermos incapazes de amar ao próximo, além de hipócritas (I Jo. 4:20), demonstramos que em nós ainda não foi gerada a vida de Deus (I Jo. 3:10; 4:7, 8). Quando alguém demonstra a incapacidade de amar, isto se torna preocupante, pois, sem amor significa que não é nascido de novo (Mt. 22:37-40; Rm. 13:9; Gl. 5:14, 22; Tg. 2:8).

Ocorre que este amor que em nós é gerado, da parte de Deus, também, não é um amor qualquer.Quando lemos a Bíblia em nosso português, tantas vezes adquirimos apenas uma meia informação, já que muito do contexto e das informações culturais não está visível aos nossos olhos. As traduções bíblicas, desde seu original grego, hebraico ou aramaico, tendem a aproximar o texto sagrado de nosso vocabulário, trazendo significados e sinônimos a palavras que, em sua grande maioria, só alcançam significado em seus idiomas originais. Assim, há muita informação bíblica que apenas se torna revelada nas salas de aula de um curso de teologia. Entre estas ricas informações se encontra a língua grega. A maravilha do texto grego é a sua capacidade de designar objetos ou expressar condições por uma palavra apenas, ou seja, cada substantivo ou verbo é singular e aplicado com funções ou ações específicas. Por exemplo, quando Jesus questiona Pedro acerca de seu amor (Jo. 21:15-17), Jesus o questiona em um verbo específico, ao ponto que Pedro corriqueiramente responde com outro. O grego tem três palavras para o verbo amar, que são Eros, Fileo e Ágape. A palavra Eros designa amor sexual, atração física, desejo carnal, libido, é o amor baseado em instinto, em hormônios. Fileo é o amor fraternal, aquele que é desenvolvido por alguém ou na família, o amor de amigos, de irmãos, de parentes, amor baseado em sentimento e emotividade, elo e duração.

Ágape é o amor que, consoante Jesus e Paulo, foi operado por Deus na humanidade, é o amor que Deus exerce.Quando Jesus pergunta a Pedro se este O amava, nas duas primeiras ocasiões Jesus usa o verbo ágape, e Pedro responde com fileo. Na última vez em que Jesus interroga Pedro, o faz com o verbo fileo, e por isso Pedro se entristece. Quer dizer, por duas vezes Jesus perguntou a Pedro se o discípulo amava ao Mestre como o Mestre foi capaz de amar ao discípulo, dando Sua vida. E por duas vezes o discípulo afirma ao Mestre que não, que apenas O ama como um amigo, como alguém familiar. Então, quando Jesus interpela Pedro na terceira tentativa utiliza o verbo fileo, o mesmo que Pedro vinha utilizando. Jesus fez isso para informar a Pedro que o questionou quanto a um amor específico, e não qualquer amor.Jesus fez isso porque queria saber se Pedro estava disposto a dar, também, sua vida por amor ao Reino de Deus, por amor ao seu amado Mestre. Enquanto que fileo designa um amor sentimental, afetivo, o verbo ágape designa um amor absoluto e racional.

Ágape é o amor que não se baseia em sentimento, mas, em poder de escolha, de decisão, em subjugar a vontade e decidir-se por amar (Cl. 1:21).Ao contemplar o diálogo entre Pedro e Jesus no seu original grego é possível compreender porque Jesus indaga o apóstolo por três vezes. O apóstolo, ainda que sincero, não tinha aprendido a amar conforme o coração de Deus, e nem estava pronto para o ministério que Jesus lhe propusera. Então, Jesus faz questão de demonstrar a deficiência de Pedro, ao perguntar-lhe uma terceira ocasião. Com o verbo fileo intentava demonstrar-lhe que não estava preparado para tudo quanto ainda lhe viria no ministério pastoral. Na verdade, este diálogo demonstra a incapacidade de lidar com o Reino de Deus desprovido de amor, especificamente ágape, que em tudo se faz necessário, desde o perdão, operando na comunhão, na ajuda, na compaixão, na misericórdia, na capacidade de se dar e morrer (Mt. 16:25; 19:29; Mc. 8:35; II Co. 4:11; 5:14), suportar (Ef. 4:2).Deveras, é impossível perdoar certos casos eclesiásticos sem amor, e quando o perdão exercido não é através deágape, a comunhão não é restaurada, guardando mágoas, receios ou seqüelas. O dom por excelência não é o amor que nutrimos pelo cônjuge, ou pelos filhos, nem o amor que guardamos por nossos familiares. É o desenvolvimento do amor de Deus no meio de nós, Seu povo.

Madre Tereza de Calcutá disse que “é fácil amar os que estão longe, mas, nem sempre é fácil amar os que estão ao nosso lado”. O amor que comumente partilhamos em convivência é deficiente. O grande problema é que ao lidarmos diretamente com o nosso corriqueiro amor, percebemos que ele é capaz de deixar de amar. Casais se divorciam, pais e filhos se intrigam, irmãos se afastam. Ou seja, o referido amor humano nada mais é que um sentimento instável. Contudo, o amor de Deus (ágape) não deixa de ser, não deixa de amar. Deus não nos ama mais hoje do que nos amou ontem, ou menos do que nos amará amanhã; ou nos ama menos hoje por conta de algum pecado, e nos amará um pouco mais ao nos redimirmos. Simplesmente Ele ama porque decidiu amar, e este amor é inalterável, visto que já demonstrou do que é capaz na cruz do calvário. Ágape é um amor superior porque não está baseado em padrões ou princípios. Enquanto o Eros e o Fileo definem níveis de gosto, Ágape é decisão.

Geralmente amamos por beleza, inteligência, utilidade, capacidade, afinidade, interesses, ou consangüinidade. Amores assim tendem a ser passageiros. Por exemplo, a grande causadora de divórcios nos dias atuais é a “incompatibilidade”. O que seria, senão níveis de gosto? Há quarenta anos casais não se divorciavam porque não conseguiam atingir um consenso. Isso não era suficiente, porquanto existiam princípios maiores, e deveres como filhos e a vida em comum que se é adquirida com o matrimônio. A falta de amor (Mt. 24:12) é justamente ausência de ágape, que desdenha de defeitos, limitações e problemas. “É preciso começar pelo sacrifício para alicerçar o amor” (Saint – Exupéry).

Agora, como o amor que é nutrido socialmente baseia-se em princípios de gosto - em padrões sociais e não morais -há insegurança em todas as áreas que se observe, e a igreja sofre e as ovelhas padecem, e os vexames surgem. O fundamento do Cristianismo é amar (Gl. 5:14). Caso este amor não aconteça, o Cristianismo será apenas outro clube social.O amor que procede de Cristo, que vem de Deus, o amor Ágape, é perfeito porque deixa de lado as variações de humor que o sentimento se deixa conduzir. A perfeição não é, contudo, o modelo e o padrão exato daquilo que imaginamos, e sim a busca pela correção consecutiva. A perfeição não é um ideal absoluto, mas, um ideal a se alcançar. Ao buscar a perfeição não padronizamos através de algo que existe, mas, de algo que se busca. Assim, nós não buscamos algo em nossa volta, sim um padrão modelo para atingir, que é o de Cristo.

É comum pensarmos que perfeito é aquilo que desejamos, sonhamos. Esse é um grande engano. O amor de Deus é perfeito porque se manifesta naquilo que é imperfeito, que somos nós, e leva-nos a assumir posturas melhores, ou seja, a desenvolvermos, e assim é manifesta a perfeição (Ef. 4:13; Fp. 3:12; Cl. 1:28; II Tm. 3:17; I Jo. 4:12). Perfeição não é o estado inerte e irretocável,antesé algo em constante progressão. O que é inerte e irretocável, com o tempo, se torna defasado.É esse amor em desenvolvimento, que procede de Deus (Rm. 5:5; I Jo. 5:3; II Jo. 1:6), para ser partilhado (I Co. 13:2; Hb. 10:24; 13:1: I Co. 16:14; Gl. 5:13; I Ts. 4:9; I Tm. 1:5), alcançando especialmente aos de fora e inimigos (Mt. 5:44; Mc. 12:33; Lc. 6:35; I Jo. 4:20), demonstrando o novo nascimento (Mc. 13:13: Jo. 15:10; Rm. 13:8; I Co. 13:13; II Co. 2:8; 8;24; Gl. 5:6; 5:22; Ef. 5:2; Cl. 3:14; I Tm. 6:11; I Jo. 4:7, 8, 12, 16), amparando os irmãos em Cristo (Rm. 12:9, 10; 13:10; 14:15; I Pe. 1:22; 4:8; II Pe. 1:7; I Jo. 3:16, 17; 4:11). Ágape passou a designar o amor que sentiu Deus ao providenciar salvação ao homem, mesmo quando este sequer a merecia (Jo. 3:16; 15:9; Rm. 3:23; 5:8; 8:37; Gl. 2:20; Ef. 2:4; 5:25; I Jo. 4:10).

Quando hoje as pessoasme indagamsobre o motivo pelo qual Deus não mais opera como no passado operou, sempre respondo que se deve a essa ausência de amor. Sendo o amor o resumo da lei, o único mandamento a ser cumprido (Gl. 5:14), é evidente que a sua ausência implicará na ausência e nas reservas do próprio Deus (I Co. 3:16; Ef. 4:30; II Tm. 1:14; Tg. 4:5), afinal, se Deus É amor (I Jo. 4:8), não amar é completa ausência de Deus (I Jo. 4:16).Esse amor não pode ser fingido (Rm. 12:9; II Co. 6:6; I Pe. 1:22). No capítulo dois falei de uma determinada denominação queauxiliei, a qual os seus membros tinham o orgulho de caracterizá-la pelo amor. Não se trata de uma seita ou título da denominação, sim, apenas os membros identificavam o ministério pelo carinho e amabilidade existentes ali.Já nos foi possível ter umanoção daquela comunidade, quero alargar através de minha experiência pessoal.

Ao chegar naquela igreja e nela não se envolver com a liderança, só restarão motivos para elogiá-la. Todavia, estando na frente, assim como eu me encontrava, quanto mais envolvimento, mais vergonhosa se tornava aquela denominação. Muita politicagem, autoritarismo, unilateralismo. Atrás do ósculo santo e dos abraços havia fofocas, mentiras e intrigas, e as ovelhas que naquele pasto se agregam, crescem desenganadas e iludidas.A falsa modéstia do pastor da citada denominação revela-se em pouco tempo de convivência. É um pastorado que não assume os erros próprios e que não está sujeito a críticas ou análises, jamais aceitando correções, não sendo em momento algum humilde para admitir suas limitações, e nunca pedindo perdão. A igreja do Senhor não é assim. A inoperância de Deus e Sua visível limitação a certos ambientes e movimentos, expõem a Sua insatisfação com o testemunho que os cristãos têm apresentado. Ora, não é amor se logo após a comunhão do culto, a saudação com abraços ou ósculos santos, esteja-se a porta da igreja falando de alguém, criticando o culto, a tecercomentários esdrúxulos do sermão. Inexiste um amor que, quando algo acontece, no lugar de conversa e proximidade, são usadas palavras dirigidas e pilhérias como acontecia ali.

É impossível que todos nós imaginemos que o Senhor Jesus se alegra com tais manchetes acerca de Seu Reino.Nos vultos do passado havia amor incondicional pelas almas.Este era o sermão de Cristo e foi a vida dos discípulos. Ao tomar a vida de Paulo desde sua conversão é nítido o seu amor (Rm. 9:3). Assim, também, o foi com Antônio, Agostinho, Atanásio, Ambrósio,Eusébio, Crisóstomo, Aquino, Hus, Savonarola, Lutero, Melanchton, Zwínglio, Calvino, Owen, Hodge, Carey, Taylor, Adoniran, Wesley,Edwards, Brainerd, Paton, Finney, Spurgeon,Moody, Smith... falta espaço e oportunidade para relatar tantos e todos. São pessoas que nos alimentam a fé, que demonstram o que é capaz de fazer um coração entregue e submisso ao Senhorio de Cristo.

Grandes homens, heróis do cristianismo, são lembrados porque demonstraram profundo amor pelas almas que se perdem, pelo Reino de Deus e pela vida eclesiástica. O próprio Finney descreve sua conversão como “ondas de amor liquefeito”. Oswald Smith escreve ardores do mundo missionário até hoje inesquecíveis. Agostinho é lembrado como o teólogo do amor.Com a autenticidade da entrega pessoal aos pés de Cristo, existe um transbordar de amor (ágape), porque apenas por amor nos tornamos capazes de entregar nossas vidas, abandonarmos nossos sonhos, deixarmos nossos projetos e, definitivamente, nos atirarmos nos braços do Pai (Mt. 19:29).Apenas com amor adquirimos a força necessária para perdoar, superar, suportar, sofrer (I Co. 13:7). Este elo de perfeição (Cl. 3:14), único adjetivo que identifica o caráter de Deus (I Jo. 4:8, 16), é tudo quanto nos tem faltado para que torne haver milagres e avivamentos em nosso meio. Ea ausência de amor tem gerado separatismo no meio evangélico.

Eu disse no primeiro capítulo que novas denominações surgem no Brasil de forma desproporcional anualmente. Cada nova denominação provém de um prisma individual e isolacionista, não é o intuito de cumprir a tarefa evangelística (Mc. 16:15), mas, de homens capazes, porém, egotistas, terem o próprio ministério. Quando não ocorre por parte do líder, vem da própria igreja, seja em não perdoar o pecado de algum pastor,ou não tolerar a presença de outro ministro do evangelho, gerando facções e grupos, até que seja inevitável a separação. A igreja do Senhor, o Corpo de Cristo, é apenas um e não poderia nEle haver barreiras e divisões. Eles existem para demonstrar que ainda somos incapazes de andar em harmonia, apesar de ansiarmos o mesmo céu.

São dados que preocupam aos que buscam lidar no Reino de Deus com integridade e sem interesse, pois, diante de tais estatísticas, é inevitável pensar que mais da metade daqueles que se dizem cristãos não nasceram de novo, já que não amam (I Jo. 3:10, 14; 4:7), e quem não nasceu de novo não pode entrar no Reino de Deus (Jo. 3:5), ou seja, não é salvo.A ausência de ágape torna difícil compartilhar o púlpito, o ministério e o andamento litúrgico, cria fachadas e falsas conversões. Esta doença que o evangelicalismo tem se tornado segue um norte capaz de destruir a credibilidade protestante. Ocorre que, estas falsas conversões são dotadas de transposições, em benefício apenas de milagres. Em outras palavras, as pessoas não se convertem, elas mudam de religião, e o fazem com interesse em milagres e prosperidade.Essas transposições não são conversões de amor e, no mínimo problema, as pessoas tendem a migrar para outras crenças ou denominações que saciem seus interesses e objetivos, assim como fazem os gafanhotos em busca de lavouras produtivas. Elas agem assim porque não tem os olhos fitados em Cristo, mas, naquilo que Ele pode oferecer. Caso esta oferta seja demorada, ninguém está disposto a esperar ou a sofrer“por amor ao Seu Nome” (Mc. 8:35).

Ademais, como essas conversões não são autênticas, na medida em que o Evangelho é anunciado e os erros e hábitos antigoscomeçam a aparecer, esses indivíduos passam pelo verdadeiro processo de novo nascimento, então, é comum a necessidade de libertações, curas emocionais e outros mecanismos de trabalho evangelístico que, teoricamente, deveriam estar presentes na confissão de fé (Jo. 8:32, 36; II Co. 5:17). Ainda que tenha anos de membro, fazer parte de uma denominação não significa que a pessoa está salva, isso só acontece na medida em que existe desfrute do novo homem e abandono da velha natureza (Ef. 4:24).É preciso entender que da mesma forma como uma seita ou uma religião não cristã conduz os adeptospara a perdição por ensinar uma salvação que não se baseia na Bíblia e em Jesus, também, um conhecimento equivocado, uma heresia, uma deturpação da fé, conduzirá àperdição (Jo. 12:48; II Co. 11:13; Gl. 2:4; Ef. 4:14; Tg. 1:22; II Pe. 2:1; I Jo. 4:1).

É impossível entender que crenças diferentes tratem do mesmo Deus. Nem todos os caminhos levam a Deus.O ecumenismo tem ensinado que as várias religiões divergem nos dogmas, porém, veneram ao mesmo Deus. Grande mentira.Nós conhecemos a Deus porque Ele Se revelou a nós.O auto revelar-Se divino, através das maneiras pelas quais Ele Se fez conhecido, demonstram Quem Ele É e o caráter que Ele tem. Quer dizer, Deus mostrou-Se como nós O conhecemos porque é assim que Ele gosta de Ser adorado. Tudo o que Ele instituiu foi apresentando a forma com a qual gostaria de Ser cultuado (Ex. 12:25; 40:16; Lv. 7:36; 27:34; Dt. 4:13; Jo. 12:49, 50; Hb. 9:1).Logo, adorar a Deus de uma maneira diferente daquela que Ele mesmo estatuiu,por exemplo, no Judaísmo é tratado com rejeição (Gn. 4:5; I Sm. 15:23; Sl. 66:20; Jr. 6:30), e é tratado como heresia no Cristianismo (Mt. 6:7; 7:13, 15; 24:4; Gl. 5:13; Cl. 2:8; I Tm. 4:16). Isso significa que não é porque várias religiões invocam o Nome de Jesus que todas O adoram corretamente (Mt. 7:21). Da mesma maneira, enquanto a igreja não despertar para a necessidade de tornar aos rudimentos e enquanto o amor não for o cerne da práxis, estará servindo a um Deus que não conhece, aliás, será pior que infiel (I Tm. 5:8). Anunciar ou ensinar um conteúdo que não esteja em harmonia com o texto sagrado é heresia, e quem o fizerserá instrumento do Diabo (Mt. 13:24, 37-39).

É, pois, que os problemas da igreja atual residem na dificuldade de amar. Sem amor não há humildade (I Pe. 5:5), pois apenas o amor nos sujeita uns aos outros.Quando de fato uma igreja ama, desenvolve e nutre o perdão com naturalidade, de maneira que nunca há intrigas. Com isso, não quero dizer que na igreja que ame verdadeiramente não exista contenda. Existe, mas, estas contendas não se tornam intrigas ou raiz de amargura. O amor perdoa com naturalidade e facilidade tais que diferenças não são notadas, e apenas crescimento. A Nova Era apregoa que toda e qualquer religião direciona para o mesmo alvo, visto que possuem a mesma base, que é o amor. Este é outro engano escabroso, mas, aceito por grande parte da população. Porque todas as religiões pregam o amor e a paz não quer dizer que todas levam ao céu ou caminham na mesma direção. As divergências religiosas, assim como denominacionais, não estão na base de suas argüições, mas, no corpo de suas crenças, naquilo em que acreditam. São os dogmas os responsáveis por criar as testilhas religiosas. O amor dirime todas as desavenças, pois, ao amar, buscamos antes o benefício do Corpo de Cristo e do povo de Deus, e não o próprio benefício. Ainda que não seja correto afirmar que o amor massifica as crenças, contudo, é correto afirmar que a ausência de amor, deste amor ágape, é a raiz de todo e qualquer problema, seja a crença que for, esteja onde estiver.

 

·         SINAIS DOS ÚLTIMOS DIAS

 

Os cristãos vivem em busca de sinais. Quer sejam sinais pessoais, quer sejam universais, há um costume de buscar nuances e sombras a fim de identificar algo que o Senhor, porventura, tenha dito sem falar. Portanto, ainda que hoje o Cristianismo pareça uma seita existencialista em busca dos prazeres sartreanos e temporais, existe uma vertente escatológica, a qual perscruta acontecimentos – especialmente em torno de Israel – que possam apontar a proximidade do fim último. Em sendo assim, geralmente estes procurados sinais compreendem os mais vistosos, os mais cósmicos, ou os mais divulgados, aqueles que são observados por todos, que não escapam aos olhos de ninguém. O desfecho apocalíptico, de fato, é assim: um cataclismo universal. Todavia, as trombetas ou as taças do Apocalipse identificam a mesma ação de Deus e um juízo que recai sobre o mundo impenitente, o mundo iníquo e pecador. Este juízo não é para o trigo, é para os ímpios e para o joio.É impossível encontrar alimentos da despensa doméstica em loja de vestuário. Assim, é impossível que a noiva encontre os sinais de suas núpcias se anda observando os sinais da justiça que lhe será feita.Os sinais que antevêem o fim e que dizem respeito a igreja se encontram nos sermões de Jesus e nas epístolas eclesiásticas, e não no livro do Apocalipse.

O livro do Apocalipse apresenta uma situação caótica que se desenrola quando a igreja se encontra nas bodas do Cordeiro. Procurar sinais em acontecimentos escatológicos já não é uma tarefa fácil, que complica ainda mais quando os sinais procurados não serão presenciados.Para compreender as épocas e o período que antecederá o juízo divino é necessário manter os olhos voltados para as advertências de Cristo e dos apóstolos para a Igreja, e não nas advertências de Deus para o mundo pecador. Entenda que não estou dizendo para se manter ignorante quanto ao Apocalipse. De maneira alguma, mesmo porque eu sou amilenista e o compreendo de maneira bem satisfatória. Estou dizendo que compreendê-lo não fará perceber quando o fim estará próximo. O livro da Revelação destina-se ao triunfo da igreja e de Cristo sobre aqueles que blasfemaram, mataram e perseguiram o povo de Deus (I Co. 6:2, 3; Ap. 6:10; 14:3; 15:3). Em outras palavras, o Apocalipse é a redenção final, quando Cristo triunfará sobre as nações que se rebelaram contra Ele e aos santos será feita justiça (Ap. 11:18). Quando buscamos sinais é porque eles podem ser vistos. Quer dizer, olhar para o Apocalipse em busca de sinais para a igreja,é completamente equivocado.

Os sinais do fim que serão vistos por nós, igreja e Corpo de Cristo, não se encontram no Apocalipse. E caso se esteja perguntando, então, do por que das sete cartas dos capítulos dois e três do Apocalipse, que são destinadas ao anjo da igreja, que é o pastor, é evidente que os capítulos introdutórios são admoestações para a igreja, e servem para incitar a escapar daquele juízo, especialmente os que ainda se encontram vacilando na fé, eis o porquê do uso de expressões como “ao que vencer”, “quem perseverar”, “abandona”, as quais são semelhantes às expressões do capítulo dezoito que narra a queda da Babilônia (Ap. 18:4), mas que, naquela ocasião, a expressão designa a incorruptibilidade do povo de Deus, que não se mistura com as abominações mundanas da cidade (Tg. 4:4; I Jo. 2:15– 17; 5:4). Pois, o Apocalipse deve ser compreendido, para que o ato evangelístico seja mais acintoso e determinado, mostrando ao ímpio o que o aguarda. Contudo, para que a igreja perceba a proximidade do fim, deve elencar os acontecimentos narrados por Jesus e os apóstolos, os quais, intrigantemente, são os mesmos: ventos de doutrina, falsos mestres e falsos apóstolos, ausência de amor (Mt. 24:5-14; I Tm. 4:1; 6:3-5; II Tm. 3:1-9, 13; II Pe. 2:1-3; II Jo. 1:7). Além das expressões de guerra e da lascívia, comuns a governos ateístas que não temem e não se explicam com Deus, os textos bíblicos notados são unânimes ao tratarem de ventos de doutrina, falsos mestres ou profetas e total ausência de amor. Esses são os sinais para a igreja que antecedem o arrebatamento, o fim de nossa era.

Cientes distoe tomando por análise o texto de Mateus 24, hoje já nos é possível conhecer falsos Cristos, pessoas que se passam pelo Salvador ou mesmo dizem ser a encarnação de Jesus (Vers. 5); guerras e rumores destas, nações e reinos em batalhas, em todo tempo presentes (vers. 6 e 7); uma singela contemplação no continente africano e na China é possível presenciar escassez, miséria e fome (vers. 7); doenças incuráveis, pestes que assolam a ciência e que, quanto mais tempo de convívio, menos se conhece (vers. 7); desde 1999 o mundo silencia diante das catástrofesnaturais, tsunamis, furacões, tornados, terremotos (vers. 7); cristãos torturados e assassinados em emirados árabes e demais países muçulmanos, simplesmente por serem cristãos (vers. 9); escândalos e traições, entre líderes, entre igrejas, entre famílias e entre irmãos, o ódio – antônimo de amor - reinando (vers. 10); ventos de doutrina, falsos profetas, que desde Atos tendem a repetir-se no cenário mundial, iludindo, atacando e confundindo (vers. 11); o amor esfriando, pessoas que não encaram com seriedade o Evangelho, que não mais acreditam em Deus (vers. 12). Ao que parece, resta apenas o cumprimento do verso treze, que se restringe a mirrados desafios e comunidades isoladas, que dispondo da tecnologia e dos avanços da mídia, encurta o problema e tal deficiência. O encerramento do sermão profético de Jesus, a partir do versículo quinze em diante, destina-se a judeus, a conclusão do tratamento naquela nação.

É desnecessário comentar os demais textos. Basta uma olhadela nas notícias cotidianas para entender porque existe a carência de ágape, e porque sua ausência motiva todos os desfechos hediondos. Os sinais dos tempos que discernem ao corpo místico de Cristo aquilo que antecede o fim são vicissitudes eclesiásticas, desenvolvidas pelo decompor da lei básica do Cristianismo: amor. Tudo o que hoje presenciamos e tudo o quanto perdemossão fruto da incapacidade de amarmo-nos indistintamente, apesar de nossas terríveis limitações e antipáticos defeitos. Recordo dois casos específicos que exemplificam as limitações de um amor que não seja ágape. O primeiro, uma senhora que foi ovelha no período em que presidi uma denominação. Essa irmã sofria há anos com um marido descrente, alcoólatra e mulherengo. Exausta de por ele clamar, um dia passou as portas da igreja exclamando: “Só queria que Deus levasse meu marido”.O amor que sentia não era capaz de perdoar infinitamente (Mt. 18:22). A verdade é que, ao casar, pouco caso fez. Conhecia e notava todos os defeitos daquele que se tornou seu marido, contudo, não os considerou, e naquela paixão eufórica atirou-se.

As pessoas, ao se converterem, no lugar de amar mais, cansam-se dos defeitos familiares e desistem uns dos outros, descumprindomoldes aconselhados pela Bíblia (I Co. 7:13, 14). Paulo deixa claro que a separação, em casos nos quais é cristão um dos cônjuges, é opção do descrente, não do que é salvo (I Co. 7:15).Mas, continuando, o segundo exemplo procede de um presbítero.Em minhas andanças acadêmicas fui membro de uma determinada igreja de governo parlamentar, na qualassistium presbítero, quando convocado a comparecer, com os demais presbíteros, a uma campanha evangelística para edificação e restauração de uma congregação que atravessava período de dificuldades e vinha gerando apenas despesas para a sede, responder ao pastor que não iria “pois evangelizar era tarefa do pastor. Para isso ele era pago”. O amor eclesiástico só é patente quando há o falecimento do eu (Rm. 6:6; I Co. 15:36; Gl. 2:20; 6:14; Cl. 3:3; I Pe. 2:24), e apenas ágape é capaz de nulificar o indivíduo para o nascimento da semelhança de Cristo(Ef. 4:24).A igreja que citei na primeira parte destecapítulo – a qual é mais sábio e ético manter em anonimato, mas, que se diz nela haver muito “amor”–acabou me ensinando muitas coisas. A mais importante é jamais amar com falsidade, ou saudar com beijo carinhoso quando o coração está impregnado de indiferença, rancores e revolta. Durante o trabalho que ali desenvolvi, amei e me dediquei com sangue e suor na qualidade de co-pastor, para auxiliar o ministério do pastor titular daquela localidade.

Por mais que eu me esforçasse, havia sempre uma desconfiança, uma segunda interpretação, e tudo quanto por minha pessoa era dito ou feito, estranhamente era direcionado para outro sentido, como que estivesse em meu coração e intenções valer-me e gloriar-meou em um futuro próximoabduzir o ministério para minhas mãos. Logo, era uma ditadura, forjada sem participatividade, apenas, com imposições.Em minha educação, assim comono funcionamento de qualquer empresa, sempre entendi que o trabalho que é designado o é para alívio do fardo de quem gerencia. Quando alguém entrega e confia uma tarefa a alguém, no entender das maiores igrejas e líderes e empresas do mundo, é porque existe o interesse de se aliviar daquele fardo e conceder dinamismo à equipe, deixando que o indivíduo se encarregue por tarefas que lhe promoverão crescimento e maturidade. Empresas solitárias jamais alcançarão o porte de multinacionais. A confiança é delegada para que exista crescimento.No desenvolvimento eclesiástico é o mesmo funcionamento, ainda que o objetivo não seja faturamento e enriquecimento (ao menos entre aqueles que trabalham com seriedade e abnegação), mas, tem por objetivo almas e aumentar a proporção de pessoas que se entregam ao Senhorio de Cristo.

Então, quando um pastor titular entrega uma tarefa a um co-pastor, o intento é de ver o trabalho pronto e reter um pouco de descanso para si, ou ocupar-se noutros afazeres. Como chegou a entregar a tarefa fica subentendido que o poder delegante reconhece dois valores no poder delegado: confiança e capacidade.Caso estes valores não fossem notados, a tarefa não seria entregue, porquanto ninguém designa serviços a quem não é confiável e a quem não sabe fazer, já vimos isto no capítulo dois. Todavia, naquela igreja, ao contrário de todas as outras, não era assim.Em um dos primeiros trabalhos que me foram entregues, pensando em agradar a liderança, preparei tudo, desde os preletores aos louvores, tratava-se de um congresso. Incrivelmente, fui repreendido, e ainda não gostaram do trabalho que fiz, porque deveriam ter participado de tudo. Eu apenas disse que compreendi que, como a tarefa me fora delegada, eu tinha a obrigação de desenvolvê-la, para aliviar o fardo na igreja. Perceba que apesar de haver líderes querendo ajudar, o fardo permanecia o mesmo, visto que todo projeto deveria ser revisto pelo titular, o que o fazia não aliviar, do contrário, apenas sobrecarregar. Entendo e aceito que projetos elaborados pelos departamentos internos de uma igreja devam ser apresentados ao pastor antes de serem anunciados na igreja, porém, infelizmente, este não era o caso. O pastor titular daquela igreja especificava todo e qualquer evento de sua denominação, e determinava quem ficaria responsável e pelo que ficaria, mas, ainda assim, tudo tinha de ser reapresentado.

Quer dizer, os projetos determinados pelo próprio pastor, precisavam passar por sua revisão. Assim, de fato a igreja se mantinha bem coesa, contudo, não havia nela crescimento, já que não estava sujeita a nenhuma outra riqueza que pudesse adicionar frutos e desenvolvimento eclesiástico.No evento que fui imbuído de organizar, convidei um colega missionário para ser o preletor. Infelizmente, não foram poucas as dúvidas, preconceitos e questionamentos quanto ao meu colega. Acredito que devam existir, na atualidade, preocupações concernentes a quem entregamos o púlpito. Porém, a liderança já tinha convívio com minha pessoa há mais de ano, e sabia da seriedade com a qual trabalho. Neste incidente chegou a haver“revelações” de problemas vindos da parte de meu colega, sendo ele um servo de Deus há muitos anos. O evento do qual participou foi extremamente abençoado. Ao final, aqueles que haviam atirado pedras, passaram a admirá-lo e convidaram-no para passeios, estadias e almoços. Ora, perceba, aqueles que o haviam julgado. Seria essa a demonstração do verdadeiro amor? Meus avós costumavam dizer que “quem faz, esquece”. Quando viram que meu colega era usado por Deus, as desconfianças mirraram, e a comunidade adotou uma postura como que nada tenha feito. Isso não é amor, é hipocrisia.

Enfim, tudo ali teria de sair da forma como aquele pastor faria, e pessoas desconhecidas, assim como um dia aconteceu comigo e meu colega, eram extremamente analisadas, ponderadas, criticadas e julgadas. A Bíblia nos ensina de um povo que analisava seus pregadores e profetas, mas, os irmãos de Beréia o faziam pela Palavra (At. 17:11), não pelo conhecimento e a experiência pessoal. Aquela igreja rejeitava tudo o que não fosse semelhante a sua maneira de ser, ainda que fosse bíblico e verdadeiro. Portanto, líderes como eu não podiam emitir opinião própria.

Falar algo a partir do próprio ponto de vista, conhecimento ou educação, seria uma tentativa de se levantar contra a visão do ministério, ainda que fosse apenas um esclarecimento sobre o funcionamento de um retiro ou de um congresso. A liderança era obrigada a apresentar o projeto que o próprio poder delegante determinara e esquadrinhara,tendo de passar pela sua aprovação algo que ele mesmo projetara, dirigira e solicitara a fazer. Em resumo, o que quero dizer, é que a liderança da comunidade que se vangloriava por seu amor e carinho, não sabia amar o suficiente para respeitar a opinião dos outros, nem a forma dos outros trabalharem e sequer ainda de serem. Isso aconteceu um dia entre dois discípulos e o exemplo deles serve para nossa correção. Em diversos pontos da teologia paulina as limitações educacionais de Pedro o impediam de compreender, o que acontecia com tantos outros irmãos (II Pe. 3:15, 16). Em cada situação na qual tentei demonstrar algum equívoco ou falha em específica organização, fui destratado e humilhado, porque ali não era permitido ter opinião, a não ser que você fosse um membro e que seu dízimo representasse um grande percentual no equilíbrio dos gastos da denominação. Esse sendo o caso, então, sim, seria ouvido, atendido, paparicado e bajulado, ainda que sua opinião e o que tivesse a dizer fossem totalmente contrários ao conteúdo da igreja e insubmisso à titularidade pastoral.

Este amor funcional só estava presente quando havia concordância com a postura ministerial daquela comunidade, e ainda que cometesse um grave delito, ela não poderia ser repreendida ou aconselhada. No período que ali passei foi possível ver pessoas discordarem da própria Bíblia para afirmarem suas experiências pessoais. Aqui não estou ensinando a haver rebelião contra autoridade constituída, pois, esse não é o caso.Longe de mim tal princípio, uma vez que primei por minha conduta e jamais abandonei qualquer serviço ministerial sem que tenha sido convidado por outro para trabalhar. Também, não estou dizendo que aquela denominação não tenha direcionamento de Deus. Aqui, estou ensinando às lideranças que aprendam a ouvir e reconhecer com maior facilidade seus erros, porque inerrância e infalibilidade são doutrinas aplicadas aos textos sagrados, ou ao papado, e a igreja evangélica não tem papado (ao menos, teoricamente). Procurem ter maior humildade e saber que nem sempre estarão corretos.

O que pretendo nessas linhas é demonstrar o amor que coopera. A igreja não é feita pelo individualismo, tampouco pelas capacidades pessoais. Existe lugar e espaço para todos na igreja. Como grande família de Cristo que é, então, na igreja todos são filhos. Ainda que na sociedade seja patente a idéia de que pais têm preferência entre filhos, com Deus não é assim (Jo. 1:12; Rm. 8:16; 9:26; II Co. 6:18; Gl. 3:26; 4:6; 28; Hb. 12:7; I Jo. 3:1). Na filiação de Deus não existem maiores ou menores, melhores ou piores. Existem pessoas mais íntimas e mais capacitadas, e isso por conta do interesse particular em conhecer e crescer para Deus. Todavia, a igreja é a reunião dos salvos (Sl. 89:5; 111:1; 149:1; Ap. 21:24) e, assim sendo, não pode viver debaixo de opressão, domínio e julgo, ela deve viver em harmonia aonde todos são ouvidos e o amor que é praticado não arrefece por causa de repreensões ou admoestações. Na igreja do Senhor, que desenvolve o amor, não pode e não deve existir julgamento (Mt. 7:1; Lc. 6:37; Jo. 7:24; I Co. 4:5) ou acepção (Dt. 10:17; 16:19; II Cr. 19:7; Jó 13:10; 32:21; 34:19; At. 10:34; Rm. 2:11; Ef; 6:9; Cl. 3:25; Tg. 2:1, 9. I Pe. 1:17).

Jesus ensina no capítulo 7 de João a “julgar com reta justiça” e não por aparência, semelhantemente a Paulo no capítulo 4 de I Coríntios, versículos citados no parágrafo anterior. Ocorre que esses conselhos dizem a não pré-conceituar ninguém a partir de sua maneira de ser ou aparentar (I Sm. 16:7), e não a julgarmos uns aos outros após certo tempo de convívio. A medida do julgamento são os frutos produzidos pelo indivíduo (Mt. 7:16-20) e a reta justiça de Cristo é a Palavra (Jo. 12:48). Assim, nós mesmos a ninguém julgamos, as obras é que são denunciadas (Jr. 4:18; Jo. 10:25; Gl. 5:19-21; Ef. 5:11; I Tm. 5:25; Tg. 2:24; Ap. 3:15; 20:12, 13), e a se tornam conhecidas. A medida que desenvolvemos nas coisas do Senhor, fica nítido que espírito tem operado em nós (I Jo. 4:6).

Naquela comunidade, contudo, ocorria o contrário. As pessoas eram tão julgadas pela maneira de ser e pela aparência que tinham, que determinada líder e co-fundadora certa feita disse à minha esposa que “nós gostávamos de aparecer, queríamos as honrarias dos homens”, incitou minha esposa a orar muito por minha pessoa, dizendo que eu a “impedia de andar e crescer”. Como se não bastasse, disse que “Satanás tocaria” em minha vida.O julgamento que teceu baseada, talvez, em minha maneira de ser, na educação que eu recebi, era totalmente contrário a quem realmente sou. Aos olhos daquela irmã além de narcisista eu ainda era manipulador empatando o crescimento de minha própria esposa. Ainda bem que Deus não anda em mesmos caminhos que os nossos (Is. 55:8). Eu não quis ou quero julgar o espírito e a profecia daquela irmã, ainda que a Palavra nos dê condições para isso (I Jo. 4:1). Humildemente recebi o que foi dito quando minha esposa relatou o ocorrido, pois, tenho maturidade para resguardar apenas o que é de bom e rejeitar o que se demonstra contrário ao que realmente sou. Em todo tempo jamais quis atrair sobre mim a concepção ou a idéia errada de quem seja, mas, as vezes, surge inveja e despeito, e acabamos padecendo desnecessariamente.

Aquela irmã nunca conversara comigo, nunca sentara para perguntar sobre algo e, o mais intrigante, e que não entendi, foi como criara a idéia de que queríamos “aparecer” ou desejávamos “honrarias” se naquela igreja nós não tínhamos ministério e nenhum departamento em nossas mãos, apenas éramos úteis na formação do seminário que aquele pastoreio sonhava em implantar, e nisso não havia nada de crédito pessoal, visto que os líderes ali formados eram para o próprio ministério local, e não para minha vaidade.Ainda que julgá-la não caiba a mim (Sl. 9:7; II Tm. 4:1; I Pe. 4:5), tenho por certo que o amor cristão não incita o comportamento que ela aflorou. Depois de certo tempo de convívio sem maiores proximidades, visto que apenas nos encontrávamos na igreja, aquela irmã sentiu-se no direito de julgar-me. A prática bíblica entre irmãos é bem diferente (Sl. 122:8; 133:1; Rm. 9:3; 15:14; I Co. 1:10; 6:8-10; Gl. 5:13; Tt. 3:2; I Pe. 1:22).A conduta bíblica dos irmãos é edificar a fé (Jd. 1:20), ajudar mutuamente (Hb. 10:24; Tg. 5:16), carregar as cargas (I Co. 12:25; Gl. 6:2), perdoar (Ef. 4:32; Cl. 3:13), não maldizer (Gl. 5:15, 26; Cl. 3:9;Tg. 4:11), honrar (Rm. 12:10; 13:7; I Co. 12:23;Ef. 5:21), incentivar o crescimento espiritual e vocacional (I Ts. 4:18). As admoestações e repreensões elas são exercidas em caso de pecado (I Ts. 5:11; Hb. 3:13; 10:25), o que nunca foi o caso, já que nenhum pecado foi denunciado, mas, a minha postura pessoal foi detratada. Ainda que exista a necessidade de exortação ou admoestação, isso é feito em amor (Ef. 4:15, 16; 5:2; I Ts. 3:12).

De modo algum há amor em julgamentos e palavras de maldição que contrariam diretamente a graça do Novo Testamento (Mt. 16:18; Lc. 10:19; Jo. 10:28;II Ts. 3:3; I Jo. 5:18). A igreja, que é formada de pessoas e não de tijolos, herda as promessas de total separação do reino das trevas. Ainda que Jó tenha recebido a permissão de intrusão satânica em sua vida (Jó. 1:12), hoje o Corpo de Cristo vive selado pelo Espírito Santo (I Co. 6:19; Ef. 1:13; 4:30; I Pe. 2:9) e não tem mais envolvimento com o reino das trevas (II Co. 10:5; Ef. 4:8; Cl. 1:13; I Pe. 1:5; I Jo. 3:6, 8), ao passo que Satanás tornou-se o tentador (Mt. 4:3; I Ts. 3:5), o acusador(Ap. 12:10).

No meio eclesiástico é preciso saber respeitar as características de nossos irmãos em Cristo, porque, havendo neles algo que esteja em desarrimo com a Palavra de Deus, será tratado pelo Senhor (Os. 7:15; I Co. 3:6; Fp. 1:6; Hb. 12:6), e não por nós mesmos, que é algo perigoso (Mt. 13:28-30).Ora, cada pessoa recebe uma educação pessoal, têm afinidades particulares, hábitos individuais, cultura diferente, e tudo isso precisa ser respeitado. Muitos campos missionários tiveram suas portas fechadas porque a cultura e os hábitos não foram respeitados. É preciso cessar este costume de querer rotular as pessoas, ou querer que se pareçam conosco, tentando moldar os irmãos e discípulos à semelhança de nós mesmos. Nós almejamos alcançar a semelhança de Cristo (Ef. 4:13; 5:1), não de seres humanos. De que adiantam orações se o coração está empedernido, com ódio dos outros, com ira, com ciúmes, julgamento? O verdadeiro amor não é invejoso (I Co. 13:4) e não suspeita mal (I Co. 13:5).

As profecias de Cristo, capazes e fidedignas, cumprem-se a risca quando nos encontramos aos Seus serviços (Mc. 10:29, 30). Naquela igreja a situação era tão trabalhosa que sequer as ovelhas podiam conversar ou se aconselhar comigo, e eram proibidas de freqüentar minha casa, ainda que eu fosse total, exclusivo e perfeitamente leal e fiel. Assim, o amor era apenas concedido enquanto houvesse total silêncio e omissão quanto aos erros cometidos. Quaisquer palavras de admoestação, ainda que com total amor, eram repudiadas e as pessoas, como eu fui, eram afastadas e tratadas com indiferença. Por exemplo, estando eu na qualidade de co-pastor, ao reportar ao pastor titular o caso dacitada irmã que nos julgara, foi me dito para manter-me omisso, olvidar, tratar como que nada tivesse acontecido, enquanto que o correto do pastorado seria esclarecer e coibir que mais atitudes iguais ocorressem no meio dos irmãos.Esse foi um período em que parecíamos nadar contra as correntezas, buscando ajudar, mas, tudo o que fazíamos não era bem quisto ou bem recebido, porque, constantemente nos julgavam e pensavam mal ao nosso respeito.

Lideranças que se acham irrepreensíveis e plenamente corretas beiram a classificação de seita. Doutra sorte, a vida dinâmica da igreja não é a mercê de uma única pessoa, e sim da Bíblia e da conjuntura doutrinária que ela apresenta. O que na Bíblia se encontra é o modus vivendido cristão. O amor que é desenvolvido naquela igreja não é genuíno, é circunstancial. Esse amor é falho ou, melhor dizendo, não é ágape. Que amor é este que não sabe ser repreendido (Jó 5:17; Pv. 3:11, 12; 9:8; 10:17; 12:1; 13:18; 15:10, 31, 32; 17:10; 19:25; 27:5; 28:23)? Aquela postura da liderança era tão altiva que chegava a discordar e funcionar independente da igreja matriz e sede, sem a essa se submeter. Que amor é esse que não sabe ser humilde, conservo e submisso (Sl. 138:6; Pv. 15:33; 16:19; 22:4; 29:23; Ec. 10:4; Ez. 21:26;Mt. 11:29; 18:4; Ef. 4:2; Fp. 2:3; Cl. 3:12, 13; I Pe. 5:5; Ap. 6:11)?Contra todo comentário feito era usurpado o ensino da submissão, entendendo que submissão seria ser conivente com o que não está correto. Isso é omissão. A submissão bíblica é aquela que reconhece, honra e respeita a autoridade, mas, especialmente, a submissão recíproca em não se achar melhor do que nosso irmão (Fp. 2:3; I Pe. 5:5), e assim aprendemos uns com os outros.

A mansidão de Moisés (Nm. 12:3) demonstra que o coração de um líder deve ser apto a receber repreensão, como o próprio Moisés recebeu e aceitou (Ex. 18:17; Dt. 3:26). O amor suporta diferenças de pensamentos e sabe renunciar aos seus estigmas quando se apercebe do erro, jamais pensando mal, julgando ou agindo de má-fé (I Co. 13:4-7). Além da confiança que deposita, sofre, divide e suporta, sabe ser presente e amigo, e não apenas cobrar e determinar. Este amor ágape é tão fortea ponto que “nunca falha” (I Co. 13:8), o que demonstra que o amor estimulado na comunidade mencionada, e em milhares de tantas outras, não segue os padrões e parâmetros bíblicos.

Ossimplórios exemplos não dimensionam a dor que o evangelicalismo enfrenta. As dificuldades hoje impostas na evangelização e as desconfianças dos ímpios para com nosso sistema religioso devem-se ao descrédito e ao mau testemunho de alguns, escândalos e vexames que, sob o abuso da fé detodos, têm maculado nosso estandarte. A ausência do amor é o motivo das facções, das cismas, dos grupinhos. É motivo das intrigas, das fofocas, do perjúrio.Por não nos amarmos alguns passam fome, enquanto outros se envaidecem mais com seus alcances individuais. Sem amor irmãos não se ajudam e veneram mais o dinheiro que a Deus, também, por não amar, líderes são afastados de seus cargos e não existe perdão na koinonia eclesiástica. Por não amar as pessoas migram de igrejas diante de ínfimos problemas, procurando não se envolver, e de logo escapar.Assim, por não amar ágape, a grande maioria procura o Deus da benção, sem que para isso estejam dispostos a viver conforme Seus princípios, conselhos e ordenanças. Esta escassez de amor faz com que pastores, que serviram por anos em determinadas comunidades, não sejam perdoados de seus pecados.

Este testemunho é desprovido de fé que opera a ação da vida comunitária (Tg. 2:14-17). Enquanto que uma parcela política e hipócrita é idolatrada, a outra vive às escorreitas, ladeando e se alimentando de migalhas. Falta amor, e este é o sinal do fim.Esse é o maior de todos os sinais. O apóstolo Paulo disse que “nos últimos dias virão tempos trabalhosos” (II Tm. 3:1). Essa demarcação de dias dificultosos representa dias de ocupação das mentes com tudo o que parece essencial e fundamental em suas vidas, porém, são frívolos e passageiros. O amor que a igreja deve nutrir não pode ser qualquer sentimento, sim, a decisão de amar independente do que o próximo possa nos causar (Mt. 18:22).

Esse amor não é demonstrativo e não se percebe com beijos e carinho, só é patente quando há mudança de caráter e disposição de renúncia, mesmo que o ego brade revoltoso, mas, rapidamente se queda à docilidade desta decisão intransponível. A mudança radical que em nós é operada no ato da conversão provém de um amor determinado, não vacilante.Ágape não se baseia nas possibilidades, porém, na superação. É a ação divina de amar-nos mesmo quando éramos pecadores (Rm. 5:10; Cl. 1:21; I Pe. 2:10) Deus nos amou assim ciente de que, até a volta de Jesus, ainda estaremos sujeitos a pecar e cairemos nalgumas destas ciladas e tentações. Semelhantemente, é característica de novo nascimento o amadurecer deste mesmo amor (Ef. 5:2), no qual os indivíduos renunciam a si mesmos e aos próprios ideais em benefício uns dos outros (I Co. 12:25; Gl. 6:2; Ef. 4:25; Tg. 4:11), amando da mesma maneira e na mesma proporção com que Cristo nos amou (I Jo. 4:11).

 

·         OS DIFERENTES TIPOS DE AMOR

 

Como já apresentamos as variações gregas do verbo amar, é interessante ponderar a operação destes amores, para que sejam diferenciados e percebidos pela esfera cristã em geral. Como os verbos designam amores distintos, criando mais nítida informação em nosso conteúdo, faz-se de bom tamanho analisar as conseqüências destes amores em aspectos separados e como a ausência do amor ágape está afetando a sociedade e a comunidade cristã. Os problemas que a igreja evangélica atravessa existem por não saber nutrir um amor saudável e que é firmado na Pessoa de Jesus. Enquanto os cristãos não aprenderem a amar corretamente, e não firmarem este amor na própria Palavra de Deus tornar-se-á difícil haver um melhoramento e um crescimento espiritual da igreja.

EROS

 

Como os verbos em seus originais encontram-se no idioma grego, não pode haver uma compreensão clara se não trouxer a relevância dos significados para a própria cultura grega. O pensamento grego se desenvolve através da mitologia e da filosofia. A cultura grega, portanto, é o saber e o idealizar que se manifesta nas artes - escritas e esculturas –a priori, originados em uma congnisção bastante supersticiosa. É um pensamento que não acontece pela empiria, mas, pela criatividade, imaginação, misticismo e, por conseguinte, formas de conhecimento nascidas do questionamento, não da ciência. No pré-surgimento das grandes escolas filosóficas o conhecimento grego e suas terminologias estavam associados à mitologia, o que não se dissocia com o surgimento da filosofia, porque, ainda na época dos apóstolos a idolatria era gritante em Atenas e províncias da Ásia Menor, como observamos nos avanços missionários de Paulo (At. 14:11; 17:18; 19:26; I Co. 8:5).

Entendida essa parte, logo, não seria possível compreender a relevância de certos termos e suas origens sem observar um pouco da crença mítica ateniense. Na mitologia grega Eros - o cupido do panteão romano -fôra o deus do amor,e tinha uma beleza irresistível.Sua crença é ignorada por Homero, Eros é citado apenas na obra Teogonia. No escrito deHesíodo,Erostinha por paiCaos. Para Ovídio, Caos era o deus da desordem e a partir dele tudo foi criado.Eros, então, seria um deus presente noprincípio da criação. Ainda que Caos fosse o seu pai, suas naturezas eram ambíguas, contraditórias. Enquanto Caos criava tudo pela separação, Eros tinha um papel unificador e coordenador dos elementos, contribuindo para a passagem do Caos no cosmos. Com a difusão do pensamento filosófico Caos deixou de ser uma divindade e passou a designar um princípio (), o princípio da criação do universo a partir do retroverso, ou seja, a ordem a partir da desordem. Para o pensamento filosófico a esturura física existente provém de uma convulsão cósmica, a qual em grande cataclisma originou toda forma de matéria que há.

No Evangelho de João, no capítulo um, está escrito “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. A palavra verbo encontrada nesse trecho da Bíblia provém do grego logos (), que tem uma aplicação diversificada, as vezes significando palavra, as vezes verbo, as vezes conhecimento.Como as escolas pré-socráticas divergiam em suas opiniões, havia aquelas que se opunham a idéia de que a criação procederia da desordem para ordem, entendendo que procedia da ordem para a desordem. Esta idéia era o logos, o qual, para a filosofia grega, criara tudo e, consequentemente, a humanidade deturpara. Para os pensadores essa palavra, esse verbo, não representava um conhecimento vago, mas, a singularidadede algo que detinha poder de criar tudo o que existe, ou seja, de chamar a existência a partir do nada. Então, no pensamento filosófico, enquanto Caos criara a ordem a partir da desordem, o Logos criara tudo a partir da ordem, do poder de sua palavra. Caos criara a partir da cisão, da fisura, da ruptura, da separação. Logos era a palavra criadora, que a tudo faz organizado e coerente, sem desordens, sem Caos.

Percebe-se que, ao escrever seu evangelho, João se referia à filosofia grega, e combatia o pensamento de que a desordem reinava, porém, reina a ordem criativa de Cristo. João estava dizendo ao pensamento helênico que a ordem, o poder criativo que eles ignoravam e não sabiam qual seria, de onde proviera, na verdade, era Jesus, desde o princípio, e até o fim de tudo. Ele É a primogenitura (Cl. 1:15), a exatidão (Jo. 12:45; 14:9), a consequência (Cl. 1:16). Perceba a diferença que há de raciocínio. Enquanto que Eros está ligado a Caos, Ágape está ligado a Logos. Enquanto Eros provém da desordem, Àgape provém da ordem.

Assim, na primeira idéia grega de Eros, este era filho de Caos, e se opunha a seu pai trazendo fusão, porém, uma fusão de confusão, ou seja, a unidade proposta por Eros confundia os elementos, e foi preciso que seu irmão, Anteros, agisse na criação para equilibrar as unidades. Em resumo, o Eros é um amor que unifica em tal proporção que causa confusão, porque é um amor em desequilíbrio.Em contos mais longíquos, Eros passou a ser considerado um deus olímpico, filho de Afrodite e de Zeus.Na lenda, Eros se casa com Psiquê, a mesma que se identifica com as terminações neurológicas da atualidade e simboliza a psicologia e psiquiatria. Na mitologia grega, Psiquê representava a alma, ainda que sua tradução literal seja sopro, o que dá a conotação de espírito para a mitologia, e a divindade se ligando com a parte imaterial do ser humano, portanto, seria o princípio da vida terrena. Desta forma, a simbologia traduzida nesse mito é que a alma do ser humano é o sexo, a libido, o instinto. Freud interliga essa idéia mitológica com a prioridade do ser humano, que é a satisfação sexual.

Sob a influência dos poetas, Eros muda de fisionomia durante a passagem do tempo. Já foi representado como uma criança alada ou sem asas, que se diverte perturbando corações, que queima com suas tochas ou fere com suas setas. Os poetas alexandrinos gostavam de elucidar Eros brincando com crianças divinas. Nas fábulas infantis, ora Eros era punido, ora posto de castigo pela mãe, ora ferido por espinhos de rosas que colheu, etc. Na vencida cidade de Pompéia, as pinturas tornaram esse tipo de Eros muito popular. Porém,há uma constância no fato de, sob uma extreme aparência de inocente, Eros seria um deus de grande poder, capaz de ferir cruelmente. Essa dor causada por Eros, comumente se associava à sua beleza e a cobiça que as mulheres nutriam acerca dele. Essa lascívia conduzia a infidelidade, e Eros não era fiel a ninguém, a não ser a si mesmo. Logo, a sedução de Eros sobre as mulheres passou a ser conhecida e a humanidade chamou essa irresistível atração de erotismo.

De imediato, pelas próprias terminações gregas, percebe-se ainconciliável unidade entre Eros e Ágape. O amor divinizado pelos homens em Eros é totalmente egoísta e infiel.O amor antropomorfizado por Deus em Cristo é puramente altruísta e conciliador. A manifestação de Eros na história trouxe entre os homens a corrupção sexual, e levou a humanidade a desvalorizar a instituição familiar. Ainda que entre homem e mulher haja um relacionamento amoroso que ocorre pela química interna e hormonal, não significa dizer que a manutenção desse amor é sobre os padrões de percepção ou pelaatividade sexual, e sim pela estabilidade de um amor verdadeiro e incorruptível. A diferenciação dos amores Eros e Ágape são gritantes desde a maneira como são compreendidos. Enquanto que Eros é um amor proveniente da desordem, que não se estabelece a não ser pela oposição de seu irmão (Anteros = Anti-Eros), ou seja, que não conflui inteiramente em si mesmo; Ágape é um amor proveniente da ordem, da estabilidade, da funcionalidade, da autosuficiência em amar porque há uma decisão racional de amar alguém, e não que só exista amor enquanto exista atração.

A frase de Vinícius de Moraes – “que não seja imortal, posto que é chama” - não serve para o amor Ágape. Mas, serve ao Eros.Já que o Eros se manifesta na atração para o coito, para a atividade sexual, não perdura eternamente, não tem a mesma abrangência, integridade e equilíbrio do Ágape.Em visto que Eros é relação marital, ébom considerar as conseqüências de casamentos alicerçados sobre as percepções eróticas. Primeiro, Eros era infiel, então, casais que se acomodam em atrações e padrões sociais, quando chega a velhice, ou quando a química arrefece, a tendência é se comportar como o deus da mitologia, e ser infiel. O amor Eros, como a própria grafia identifica, é erótico e libidinoso. Inexiste nele a determinação de continuidade. Esse amor é baseado em forças de atração, em leis de gosto, padrões de estética.A manifestação do amor de Deus nos relacionamentos conjugais não é baseada em atração, estética ou padrões mundanos, e sim em pactos.

Em relacionamentos pessoais a sociedade está sofrendo mais porque têm vivido sobre sentimentos frágeis e isquêmicos. Mulheres desenganadas com o marido, namoradas desiludidas com a “primeira vez”, maridos traídos por suas mulheres. Casos e mais casos extenues e escandalosos, porque a sociedade baseia-se em um amor deturpado e deteriorado. É claro que antes da mitologia grega já operava no mundo esse amor, basta ler um pouco o Gênesis e atinar sobre o comportamento dos habitantes de Sodoma e Gomorra (Gn. 18:20; 19:5-8). O que se pretende ensinar é exatamente a impossibilidade de haver relacionamentos seguros fundados emerotismo. O amor Eros deseja, e todo desejo precisa ser saciado. Por força disto, as pessoas não esperam mais o matrimônio para se conhecerem sexualmente (Hb. 13:4), e todos os comportamentos familiares são adiantados, completamente fora de seu tempo acontecer e com pessoas imaturas demais para compreenderem o passo que deram.

O amor que procede de Deus é selado em pactos sanguíneosque atravessam a história (Gn. 4:10; 6:9, 13; 17:10, 13; Ex. 12:13; 24:8; 29:21; 30:10; Mt. 23:35; 26:28; Jo. 6:54; Ef. 1:7; 2:13; Cl. 1:20; Hb. 9:22; 10:29; 13:12; I Jo. 1:7; 5:8; Ap. 1:5; 5:9; 7:14; 12:11). Ao longo dessa paixão, as alianças e os pactos estabelecidos foram criados a partir do sangue. Os exemplos dos versículos citados demonstram isso. Da descendência adâmicao sangue de Abel, o justo, que clama; com Noé o sangue dos infiéis que padeceram no dilúvio, mas, a casa de Noé foi preservada; com Abraão na circuncisão; durante a hegemonia do Estado de Israel, através dos sacrifícios anuais; e na época presente com o sangue de Jesus. O casamento é outro pacto sangüíneo.O ato sexual, no desvirginar da mulher, causa uma aliança que segue o mesmo padrão divino, baseada em consangüinidade. A mulher sangra pelo rompimento do hímen, enquanto que o homem pelo esforço e atrito. Assim, aos que esperam o casamento, pela primeira vez, o sangue do marido se mistura ao da mulher, e assim é estabelecido um pacto.

Quando uma mulher perde sua virgindade, sela um pacto com o homem que a desposou. Aos olhos de Deus o casamento está além do altar e do cartório, na verdade, é o estabelecimento de um pacto indissolúvel enquanto os pactuantes estiverem vivos, esse é o ensinamento de Paulo (Rm. 7:2 e 3). A outra hipótese de dissolução marital é o adultério (Mt. 19:9).Na sociedade israelita ser mulher de alguém significa que tal mulher conheceu a vida sexual apenas com seu marido. Mulheres que praticaram sexo fora do casamento eram prostitutas e mulheres que não foram virgens até o matrimônio, também. Portanto, homens israelitas não se casam com mulheres que não sejam virgens, já que têm pleno conhecimento que o casamento é um pacto entre os indivíduos. Quando um homem israelita conhece uma mulher fora do casamento, para ele aquela mulher é como uma prostituta. O homem pode se casar, porém, a mulher torna-se pária. A única hipótese de casamentosjudaicos com mulheres nãovirgens é quando existe viuvez (I Co. 7:39).

Logo, perceba a gravidade da perca virginal da mulher antes do matrimônio. Caso o incidente não tenha por conseqüência o casamento, haverá um pacto selado entre as partes, o qual manterá o casal unido até a morte (Mc. 10:6-9). O Diabo tem se tornado bem sucedido em destruir famílias e causar sofrimentos, exatamente porque as pessoas não medem a conseqüência daquilo que fazem. Caso alguém mantenha relações sexuais com várias pessoas antes de casar, quando contrair núpcias, passará ao cônjuge o contato sanguíneo que manteve com todos os demais. Por isso que as doenças são transmissíveis, porque as doenças passadas no ato sexual são mantidas na corrente sanguínea do indivíduo e, assim, a consangüinidade repassa o contato aos demais com quem se relacionar. Deus jamais achou que o relacionamento sexual seja algo tolo e inconseqüente. Da mesma forma que há rigidez no matrimônio, Deus não tolera homossexualismo (Lv. 18:22; 20:13; II Tm 3:2), masturbação (Gn. 38:9, 10; Ex. 20:17; Dt. 5:21; Mt. 5:28), bestialidade (Lv. 20:15), fornicação (Mt. 19:9; I Co. 5:1-5), etc..

O sexo não é pecado quando praticado pelo casal em um casamento. O sexo fora do casamento é corrupção da carne (Gl. 6:8; II Pe. 2:19, 20), que não pode alcançar as herdades eternas (I Co. 15:50), e por isso não pode ser tolerado por quem serve e vive para Deus, tão menos pelos que conhecem a Verdade (Hb. 6:4-6). O perigo do Eros é a modificação que causa nos valores do caráter humano. No lugar de casamento há um negócio; no lugar da família, uma fachada; no lugar do caráter existe a aparência; no lugar do interior,contempla-se o exterior; no lugar da verdade reina a mentira; no lugar do amor impera a ganância; chamar de tabu tudo o que é princípio; no lugar da espera, a pressa; no lugar da maternidade, a procriação; no lugar de haver uma procura por valores que dignifiquem o indivíduo, hoje, ocorre uma perseguição por padrões de estética.

Quem pode ditar o que é bom para alguém? Ora, quem sabe o que é bom ou ruim para a sua vida é você mesmo, e não os comentários de mentes vazias e desocupadas sobre o que é beleza e o que é um bom casamento. Comentários e artigos de pessoas que, na maioria das vezes, são infelizes, solteiras ou mal casadas. Quem sabe o que dói e aonde dói em seu coração é você, e porque, quase sempre, as escolhas são feitas com base na opinião da massa? Lembre do filho pródigo (Lc. 15:11-25), quando o dinheiro acabou, também, se foram os amigos (Lc. 15:14). Quando as cortinas se fecham e os teus risos derem lugar a lágrimas, os amigos não estarão presentes para te consolar. È bom lembrar o que foi dito no capítulo primeiro. Ao orar não dobramos os joelhos para que sejam conhecidos diante de Deus os nossos problemas e as nossas necessidades, porém, para que sejam conhecidos a nós os desejos e a vontade de Deus sobre nossas vidas. È bom viver debaixo da vontade divina e buscar conhecer o que Ele tem separado para nós e não o que nós queremos dEle receber. Nem sempre o que queremos nos levará a locais seguros, na verdade, raramente nossos ideais nos conduzirão a ribeiros de paz (Pv. 14:12).

As dificuldades de tamanhas inconseqüências são notórias em todo o Brasil. Apenas no mês de Outubro do ano de 2007, mais de 08 (oito) crianças foram abandonadas nas imediações da capital mineira, Belo Horizonte. E não foram casos de mendicância, mas, de recém nascidos jogados em rios, lagos, sacolas e lixos, simplesmente porque eram crianças indesejadas, gravidez não programada, quando filhos são heranças, e nunca maldição (Sl. 127:3). Isso é reflexo de Eros. O amor que é sentido é muito mais por si mesmo do que pelo outro. É um tanto Narciso de ser, um amor que procura em outras pessoas aquilo que é bom para si mesmo. Isso é Eros. Ágape nunca procura o que é bom para si (I Co. 13:5), ele admira e elogia as qualidades (Fp. 4:8), corrigindo os defeitos, não para que se faça satisfeito, mas, para que o ente amado esteja bem guardado.

Bem, os apresentados problemas com o Eros são interpessoais, faltam os eclesiásticos. A confusão entre Eros e Ágape propicia o adultério entre pastores e líderes, os quais deitam com as próprias ovelhas ou liderados. Recordo-me de um pastor amigo, que chegou ainda a lecionar-me algumas disciplinas na minha época de seminarista, quando em sua época pastoral, em pleno sermão, uma belíssima ovelha adentrou as portas de sua igreja trajando apenas uma capa estilo sobretudo e despiu-se do mesmo, de frente ao altar, convidando meu colega para o leito da fornicação. Fez-se necessário muito temor e discernimento para saber agir em tal situação. Todavia, sei de casos pastorais acerca de adultério que foram cometidos dentro do gabinete, durante o aconselhamento. Situações assim, em que Eros sobrepuja Ágape, e a vergonha do meio cristão aumenta. Casais que praticam o hediondo ménage a trois, quando não o swing, sendo o primeiro o sexo do casal com outro parceiro, ou seja, em três, e o segundo quando dois casais trocam os parceiros entre si e praticam sexo entre ambos. Esses casos dos quais tomei ciência foram praticados entre cristãos evangélicos, por incrível que pareça.

Inobstante, poucos não foram os casos de pastores com filhos fora do casamento. É evidente que o desejo não é de fomentar uma inerrância clerical. Porém, é impossível que pessoas nascidas de novo ainda vivam na prática de pecados tão abomináveis (Lc. 17:1; I Co. 6:18; II Co. 6:3; I Tm. 3:2; Tt. 3:11; Hb. 10:26; I Jo. 3:6, 8, 9; 5:18). É inviável, impossível e impermissível, mas, não imperdoável.Lógico que sei que, para muitos, casos heterossexuais evangélicos são conhecidíssimos, e casos de homossexualismo católico, também. Contudo, os tais não se restringem às específicas religiões em que são mais presentes. Conheço inúmeros ex-padres que, para legalizarem a situação com devotas ou freiras, recorreram ao pastorado evangélico; tanto quanto conheço casos de pastores evangélicos que foram surpreendidos no ato homossexual pelas próprias esposas e filhos. A questão é que hoje na igreja não existe um discipulado, um acompanhamento, logo, a imposição de mãos é precipitada (I Tm. 5:22). Que existam calúnias, como havia em torno de Jesus (Mt. 11:19), porém, é preferível que sejam apenas calúnias e mentiras.

Por vezes criticamos o oriente e seus costumes rígidos, como acontece no mundo árabe. Porém, divórcio e adultério em regimes muçulmanos são quase inexistentes. O amor Eros, todavia, é doentio, falho, parcial, incompleto. O casamento só é durável quando o amor Ágape é desenvolvido. No casamento o amor ágape primeiro direciona-se à Deus, e teme Seus preceitos. Por isso, o casal não se ama porque tem afinidade, não permanece casado porque um acha o outro bonito, ou porque estão na moda. Eles se amam e assim permanecem porque temem a Deus e procuram não contrariar os Seus princípios. Isto é bem diferente e muito mais poderoso que qualquer sentimento humano. Como o coração do homem é enganoso (Jr. 17:9), a vida do indivíduo deve pautar-se nos valores eternos, não nos princípios temporais e enganosos da humanidade. Então, por primeiro passo, demonstrei que o sentimento Eros é fraudulento e tende a causar muito mais desgraças do que edificação. Resta-nos comparar Ágape com Fileo, e saber se há consistência nas diferenciações destes amores, para que possamos procurar meios de corrigir a última área corrompida da igreja que trataremos neste volume.

 

FILEO

 

Na mitologia grega Fileo era o filho do Rei Aúgias, este último o qual possuía três mil cabeças de bois em um curral que não era limpo há trinta anos, e foi a quinta tarefa de Hércules limpar estes currais. Os currais foram limpos em um único dia, porque Hércules desviou o curso de dois rios. Por este serviço Hércules não foi pago, e Fileo depôs contra seu próprio pai em juízo. Os dois foram banidos de Élide e Fileo, mais tarde, se torna rei em lugar de seu pai, mesmo que o tenha traído e ficado contra sua própria família.

Utilizando um pouco de adequação deste mito com a atualidade, ou seja, um tom hermenêutico de ver, não é necessária muita exegese e aplicação de regras para comparar as situações. Tratamos de problemas conjugais com Eros, para tratar de problemas familiares com Fileo. Enquanto que Eros é a destruição do matrimônio, Fileo é a destruição dos valores morais de uma família. O caso de Fileo, que trai e assume o lugar de seu pai, é comum na atualidade. Filhos que se levantam contra seus pais, pais que assassinam os próprios filhos. Dizem que todo mito é uma narrativa fictícia de fatos da realidade, a divinização da tragédia humana. Deva ser verdade. As paixões mitológicas têm sempre fundamento quando traduzidas na tragédia humana.

A primeira das instituições divinas é a mais atacada de todas. Infelizmente, também, eu sou experiência prática disto. Além de já haver mencionado que fui abandonado por minha primeira esposa – descumprindo o voto matrimonial “na vida ou na morte” - mencionei, também, a traição que sofri na primeira igreja Puritana, no quadriênio de meu ministério pastoral. Este último caso trata-se de um infortúnio baseado em calúnias e que foi liderado por minha única irmã. Na casa de meus pais somos em quatro, a saber, meus pais, eu e minha irmã. Pois, mesmo estando em uma família tão pequena, foi a minha irmã quem lutou contra minha liderança no ministério que eu presidia. Na verdade, nossa família, apesar de poucos membros, jamais se entendeu entre si. Intrigas, inimizades, distanciamento, as vicissitudes são inumeráveis. Enfim, todas por questão de individualismo, interesses próprios, dinheiro ou divergências de educação e opinião, fatores que têm condições de tratamento e conciliação, mas, que nunca foram discutidos por causa de vaidade e orgulho.

Nas épocas estudantis passava a maior parte do dia fora de casa, para evitar atritos ou escutar palavras que me machucavam. Em momentos de ceia, à mesa, as conversas eram sempre as mesmas, os mesmos assuntos, os mesmos pontos de vista. Havia entre nós quem dissesse conter traumas por ocasiões que ele mesmo procurou, enquanto existem famílias realmente traumatizadas por filhos que morreram vítimas de doenças atrozes, pessoas que cresceram debaixo de espancamento, que passaram fome, nudez, mendicância. Isso cria o trauma, o resto são neuroses absorvidas pela frustração dos ideais egotistas. Não era fácil, como não é fácil em diversas famílias.

Ora, sei que isso não aconteceu apenas comigo, e que há pessoas que sofreram ou ainda sofrem por dificuldades de convivência. A questão não é resolver fatos isolados, como pretende a psicologia, porque isso não cura a convivência, cura o indivíduo. A questão é por que isso acontece? Qual a raiz deste problema? Essas perguntas, por mais que se relute em aceitar, têm respostas nas origens e na má formação familiar. É bem lógico, querido leitor. É só fazer a pergunta: Por que essas coisas não aconteciam no século XIX quando a educação era mais rígida? Quando as mulheres eram educadas para o matrimônio, cumprindo o que está na Bíblia (I Tm. 2:15), os divórcios não eram comuns. Quando os pais cuidavam de seus filhos no lugar dos programas televisivos, os filhos não cresciam doentes, problemáticos e desobedientes. Isso é fato.

Bem, não estou aqui querendo combater o feminismo e as adeptas de Beauvoir, mas, demonstrar que os valores que foram abandonados pela secularização e pelo relativismo eram essenciais para a vida social. Quando há uma inversão de papéis, há uma inversão de ordem. Por exemplo, não se imagina na vida selvagem que um leão seja devorado por um gnu. Caso essa ordem estabelecida seja interrompida, os leões, por ser minoria, entrariam facilmente em extinção, enquanto que, ainda que os gnus sirvam de alimento para crocodilos, leões, guepardos, leopardos, etc., ano após ano o rebanho é sempre crescente.

O que pretendo informar é simples, ou seja, não estando o ser humano fora deste sistema ecológico, a inversão dos papéis e o desequilíbrio da ordem familiar desestruturou o ambiente no qual o próprio bicho homem está inserido, e os resultados temos colhido ao longo deste último século. Os indivíduos têm existido em benefício de uma busca por prazer e satisfação pessoal, sem prever as conseqüências de suas atitudes.Os efeitos dessa insensatez são sensíveis já nas mudanças climáticas, as quais, apesar de previstas pela ciência, não foram prevenidas pela sociedade gananciosa e mercantilista.Assim, da mesma maneira que o derretimento das calotas polares e a aridez do sertão nordestino são fatores interligados, os devaneios familiares têm sua gênese nas mudanças de valores que o ser humano buscou incorporar.

Em busca de sucesso pessoal e participação no orçamento doméstico, as mães relegaram seus filhos, então, não podem reclamar quando seus filhos entram em shoppings e escolas, fortemente armados, matam seus colegas e se suicidam em seguida, pois, se essas mães os tivessem acompanhado, seria menos provável que casos assim acontecessem; da mesma maneira, os pais não reservam nenhum espaço de tempo para discutir orientação sexual com seus filhos, logo, não podem reclamar quando na juventude eles se entregam a preferências sexuais que não estão de acordo com a vida educacional do lar; no lugar de acompanhar seus filhos e saber quais são seus amigos e com quem eles têm andado, os pais compram um celular e um carro e entregam a crianças inconseqüentes e imaturas que se acham sabedoras de tudo, assim, não podem reclamar quando seus filhos incorrem nos vícios como o álcool ou as drogas, muito menos têm o direito de chorar quando morrem em acidentes de trânsito, porquanto são culpados – mesmo legalmente – pela morte de seus filhos, visto que, se por um lado os jovens são inconseqüentes, os pais são irresponsáveis por não se aproximarem de seus filhos, interagirem, conversarem, dialogarem, conhecerem.

Pode ser que eu esteja sendo muito duro, mas, é porque estou falando a verdade. A inversão dos valores familiares é tão medonha que no lugar de os filhos obedecerem a seus pais, os pais se readaptam ao estilo de seus filhos, então, não podem reclamar quando os filhos são deprimentes, não saem de seus quartos, escutam músicas estranhas, não professam fé ou temor algum, visto que abrem mão da vara (Pv. 10:13; 13:24; 22:15; 23:13, 14; 29:15), então, perdem o controle sobre a criação de seus próprios filhos. Há quem, nesta hora, diga que isso é coisa do passado, esse método é retrogrado. De fato, é coisa bem antiga, mas, dava certo, enquanto que nenhuma metodologia, nenhuma psicologia, nenhum auxílio inovador tem surtido resultado positivo. Como bom conhecedor que sou das técnicas de Pavlov e Skinner, é bom ressaltar que o ser humano não é irracional que se condiciona a um comportamento através de indução. Isso só serve com seres irracionais. Logo, é melhor não fazer comparações porque não merecem crédito. É fato que nenhum dispositivo contemporâneo tem alcançado sucesso em coagir certos hábitos comportamentais. De tudo que já foi tentado, nada foi tão bem sucedido quanto a “vara da correção”. Ademais, note que o conselho para uso da vara procede de Salomão, o homem mais sábio que já caminhou entre os viventes.Alguém que sabia que a desobediência faz parte da natureza do homem. Observe uma criança entre zero e dois anos, por mais que se lhe proíba certas coisas, ainda assim, teima em fazê-las.

A Bíblia traz experiências notórias sobre família, duas em particular merecem destaque. A primeira é a situação que o sacerdote Eli viveu com seus filhos (I Sm. 2:22). Como não corrigia a seus filhos, de tudo faziam contra a sua própria honra. A tolerância de Eli para com seus filhos(I Sm. 2:24) era um desastre anunciado,que resultou na inimizade para com Deus e, posteriormente, a morte de toda a casa e a descendência de Eli (I Sm. 2:30-34; 4:11-18), no sentido claro de que Deus requer a ordem familiar (I Tm. 3:5), tanto quanto requer a ordem e a decência nos ofícios de Sua igreja (Sl. 93:5; I Co. 14:40). É gritante perceber que a atitude de Deus para com a casa de Eli deveu-se à total incompetência do sacerdote como pai (I Sm. 3:13). O segundo exemplo que desejo emergir das Sagradas Escrituras é a família de Davi. Evidente que todos conhecem a punição de Deus sobre Davi graças ao seu adultério com Bateseba (II Sm. 12:11-12), porém, os repetidos desastres que acontecem na casa de Davi (II Sm. 13:1-38; 15:4-13; 16:8, 22; 18:15) devem-se ao seu descaso como pai e sua ineficiência em corrigir a seus filhos (II Sm. 13:21, 39; 14:33; 15:14-16; 18:5). Estas tragédias não são fatos do passado, sim, repetidas no cotidiano, sempre que inexiste eficácia na admoestação de filhos. Como a filosofia, a sociedade anda em círculos. Nunca esteve pior ou melhor, sempre se manteve igual. Desde Abraão já havia prostitutas, ladrões, seqüestradores, continuam e continuarão, até o fim último.

A Bíblia ainda elenca tantos outros casos, como o que fazem os filhos de Jacó ao próprio irmão José (Gn. 37:3, 28); as disputas entre Jacó e Esaú (Gn. 25:34; 27:19, 41); a própria perseguição da família de Jesus contra o Seu ministério (Mc. 3:21); e tantos mais. Possa ser que alguém diga que isto ocorreu – como no caso de José (Gn. 45:4-9) – porque estava nos planos de Deus. Sim, mas, não é porque estava nos planos de Deus que o homem se torna não responsável pelos atos que comete, veja o caso de Judas (Mt. 26:24). O que temos assistido é uma série de conflitos ocasionados por total aversão a valores, absolutos e princípios. Liberdade não implica em libertinagem (Gl. 5:13). Um mundo sem valores se torna leviano; sem absolutos se torna mentiroso; e sem princípios se torna caótico. Mesmo as ciências acontecem por princípios lógicos que mantém a unidade do sistema, quer na computação, na economia, no direito, na filosofia, na psicologia, na teologia. Nada coexiste sem que existam regras que ensinem a existir de uma maneira saudável. Em todo e qualquer agrupamento social, racional ou irracional, há padrões a serem obedecidos com o fim de manter a ordem pré-estabelecida. Portanto, idéias como “o que é verdade para você, pode não ser para mim, pois, isso é relativo”, não passa de desculpa para quem não deseja se submeter a princípios que regulem os momentos de sua vida. Contudo, para todas as coisas continua existindo tempo determinado (Ec. 3:1-8).

Quando os padrões pré-definidos não são obedecidos, antecipa o ocaso de um sistema funcional. Toda e qualquer antecipação iniciaa falência de um ecossistema e o surgimento de um novo. Logo, a instituição familiar tem sofrido porque insiste em teorizar padrões que na prática não são mais obedecidos. Então, retrógrado/quadrado não é manter os padrões antigos ou relutar contra a prática social, isso é ser cabeça dura. Ambos os preceitos estão corretos, tanto os que acreditam no sistema antigo, o qual realmente funciona; quanto os que pretendem se readaptar, porquanto o avanço sociológico nas diversas áreas e setores exige uma readaptação pessoal. A longevidade e a baixa natalidade que existiam até a década de sessenta do século passado impossibilitavam o encontro entre gerações. Contudo, a antecipação de situações que só deveriam ser experimentadas em fases mais maduras da vida, tem criado um encontro entre gerações bem distintas. Por exemplo, atémeados da década de sessenta do século findo, era raríssimo presenciar bisnetos que conheciam seus bisavós e, assim, haver o encontro de quatro gerações.Todavia, hoje, a precocidade sexual tem proporcionado famílias as quais nas datas festivas comemoram o encontro entre bisavós, avós, pais e filhos, quatro gerações convivendo na mesma linha temporal. Qual a relevância disto? Um choque de padrões, porque a proximidade das gerações cria um entrave na convivência, a partir de aceites.

Quando um bisavô observa um bisneto a fazer aquilo que em sua infância não seria tolerado, então, ocorre a disputa de padrões, e não a conciliação dos mesmos. Disto tudo, o que se pode perceber é que os princípios familiares antigos não têm mais relevância para a geração neomoderna, porém, a maneira de viver da juventude contemporânea não produz nenhuma relevância moral para a formação familiar. Esse incessante conflito tem destruído os valores familiares, então, é possível contemplar tudo o que já foi relacionado aqui, e mais. Por exemplo, é impossível medir a importância educacional para uma criança que é criada sem a presença paterna ou materna, como em casamentos homossexuais. Existirá sempre uma completa carência afetiva e instrutiva, a primeira pela profunda incompreensão daquilo que signifique o zelo materno ou a proteção paternal; a segunda por força do desconhecimento da formação sexual comum. Vê-se que não é tão simples quanto satisfazer a si mesmo.Particularmente, não tenho preconceitos para comcasais homossexuais, a Bíblia é que tem. É bom tratar disto porque os movimentos GLS acreditam que a igreja cristã professe um pseudo-moralismo e aversão aos casais homossexuais, e a igreja cristã, por sua vez, não sabe explicar seu próprio ponto de vista.

Os homossexuais precisam compreender que o ofício de um ministro do evangelho é defender as verdades apresentadas pelas Sagradas Escrituras, e não o ponto de vista pessoal. Portanto, a Bíblia é contra o homossexualismo (Lv. 18:22; 20:13; II Tm. 3:2), na mesma proporção em que não existem evidências históricas de que Davi tenha mantido um romance com Jônatas filho de Saul, ou que Jesus se acompanhasse dos doze discípulos porque todos eram homossexuais, como querem interpretar forçosamente os simpatizantes do movimento GLS. As posturas homossexuais, pela cultura judaica, seriam tratadas com morte (Lv. 20:13), jamais podendo haver a tolerância de tais situações por parte do Judaísmo. Então, aos homossexuais, pessoalmente, preciso dizer que nada há de racista em mim, mas, a Bíblia é extreme preconceituosa. Agora, preciso dizer que quando casais homossexuais decidem adotar uma criança como filho se torna um ato absurdo de egoísmo. Aquele casal nunca gerará filhos – a não ser lésbicas por inseminação ou relações determinadas àquele feito–e jamais será capaz de explicar a gestação ou de senti-la, então, adotam uma criança para a realização pessoal, e não para agir filantropicamente com menores abandonados.

Enfim, tornando ao assunto, a instituição familiar encontra-se parcialmente destruída uma vez que tanto casais homossexuais quanto famílias neomodernas não têm conseguido educar corretamente seus filhos, a priori, porque há incompletude, a posteriori, porque há ausência. Assim, quando vejo pais que reclamam dos problemas que lhes causam seus filhos, penso de imediato em rever a educação do lar e a presença pessoal dos pais na vida íntima de seus filhos. Quando um pai se exaspera porque sua filha menor, com incompletos doze anos, engravida de um namoradinho que nada tem a lhe oferecer, é preciso fazer a pergunta a esse pai se houve o devido acompanhamento presencial nos relacionamentos da filha, se esse namoradinho foi chamado em casa, se ele foi advertido para não mexer com a vida sexual da menina, etc..Na maioria dos casos essa conversa ou tal procedimento jamais acontece. A mesma coisa ocorre com filhos drogados, homossexuais, ladrões, situações em que, ainda que de famílias ricas, os jovens cometem crimes e mais crimes apenas pelo prazer, pela adrenalina. O erro provém de famílias que entregam seus filhos a outros educadores ou meios de interação. Quando alguns são advertidos por se enquadrarem nestes parâmetros, indignados afirmam que criam os filhos “para o mundo”. O que querem dizer? Que criam seus filhos para Satanás, que é o príncipe deste mundo (Jo. 14:30; Ef. 2:2)? Entenda bem que os pais têm semeado palavras de maldição (Gl. 6:7), ou negativas, como prefira a isto chamar. Sementes que lançadas diariamente sobre as vidas de nossas famílias. Há três semeaduras distintas, a saber, por ações (II Tm. 3:9), por pensamentos (Rm. 12:3; II Co. 10:5; Fp. 4:8) e por palavras (Pv. 18:21).

Ainda que você não creia em maldição sei que entende um pouco de psicologia para compreender o que quero lhe transmitir neste momento.Ora, não se trata apenas da crença em torno de uma maldição, mas, da conseqüência por atitudes negativas, algo que é chamado pelo “Segredo” de “Lei da Atração”, porém, que já era tratada na Bíblia como conseqüência por atitudes deploráveis e negativas. Jesus afirmou que uma árvore é conhecida por seus frutos (Mt. 7:20), pois, árvores dão frutos segundo as suas espécies (Mt. 7:18). Significa dizer que estamos recebendo aquilo que estamos frutificando. Ao ramificar inimizade, o fruto só poderá ser inimizade; ao semear intrigas, intriga; se ódio, é ódio; porém, se for amor, o fruto será amor; se paz, será paz; e sucessivamente.Ações inconseqüentes causarão resultados inesperados; pensamentos negativos atrairão aquilo que for negativo; palavras de maldição germinarão raízes de amargura, insuficiência, traumas e incapacidade pessoal.A regra obedece a criação de filhos e a formação familiar. Criar filhos com palavras pessimistas pode assassinar toda a esperança que neles existe, causar danos dificilmente reparáveis, desiludir o prazer e os sonhos desta vida efêmera e horizontal, incutir depressão e desejos suicidas.

Portanto, quando os pais dizem: “esse menino não vai ser ninguém”; “essa menina não vai dar pra nada”; entre outras, ainda que não acredite em maldição, quer queira ou não, é impossível negar que tais palavras podem tolher todo o futuro dos filhos, os quais crescerão sempre com o pessimismo que lhes foi inculcado. Daí, quando causam problemas, quando são mal sucedidos, quando não se desenvolvem e mesmo maduros permanecem vinculados à dependência familiar, garanto que nenhum pai se lembra das palavras que proferiu na infância daquele filho(a), mas, existe cem por cento de certeza que as palavras impensadas dos pais edificaram barreiras muitas vezes intransponíveis para os filhos. Cada família passa seus próprios problemas, logo, não é apenas um pai fanfarrão ou alcoólatra que traumatiza um filho. Decerto que um pai indelicado, bruto e egoísta, também. Da mesma forma que não é apenas uma mãe adúltera ou prostituída que envergonha seu filho, pois, uma mãe mal-educada, sem delicadeza, rude, analfabeta, também. Entende? Tudo depende do referencial e cada lar sente a sua própria dor, porque é na própria família que acontece, e não na família do vizinho. Falar dos casos alheios não é o mesmo que padecer suas próprias aflições. Possa ser o mais ínfimo dos problemas, mas, é o próprio problema, na própria casa, então, se torna pior que todos os demais.

As dores familiares são quase insuportáveis. Em momento algum quero ser machista, por isso, guardei uma pauta especial para discutir acerca do amor Fileo. A nós foi possível perceber como o relacionamento sexual inapropriado é mais severo com o sexo feminino. Com o homem, porém, a intolerância para com descuidos matrimoniais, ganha a mesma força pela Bíblia. O teor é mantido, pois, o homem deve ser fiel e manter-se casado com uma só mulher (I Tm. 3:2, 12; Tt. 1:6). Ainda que o divórcio seja inevitável, por motivo qualquer que seja, jamais deve ser procurado pela parte fiel, sempre pela parte infiel (I Co. 7:12-15- note que o texto fala que “se consente” o descrente e “se o descrente se apartar”, então, o fiel que é cristão não pode pedir divórcio). É bom, também, que o homem perceba que não é o ato em si que concretiza o adultério, visto que para Jesus é o desejo de pecar (Mt. 5:28). Destarte, o carinho e a atenção para com a mulher devem ser constantes e indeléveis (I Co. 7:3-5; Ef. 5:25, 28, 33; Cl. 3:19; I Pe. 3:7), ao tempo que a sujeição feminina ao domínio marital deve ser desde o corpo, ao vestir e ao falar (I Co. 7:3-5; Ef. 5:22, 24, 33; Cl. 3:18; I Tm. 2:12; Tt. 2:4; I Pe. 3:1, 5). Em pensar assim cogitamos os que vivem toda a juventude como que jamais envelhecerão (Ec. 11:9; 12:1). E pousam nus, expõem o corpo e se tornam objetos de desejo. Pelo que vimos, todo objeto de desejo atrai sobre si o pecado. Ninguém cobiça quem se porta respeitosamente. A quem se porta decorosamente as pessoas admiram, e não cobiçam. Bem, quero dizer a todos, homens ou mulheres, que estragam suas vidas atraindo a cobiça e a inveja sobre si mesmas, que de fato estão desperdiçando a oportunidade de construírem suas vidas felizes.

É bem verdade que tais preceitos serão acatados apenas pelos que aceitam a Bíblia como Palavra de Deus, ou por aqueles que se identificam com os mesmos. Torno a dizer, porém, que esses preceitos independem do grau de relevância que tenham para a pessoa, porquanto têm demonstrado ao longo dos anos que produzem efeitos benéficos para a família, a sociedade e o caráter de cada um. Neste diapasão a responsabilidade dos filhos não poderia ser deixada de lado, porquanto têm papel fundamental na reestruturação de valores e na edificação doméstica. Os filhos são responsáveis por continuidade e, só será possível com orientação e temor. A sujeição dos filhos aos pais é da Bíblia o único mandamento seguido de promessa (Ex. 20:12; Dt. 5:16; Mt. 15:4; 19:19; Ef. 6:2). Porém, essa sujeição é necessária discutir. Aos filhos que têm pais evangélicos, eles devem se submeter até a maioridade. Caso em sua maioridade decidam não professar a mesma fé, então, estão livres para seguirem o próprio caminho. Todavia, filhos rebeldes que na adolescência e juventude além de não professar a mesma fé ainda envergonham seus pais, estão desonrando os mesmos.

É claro que nessa porçãoeu não poderia deixar de tratar do caso de filhos que têm pais não cristãos. Em cima deste pórtico sei que alguns filhos quererão discutir sobre submissão, questionando como podem obedecer a pais que são alcoólatras, que os proíbem de ir a igreja, entre outros casos.Há profícua má definição do termo submissão em si, o que prejudica a conduta filial e a significância em ser submisso a pai ou mãe. Primeiro porque submissão não é obediência, e desobedecer aos pais não implica em desonra. A desobediência implica em conseqüências pessoais, que afetam apenas ao que peca, e inaltera a vida dos pais. Segundo porque submissão é manter-se abaixo de autoridade, e não a ser conivente com pecados. Sobre este assunto a Bíblia é determinista em que se prefira ao Senhor (Lc. 14:26; At. 5:29). A autoridade familiar deve ser respeitada com a manutenção dos princípios domésticos.Porém, submissão aos pais, o que é chamado de respeito e honra, não se mede com silêncio e omissão. Esta, sim, é uma idéia retrograda. Ora, o próprio Jesus disse que por amor a Ele nas famílias não haveria paz (Mt. 10:34-36). Assim, em famílias de crença mista, em que alguém é convertido e outros não, os hábitos errôneos devem ser combatidos pelos filhos conversos. A honra e o respeito pelos pais não se atinam com mero formalismo, em se moldar aos pecados familiares usando por desculpa o mandamento.

Pergunto se não seria honrar pai e mãe estar sujeito à vontade de Deus? Levar a salvação até eles? Jamais falar mal deles aos de fora? Não caluniar, difamar ou intrigar-se? Contra eles jamais se irar? Nunca gerar ódio no coração independente do que façam? Abster-se de uma vida pregressa para que não macule a vida familiar? Evidente que isso é honrar pai ou mãe. Outra informação que precisa ser mencionada é que, por maior esforço que faça um filho sempre estará sujeito a errar e sempre cometerá erros, porquanto boa parte da vida pessoal e do aprendizado social só é assimilada com repetição e através das próprias decepções. Ora, é preciso parar de usar a Bíblia por desculpa e deixar de lado qualquer legalismo. Os filhos gostam de satisfazer a própria carne e usam a submissão aos pais como desculpa para não buscarem a santidade. Tipo do caso que ainda cita o texto Sagrado para embasar as esfarrapadas escusas (Mt. 26:41). Interessante que os que citam tal texto de Cristo apenas informam o final do versículo, “a carne é fraca”, porém, se esquecem de que o “espírito está pronto”, assim, em outras assertivas, afirmam que vivem na carne, e não no espírito. Em contrapartida, os pais laceram a vida daqueles filhos que cometeram erros para eles inaceitáveis, como que, na infância nunca causaram problemas aos próprios pais. Bem, tornando ao assunto de filhos que se valem da honraria para satisfazerem a si mesmos, quer dizer que para honrar pai e mãe deve-se abandonar a Deus e a igreja? Para honrar pai e mãe deve-se abandonar o chamado e a inclinação natural? Veja o caso de Andrea Bocelli, que o pai, produtor de vinho, queria que fosse advogado e, apesar de cursar direito e ainda ser cego, traçou o próprio destino em cima de sua paixão, a música, para hoje tornar-se um dos maiores tenores de todos os tempos.

Os exemplos são inúmeros e impossíveis de contar em um volume como este, o qual sequer destina-se ao feito. Santo Antônio abandonou a herança familiar para viver em grutas no deserto; São Francisco de Assis deixou toda a riqueza de seu pai para adotar o voto de pobreza; pessoas que, apesar da imposição familiar, preferiram seguir o caminho que lhes estava proposto. Isto, por acaso, foi desonra? De modo algum. Nem sempre os pais estão certos. É bom, ainda, notar aos pais que o texto que diz ser bom ao filho obedecer (Cl. 3:20), manda que os pais não provoquem seus filhos (Cl. 3:21).Portanto, percebe-se que o amor Fileo, esse amor familiar de hoje, é falho em diversos aspectos, porquanto promove tanto mais a desarmonia que a comunhão.Quando comparado com a Bíblia, pois, mais se torna visível sua limitação. Fileo, ainda, é traduzido como um amor entre amigos, especialmente quando se trata da passagem com a qual iniciamos a distinção dos verbos amar nos originais gregos (Jo. 21:15-17).

Jesus e Pedro eram amigos, e no texto fica patente a fragilidade do verbo Fileo quando aplicado entre amigos. Entre irmãos, família e casais o verbo Ágape deve ser praticado, porque age com perfeição procedendo diretamente de Deus. Amigos não se trairiam se amassem Ágape; casais não se divorciariam se amassem Ágape; igrejas não quebrariam se amassem Ágape; famílias não se destruiriam se amassem Ágape. Decidir amar é mais forte que sentir amor. Quando nos decidimos por algo não nos importa o desafio, atingiremos nossos objetivos. Quando um homem decide amar uma mulher, e a mulher a seu marido, os olhos ao que há por fora se tornam cegos. Caso os filhos decidissem amar a seus pais, não importariam as vicissitudes, os defeitos nunca seriam apontados, pois, afinal de contas, é a própria família, na qual se encontram as únicas pessoas que permanecem ao nosso lado quando as circunstâncias se levantam contra nós. Claro, se todos decidissem substituir Fileo por Ágape.

Fileo é um amor que se esvanece quando os erros se tornam gritantes, ou um amor que sabe apenas perceber os erros de quem está ao nosso lado. Maridos que deixam de admirar a beleza da mulher com o passar dos anos, para notar a idade, o peso, a aparência; mulheres que criticam os hábitos do marido e passam a admirar os artistas artificialmente produzidos para enganar a massa; filhos que têm vergonha de seus pais, que em nada auxiliam e acreditam que suas críticas ridicularistas possuem algum teor de verdade. Fileo é um amor que abusa de quem lhe oferta tudo o que tem e tudo o que é. Fileo é um amor que ama a distância, que prefere admirar em lugar de conviver.Amor, este, que mensura padrões que não podem ser alcançados e não podem ser vividos, a fim de que não seja satisfeito. É um amor que, quando não satisfeito, gera revides, cria disfunções, causa intrigas. Um amor efêmero, fugaz, muito Jobim de ser. Parece caber em si o que é digno, porém, é muito comum nas varas de família dos tribunais pátrios, aonde é rapidamente trocado por inventários e dinheiro.

Um casal que conheci no campo missionário, ao qual sou grato por um período de auxílio que me concederam, trouxe-me, contudo, grande desgosto. Ela, que freqüentava carnavais e exibia seu corpo em revistas e cartazes, após conhecer nosso ministério, buscou mudar de aparência e começou pelas vestes. A mudança foi tão radical, dos cabelos às unhas dos pés, que o marido, o qual se dizia evangélico, passou a criticá-la. O ambiente tornou-se insuportável de conviver, forçando-a a distanciar-se de nosso lar, passo a passo levando-a a ser o que era ainda no mundo. O amor (Fileo) deste marido estava na aparência, e não na personalidade, na significância, na importância que sua esposa conquistara em seu coração. Em minha própria família aconteceu algo semelhante. O meu ex-cunhado, que foi casado por longos anos com minha única irmã, criticou-a fervorosamente em sua conversão, de maneira tal que manteve uma oscilação constante na fé dela, porquanto ela foi membro de determinada denominação rígida na roupagem, logo, não foram poucas a pilhérias, as palavras chulas.

Também, tenho experiências disto. Hoje, meu cunhado, irmão de minha esposa, por motivos a mim totalmente desconhecidos, praticamente me odeia. Oportunidade alguma houve para tomar nota deste manifesto pessoal da parte dele, porém, pelo que pude apreender observando, algo ele desgostou porque não saiu do modo dele, assim como a seus pais, meus sogros, deva existir o mesmo, pois, não foram poucas as indiretas que ouvi calado. O fato é que eu e minha esposa abandonamos a tudo para servir a Deus. Ela deixou uma loja e um curso na faculdade, enquanto eu deixei um ministério, uma profissão e um curso universitário. Esse é o drama do amor Fileo, que procura o que é bom para si. Apenas Ágape é capaz de sentir amor pelos que estão a nossa volta, mas, amor que não critica, amor que aceita, que perdoa, que compreende, que respeita.Como Fileo é o amor que, também, é traduzido entre irmãos, torna-se o termo utilizado para o amor eclesiástico, o qual Jesus fez questão de erradicar em Seu diálogo com Pedro, como já demonstramos.

A igreja não pode amar Fileo, ela é chamada para amar Ágape. Os problemas que Fileo patrocina no meio familiar, também, se desenvolvem no meio eclesiástico, já que a igreja é – ou deveria ser – uma grande família. É por este amor Fileo que pastores traem uns aos outros; que irmãos criticam uns aos outros; que a fofoca é permanente no meio da igreja; que há carniceiros prontos a se alimentarem da desgraça alheia. Tudo é ausência de Ágape. Já que os varões não administram a própria família, a casa de Deus permanece a bagunça que hoje é patente. Ora, se a casa não é posta em ordem, como se porá a casa de Deus (I Tm. 3:5)? Este amor traiçoeiro e fingido é que tem concluído a obra satânica de enfraquecer a igreja cristã. Bom seria que todos os que desejam, ardentemente, um Cristianismo bíblico, dessem as mãos e passassem a caminhar em conluio, a fim de afugentar essa decadência sombria e acomete católicos, espíritas, evangélicos e todos os demais agregados e ladeados ao Sangue e ao poder salvívico de Jesus.

Enfim

 

O que pretendi demonstrar foi a diferenciação de amores a partir da distinção grega entre as formas de amar. É claro que, infelizmente, para nós brasileiros o amor seja apenas um, inclusive a prática sexual hoje se chama de amor. Todavia, os defeitos e os problemas se tornam mais nítidos quando nos apercebemos que amamos de uma forma inadequada. Para Eros o amor é baseado na libido, no instinto, é um amor de uso, um amor de prazer, um amor de satisfação. Para Fileo o amor se alicerça no egoísmo, é falso, mentiroso, fingido, crítico, parcial, exigente, legalista. O amor que Deus asperge na humanidade (Jo. 3:16), o amor Ágape, é desmedido, acrítico, imparcial, multilateral, desmerecido, sem qualquer padrão de racismo ou xenofobia, sem qualquer acepção, puro amor, decidido amor, que não depende do que se faça, que não depende do que se viva, que não depende do que se foi.

Casais, famílias e igrejas sofrem porque amam erradamente. O amor egoísta não gera em si mesmo o vínculo da graça, que é o amor ao próximo. O amor não pode ser por si mesmo (Ap. 12:11), a não ser que seja semelhantemente concedido ao próximo (Tg. 2:8). Este amor em que os homens buscam o melhor para si não é o amor que os levará para o céu.O amor que produz no homem a salvação é justamente o contrário de Fileo e Eros, é nenhum amor por si (Lc. 9:24; 17:33; Jo. 12:25; At. 20:24; I Jo. 3:16). Por mais difícil que pareça, só este amor é que supera todos os sacrifícios e holocaustos (Mc. 12:33).

O amor divino é o desenvolvimento de perseverança, abnegação e superação, já que não se trata de um ideal, mas, de uma brecha na Lei de Deus que o próprio Deus teve de encontrar para suprir a necessidade de salvação dos Seus filhos. Ele perseverou (Os. 11; Zc. 10:6; 13:9; Jo. 6:37), abnegou-Se (II Co. 8:9; Fp. 2:7) e superou-Se (Mc. 15:15; Fp. 2:8; Hb. 12:2) para que pudéssemos alcançar remissão dos nossos pecados e vida eterna. Por tudo o que expus, todavia, talvez hoje Ele esteja decepcionado com Seus filhos, pois, apesar de tudo o que sacrificou por eles, ainda assim não compreendem o definido e simples plano de Deus (Jo. 17:3). Aliás, desde Sua vida terrena, na encarnação do Verbo (Jo 1:1, 14), Suas preces eram pela unidade de Seu povo (Jo. 17:22, 23). As minhas experiências com o amor fizeram de mim um poeta ciberneticamente conhecido, porém, um ex-pastor declaradamente revoltado com toda a hipocrisia comungada pelos que se chamam povo de Deus (II Cr. 7:14).

A igreja precisa despertar. Ora, se a igreja de fato tivesse amor, se realmente vivesse a Palavra e tudo quanto professa, os membros convertidos jamais deixariam suas congregações (Hb. 10:25), antes, procurariam solucionar os problemas nelas ocorridos (Hb. 10:24). O amor ao próximo seria o encerramento de toda legalidade (Rm. 13:8), e esta enganosa santidade que recobre os líderes cristãos, que se nutrem por um apego ao conteúdo intolerante da Lei, não seria desenvolvida. Os olhares não seriam julgadores e as palavras não seriam ásperas, não haveria descrédito, descrença, críticas e atitudes destrutivas. A igreja precisa retornar ao rudimento da Graça neotestamentária (At. 2:42-47), e todo o conteúdo de Cristo está resumido na parábola doBom Samaritano (Lc. 10:30-37). O Sermão do Monte, ao contrário do que muitos pensam, não é a apresentação da doutrina da Graça, mas, a tradução correta do conteúdo da Lei. Todavia, a parábola narrada em Lucas é o exemplo daquilo que significa ser cristão e servir no Reino. É evidente que Jesus coloca as personagens de maneira proposital. Primeiro, um homem qualquer, que Jesus não afirma ser judeu, mas, como Jericó era uma cidade de passagem para o império romano, assim como Samaria, era habitada por judeus mistos e povos de outras etnias, então, Jesus queria apenas indicar que não se deve olhar a quem quando é preciso ajudar. Segundo, dois ministros no templo, os mais conhecidos, fariseu e levita, apontados porque Jesus queria demonstrar a religiosidade hipócrita, que prega uma verdade que não vive. Por fim, o homem é auxiliado por um samaritano, para os judeus, alguém de linhagem corrompida, que contrai casamento com pessoas não judias, ou seja, impuro.

Em outras palavras, o homem que foi agredido e roubado é ajudado por alguém que não podia ser salvo, para os judeus. Com isso Jesus queria dizer que a salvação, se fosse por Lei, seria estendida a todos os que a praticam, independente da origem que tenham. Destarte, Jesus demonstra que pela Graça, naquele em que a Graça se manifesta, a salvação é operada. Como a Lei se resume no amor ao próximo (Gl. 5:14), a justiça recai sobre aquele que se compadece do próximo (Lc. 10:36, 37). O que o samaritano faz é tudo o que Jesus ensina através da Graça. Ajudar, amparar, socorrer, tudo o que já tratamos não apenas neste capítulo, sim em todo o livro.Contudo, ao que parece jamais o povo de Deus será capaz de banir de seu meio a colocaçãoque Jesus faz na parábola do mordomo infiel (Lc. 16:1-13). No verso oito da citada passagem, Jesus diz que “os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz”. De fato que sim, mas, não poderia ser. Como pode que os filhos do mundo sejam mais unidos que os filhos da luz? Quando a igreja deixará essa maldição para superar as próprias deficiências? É inaceitável que sejamos tão desunidos a ponto de sermos alertados pelo Cabeça do Corpo (Cl. 1:18) que não somos tão competentes quanto os filhos deste mundo.

A desunião é tamanha que a desculpa que é dada para a abertura de novas igrejas é que “é melhor uma igreja do que um bordel ou um bar”, ou “é preferível uma igreja em cada esquina, assim, evangelizaremos mais rápido”.Mentira. A abertura de novas igrejas não acelerará o processo de evangelização, porém, aumentará a desunião da própria igreja. Isso é tão notório que as pessoas hoje se questionam de onde vem a denominação, o que significa os dizeres, quanto tempo existe, etc.. Eu mesmo já evangelizei pessoas que perguntaram “para quê tanta denominação, não são todos evangélicos? Eu não entendo isso e por isso não sou evangélico”. É claro que há um lado espiritual, em que o Diabo distorce a pregação do evangelho para que a pessoa se concentre em problemas humanos, contudo, há relevante verdade nisso. Para quê tantas denominações se todos somos membros uns dos outros e parte do mesmo Corpo (Rm. 12:5; I Co. 6:15)? Por que não é possível que respeitemos o chamado na vida de nossos irmãos, que reconheçamos a unção que de Deus há sobre eles, e nos mantenhamos em constante disputa, lutando uns contra os outros? Tornou-se mais fácil alegrar-se com os que choram, e chorar com os que se alegram, distorcendo a verdade bíblica (Rm. 12:15).

Basta. Tantas e tantas vezes imaginamos fazer muitas coisas para Deus. É comum nos dispormos a prometer graves sacrifícios. Em cultos nos quais há grande mover e quebrantamento do Espírito Santo, corriqueiramente as pessoas vão ao púlpito, em lágrimas, prometendo dar a vida por Jesus. É engraçado como somos capazes de prometer algo tão final como morrer por amor a Cristo, porém, somos incapazes de fazer coisas mais simples, como amar ao próximo. Jesus nunca pediu para morrermos por Ele, porque Ele já morreu por nós, e o fez para vivermos a Sua vida (Jo. 10:10; Rm. 8:6; I Ts. 5:10). Logo, prometemos fazer o que Ele jamais nos pediu, mas, não procuramos fazer o que Ele tão simploriamente desejou. Nós, seres humanos, fazemos juras de grandes feitos não porque tenhamos neles prazer, sim, porque irá atrair os olhares e iremos chamar a atenção. Em resumo, até quando desejamos grandes feitos para Deus, na verdade, boa parte de nós procura inflar e satisfazer o ego. Como prometemos nos sacrificar realmente para Cristo se não conseguimos nos sacrificar pelo próximo (I Jo. 3:10, 14; 4:20, 21), em “n” situações quando o próximo se trata de nossa própria família.

Decerto que quando alguns se dispõem a realizar feitos imensuráveis, boa parte procura fazer algo por si mesmo, em que a honra é revertida para a pessoa e não para Deus. Repito sempre em minhas palestras que a igreja verdadeira não aparece em jornais, não escreve em colunas sociais, não tem templos suntuosos, não busca o próprio benefício. A igreja verdadeira de Cristo prega o evangelho onde muitos não têm coragem de ir, amarga a rejeição neste mundo, o desprezo familiar, dificuldades intransponíveis a homens normais, porém, eles não são normais. É a igreja que pratica o único dever do Novo Testamento que muitos não cumprem por não atrair tantas honrarias e glórias. O irrestrito pedido, o qualressurge nos evangelhos e nas epístolas, é para amar aos nossos irmãos, amor de morte (I Jo. 3:16). Esse amor nunca faz mal ao próximo (Rm. 13:10). A maneira mais bíblica de fazer algo para Deus é fazer algo para o próximo (Mt. 25:34-40). A passagem última é mais que relevante à vida Cristã, porquanto informa que os que adentrarão nas eternas moradas serão aqueles que adotarem a mesma conduta do bom samaritano mencionado na parábola de Jesus. Noutros termos, a passagem de Mateus capítulo vinte e cinco menciona que só andarão perto de Deus aqueles que andarem ao lado do próximo. É comum ouvir pessoas que querem ter intimidade com Deus, mas, que não têm nenhuma intimidade com o próximo. Assim, pela passagem que acabei de citar, ninguém que andar longe do próximo poderá ser íntimo de Deus, e ninguém que é íntimo de Deus andará longe do próximo.

Enfim, nas palavras inesquecíveis de Chaplin, percebemos a verdade que “o homem não morre quando deixa de viver, mas, sim quando deixa de amar”. Analise bem a sua vida, caro leitor, como eu faço comigo mesmo diariamente, e como eu fiz inúmeras vezes em meu ministério. Quando não pude mais nada fazer para corrigir a hipocrisia espiritual das igrejas cristãs, preferi me ausentar de sua liderança e convívio. A dureza de meus sermões e a ausência de pré-disposição para serem exortados, inabilitou meu ministério pessoal, cumprindo, novamente, o conhecimento bíblico (II Tm. 4:3). Pondere se na crença que você professa é nutrido e cultivado o amor Ágape, pois, não sendo, lute para informar, corrigir, ajudar (II Tm. 2:24-26). Quem não transforma o ambiente no qual se encontra e, ainda assim, dele não se aparta, é omisso e cúmplice (I Jo. 3:8; I Tm. 5:22 – parte B e C). Faça algo, ou se aparte desta dormência espiritual, desta toca farisaica, sinagoga de Satanás (I Tm. 5:20; Tg. 4:7; Ap. 2:9; 3:9). É bom que os cristãos tenham maturidade. A todos tenho desejado que o Espírito derrame discernimento e sabedoria espiritual, porquanto seguir uma metodologia de fé por pura religiosidade, embasado em princípios que não se encontram na Palavra, não é servir a Cristo, também, não salva. Quero findar esse capítulo com as teses que desenvolvi sobre o que não é a igreja de Cristo. Espero que a cada dia surjam mais reformadores, e a igreja se erga de todo este lamaçal.

Minhas 91 teses

1. A igreja não é feita por santos, isto é o céu;
2. A igreja não é composta por inerrantes, isso é a Bíblia;
3. A igreja não envergonha, esse papel é do Diabo;
4. A igreja não luta contra carne, mas contra principados;
5. A igreja não é movida por força, mas pelo Espírito;
6. A igreja não odeia, ama;
7. A igreja não aborrece, acalma;
8. A igreja não fomenta, abafa;
9. A igreja não espalha, ora;
10. A igreja não divulga, confessa;
11. A igreja não fofoca, silencia;
12. A igreja não destrói, preserva;
13. A igreja não se rebela, se submete;
14. A igreja não ofende, é complacente;
15. A igreja não ira, apazigua;
16. A igreja não analisa, compreende;
17. A igreja não condena, disciplina;
18. A igreja não julga, perdoa;
19. A igreja não critica, elogia;
20. A igreja não escarnece, ajuda;
21. A igreja não sobrecarrega, divide;
22. A igreja não impõe, oferece;
23. A igreja não obriga, é voluntária;
24. A igreja não mata, vivifica;
25. A igreja não afasta, acolhe;
26. A igreja não abandona, é solidária;
27. A igreja não expurga, adota;
28. A igreja não humilha, exalta;
29. A igreja não aponta, orienta;
30. A igreja não contende, promove a união;
31. A igreja não aprova ou reprova, isso é com Deus;
32. A igreja não dá lugar a carne, isso é hedonismo;
33. A igreja não dá lugar ao Diabo, isso é satanismo;
34. A igreja não escolhe, recebe;
35. A igreja não pára, segue;
36. A igreja não vê o caminho, percorre;
37. A igreja não é imparcial, isso é facismo;
38. A igreja não é superior ou melhor, isso é nazismo;
39. A igreja não é elitiva, isso é racismo;
40. A igreja não é aparente, isso é farisaísmo;
41. A igreja não é demonstrativa, isso é capa;
42. A igreja não é social, é espiritual;
43. A igreja não é inclusivista, é exclusivista;
44. A igreja não é retracionista, é expansionista;
45. A igreja não ilude, é verdadeira;
46. A igreja não tem só virtudes, mas também defeitos;
47. A igreja não fala, vive;
48. A igreja não conta, anuncia;
49. A igreja não cerca, aborda;
50. A igreja não é soberba, é humilde;
51. A igreja não murmura, agradece;
52. A igreja não vê a luta, vê a aprendizagem;
53. A igreja não passa dificuldades, amadurece;
54. A igreja não é retroativa, é progressista;
55. A igreja não é temporal, é atemporal;
56. A igreja não é qualificativa, é quantitativa;
57. A igreja não é produto, é soma;
58. A igreja não é remédio, é cura;
59. A igreja não é negócio, é Reino;
60. A igreja não é afavorante, é protestante;
61. A igreja não é separatismo, é unicismo;
62. A igreja não é matadouro, é aprisco;
63. A igreja não é motivada, é motivação;
64. A igreja não são paredes, são pessoas;
65. A igreja não é divisível, é indivisível;
66. A igreja não é parentela, é família;
67. A igreja não é emblema, é corpo;
68. A igreja não é organização, é organismo;
69. A igreja não é indumentária, é coração;
70. A igreja não é esforço, é sinceridade;
71. A igreja não é sacrifício, é obediência;
72. A igreja não luta, resiste;
73. A igreja não fere, unta;
74. A igreja não guerreia contra o mal, evita a aparência dele;
75. A igreja não lembra problemas, isso é amargura;
76. A igreja não é perfeita, esse É Jesus;
77. A igreja não diviniza homens, glorifica a Deus;
78. A igreja não é ególatra, é multifuncional;
79. A igreja não olha o povo, mas olha o Cristo;
80. A igreja não admira um homem, imita o Filho do Homem;
81. A igreja não é burguesa, é comunitária;
82. A igreja não vive do passado, isso é museu;
83. A igreja não maldiz, abençoa;
84. A igreja não pragueja, intercede;
85. A igreja não divide, multiplica;
86. A igreja não reclama, aceita;
87. A igreja não é seleta, é popular;
88. A igreja não é trabalho, é chamado;
89. A igreja não afaga o achado, mas abraça o perdido;
90. A igreja não aponta o joio, esse papel é de Cristo;
91. A igreja não pára por homens, é dirigida por Deus;

 
 
CONCLUSÃO

No lugar de Deus, o homem

 

“El humanismo no ha fortalecido, sino que ha debilitado al hombre: tal es el desenvolvimiento paradójico de la historia moderna. A través de su autoafirmación, el hombre se ha perdido, en lugar de encontrarse”. - Nicolás Berdiaeff

 

Certa feita, na fila de um banco, um cidadão se aproximou, curioso, porque eu estava a ler a Bíblia. Evidente que pude reparar seu interesse e, naturalmente, percebi que se tratava de um ateu. Indignado, o cidadão tornou a apontar a cabeça por sobre meu ombro para testificar se realmente eu estava lendo a Bíblia, dentro de um banco. Como viu que era real o fato, tascou:

 

- Eu não creio em Deus!

- Bem, isso é um problema só seu! – eu respondi.

- Ah, Deus não existe! – continuou o cidadão.

- Ai já passa a ser um problema meu, também. – informei.

 

Imediatamente, com os aforismos comuns a pessoas atéias, iniciou nosso diálogo me questionando:

 

- Veja, pelo visto o senhor deve ser pastor, no mínimo evangélico, então, diga-me, se porventura o senhor morrer e, ao chegar do outro lado, não houver Deus algum, e o senhor não puder mais regressar para avisar às suas ovelhas ou irmãos que inexiste o Criador, como o senhor se sentiria?

- Bem melhor que o senhor. – eu respondi.

- Como assim? – Indagou ele.

- Ora – continuei – se eu morrer e, ao chegar do outro lado não houver Deus algum, eu não terei perdido nada em crer em algo tão benéfico ao nosso comportamento e cidadania. Crer em Deus em nada alterará o meu estado, só me beneficiará. Agora, e se o senhor morrer e, ao chegar do outro lado, contemplar a existência de Deus e não puder avisar a seus colegas que de fato existe um Deus para que eles abandonem o ateísmo, ora, o senhor irá para o inferno e todos os seus amigos, enquanto que eu não. Então, minha posição é bem melhor que a sua. – Arrematei.

 

Aquele cidadão ficou embaraçado com a situação e caiu em sua própria armadilha, então, eu tornei ao tópico inicial sobre a possibilidade de não existir um Deus. Em meus pensamentos eu lhe demonstrei que, se no mundo atual, há mais de 6 bilhões de pessoas que têm algum tipo de crença em uma entidade divina, e o restante, uma minoria diante dessa massa, ensina que tudo que existe, existe entre o nascimento e a morte, então, essa minoria, ao dizer que não existe nenhum tipo de divindade, em outras palavras, está afirmando que mais de 80 % (oitenta por cento) da população mundial vive em estado esquizofrênico, alucinógeno, imaginando coisas e desenvolvendo um relacionamento consigo mesmos, já que não existe nenhum Deus. Porém, como pode uma minoria atestar a insanidade da maioria? É bem mais provável que a minoria esteja insana, no lugar de a maioria da população deste planeta sofrer de alucinações congênitas e hereditárias.

Aquele cidadão saiu convencido de que a empiria não pode negativar a existência de Deus, enquanto que o romantismo religioso, o desenvolvimento de um relacionamento pessoal com Deus, identifica, particularmente, a existência de Deus.Agora, este relacionamento com Deus é baseado em princípios inseridos na Bíblia, a qual demonstra o correto caminho para se achegar a presença do Senhor. Por ser assim, é dito ser a Bíblia o manual de fé e prática, porque regulamenta não apenas a doutrina cristã, também, instrui acerca do comportamento de um cristão. Ora, após todo o exposto nesse material, hoje, resta uma dúvida. O cidadão ateu que me questionou no banco tinha dúvidas quanto a existência de Deus, questionamentos primários daqueles curiosos que se acham no direito de nutrir uma idéia fictícia acerca de Deus. Isso me levou a refletir sobre a igreja, diante do quadro que trabalhamos neste livro.Eu fico preocupado com a integridade do Corpo de Cristo e com a honra do próprio Deus, pois, se por um lado a experiência pessoal comprova, individualmente, a existência de Deus, de oitiva diferida, o caráter deste Deus está desalinhado com o perfil bíblico, ou esta igreja visível que chamamos Corpo de Cristo, não é, de fato e de direito, o Corpo de Cristo e Noiva do Cordeiro.

Os repetidos escândalos e a total ausência de equilíbrio, em qualquer setor, geram as opiniões de que Deus Se acompanha de canalhas ou a igreja cristã – seja evangélica, católica, ou qual for a linhagem, tendo em vista que todas têm propiciado escândalos em benefício da fé - ainda não é a multidão dos que foram comprados pelo sangue do Cordeiro (Ap. 7:14; 12:11). Pela demonstração dos textos sagrados da personalidade de Deus, é evidente que Ele não se acompanha de canalhas, então, essa igreja, que vive de máscara, de hipocrisia, está mais parecida com a grande prostituta (Ap. 17:15), do que com as virgens prudentes (Mt. 25:1-12). Essa instituição que chamamos de igreja é comprovadamente um corpo, porém, parece não ser o de Cristo, nada mais aparentando que invencionice humana. Note que na grande prostituta a mesma é seduzida pelas paixões mundanas (Ap. 17:4), o mesmo que ocorre com a igreja hoje, que bebe (Ap. 18:3) das coisas do mundo.

Eu não quis e não quero ser legalista, porque mesmo eu já fui vítima desse tipo de governo. Porém, eu não sou libertino para tolerar um evangelho que satisfaz o homem, e não a Deus. Já nos foi advertido que não podemos nos valer da graça para dar ocasião a carne (Gl. 5:13). Como povo de Cristo, lavados e remidos no sangue do Cordeiro, e por tudo que aqui foi exposto, não é possível que permaneçamos seguindo um evangelho de Satanás (Gl. 1:8, 9) para que tenhamos a vida que sempre sonhamos e desejamos ter aqui. É impossível, porque nossa recompensa, nosso galardão, nossa esperança e mesmo o nosso coração não podem estar aqui, neste mundo (Lc. 12:33, 34; 18:22; Cl. 3:24; Tt. 2:13; 3:7; Hb. 3:6; 7:19; II Jo. 1:8). O que estou tratando vai além dos antigos conselhos acerca do joio ou do trigo, tipo os que, em tais horas, chegam junto para dizer que “o joio cresce junto do trigo” (Mt. 13:30).Ora, eu sei disso, e está escrito, mas, isso não quer dizer que o trigo deva se acompanhar do joio (Mt. 25:33).Hodiernamente, o que vem ocorrendo é a impossibilidade de destacar, em meio a tanta sujeira, o trigo, o povo, o rebanho, os ungidos, os sacerdotes, os selados de Cristo. Cada qual tem perquerido seu próprio sucesso e defendido suas próprias idéias.

Ao tempo em que pastoreei a primeira igreja Puritana pude aprender o suficiente para expressar o desprazer que é cuidar de ovelhas e bodes, de trigo e joio, porque andam sempre misturados. Eu procurei me aproximar o máximo das verdades bíblicas, porém, o meu máximo nunca foi o bastante. Assim, como pastor eu cuidava de minhas ovelhas presencialmente, as visitava, as assessorava, em tudo lhes assistia. Por meus conhecimentos jurídicos, psicológicos e teológicos, em qualquer problema que elas passassem, era sempre eu quem as apoiava. Ainda assim não tive como evitar infortúnios. Por exemplo, falei-lhes no capítulo anterior que após quatro anos de ministério fui traído por minhas ovelhas. Amiúde.

Tudo se deu por jogos de interesse em que os anseios de uma família e a cobiça e a vaidade de minha própria irmã se ajuntaram em um plano rechaçado de inverdades. A família que me traiu foi à qual mais me dedicara. Tratava-se de uma senhora e quatro filhos - três rapazes e uma moça - mais a noiva de um de seus rapazes. Destes, apenas um rapaz(o que é noivo), a moça e a senhora eram crentes, os outros dois filhos eram por demais trabalhosos.A família era fruto de um destes desastres naturais que acometem as famílias neomodernas, o divórcio. O marido os havia deixado e a esposa, com os filhos, vivia épocas de mudanças. O filho mais velho (o que era minha ovelha) buscou assumir responsabilidades para as quais não tinha preparo - nem mental, nem pessoal, nem emocional – para assumir, e sua noiva apenas atrapalhava porque passava por repetidos estresses de possessão, os quais eram de sua inteira culpa, visto que os demônios a possuíam pelas brechas que cometia e pela inclinação de sua própria carne.

A filha daquela senhora era menor, chegou aos meus cuidados pastorais com treze anos. Essa moça só falava em morrer ou desaparecer, porquanto era muito apegada ao pai e não conseguia lidar com a ausência do genitor. Cuidei em sarar essas feridas suprindo algumas carências paternais. Fiz isto não apenas à moça, também, aos demais, seu irmão mais velho, sua cunhada, e muitas funções maritais busquei desenvolver para reestruturar a vida de sua própria mãe.Logo, para uma leve noção do leitor, dava a moça uma mesada sempre que podia, as vezes, quase toda semana, realizei todos os seus desejos materiais quando veio a completar quinze anos, e lhe presenteei com todos os presentes que seu pai não lhe deu, buscava-a no colégio, dava-lhe livros para alimentar a fé, dispensava muito tempo em sua companhia tratando de seus traumas; ao rapaz, não foi diferente, lutei por uma transferência de faculdade, porquanto estudava noutra cidade, transferência esta que não concluí devido ao seu rendimento pessoal nas disciplinas de seu curso, dividia com ele todos os meus momentos, o preparei e o ensinei, a tal ponto que o fiz meu co-pastor; à sua noiva não foi diferente, procurei libertá-la dos demônios sem mais lhe deixar padecer o vexame de uma possessão, no que fui bem sucedido, reatei sua amizade com o pai após mais de quinze anos sem que se falassem; e com a senhora, mãe do rapaz e da moça, auxiliava nas compras de casa, já que a situação financeira não era mais a mesma, na gasolina do carro, em tudo estava presente, em qualquer problema, a qualquer momento. No fim, fui traído por estes, aos quais mais amei.

Eles não foram os únicos. É ciente, a todos os pastores, que as ovelhas que alimentamos são as mesmas que falam de nós ao darmos as costas. Tantas foram as minhas decepções no pastorado, sobrevivendo a invejas e ataques espirituais e físicos, que evitava refletir acerca dos fatos, apenas buscando solucioná-los. As pessoas mais próximas, às quais mais me dediquei, foram as que mais me feriram.Os textos Sagrados se cumpriram (Mq. 7:2-6; Mt. 10:34-36), novamente. O que é possível aprender de tais ditames é que a igreja que hoje se conclama verdadeira, noiva de Cristo, na verdade, é falsa, hipócrita e doente. Os templos estão repletos de pessoas egoístas e materialistas, desde o altar até a porta principal, que acham que irão residir na glória eterna de Jesus apenas porque hoje são crentes. Ora, como crente vem do verbo crer, é importante ressaltar que até o Diabo crê, mas, não obedece, é um rebelde, um caído. As pessoas têm abusado da graça, do favor imerecido e, assim, prosseguem em seus erros, como que seja algo natural e inevitável, e quando são advertidas, se valem do mesmo jargão: “Jesus perdoa, Ele entende, Ele passou por isso, Ele morreu no meu lugar”. Jesus morreu por nós não para que sejamos depravados, mas, para que busquemos a santidade (I Ts. 3:13; Hb. 12:10). Aquele que peca, sabendo que aquilo que faz é errado e é pecado, se torna o pior dos pecadores, porque nega a Cristo e demonstra que não crê e não teme a Seus ensinamentos (Pv. 3:7; 13:13; 14:2, 16; Hb. 6:1-6).

O drama de meu pastorado aumentou quando minha irmã, conforme mencionei,liderou a traição. Ora, além de ser minha única irmã, passara dois anos desviada da fé, sem freqüentar igrejas e, ao longo dos dois anos em que esteve distante de todos nós, lutei para que voltasse. Enfim, voltou à comunhão eclesiástica para, três meses depois, trair-me. Quando a primeira igreja Puritana deixou de existir devido a essa indecente postura, o prédio que é de propriedade de minha família foi locado a outro ministério, tornando-se, outramente, um incidente fatídico e desgastante. O pastor que locou, na companhia de alguns outros membros, cometeu adultério e abandonou a igreja, desaparecendo. Os fiadores, todos eles parceiros denominacionais, não arcaram com as despesas e abandonaram o imóvel com dívidas de energia, de água e inúmeros aluguéis não honrados. Para a paga de parte do débito, o pastor que abandonou a obra devido a seu próprio pecado telefonou informando que deixaria as cadeiras e alguns instrumentos para satisfazer parte do prejuízo. Ainda que arrasados, tanto pelo escândalo quanto pela falta de caráter e hombridade por parte de todos, ficou acordado o aceite do material ofertado.

Assim, quando pensávamos que o desastre havia estacionado, na renovação da estrutura do prédio que foi vastamente avariado, algumas ovelhas daquele pastoril profano visitaram as instalações requerendo os pertences eletrônicos, exatamente aqueles que o pastor dissera deixá-los por pagamento.Como nada sabíamos a respeito do que era de quem, não autorizamos a saída do material até que fosse explicado o que acontecia, porquanto nosso prejuízo já era imensurável, nas esferas moral e material. Aquelas ovelhas, fingindo entender, concordaram, para logo mais retornarem com a polícia. Como a perca já era desgastante, os alegados bens foram liberados. Assim, o templo voltou a ser alugado e, já nas mãos do novo locador, as mesmas ovelhas voltaram, à surdina, e levaram todo o restante que havia sido entregue pelo pastor, inclusive cabos, fios e utensílios que não eram seus, danificando novamente o imóvel, que a época já estava em mãos de outro locador. Um absurdo. É essa a igreja do Senhor? É esse o povo de Deus? Enquanto há ignorância, existe a misericórdia de Deus (At. 17:30), mas, o que dizer de pessoas maduras que se esmeram a satisfazer a própria carne e permanecerem em seus erros, porque gostam e porque preferem assim? Essas pessoas são depravadas, entregues à Satanás (I Co. 5:5; I Tm. 1:20).

Sinceramente, eu confio na remissão de Jesus, professo o poder que há no Seu sangue, porém, não quero morar neste céu que tem sido ensaiado pelos cristãos de hoje. Em tudo, não quero parecer arrogante, nem racista, nem superior a ninguém, sim, quero transparecer meu zelo pelas coisas de Deus e, quando um pecador se arrepende, é para a vida em Cristo que ele passa a viver, é para não pecar mais, e não para reviver sua vida pregressa (Pv. 26:11; II Pe. 2:22).Sim, quero ir para o céu, mas, o céu de Cristo. Qualquer indivíduo que procura seguir o caminho da cruz é convidado para andar em novidade de vida (Rm. 6:4), e não na mesmice de sempre (Rm. 7:6). A igreja atual sobrevive de fachadas, uma falsa aparência que delimita um comportamento político que satisfaz a todos, porém, que não comunga com a norma bíblica.

Contaram-me acerca de um pastor, o qual trabalhara como pastor auxiliar em determinada igreja e, de hora para outra, decidiu iniciar o próprio ministério levando consigo mais da metade do rebanho da igreja que auxiliava e de outras igrejas da cidade. A priori, quero dizer que ninguém deve iniciar um ministério com ovelhas de outro pasto, por dois motivos simples. O primeiro é que se torna antiético e desta maneira é muito fácil pastorear, qualquer um poderia iniciar uma comunidade com ovelhas já conquistadas pelo trabalho de outro ministro. Segundo porque pessoas migratórias não são ovelhas, são gafanhotos (Dt. 28:38; Pv. 30:27). Gafanhotos esperam apenas verdejar outro pasto para migrarem até ele, e continuarem o processo de consumo, drenagem e vampirismo. Esse parasitismo deve ser interrompido no meio cristão.

A posteriori, tomei ciência que esse pastor que iniciou novo ministério desta maneira, tinha um cargo público conceituado, do qual pediu exoneração para dedicar-se ao ministério. As pessoas, então, passaram a admirar, a dizer “mas que atitude nobre, realmente servil”. Ora, sua igreja já se encontrava abarrotada de pessoas com padrão social elevado na região, e seu salário como pastor já superava o que recebia em seu cargo público, beirando cem salários mínimos. Atitudes nobres, de rejeição ao dinheiro e cargos mundanos, devem ser levadas em conta com o grau de renúncia a prazeres, status e comodismo, a exemplo dos casos que já mencionei. Duvido que haja tal disposição para se propor a um ministério interiorano, com igreja limitada, ganhando em torno de um salário mínimo.

Noutra situação, um pastor anglicano, de uma igreja próxima a igreja Puritana que pastoreei, inclusive que fizera seminário no mesmo período em que fiz, causou-me outra desfeita das quais me lembro no meio evangélico. Esse pastor sempre me tratara com desdém, achando-se superior, sequer me dirigia a palavra. Quando sua igreja estava em construção, sem me tratar condescendente e apesar de haver copiado o templo da igreja Puritana em quase tudo, ainda teve a ousadia de vir a mim para solicitar a celebração de um matrimônio no tempo que eu pastoreava, visto que o prédio anglicano ainda não possuía estrutura para tanto. Eu sempre procurei pagar o mal com o bem (Pv. 17:13; Rm. 12:21; II Co. 13:7; I Ts. 5:15; I Pe. 3:11), buscando obedecer a Cristo, e cedi o espaço para a celebração. Então, aquele pastor aproximou-se de mim, fez planos comigo, dizendo que iria estar sempre perto e apoiar. Após a celebração, porém, desapareceu. Usou-me e enganou-me e, pergunto, seria esse o procedimento de um pastor (Mt. 5:37; I Co. 12:25; Gl. 6:2; Ef. 4:25)?

Por isso, penso que encerrar esse material não seja uma tarefa que caiba a mim, mas, à igreja (verdadeira). Deveras que, no decurso de minha vida e de meus estudos, já passei anos fora de minha terra natal. A cada regresso, porém, sempre me deparava com as mesmas coisas, as mesmas palavras, a mesma mentalidade, a mesma maneira de existir. Que tristeza me causava, e ainda o faz. Os mesmos pastores que ainda alcançam a mídia local e a cada ano repetem os mesmos sermões, as mesmas mensagens. Nas festividades natalinas “que Cristo nasça, não apenas hoje, mas, todos os dias em nossos corações”. No ano vindouro “que seja de muita paz, prosperidade e amor, olhando cada um para si mesmo, sem atinar para os defeitos dos outros”. É sempre o homem em ênfase, não no sentido de que seja carente e necessitado da salvação que procede de Jesus, mas, na mais ferrenha politicagem e no mais descarado iluminismo, na forma mais humanista de ser. O alvo, o meio e o objetivo é o homem. Um destes pastores locais, em minha cidade natal, que goza de influência na mídia, chegou a dizer que “igreja é como restaurante”, no sentido de que cada qual freqüenta aquela em que se sente bem, ou que o serviço lhe satisfaça. Será que é assim? Será que Jesus pensou em Ser chefe, e o Espírito Santo garçom? Igreja é o local aonde vou para me sentir bem ou para ser corrigido e conhecer o caminho que me levará à salvação?

É por isso que procurei ser sincero ao longo desta tarefa a que me propus. O que discorri aqui não foi acerca de um trabalho pessoal, sim de algo que penso legar para a história da igreja evangélica no Brasil. Ainda que minhas pretensões pareçam maiores que o corpo de meu próprio ministério – para não falar de minhas capacidades pessoais e limitações –sinto-me desafiado a promover tais fomentos.Decerto que os exemplos aqui mencionados, os últimos acontecimentos que me cercaram em campo missionário, conforme relatado nos capítulos anteriores, tornaram possível a conclusão deste trabalho. Eu reconheço assim e, talvez, seja o que tenha causado o diferencial do texto, porque não se trata de estórias ou possibilidades, sim de fatos, os quais, em sua grande maioria, deles não ouvi falar, mas, presenciei. E no feitio desse livro não apenas o conteúdo foi surgindo, mas, eu fui me transformando.

Por tudo o que se encontra no conteúdo dessa obra, por tudo o que relatei, por tudo o que passei, não quero mais pastorear.Hoje, em meu coração, reside aversão ao sistema religioso ao qual a igreja evangélica tem se permitido trilhar. É necessário fazer algo. É preciso promover mudanças, gritar a vergonha (Mt. 10:27). Em mim não há qualquer espécie de medo, porém, há o desejo de não me submeter ao que sei que está errado. Busquei servir a Deus, como disse no começo, porém, percebi que servi mais a homens. A igreja tem caminhado bem distante da Palavra. É por conta disto que temos presenciado tantos infortúnios, politicagens, mercadologia da fé. Igrejas, hodiernamente, são empresas, que precisam ser administradas com muita perspicácia, para que os “funcionários” não se demitam. Assim, tenho vergonha de me dizer evangélico. Ou a igreja está muito longe de Deus, ou a Bíblia não é mais regra de fé e prática. Tudo quanto aprendemos em sala de aula, tudo quanto eu ensino a meus alunos, tudo quanto eu digo em palestras, não é o que vivemos na prática eclesiástica.

Em nada as pancadas que levei no meio evangélico foram simples. Além de traições da parte de meus familiares, ainda teve quem, dizendo querer me ajudar, me entregasse uma série de cheques desamparados de fundos, como que fossem de boa procedência. Os problemas apenas aumentaram. Desumindo, eu não quero que o leitor pense que irei cessar a produção literária porque estou, temporariamente (até que Deus promova mudanças), abandonando a vida ministerial. De modo algum. Eu estou afirmando que não quero mais nenhum tipo de aproximação com igrejas evangélicas, porque procuro ser cristão, e não hipócrita. É claro que sou repleto de defeitos, muitos, incontáveis, contudo, procuro me aperfeiçoar e não me recordo de uma ocasião em que tenha feito mal a alguém. Sempre preferi que as conseqüências caíssem sobre mim, e não sobre o meu próximo. Porém, a igreja tem funcionado de maneira que seja melhor o sofrimento do próximo, do que o próprio.

Eu sei que o presente texto será amado por alguns, e odiado por outros, como sei que muitos dirão que abandonei o ministério porque fraquejei ou inventarão qualquer calúnia que me denigra a imagem. Contudo, eu escrevo para aqueles que gostaram do último livro e amaram o presente, e prosseguirei. Ao ministério permanecerei eternamente ligado, porque para a obra nasci, e para viver para o Senhor a Ele me entreguei. Desejo apenas que a igreja seja reformada, por meio da verdade, através da verdade e que viva na verdade. Que a benção de Deus seja derramada nos lares de cada um, e que a Palavra de Deus floresça nos corações de todos aqueles que suplicam por reforma, por mudança, por avivamento.

 

 

JANSEY ©

 
 
 
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